a experiência enfezada da humanidade
deus sentado à escrivaninha
tergivesando sobre a colheita de 82
a touriga nacional à porta
o alicante bouschet de passagem
à janela dos eléctricos
a saudar vizinhos ex-colegas de escola
a viúva o ardina a varina
o sentido proibido pelas ruas estreitas
não vou por aí
a verruga encostada ao queixo de uma avó
o tempo perdido na contemplação da dita
a palavra sofrer ao invés de vendem-se castanhas
a tosse convulsa do papá e o dia de inverno a nascer
a postura curvada deste tempo
um guarda-chuva partido nas urgências
um grito chamem o doutor por favor
uma parede de azulejos e os cantos da parede sujos
um pitéu o almoço em hora de almoço e o café a terminar
a tarde na cidade a manhã no campo
as pernas a sacudirem a lama a sacudirem na cama
o tremor de ser sexta-feira
um olho mais dilatado que o outro
deus à secretária contando os cabelos
rape-se-lhe a cabeça
deus escutando nas portas
raspe-se-lhe os joelhos
deus espreitando nas ranhuras
fure-se-lhe as orelhas
deus cheirando o lombo de porco no forno
deus faz cara feia
deus diz querida hoje não janto
deus faz de conta que é domingo
um tiro arregaça as calças chove e
outro tiro meu deus tem seis dedo num dos pés e
mais um estrondo dizem que é segredo
mas a vizinha viu um dia contou à porteira
agora a do terceiro também comenta e ele há vezes
que até lhe pressinto as conversas com a do quinto.
porém:
os ouvidos dentro de água
a água por dentro do cravo de Bach
suite francesa à chuva (os scones arrefeceram)
sinto tudo isto dentro
de um eco de um canto de um eco dentro de um canto
desnecessário seria dizê-lo
a repetição enjoa mas para o ouvidor
a repetição enjoa da forma que enjoa
o cheiro da nossa casa quando regressamos
de um poema lido à pressa
sem pontuação ou meios termos
sem aquele sal de esfregar nos olhos
de nos abrir a vertigem e a queda.
sinto tudo isto incerto
e o quadro adensa-se até restar só tela
o olho molhado contra a pincelada
da saliva no papel.
espero e por fim só o óleo do tempo
pingando pelas arestas receitas da titi
a bouillabaisse e a charlotte de framboesas
o quanto choro pelo fim
pela sobremesa
que o poema termine que acabe
que faça sentido e faça isto.
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