sábado, 8 de novembro de 2014

há um odor incrível
um frémito doente a irradiar
dos prédios cheios de
gente à hora do jantar.
não. a chuva não limpa
as mãos de quem escreve.
há um horror incrível
em andar pelos passeios
ouvindo o tilintar dos talheres
solteiros na inebriação de uma
conversa ausente.
a cidade tosse lentamente
cospe os próprios pulmões
com o vagar sanguíneo dos séculos
mas sentimos-lhe já o rio secreto
coagulando pelas sarjetas.
e mesmo assim sei que
há um pormenor incrível
na transpiração das casas
na inundação das massas
no valor centrípeto dos corpos
contando pelos dedos a seiva que fica
da humanidade. a infância a brincar na rua
a cair nas poças lentas de lamas
a engolir do ar os dias que nunca chegam
mesmo que já seja fim-de-semana.

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