sábado, 29 de novembro de 2014

vim ao cimo para te dizer
há muito que parasito esta cidade
sei-lhe os limos vagarosos do rio
e o ponto de fuga palpitante dos olhos
a pontilhação das casas em lâmina numa outra
encarnação de fé.
também a tortuosidade descalça dos caminhos
mas não tanto aquele tempo distante
onde uma vez perdi o rosto.
e há um som sem freio um riso
e isto é um país menino um país
pequeno mas com tanto grão de sal
lá dentro: onde raspa a unha invisível
do medo. onde percutida gota de suor
visível nos teus lábios sabe a carnificina.
onde o riso aos cafés soa a morte
leitura de sina prematura um desconjuntamento
nos ossos um ai que dói a espinha
e não sofremos mais o suave torpor
dos passeios a linha aérea dos edifícios
e a barba dos apodrecidos. // a cara limpa:
da empregada. da fachada ao sol de domingo.
da palidez destas flores de plástico tão nobres
tão deste sítio tão deste
café espírito de tempo. // isso. ódio
e isso. mãos recentes sobre a mesa
na outra mesa não nesta
uma diz os dias outra conta os passos
foi daquela vez que sorri lembrando-me
havia anos que saíra para comprar
pão fresco e laranjas. não fumava e crescia-me
uma espécie de formigueiro de arejar
os olhos aligeirar as lágrimas levantar a lenta
circulação do lajedo. // era o regular inverno
chuvoso. tinha uma vontade permanente
de me ver  rosto esculpido às montras fechadas.
para obras. ou então. trespassa-se
a cara do transeunte. não tem olhos.
não sem perto de si a curva necessária do tédio.
digo ódio digo ébrio. trindade leda
como um pássaro-poeta
canta nas argênteas poças. chapinhando louco e talvez
mais profundamente triste.// importa a cidade.
importa que se tenha a um tempo
dois pedaços dissemelhantes de carne no peito
um coração mais vivo e sombrio outro mais
de uma época de azul agreste. ambos roucos
combinando agulhas. afinando as cavidades evidentes
do desejo. importa isto: eu quebrando as mãos contra a cara
mas enterrando-as em sopro no sono desperto deste peito.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

canção de empalar palestrantes

compêndio de esgrima
de la taxation do pouvoir économique
o reader's digest das mamãs

em querendo
ENLARGE YOUR CAPITAL

saudades de levar porrada

a bancarrota e a branca que arrota à boca branda

amiga comunhão
de bens
na boca
a hóstia
e a porrada
ei-la 

saudades de levar na estrada
um sorriso pelos joelhos

cantar às cegas uma meditação

massenet vende castanhas à dúzia
quem as come engole cascas mas
se é tosca a casta também canta

os seus males estranha
primeiro cospe-se depois

lave-se
água ao fole medra a terra

a minha mão na tua perna
ribanceira abaixo em sintra
três mortos no tal sinistro

dispensário da viuvez
a artrose da avó

a vizinha dentro de chaimites loucas
loucas loucas loucas e laranjas

em fevereiro
doces e castas
velhas lombrigadas ao caroço

uma dor um achaque um lábio
de fraque no dorso

minha mãe mandou-me à vila
ver de tudo o que havia em conta

vistas curtas perna longa
a mão manietada à montra dos monhés
disse-me

é um ver se te avias
chibo cabrão furtaste-me
da cabra com cio o coração

era casta a mandriona
agora basta
água naquela lona
de chover todo o dia

manda ao pai este aviso vivaz
vá de metro
sem tenaz.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ou isso
a tarde
inqueta-se presume-se
vibra na linguagem das falanges
ignorando
o manto despido sobre as árvores
como quem dá à luz
devagar uma auréola
em pranto
uma dor de cabeça.

ou isto
a encefaleia dos ninhos vazios
a ceifa esgotada pelos montes.
não me queima as mãos este frio
este andar despido e de vermelho cru
como se buscasse
como se fingisse que buscasse
a tua boca vazia num horizonte de glaciares.

(observemos o que se segue.
o poeta sucumbe à clique. prostrado. boca de cena. aparte.
isto era desnecessário. o leitor sabe. o leitor compreende.
o leitor vê-lhe os olhos cavos. vê-lhe um sentido inato de gente.
ele que escreve/canta/escarra também é gente. também comunica
por signos. peixe e quiçá escorpião. ascendente não tem nem falta de pão.)

novembro é quando mais amo
este rigor calado de morte
o mundo segreda-me o nome
abjecto como
um beijo florido e podre
(sei que me repito

vejam-lhe o sofrimento. pede compaixão.
mas furta-se. coitado. coitado não. bizarro.
uma mão de fora como quem pede. outra para dentro
como quem esmurra. a figura pálida até podia ser esguia.
mas não. é de T3 em Linda-a-Velha
Peugeot 206 e sextas na marginal. o poeta fede
a fumo de escape. ai se fede. a Lisboa ela inteira na diagonal.
a sua vida própria é a vida de qualquer um. o incomum
já lhe saiu caro em 1983 [não nascido repare-se
apenas projectado e desenhado a carvão seco]
vinha de mal com a existência com olhar perdido
em cafés nas luzes estranhas sobre gente estranha que nem dá por elas.
o poeta sente. mas tem só de podre ali aquele
aquele dente. como dizer isto sem comiseração.
é tudo canja de galinha. sopa com pés e unhas ainda.
um frango no talho mal cortado. amparado pelo amor são
do cutelo. sangue pouco. dor que já foi muita.
e onde entra o poeta nisto? sorve a canja. é daqueles sujeitos incorrectos
aqui na mesa de trás enquanto se engana [as pessoas não são assim estranhas.
a luz sim. mas as pessoas são pessoas não vale a pena o espanto
o trabalho. o sujeito e o predicado. o silogismo. a condição suficiente.
o puta que pariu o dente. as pessoas são como cada qual e assim está certo que o sejam.]
enquanto se espanta e se dilata está na pândega o poeta. também merece.
mas não merece o sorvo. a arte do sorvo. o ouvido salpicado no sorvo.
o talher sujo o guardanapo em sangue o unguento do caldo o cuspo e o ovo.
não. é demasiado. ora cale-se e às mágoas. o frio é lá fora. faz chuva é novembro.
sempre foi. aqui ao quente não. isto não. esta mentira indecente.
cuspa o que tem na boca sujeito. cuspa esse dente podre essa maldição.
o poeta olha-me de frente. mas ingratidão. era só o bancário inócuo.
o farmacêutico de portas abertas até às oito. o pasteleiro do conde barão.
escuso-me. ridículo. faço cara feia. o tempo persiste. chove porque é novembro.
sempre a enchaqueca neste mês e neste momento. sempre a dor na nuca. a ilusão de ser eu
dentro daquela pastelaria ali à conde barão sentado e é julho. acaba-se o vinho.
sorrio. lá dentro. fazem almoços e hoje deve ser polvo. prossigo raquítico e de esmola na mão.)

sábado, 22 de novembro de 2014

dois transeuntes cruzam-se na rua
então e esse manifestozinho
então e essa artritezinha
isso sai? isso fica?
já lhe cheiro a tinta fresca
já lhe vejo a perna lesta

num outro ponto da cidade
leia isto diz aqui
o sentido do poema é o poema
averiguemos
o poeta não está
saiu sem nota morreu
algures no espaço sideral onde conquistou
o último croissant de chocolate
a calma da mastigação eterna
o after-life das estrelas
quer ver
leia isto diz aqui

algures no centro nevrálgico da letra
de crédito
amor traz-me o panado de frango que te pedi
sou assim delicodoce com os salgados
não era este amor
o amor sai de cena
fim do acto conjugal
(poupe-se o leitor aos indecorosos celeumas
da maquinação do tempo)

por fim aqui ao lado saguão com nespereira
um bota-cigarros desesperado
pulmão abaixo calçada do duque acima
os prédios a terem o lume virado para as traseiras
a magnífica luz que se esconde nas traseiras
a pilha de livros pronta a queimar nas traseiras
está-se no inverno e tem-se medo
mesmo com um quotidiano comprado a prestações
certinho direitinho todo o mês
com feriado santo à porta
mas mesmo assim medo
rabo entre as pernas
cu como os demais
um desfilar certinho de meditações
na avaria correcta imposta pelo medo
na centrifugação a aprox. 1080 rpm do medo
(sai sempre seco)
tenho isto
não ver o término das mãos
turva-se-me a vista ali chegando ao pulso
ando pelas ruas a apalpar nem sei bem o quê
paredes animais géneros humanos
um sei lá de malvadezas
porque sou sobretudo o dia retirado
o espécime de nojo com que olho para o nojo
a embarcação empoleirada num vento podre de verão.
determinado a cair
cara rente ao chão
leia isto diz aqui
amigo somos demasiados
tantos que a conta se nos perde
economize luz
guarde a artrite para si mesmo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Da-guerre-ó-tipos

os resultados destas experiências foram algo ambivalentes
ora vejamos:
gogól na capa de um livro de contos
penteado à menina judia bigode curto
rimbaud passeando o ornintorrinco argelino
calça branca cara negra
rilke de olhos protuberantes clamando aos anjos
sem cor porém muito verdes pressente-se
eu na parte afastada do divã
eu sentado não leio
leio pouco aliás
cruzo a perna traço uma linha
na parede bem concreta
sinto a dor raspar o osso
deixo as experiências
a minha herança ao sobrinho desconhecido
perdido na guerra toda
a minha biblioteca mental e ainda
os invólucros e as primeiras edições
as balas de canhão e os dentes ali do general
morto na primeira ou à segunda
queira deus que isto seja só a terceira.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

vem já aqui
disse-me
errei na possibilidade de serem frésias
tudo isso que contei para mim mesmo
tudo isso levava dentro de si um grande balde de água suja
parei como se o sussurro fosse um grito
as paredes lancinantes abrindo
vem rápido
e eu corri a abrir as janelas da casa
(chovia muito nesse tempo)
dei por mim encostado ao canto da sala
as mãos dentro da água suja
errei com certeza seriam gardénias
pensando em como dizer-lhe tudo isto
chorei um pouco mas um homem não chora
não chorei portanto
quis uma vida sedentária de rosto para os papéis
cresci sem pais fui nobre nesta guerra
como um jacto de crime que
vem porra
que fazes tu aqui
errei porque sabia serem rosas
plantei-as eu naquele quintal há muitos anos
outras mãos
sei que já lá estavam quando para aqui vim
bonitas bonitas sabe quem as plantou?
não vejo porquê
ainda ontem aqui estava só um terreiro seco e morto
um corpo aberto ao sol e às pragas
hoje veja já nem há jardim
destroem tudo aqueles malvados
mas tem que cá vir mais vezes
(o meu rosto contra a parede)
começo a contar os precipícios
quem disse
vem já se não queres apanhar
mãe tenho medo
eu também
a jovem louca aos rodopios grita
mão rasante nas grades do hospital
arbustos muitos sobre os olhos queimam.
a topiaria deseja-lhe
os dedos cortados
a parede emudece.

domingo, 16 de novembro de 2014

deixa-me aos poucos sentir a perturbação da casa
quando acordo de manhã e ainda é bem cedo
e não tenho sono e só se respira um azul nítido
rasante na tua boca.

abro devagar os olhos
tento seguir o fio ondeante da poesia
e acabo contra o muro. sempre.

ainda há muito a dizer
ainda há dias dizia eu
chovia como se fosse
o tempo último dos crentes
e ainda há dias dizia eu
um estranho som entrou pela janela
e veio habitar na ferida imensa
que o meu peito cumpre.
um estilhaço de espelho abriu-me
bem no centro da vontade
uma luz desmaiada
um castanho de casa habitada
um já são sete e acendemos o candeeiro.

bréu
a horta o jardim o idiota do vizinho
descansam em bréu.
e tudo isto era manhã
e tudo isto era a minha mão na tua
cosendo a manhã aos olhos
cosendo as mãos à manhã
e os olhos noves fora nada.
não são meus.
não são suficientemente meus.


sábado, 15 de novembro de 2014

a experiência enfezada da humanidade
deus sentado à escrivaninha
tergivesando sobre a colheita de 82
a touriga nacional à porta
o alicante bouschet de passagem
à janela dos eléctricos
a saudar vizinhos ex-colegas de escola
a viúva o ardina a varina
o sentido proibido pelas ruas estreitas
não vou por aí
a verruga encostada ao queixo de uma avó
o tempo perdido na contemplação da dita
a palavra sofrer ao invés de vendem-se castanhas
a tosse convulsa do papá e o dia de inverno a nascer
a postura curvada deste tempo
um guarda-chuva partido nas urgências
um grito chamem o doutor por favor
uma parede de azulejos e os cantos da parede sujos
um pitéu o almoço em hora de almoço e o café a terminar
a tarde na cidade a manhã no campo
as pernas a sacudirem a lama a sacudirem na cama
o tremor de ser sexta-feira
um olho mais dilatado que o outro
deus à secretária contando os cabelos
rape-se-lhe a cabeça
deus escutando nas portas
raspe-se-lhe os joelhos
deus espreitando nas ranhuras
fure-se-lhe as orelhas
deus cheirando o lombo de porco no forno
deus faz cara feia
deus diz querida hoje não janto
deus faz de conta que é domingo
um tiro arregaça as calças chove e
outro tiro meu deus tem seis dedo num dos pés e
mais um estrondo dizem que é segredo
mas a vizinha viu um dia contou à porteira
agora a do terceiro também comenta e ele há vezes
que até lhe pressinto as conversas com a do quinto.

porém:

os ouvidos dentro de água
a água por dentro do cravo de Bach
suite francesa à chuva (os scones arrefeceram)
sinto tudo isto dentro
de um eco de um canto de um eco dentro de um canto
desnecessário seria dizê-lo
a repetição enjoa mas para o ouvidor
a repetição enjoa da forma que enjoa
o cheiro da nossa casa quando regressamos
de um poema lido à pressa
sem pontuação ou meios termos
sem aquele sal de esfregar nos olhos
de nos abrir a vertigem e a queda.
sinto tudo isto incerto
e o quadro adensa-se até restar só tela
o olho molhado contra a pincelada
da saliva no papel.
espero e por fim só o óleo do tempo
pingando pelas arestas receitas da titi
a bouillabaisse e a charlotte de framboesas
o quanto choro pelo fim
pela sobremesa
que o poema termine que acabe
que faça sentido e faça isto.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

o que se esconde por detrás do marmeleiro de victor erice?

a referência ao filme já está.
venha a referência ao poeta
constructo primordial do poema
ser hábil de agilidade mental ímpar
sabedor da boa piada do bom beicinho
do bom licor quando muito do bom vinho
e acima de tudo um aglutinador
dos seus próprios olhos
mil e uma vez cerrados enquanto é dia
cerrados frente a cada objecto
a cada pulsão de luz sobre cada objecto.
e quando à noite chega a casa
a aranha sem lugar onde habitar nos seus cabelos
é quando mais sofre a lentidão do espaço
o cansaço do chão seco e resiliente
o abraço de um colchão mole e sujo de si
poeta às avessas com o tempo
com a locomoção das palavras
com a sentença das árvores que lhe batem no quinto
andar para o saguão desesperado de um milagre.
o feitio lilás que desencanta das horas frias de sol poente
é esse o seu feixe único de tralha no fundo dos bolsos.
é um preguiçoso. e gaba-se
tem muito respeitinho e até é bom rapaz.
às vezes cala-se e aí
é como se o pergaminho do mundo
descansasse aberto e límpido.

sábado, 8 de novembro de 2014

há um odor incrível
um frémito doente a irradiar
dos prédios cheios de
gente à hora do jantar.
não. a chuva não limpa
as mãos de quem escreve.
há um horror incrível
em andar pelos passeios
ouvindo o tilintar dos talheres
solteiros na inebriação de uma
conversa ausente.
a cidade tosse lentamente
cospe os próprios pulmões
com o vagar sanguíneo dos séculos
mas sentimos-lhe já o rio secreto
coagulando pelas sarjetas.
e mesmo assim sei que
há um pormenor incrível
na transpiração das casas
na inundação das massas
no valor centrípeto dos corpos
contando pelos dedos a seiva que fica
da humanidade. a infância a brincar na rua
a cair nas poças lentas de lamas
a engolir do ar os dias que nunca chegam
mesmo que já seja fim-de-semana.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

forma de dizer
a noite
desmembrada no silêncio curvo das árvores
onde o brilho dos aviões colide
com o passo metronómico da tua
forma de andar
hesitante. um destino sobra
nesta sexta nocturna
para os cometas e há
quem repare em tudo. eles
lá do longe desenhando a múltipla
sensação do minério astral
mergulhando na retina pálida
adormecida sob os teus dentes. um olho fende
um olho de frente.
grita-lhe um segredo às avessas na rua
que pariu um subúrbio pela cauda do tempo.
antes que te levem a vida
forma de cumprir
o medo acumulado nos ombros durante anos
assalta-lhes o rosto com o teu rosto
de frente sob a luz
mais velha e doente.