(lá estava o sujeito, parado em frente da montra. quieto. a expirar calmamente o tempo nocturno, sem ver montras, nem espelhos, nem objectos.)
O que tenho em mim
é o vapor
emanado em volúveis terminações
espiraladas.
O mais que ele contém
são essas volutas secretas,
irrepetivelmente perdidas.
É tudo.
Palavras.
Vapor puro,
excrescência comum
de brônquios saturados.
Não há dia que não pense
em quanto tudo acaba assim.
domingo, 28 de outubro de 2012
Caminhar Permanente II
(canção de outono)
«E agora que a noite vem fria
deixa-me buscar em ti
as paisagens sonoras
da inocência.
«Deixa-me queimar
os restos da alma,
sacudi-los no varandim
secreto do vício.
«Tornar-me mais uma vez
o invernal ser primevo,
caminhante solitário
das agonias rarefeitas.
«O limpo ócio de um renascer
em cada folha cadente;
diz-me: tentamos ser
nós próprios apenas?
[O que é o minguar dos dias
no teu rosto:
o fio subtil
do adensar das sombras?]
«O cortante vento estendido
no horizonte tardio
não mais frio
que as palavras que desejo.
«Quero outrar-me no agora.
Num oblívio dormente
cair em mim como se fosse
o incógnito que passa.»
...
-Cala-te, por favor! O tempo passa
e são horas de dormir
sobre o assunto. Portanto... adeus. Vou indo.
- Sim, eu sei. É tarde, não queres que te leve?
-Não, deixa estar. Eu sei bem por que caminhos
vagueia o meu pensamento. Não vou por aí...
- Como quiseres; a vida é uma só, e tua, só.
-Sim, sim, isso que tu dizes... São metáforas, não são? Tu não és,
realmente,
assim, pois não? É tudo mentira, eu sei que é.
- É, é tudo mentira isto que sou. Podes tocar-me,
o toque da minha pele é uma mistificação dos sentidos.
-Fia-te nos solipsismos, sim. Faz bem à alma.
-Boa noite.
-Chove lá fora...
-E é tarde.
«E agora que a noite vem fria
deixa-me buscar em ti
as paisagens sonoras
da inocência.
«Deixa-me queimar
os restos da alma,
sacudi-los no varandim
secreto do vício.
«Tornar-me mais uma vez
o invernal ser primevo,
caminhante solitário
das agonias rarefeitas.
«O limpo ócio de um renascer
em cada folha cadente;
diz-me: tentamos ser
nós próprios apenas?
[O que é o minguar dos dias
no teu rosto:
o fio subtil
do adensar das sombras?]
«O cortante vento estendido
no horizonte tardio
não mais frio
que as palavras que desejo.
«Quero outrar-me no agora.
Num oblívio dormente
cair em mim como se fosse
o incógnito que passa.»
...
-Cala-te, por favor! O tempo passa
e são horas de dormir
sobre o assunto. Portanto... adeus. Vou indo.
- Sim, eu sei. É tarde, não queres que te leve?
-Não, deixa estar. Eu sei bem por que caminhos
vagueia o meu pensamento. Não vou por aí...
- Como quiseres; a vida é uma só, e tua, só.
-Sim, sim, isso que tu dizes... São metáforas, não são? Tu não és,
realmente,
assim, pois não? É tudo mentira, eu sei que é.
- É, é tudo mentira isto que sou. Podes tocar-me,
o toque da minha pele é uma mistificação dos sentidos.
-Fia-te nos solipsismos, sim. Faz bem à alma.
-Boa noite.
-Chove lá fora...
-E é tarde.
Caminhar permanente I
E agora que o tempo é vasto,
e que da fúria ampla sobram restos
esmorecidos
de espuma branca
aos cantos da boca.
Assim sabemos que são as coisas.
Assim somos nós
em decadência.
O atractivo unânime
do abismo.
A pulsão fria, exígua,
de nos arrastarmos
para dentro.
Contemplarmos o vazio
e ele sugar-nos os tecidos ocos
da vontade,
com as suas aspirações lânguidas
de medo.
Assim tudo o que passa
é isso.
A fuga perene,
os corpos em gravitação díspar,
no desencontro fortuito
de um adeus.
Essa a esfera única do ser,
a dinâmica.
E agora, sempre depois de algum
agora,
que nos vemos
despidos das palavras.
De olhos fixos no côncavo do cosmos
como se fosse o côncavo
de nós mesmos.
Agora que o vento nos leve,
que a erosão das marés
nos crave sulcos infinitos.
Que os outros nos esqueçam
entre os dedos de conversa esparsa
que fluem nos dias.
Que a matéria da alma,
se torne o pó das estrelas.
e que da fúria ampla sobram restos
esmorecidos
de espuma branca
aos cantos da boca.
Assim sabemos que são as coisas.
Assim somos nós
em decadência.
O atractivo unânime
do abismo.
A pulsão fria, exígua,
de nos arrastarmos
para dentro.
Contemplarmos o vazio
e ele sugar-nos os tecidos ocos
da vontade,
com as suas aspirações lânguidas
de medo.
Assim tudo o que passa
é isso.
A fuga perene,
os corpos em gravitação díspar,
no desencontro fortuito
de um adeus.
Essa a esfera única do ser,
a dinâmica.
E agora, sempre depois de algum
agora,
que nos vemos
despidos das palavras.
De olhos fixos no côncavo do cosmos
como se fosse o côncavo
de nós mesmos.
Agora que o vento nos leve,
que a erosão das marés
nos crave sulcos infinitos.
Que os outros nos esqueçam
entre os dedos de conversa esparsa
que fluem nos dias.
Que a matéria da alma,
se torne o pó das estrelas.
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