vem já aqui
disse-me
errei na possibilidade de serem frésias
tudo isso que contei para mim mesmo
tudo isso levava dentro de si um grande balde de água suja
parei como se o sussurro fosse um grito
as paredes lancinantes abrindo
vem rápido
e eu corri a abrir as janelas da casa
(chovia muito nesse tempo)
dei por mim encostado ao canto da sala
as mãos dentro da água suja
errei com certeza seriam gardénias
pensando em como dizer-lhe tudo isto
chorei um pouco mas um homem não chora
não chorei portanto
quis uma vida sedentária de rosto para os papéis
cresci sem pais fui nobre nesta guerra
como um jacto de crime que
vem porra
que fazes tu aqui
errei porque sabia serem rosas
plantei-as eu naquele quintal há muitos anos
outras mãos
sei que já lá estavam quando para aqui vim
bonitas bonitas sabe quem as plantou?
não vejo porquê
ainda ontem aqui estava só um terreiro seco e morto
um corpo aberto ao sol e às pragas
hoje veja já nem há jardim
destroem tudo aqueles malvados
mas tem que cá vir mais vezes
(o meu rosto contra a parede)
começo a contar os precipícios
quem disse
vem já se não queres apanhar
mãe tenho medo
eu também
a jovem louca aos rodopios grita
mão rasante nas grades do hospital
arbustos muitos sobre os olhos queimam.
a topiaria deseja-lhe
os dedos cortados
a parede emudece.
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