sexta-feira, 25 de abril de 2014

aos dias que sofrem do reflexo tardio das árvores de fruto dos logradouros

a tarde estática ajuda-te a crer
a sinfonia dos limoeiros
- e isto soa bem digam o que disserem -
e acredito que morro eternamente
a morte de todos os dias
a mais sã e mais pura
- mas que digo minto cuspo sujo esfrego amo -
o corpo é o teu linho meu linho nosso linho
azul no reflexo da uva molestada
- canta nos meus lábios a profusão negra da aurora -
um êxtase não ejaculado
foi essa a minha espera ante a flor incendiada
- que beijos que beijos o sol diuturno mas hoje só hoje que beijos -
de uma rajada escrevo a mentira
a irmandade dos corpos unidos na sua junção mais concêntrica
ah fluído do limoeiro
agora o aroma doce abre gretas nos lábios
a delícia das lâminas abre espaços a lágrimas frouxas
- sou tão de medo tão de medo tão de medo -
se choro é porque te amo sob a luz de uma sexta-feira
e amo a letra prensada no teu rosto
e amo a carne branca da tua saliva
a tua voz crente dos hemisférios
das faces negras das luas da saliência dos corpos apertados contra
a linha do meu

do meu

do meu
tão antigo pudor de palavras anseio de bocas jorrar silente na noite na semântica de
um verso.

não hei-de parir nunca a tua
autêntica face pristina na madrugada contra os lençóis submersos

e ainda bem.
que a flor desabroche a concavidade abismal do teu peito
e eu já esteja sorvendo a terra que te alimenta
o odor rarefeito.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Laocoonte

retesa a saliva
ajusta a corda contra a língua
abraça as veias
comprime o fluído quente do ventre
entrega a voz
sufoca o olho voraz
segrega a paixão
fende o molusco da carne
crava os dentes na respiração.

como quem sofresse
viperino contacto cálido
das correntes

apenas o que bebe da própria peste
sabe emanar sibilino o odor
suado de um não.

sábado, 19 de abril de 2014

musica ficta

a pluma espécie plena de espuma
dá música suficiente para três.
antigamente era assim que alimentávamos
famílias inteiras descalças dos pés à cabeça
nem vestígio de piolheira
apenas música santa sacra música
podia ser
a fagulha que acende nos teus olhos a mais falha agulha
onda de medo onde o céu expande o seu manto
e tínhamos a boca vazia o estômago mais confortado
as mãos cicatrizadas um brilho saciado nos olhos
dos avós os netinhos de cabeça no colo das bonecas
catando uma vida já cheia do grosso sebo
da memória escorregadia. ah que belos
azeites brilhavam no escuro acendendo nesses tempos
mais claramente a noite que pairava dentro
augusto plúmbeo uterino refúgio
tão bem nos sabiam as espinhas das letras
a garganta rasgada à velocidade dos estalidos da língua.
depois veio uma grossa veia
rebentar dentro da cabeça do pai
a mãe chorou e fugiu
para dentro de uma mudez de fogão apagado
comida fria e ranho absorto na face do pequeno.
era tudo tão cedo ainda. a mais velha juntava as letras
queimava tudo na grossura dos caracóis engolia as lágrimas
não lhe saía o destino na rifa apenas o verão
a imensidão da fazenda bruxuleante
a queimar lenta um responsório de Victoria.

(musica ficta)


pequenas mortes seguidas de ressurreição ad tertiam die

e tudo isto me fascinou:
a semelhança imaculada dos dedos
a tez pálida da sucção
o cálice hediondo servido
ao centro rubro do medo.
regresso à terra no último momento
e em lugar de cotos
os pés já só carícia suprema
sobre o tapete do levante. foi aéreo o poema
do êxtase. na mão o pedaço de cara
que me resta. boca aberta como quem diz:
morreste.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

evasão fiscal

foi durante
o meu último retiro em Avestruz-a-lém
que mirei Gioconda
inocência das inocências
pietá debruada a rosas
carmim sobre os laranjais em flor
doce e porca
desnuda
ainda mal parida do seu último aborto
um tumor
tudo begnigno tudo begnino
a quem apelidou de inácio
como o santo
que a tirou da sarjeta
a carícias de bisturi e malvasia.
um lanche com ela
no recinto fechado do nosso cós
e foi suficiente para lhe explicar
que amena cavaqueira significa
bom tempo se não chover e parlapié de ervas daninhas
ela riu e disse ainda redonda tão já só rotunda
ai que você até tem graça.
(entre os dentes entre as pernas
um pedacinho verde que a natureza instiga
uma lisonja de espinafre mal deglutido
uma mãozinha suada e inábil
a palitar as miudezas.)
obturei-lhe um venha comigo
mas perdi o rolo
porém passado todo este tempo venal
da reencarnação espasmódica dos incensos em Avestruz-a-lém
que é quando morre o senhor
morte santa dizem eu digo é outro rissol e a conta se faz favor
num arroto encantado (afinal era de camarão e eu estava certo)
lembro que Gioconda só tinha de interessante uma marreca
escondida entre as duas mãos
daí sorrir sempre com ar de quem guarda o segredo dos sangues dos arrozes de cabidela.
sempre soube mais de mim do que eu dela
e isso fascinava-me mas cortava-me a tesão.

ele que diz:
canto a perseguição dos faróis
a tinha inflamada a principiar a carne aberta
o acerto de contas com a penugem evanescente
da morte ridícula abraçada ao estratosférico
amor barroco das violações amedrontadas

uma mão na boca
remete para um som novo
mudaram-lhe as cordas
o sangue também algo dentro
efervesce. não me fodam
é ampla misericódia clamada
aos altares aéreos dos etanóis
sei bem que sim
que também seremos rostos do mármore
revolvido das raízes e enquanto isso
cá bem dentro
a loura dissolução submissa
ataca-nos o corte cego ataviado
a voluta negra do teu pulmão saliente
palpitante sob o sufoco da talha dourada
fende perto bem perto
mas que queres que eu faça
também me custa cuspir-te no olho
furar-te os sorrisos de viés
ornar-te a regra majestática do vício
com o bordão insistente dos meus pés.

ele que canta:
vamos pôr-nos todos numa espécie de
caralho mais velho.
ai que bem cedo o disse e assim se foi
voz de ventania de domingo.
não mais cá chora a humidade rançosa das lamúrias.
de barriga cheia
verso iníquo para dizer o que ao vulgo lato obriga
de papo para o ar
corramos a cortina de nuvens
agora de fora o cinto a cintura a carne o estômago o almoço
desembainhemos ao longo dos divãs
a matéria originária da nossa submersão.

o descanso
que paz meu deus que paz
traz-me outras lágrimas estas não me servem
talvez também o jornal e um outro dia
este cheira-me que me vai dar diarreia.

terça-feira, 1 de abril de 2014

caíram-me os olhos ao loreto

a mão
deixada abandonada numa vitrina
de alfarrábio com ódio

os lábios
incinerados na aspersão dionísica do cafés

mas foi o que deus quis
e dou-me por mim já
sem rosto
às voltas como quem
traz a custo o susto
do calhariz

e alguém repete
guarda o mosto
num entre-dentes
a parede sussurra o côncavo
crasso minério

mas cruzo-me com o cão de cabeceira
palmilhando a calçada inteira
de um teu não
me querer de sexta-feira

pobre vil bêbedo abandonado às vésperas
de um dia gigante e
ainda tão longe da sé
só se ouve o grito agudo da ribeira

chama-te um corno
a crescer nas marés. sente-lo
morno entre as pernas. o quê
a fricção de uns teus pés

mas juizinho na precocidade
a vida vem sempre antes de nós
quando dás por ti
olhe ainda agora passou um 28 para cima
e só lhe sentes o febril flamejar na perna do carril

a sereia metálica virando a esquina
dando o cu aos medos
oh rapaz o ócio vira mães pais avós penedos
distantes rochas sobrenaturais
rompendo a carne dos fumos
cumprimentando os sóis muitos ainda por vir
os só já passados. o teu rosto
maquinal

a exprimir negligente
o amargo dente criminoso
sibilante ordinário bem-me-quer lastimoso
crente extraordinário da receita irrepetível
do aroma do trema.

sai a mão da montra
debaixo de um manto de pés enjaneirados
vem estender-se ao filho que lhe dê
nos anéis o labiozito inocente rechonchudo
endinheirado um beijo triste e doente
que o patriarca abençoa com o hissopo
outra forma seja essa de se dizer do cuspo
a chama poética que brota do gargalo do mundo
engasga-nos as manhãs em arranques de traqueia
vem servir a carne jovem
na dissolução de uma diarreia
e nós à beira dos caminhos
com um pé na cama ainda a contemplar
o segredo dos vincos todos até os mais imersos
calamos uma doidice de domingo
uma ponte sobre um jardim de cardos
uma janela fracturada a lírios
uma pistola furando a tripa da lira
uma boca calada na sofreguidão transbordante do rio.



sarabande

assim mesmo se abrem
os inversos decalques
da tua só ínfima
substância.

sobre um sal de línguas abertas
raia um sol invertebrado
de nós. a morte pode
esperar na ombreira

até que um sussurro sufoque
os intervalos que nos perseguem.
a distância entre duas mãos
crime linfático das auréolas

descobre-nos a ferida rigorosa
incisão perfeita dos teus dentes
contra a candura dos linhos da primavera.
semelhante ócio não mataria mais

que o revérbero fendente
deste beijo.