de que vale
esse suco na boca
velho da cor
sempre fosca
desse rio que canta
os séculos nas correntes
e tem nos olhos os outros
daqueles que o viram ser rio
antes de ter nome
e ser gente?
vale mais o contraponto cego
já sem a vibração dos vitrais
e toda a horda de cantores de infinito
a trazer fôlego de deus
ao canto mudo das flores
e dos minerais. mas nem isso
nem isso refulge já
em aurora
este tipo de movimento
em víscera profunda a sangrar
contínuo jorro desde a linha
do firmamento.
o que é este domingo
sempre presente
a estirar os dedos
e a romper do fundo dos cabelos
o sono morno e mastigado?
o que é este acordar de fundo
a tingir o quadro de negro
e a dar ao palpitar das horas
a tonalidade de um roxo cansado
a vir cada vez mais inteira
ao encontro sensual da tempora
pulsante? enche-me os olhos
e é som puro fechado em ruído atroz.
nomear o inominável
fazer verbo do pré-verbo
do anterior a um anterior
crer palavra onde habita
somente a onda pura
de um silêncio.
quarta-feira, 31 de julho de 2013
segunda-feira, 22 de julho de 2013
revisitar
e se eu não quiser nada?
posso ainda escrever o meu tratado
político-teológico sem cuspo algum
que macere esta tinta de corpo inerte
posso ainda olhar de soslaio
o quente da brisa e negar solene
a iridiscência do crepúsculo
posso odiar a vida o quanto baste
espetar-lhe o picador de gelo
calmamente pelo olho adentro
com o rigor natural de uma viagem
entre o secreto escarnecer de nós todos
a subsumir para dentro através
das camadas fofas do medo
com a carne os dentes e o miolo
tão passivos tão lascivos tão evidentes
para demonstrar com o raciocínio inato
a matéria menstrual de um absoluto esvaído
concreto a drenar-nos
a escorrência marcial feita em passos
para abrir e revisitar a cidade das segundas-feiras
cravando em nós tecido em buracos
os intermináveis desníveis da calçada
as abomináveis fachadas da transcendência.
sento-me e trazem-me a bandeja a fumegar por dentro
e não lhe vejo a mão que a segura
nem o que fumega
nem o que a sustenta
nem traz ela o meu reflexo
nem as palavras soam as mesmas
nem os olhares se revelam os mesmos
nem os nomes vêm à cabeça
nem eu sei onde me sento
nem isto faz sentido e eu
só queria
o quê não sei.
não era isso nem isto nem aquilo
nem vá aquilo que ali está
nem tão pouco aquilo que por ali há
mas sei que sim que queria
mas já não sei quando o quis
e alguém se zanga por esperar?
e alguém se cansa por revisitar?
posso ainda escrever o meu tratado
político-teológico sem cuspo algum
que macere esta tinta de corpo inerte
posso ainda olhar de soslaio
o quente da brisa e negar solene
a iridiscência do crepúsculo
posso odiar a vida o quanto baste
espetar-lhe o picador de gelo
calmamente pelo olho adentro
com o rigor natural de uma viagem
entre o secreto escarnecer de nós todos
a subsumir para dentro através
das camadas fofas do medo
com a carne os dentes e o miolo
tão passivos tão lascivos tão evidentes
para demonstrar com o raciocínio inato
a matéria menstrual de um absoluto esvaído
concreto a drenar-nos
a escorrência marcial feita em passos
para abrir e revisitar a cidade das segundas-feiras
cravando em nós tecido em buracos
os intermináveis desníveis da calçada
as abomináveis fachadas da transcendência.
sento-me e trazem-me a bandeja a fumegar por dentro
e não lhe vejo a mão que a segura
nem o que fumega
nem o que a sustenta
nem traz ela o meu reflexo
nem as palavras soam as mesmas
nem os olhares se revelam os mesmos
nem os nomes vêm à cabeça
nem eu sei onde me sento
nem isto faz sentido e eu
só queria
o quê não sei.
não era isso nem isto nem aquilo
nem vá aquilo que ali está
nem tão pouco aquilo que por ali há
mas sei que sim que queria
mas já não sei quando o quis
e alguém se zanga por esperar?
e alguém se cansa por revisitar?
domingo, 21 de julho de 2013
sábado, 20 de julho de 2013
con bocca chiusa
agora é sempre manhã e os pássaros passam e cantam
elegias mais tristes
chocam contra o tecto
das palavras
em cadência monocórdica
perfazem um uníssono
ao fundo
da cor da distância
o vibrar de uma latência
estende os seus veios de seda
dissonantes sem resolução
e eu busco no dicionário
o espaço de uma folha rasgada
que tenha inscrito a unhas
o verdadeiro nome disto.
elegias mais tristes
chocam contra o tecto
das palavras
em cadência monocórdica
perfazem um uníssono
ao fundo
da cor da distância
o vibrar de uma latência
estende os seus veios de seda
dissonantes sem resolução
e eu busco no dicionário
o espaço de uma folha rasgada
que tenha inscrito a unhas
o verdadeiro nome disto.
quarta-feira, 17 de julho de 2013
uma cerveja no baptistério
suo com a água
que um deus verteu
deste seminal
encontro nosso.
deixou-me depois
esta luz laminar
para em vão cindir
dos mármores os veios
de campa. e um doloroso
frio de palavras em espaços
secos.
Nasceu outro cristão
para sair à rua
tropeçar no degrau
verter o miolo pelas fendas
da alma contra o soalho
da comiseração. Nasceu
mais um salvífico pulmonar
arquétipo de espessura
para fissurar a terra com o olhar
e perder nela o seu signo vital
a cantar lonjura.
que um deus verteu
deste seminal
encontro nosso.
deixou-me depois
esta luz laminar
para em vão cindir
dos mármores os veios
de campa. e um doloroso
frio de palavras em espaços
secos.
Nasceu outro cristão
para sair à rua
tropeçar no degrau
verter o miolo pelas fendas
da alma contra o soalho
da comiseração. Nasceu
mais um salvífico pulmonar
arquétipo de espessura
para fissurar a terra com o olhar
e perder nela o seu signo vital
a cantar lonjura.
do riso vem a sorte do desapego
o que eu queria não ter que pousar
sobre um afago outro afago simultâneo
cobrem-se os ossos com carne para
mais sossego
mas este grito quem o vela sonâmbulo
quem lhe dá um nome?
quem sopra o pó que tape as janelas
e subtraia voraz o insone negro canto?
sobre um afago outro afago simultâneo
cobrem-se os ossos com carne para
mais sossego
mas este grito quem o vela sonâmbulo
quem lhe dá um nome?
quem sopra o pó que tape as janelas
e subtraia voraz o insone negro canto?
prenúncios de sexta-feira anunciada
um baque profundo
e súbito a vontade da escrita
seca
tão de si mesma como
ralo profundo de criação
ornamento invertido de lábios.
não vale a pena orar credos
nem queimar legítimas
palavras de defesa
em mordidelas obscenas
e apertos de braços.
tudo o que resta quando temos
saudades de um inverno
feito estrangeiro
é colocar mais sal sobre o cabelo
também ele esquece em nós
o que derrama
o que em mim chama
e não
suspende.
e súbito a vontade da escrita
seca
tão de si mesma como
ralo profundo de criação
ornamento invertido de lábios.
não vale a pena orar credos
nem queimar legítimas
palavras de defesa
em mordidelas obscenas
e apertos de braços.
tudo o que resta quando temos
saudades de um inverno
feito estrangeiro
é colocar mais sal sobre o cabelo
também ele esquece em nós
o que derrama
o que em mim chama
e não
suspende.
terça-feira, 16 de julho de 2013
perdi-lhe o rasto
perdi-lhe o rasto.
entrou pelo cais das colunas adentro
nem deu espaço à mesquinhez das gaivotas
vestiu-se de rio
seguiu os seus passos.
terei reparado em súbita mancha
no reflexo das janelas à rua dos douradores.
corri atrás e cansei-me
até lá ao fundo enquanto
caia um céu de nuvens mais contrariadas.
um aperto de nojo dormente nos olhos.
ainda em obras
mas já se lhes viam as serpentes aos pés
equestres de uma tarde de quinta
a passar tempo para os augúrios
de sexta.
o suor não provou
quanto tempo passara
entre um passo e outro.
creio que me fixara num conto
a meio do livro. não lhe entendo já o título.
abandonado
branco a criar chão com pó
de terreiro
perdeu a marca e a dobra na página.
talvez também o sublinhado
e quem sabe a memória do tacto.
rasgou-se um pedaço à garganta
que canta mar
e já só cruzado
entre o resto que falta ao tempo
desalinhado assimilei:
perdi-lhe o rasto.
entrou pelo cais das colunas adentro
nem deu espaço à mesquinhez das gaivotas
vestiu-se de rio
seguiu os seus passos.
terei reparado em súbita mancha
no reflexo das janelas à rua dos douradores.
corri atrás e cansei-me
até lá ao fundo enquanto
caia um céu de nuvens mais contrariadas.
um aperto de nojo dormente nos olhos.
ainda em obras
mas já se lhes viam as serpentes aos pés
equestres de uma tarde de quinta
a passar tempo para os augúrios
de sexta.
o suor não provou
quanto tempo passara
entre um passo e outro.
creio que me fixara num conto
a meio do livro. não lhe entendo já o título.
abandonado
branco a criar chão com pó
de terreiro
perdeu a marca e a dobra na página.
talvez também o sublinhado
e quem sabe a memória do tacto.
rasgou-se um pedaço à garganta
que canta mar
e já só cruzado
entre o resto que falta ao tempo
desalinhado assimilei:
perdi-lhe o rasto.
sempre dia
hoje foi dia
de encontrar outro corpo absorto
cuspia latim
revirava os olhos
intercalava com lieder de schubert
e tinha convulsões de justo
não me acrescentou
à nudez
mais olhos
nem mais florestas
nem mais corpos a contemplar corpos
outro dia
e debaixo daquelas árvores
um outro nosso rasgo de céu
segunda-feira, 15 de julho de 2013
não creias no habitar das ninfas [aforismos]
[explora esse vazio
e torna-o teu.]
as águas já sobem pelos ombros
e o místico prazer do afundar
a revelar-se tão certo.
abro os olhos
e o fundo do oceano tem as cores
deste tecto de chão.
é de braços a enterrar
envergaduras mais densas
que o término vem.
sopra o seu caiado branco
para invocar à boca os dentes
contra um último sol
o baptismo de nariz tapado
e nuca dormente.
visceral este apego inteiro
ao tacto aquoso
do esquecimento.
juro por minha vida
que o retrato de ofélia
dança nos olhos
daquele ainda triste rio
porém já tão seco.
e torna-o teu.]
as águas já sobem pelos ombros
e o místico prazer do afundar
a revelar-se tão certo.
abro os olhos
e o fundo do oceano tem as cores
deste tecto de chão.
é de braços a enterrar
envergaduras mais densas
que o término vem.
sopra o seu caiado branco
para invocar à boca os dentes
contra um último sol
o baptismo de nariz tapado
e nuca dormente.
visceral este apego inteiro
ao tacto aquoso
do esquecimento.
juro por minha vida
que o retrato de ofélia
dança nos olhos
daquele ainda triste rio
porém já tão seco.
domingo, 14 de julho de 2013
circulação
cai com o seu som permanente
de cascata
inflama-te o peito
desaparece
deixa a porta aberta
e o chão a ser tela
de um sol mais cor de
algures. um outro inverno
a eclipsar nova esquina
a ser fluxo mancha
de ar mais fino.
//
vê como é belo
o pender de mão só
num adeus
feito para saber
a nada.
de cascata
inflama-te o peito
desaparece
deixa a porta aberta
e o chão a ser tela
de um sol mais cor de
algures. um outro inverno
a eclipsar nova esquina
a ser fluxo mancha
de ar mais fino.
//
vê como é belo
o pender de mão só
num adeus
feito para saber
a nada.
sábado, 13 de julho de 2013
o defeito das ascensões lentas [aforismos]
[o defeito das ascensões lentas
é estarem perfeitas para nós]
crio um rebento que vem
nascer cego à minha boca.
será o cuco do relógio tanta espera
tanta fadiga a pesar-me nas costas
e ainda agora são três da tarde
e eu sou novo de mais para queixumes de cinco
horas com chá e torradas
a verter plácida manteiga sobre o traço amarelo
da canícula dos dias secos.
fico estupefacto como
tudo refulge tanto sem coros nem catedrais
para me ameaçar a crença.
vês como és pouco e isso te basta?
ou nem tanto
o mundo progride e eu sinto o assento do autocarro
colado como quem diz
saio na próxima
mas agora já estamos nos prazeres
e aqui acabam os eléctricos e as almas dos poetas
por isso saio a custo e vou estender-me
num vazio mais ledo sobre a laje
desenhada a fio de prumo com vectores de cometas
a minha degustação de sexta-feira
o meu não me crer
a pintar retrato de fachada
a ser vento assobio de gaivota abandonada
betão armado desta cidade feita em bloco
este meu bocejo alaga as colinas
vence os montes com a sua ironia sacralizada
e morre sem dedicatória dos netos queridos
e familiares para sempre na nossa memória
e nos corações de seus fiéis amigos e companheiros de armas
e de letras [como se não fossem uma e a mesma coisa]
este recitar de epítetos que não me chega
às unhas principiadas em terra húmida como escura
destas lágrimas de sal sem nação
nem mensagem nem comoção.
o dia é belo e desaparece
também o rosto dos poetas
também isso se esquece.
é estarem perfeitas para nós]
crio um rebento que vem
nascer cego à minha boca.
será o cuco do relógio tanta espera
tanta fadiga a pesar-me nas costas
e ainda agora são três da tarde
e eu sou novo de mais para queixumes de cinco
horas com chá e torradas
a verter plácida manteiga sobre o traço amarelo
da canícula dos dias secos.
fico estupefacto como
tudo refulge tanto sem coros nem catedrais
para me ameaçar a crença.
vês como és pouco e isso te basta?
ou nem tanto
o mundo progride e eu sinto o assento do autocarro
colado como quem diz
saio na próxima
mas agora já estamos nos prazeres
e aqui acabam os eléctricos e as almas dos poetas
por isso saio a custo e vou estender-me
num vazio mais ledo sobre a laje
desenhada a fio de prumo com vectores de cometas
a minha degustação de sexta-feira
o meu não me crer
a pintar retrato de fachada
a ser vento assobio de gaivota abandonada
betão armado desta cidade feita em bloco
este meu bocejo alaga as colinas
vence os montes com a sua ironia sacralizada
e morre sem dedicatória dos netos queridos
e familiares para sempre na nossa memória
e nos corações de seus fiéis amigos e companheiros de armas
e de letras [como se não fossem uma e a mesma coisa]
este recitar de epítetos que não me chega
às unhas principiadas em terra húmida como escura
destas lágrimas de sal sem nação
nem mensagem nem comoção.
o dia é belo e desaparece
também o rosto dos poetas
também isso se esquece.
tremores dos pequenos lagos I
o que eu te der
desfá-lo em madrugada
as mãos vazias
a chamarem-se a si mesmas
veio cego fundo
poço negro corrido
até ao outro lado do mundo
a procissão com banda a ré
senhor dos passos
dos golpes lambidos pelo vinho
o sentido cai sozinho
o sentido ajoelha primário
atira-me à cara o meu fim
este véu de santo sudário
sujo da contemplação
com que me queimo.
o canto nu és tu
meu crer de relicário
o meu sentido é o azul
entre os pés recortados
contra o chão do outro lado.
//
e tudo isto finda
são as tuas mãos de novo
a esvoaçarem na manhã como
o reflexo perturbado sempiterno
a sorte negra das palpitações resilientes
esses tremores fugazes dos pequenos lagos.
desfá-lo em madrugada
as mãos vazias
a chamarem-se a si mesmas
veio cego fundo
poço negro corrido
até ao outro lado do mundo
a procissão com banda a ré
senhor dos passos
dos golpes lambidos pelo vinho
o sentido cai sozinho
o sentido ajoelha primário
atira-me à cara o meu fim
este véu de santo sudário
sujo da contemplação
com que me queimo.
o canto nu és tu
meu crer de relicário
o meu sentido é o azul
entre os pés recortados
contra o chão do outro lado.
//
e tudo isto finda
são as tuas mãos de novo
a esvoaçarem na manhã como
o reflexo perturbado sempiterno
a sorte negra das palpitações resilientes
esses tremores fugazes dos pequenos lagos.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
uma mão desembaraça-se da outra
crio em mim o próprio cume
e rasgo-o ao incidir nele
o traço descontínuo da noite
um rio verte noutro
e num halo quente
creio-me ressuscitado
a terra abriu um parêntesis
uma língua entala a outra
e este fluir vermelho
dos nossos olhos de encontro
à boca. como lhe chamam?
um velho morre sobre um outro
como se passeasse em domingos perdidos
da outra estação. a praça vazia
com ponto de fuga cego
cai e mente
abate o mármore das lajes
no poema
e eu bebo-o
arranco-lhe os dedos de uma mão
corto-o com a métrica
a silábica gente que me promete
o vale em água permanente
não me conhece
eu também não.
crio em mim o próprio cume
e rasgo-o ao incidir nele
o traço descontínuo da noite
um rio verte noutro
e num halo quente
creio-me ressuscitado
a terra abriu um parêntesis
uma língua entala a outra
e este fluir vermelho
dos nossos olhos de encontro
à boca. como lhe chamam?
um velho morre sobre um outro
como se passeasse em domingos perdidos
da outra estação. a praça vazia
com ponto de fuga cego
cai e mente
abate o mármore das lajes
no poema
e eu bebo-o
arranco-lhe os dedos de uma mão
corto-o com a métrica
a silábica gente que me promete
o vale em água permanente
não me conhece
eu também não.
o adeus aos gelados
cabe-me relembrar
que não
as ondas de manifestação
da incandescência das horas
não têm fim.
e que procurar
o término dos ponteiros
a lâmina aguçada de uma agulha
a findar a recta que fundou
o horizonte
já tudo isso não tem
explicação
e que a determinação a tê-la
é um nado-morto falho
uma bíblia genuflexa
ao senhor do sem sentido.
cabe-me a mim dizer
aos transeuntes
com pernas de veraneantes e sorrisos
que lhes prendem as sandálias até aos dentes
que sim
houve uma puta que pariu
meio mundo
e outro tanto
só para ouvir dizê-lo.
sai mais cara a fama que o proveito
e o dela foi deliberado
a fama já não tanto.
isso sei-o porque conheci
homens sem idade com cara de cartão humedecido
amarfanhados pelos beijos dos netos que morreram
no mesmo dia em que as memórias
e eles disseram-me que essa puta primacial
ainda nos deixara a costela quente
a voz rouca de vez em quando
e a mão apertada contra o peito
assim um pouco dormente
todos os costumes de andar coxeante
para nos lembrarmos dela
mulher soturna com cheiro de terra e lábios de lacre.
hoje cabe-me a mim
dizer que sim
que somos filhos do firmamento
e os gelados dos turistas que se derretem
são os únicos que ainda me ouvem
pois só eles sei que choram
contra o chão
a sua carne própria
moldada à pressa
para escorrer mais avessa
a víscera branda da compaixão.
que não
as ondas de manifestação
da incandescência das horas
não têm fim.
e que procurar
o término dos ponteiros
a lâmina aguçada de uma agulha
a findar a recta que fundou
o horizonte
já tudo isso não tem
explicação
e que a determinação a tê-la
é um nado-morto falho
uma bíblia genuflexa
ao senhor do sem sentido.
cabe-me a mim dizer
aos transeuntes
com pernas de veraneantes e sorrisos
que lhes prendem as sandálias até aos dentes
que sim
houve uma puta que pariu
meio mundo
e outro tanto
só para ouvir dizê-lo.
sai mais cara a fama que o proveito
e o dela foi deliberado
a fama já não tanto.
isso sei-o porque conheci
homens sem idade com cara de cartão humedecido
amarfanhados pelos beijos dos netos que morreram
no mesmo dia em que as memórias
e eles disseram-me que essa puta primacial
ainda nos deixara a costela quente
a voz rouca de vez em quando
e a mão apertada contra o peito
assim um pouco dormente
todos os costumes de andar coxeante
para nos lembrarmos dela
mulher soturna com cheiro de terra e lábios de lacre.
hoje cabe-me a mim
dizer que sim
que somos filhos do firmamento
e os gelados dos turistas que se derretem
são os únicos que ainda me ouvem
pois só eles sei que choram
contra o chão
a sua carne própria
moldada à pressa
para escorrer mais avessa
a víscera branda da compaixão.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
carne poética
desfiar com os dedos
as estrofes brancas
debruadas em versos
não consonantes com
o palpitar sincrónico
das línguas.
se destino houvesse
para o despir
e pintar sem zelo
como não seria
sideral este cuspir de corpo
contra o tecto em
murmúrio oco
silvo obscuro que corta a noite
para comungarmos com mais força
das dissemelhanças
da imanência.
a minha contra a tua
a minha a ser a tua
diferença.
as estrofes brancas
debruadas em versos
não consonantes com
o palpitar sincrónico
das línguas.
se destino houvesse
para o despir
e pintar sem zelo
como não seria
sideral este cuspir de corpo
contra o tecto em
murmúrio oco
silvo obscuro que corta a noite
para comungarmos com mais força
das dissemelhanças
da imanência.
a minha contra a tua
a minha a ser a tua
diferença.
terça-feira, 9 de julho de 2013
se o cão ladra
chama-lhe
uma memória
por detrás do contorno redondo
de um prédio de esquina
persiste
em caminhar
e não contes tão alto
com tão soprada voz
os passos
a vida é só um purgar
de línguas contra os dentes.
assemelham-se os rostos
nas janelas e nas montras
os reflexos tenho-os
um a um guardados
no bolso
e depois o que calo
também mente
e só a luz do fim de tarde
na casa de alguém
já sem nome
é a única palavra certa
que distingo
e que me respeita
a visão turva
a mente
porta entreaberta
a deixar fugir eterno
o ternário allegro da eroica
prima sinfonia
antes do antes
de todos os tempos.
chama-lhe
uma memória
por detrás do contorno redondo
de um prédio de esquina
persiste
em caminhar
e não contes tão alto
com tão soprada voz
os passos
a vida é só um purgar
de línguas contra os dentes.
assemelham-se os rostos
nas janelas e nas montras
os reflexos tenho-os
um a um guardados
no bolso
e depois o que calo
também mente
e só a luz do fim de tarde
na casa de alguém
já sem nome
é a única palavra certa
que distingo
e que me respeita
a visão turva
a mente
porta entreaberta
a deixar fugir eterno
o ternário allegro da eroica
prima sinfonia
antes do antes
de todos os tempos.
segunda-feira, 8 de julho de 2013
introduzione alle quattro stagioni
a sonata é instituição
e eu larguei-a no esgoto.
estendo os braços para diante
e escondo a cara
colando à mesa este grito
tão decerto horrível
mas eu nem o oiço
mas nem eu o sinto
e cuspo às janelas
aos pés dos outros
faço pontaria à menina dos olhos
e rebolo na merda aquecida
para mim ventre exausto
da expulsão
sou o corno e o cotovelo
o extremo oposto e a curva cáustica
sem medo sem medo
germe encolhido na multidão
a pregar os próprios cravos
no pulso
para ser mais de acordo com a moda e a estação.
eu amo o nojo
eu sou o nojo
e faço dele
a cópula perfeita
para desgustação.
e se apetece chorar
e beber sôfrego estas lágrimas de mijo
é só porque no fundo não me arrependo
desta carne matizada de gangrenas
apenas do céu onde parida
ela foi deixada ao sol
para ser cozinhada pelo sal dos passos
temperada pelos dejectos dos pássaros
e por fim
sumariamente
imediatamente
sem escrúpulo nem espectáculo
comida
pelos beijos e abraços
da matéria fecal da vida.
e eu larguei-a no esgoto.
estendo os braços para diante
e escondo a cara
colando à mesa este grito
tão decerto horrível
mas eu nem o oiço
mas nem eu o sinto
e cuspo às janelas
aos pés dos outros
faço pontaria à menina dos olhos
e rebolo na merda aquecida
para mim ventre exausto
da expulsão
sou o corno e o cotovelo
o extremo oposto e a curva cáustica
sem medo sem medo
germe encolhido na multidão
a pregar os próprios cravos
no pulso
para ser mais de acordo com a moda e a estação.
eu amo o nojo
eu sou o nojo
e faço dele
a cópula perfeita
para desgustação.
e se apetece chorar
e beber sôfrego estas lágrimas de mijo
é só porque no fundo não me arrependo
desta carne matizada de gangrenas
apenas do céu onde parida
ela foi deixada ao sol
para ser cozinhada pelo sal dos passos
temperada pelos dejectos dos pássaros
e por fim
sumariamente
imediatamente
sem escrúpulo nem espectáculo
comida
pelos beijos e abraços
da matéria fecal da vida.
domingo, 7 de julho de 2013
passa tempo
um profundo zumbido nos ouvidos
na hora mais densa do silêncio
não serve.
não paga dívidas
não seca lágrimas
não regurgita à boca o coração.
de braços abertos
apenas cala o tecto manso em paisagens de luz
no fugaz lugar de estacionamento
onde as quatro rodas acertadas
da motriz vontade nossa
de vento
não mais revelam
as horas que são
e a cor dos olhos descerrados
frente a nós do outro lado
tão já abertos como os braços
para dar um nó menos lasso
ao corpo quente
embrulhado dentro de si mesmo
nas camadas finas
do súbito pulsar de cor de um momento.
se tudo o que digo
faz sinal subterfúgio
signo ilegal do que penso
porquê mentir?
na hora mais densa do silêncio
não serve.
não paga dívidas
não seca lágrimas
não regurgita à boca o coração.
de braços abertos
apenas cala o tecto manso em paisagens de luz
no fugaz lugar de estacionamento
onde as quatro rodas acertadas
da motriz vontade nossa
de vento
não mais revelam
as horas que são
e a cor dos olhos descerrados
frente a nós do outro lado
tão já abertos como os braços
para dar um nó menos lasso
ao corpo quente
embrulhado dentro de si mesmo
nas camadas finas
do súbito pulsar de cor de um momento.
se tudo o que digo
faz sinal subterfúgio
signo ilegal do que penso
porquê mentir?
sábado, 6 de julho de 2013
vacuum
o tiro seco que depois se converte em carne
aspergida na vidraça incandescente
sob os rigores do meio-dia.
tem os meus olhos
dissecados
guardados
já fugazes
no bolso interior
do casaco de um estranho que cruza a esquina
e dá para outra rua
o golpe suspirado dos passos.
finos
selectos
os suores
de caminhante indefeso
sob o clarão do futuro.
agora o que me espera
é a mão frouxa
a apresentar brancos os dentes
da repleta vida burocrática
dos papéis cadentes
sobre as ruas antigas a servir
de chuva sobre a estrada.
creio
porém
que escondi o que me roubaram
fiz véu
embrulho de alma como transparência
esses recortes de jornais
endereçados aos visionários e sós
que comem da malga da loucura a eterna ração
para alimentar ossos e enxugar lágrimas
torná-las correctas
bem-educadas
privadas
serenas
compassadas
aniquiladas
pérolas sobre a mesa a acompanhar as rosas
na sua cor de murcho
no seu odor
a presença inalienável
do homem deitado sobre a própria face
no reflexo aguado de olhos
outros seus sem nome
dançantes na parede despida
os tremores próprios dos pequenos lagos
no fim de uma estação.
aspergida na vidraça incandescente
sob os rigores do meio-dia.
tem os meus olhos
dissecados
guardados
já fugazes
no bolso interior
do casaco de um estranho que cruza a esquina
e dá para outra rua
o golpe suspirado dos passos.
finos
selectos
os suores
de caminhante indefeso
sob o clarão do futuro.
agora o que me espera
é a mão frouxa
a apresentar brancos os dentes
da repleta vida burocrática
dos papéis cadentes
sobre as ruas antigas a servir
de chuva sobre a estrada.
creio
porém
que escondi o que me roubaram
fiz véu
embrulho de alma como transparência
esses recortes de jornais
endereçados aos visionários e sós
que comem da malga da loucura a eterna ração
para alimentar ossos e enxugar lágrimas
torná-las correctas
bem-educadas
privadas
serenas
compassadas
aniquiladas
pérolas sobre a mesa a acompanhar as rosas
na sua cor de murcho
no seu odor
a presença inalienável
do homem deitado sobre a própria face
no reflexo aguado de olhos
outros seus sem nome
dançantes na parede despida
os tremores próprios dos pequenos lagos
no fim de uma estação.
inicia a estação
se bem que as noites de verão
também passam.
e eu sei que o que quero
a residir fundo nos meus poros
é fugir.
ainda agora recusei
o convite igual das noites
e caminhei só em maré de rua vazia.
não sei se para saborear apenas o doce
amargo da incisão
ou se o verter de pedaços de alma
como ente só faz mais sentido
quando sobre a nossa
repousa outra mão.
também passam.
e eu sei que o que quero
a residir fundo nos meus poros
é fugir.
ainda agora recusei
o convite igual das noites
e caminhei só em maré de rua vazia.
não sei se para saborear apenas o doce
amargo da incisão
ou se o verter de pedaços de alma
como ente só faz mais sentido
quando sobre a nossa
repousa outra mão.
outra vez manhã
apercebes-te que os sons da noite
são estes
inócuos pulsares de luz
e uma multidão de pernas para o ar
sobre o teu eixo de rotação.
e enfim segues
para casa que é caminho seguro
até te latejarem os pés
da alma com maior sangue
que veias
e no fim deitares à janela
as preocupações
feitas horas já tão velhas.
é o cantar de uma cidade
e tu não sabes bem
como se encaixa aqui a tua solidão.
deitaste por momentos a cabeça nos passeios
sondaste os pensamentos à calçada
tentaste determinar os fluxos esventrados de uma civilização
para encontrar mais frio o ouvido
seco o rugir monótono da centrifugação
dos passos em volta.
é o cantar de um corpo
e tu não sabes ainda
como findará este morto.
as teias
minúcias dos minutos mais marcantes
que se formam aos cantos dos olhos e da boca
ainda não conquistaram o perdão.
ainda são elas que sem nome se enleiam
e cruzam meladamente os nossos passos
prendem-nos contra o chão
sufocam-nos os ecos finos de um dia fresco
para nos entrarem nos ouvidos e repousar
mais sós dentro de nós.
sem elas e com elas
a solidão seria a mesma.
ouve.
o salto cai
num silêncio profundo de manhã em levante.
não foi gente
foram os teus olhos
que já voaram.
e o dia que se pressente
já não quer vingar
já nem se entende
não quer crescer e roubar
não quer beijar nem matar.
quer apenas ser dia
e se o sentido o habita
ele foge-lhe.
não quer alma
quer beber luz e quer ser findo
antes que o pressintam só
antes que lhe apertem o nó
e o tornem eterno.
são estes
inócuos pulsares de luz
e uma multidão de pernas para o ar
sobre o teu eixo de rotação.
e enfim segues
para casa que é caminho seguro
até te latejarem os pés
da alma com maior sangue
que veias
e no fim deitares à janela
as preocupações
feitas horas já tão velhas.
é o cantar de uma cidade
e tu não sabes bem
como se encaixa aqui a tua solidão.
deitaste por momentos a cabeça nos passeios
sondaste os pensamentos à calçada
tentaste determinar os fluxos esventrados de uma civilização
para encontrar mais frio o ouvido
seco o rugir monótono da centrifugação
dos passos em volta.
é o cantar de um corpo
e tu não sabes ainda
como findará este morto.
as teias
minúcias dos minutos mais marcantes
que se formam aos cantos dos olhos e da boca
ainda não conquistaram o perdão.
ainda são elas que sem nome se enleiam
e cruzam meladamente os nossos passos
prendem-nos contra o chão
sufocam-nos os ecos finos de um dia fresco
para nos entrarem nos ouvidos e repousar
mais sós dentro de nós.
sem elas e com elas
a solidão seria a mesma.
ouve.
o salto cai
num silêncio profundo de manhã em levante.
não foi gente
foram os teus olhos
que já voaram.
e o dia que se pressente
já não quer vingar
já nem se entende
não quer crescer e roubar
não quer beijar nem matar.
quer apenas ser dia
e se o sentido o habita
ele foge-lhe.
não quer alma
quer beber luz e quer ser findo
antes que o pressintam só
antes que lhe apertem o nó
e o tornem eterno.
sexta-feira, 5 de julho de 2013
Eusebius und Florestan
é um jogo de espelhos
entre o contraste já morto.
eu e tu de joelhos
face a face.
o último que cai
tem no peito a mão do outro
ou o indelével tacto da manhã.
dentro do mesmo ventre de terra
as raízes que nos deram o nome
fogem de nós
em silêncio
para sabermos que por fim
contemplar o fundo dos olhos dos outros
é tocar o selo do universo.
tão côncava a voz distante
daquele que nos deu
em véu a noite.
entre o contraste já morto.
eu e tu de joelhos
face a face.
o último que cai
tem no peito a mão do outro
ou o indelével tacto da manhã.
dentro do mesmo ventre de terra
as raízes que nos deram o nome
fogem de nós
em silêncio
para sabermos que por fim
contemplar o fundo dos olhos dos outros
é tocar o selo do universo.
tão côncava a voz distante
daquele que nos deu
em véu a noite.
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