sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Pensar que esse cedo

Pensar que esse cedo
teve dentro dele
o carcomer inibido
da mobília de casa.

Como nos ríamos
com gelado a verter-se
de derretido
entre os nosso lábios.
Como se isso fosse puro quadro
e fosse o sol o pressentimento
de uma manhã sempiterna.

Pensar que de ti restam
vestes desperdiçadas,
trapos de deuses não orados.

Pensar que a brisa na janela
cheira a ti e ao canteiro da rua.
E isso ser retiro proibido
para almas dormentes,
para queixumes esfolados, esventrados,
estiolados na exaustão prematura
de um silêncio.

Apenas o teu sopro
canta,
ao longe.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

vá que o destino é lento

vá que o destino é lento
e a carne é fraca.

desse tecido alvo de madrugada
estendido sobre os tectos
da cidade deserta
descobre-se da quarentena
o milagre caritativo da morte.

vá que a hora permanece
e a voz cresce sem dentes que a comam.

desse eterno situar de estrelas
temos a mãos apartadas,
unhas de encontro ao céu
da noite e o que é sideral
de mim pulsa, o quente
verter de alma do assassino.

vá que tudo é ser cego e ser crente
e o caminhar de nós tem sede.

sem te invejar do rosto
a alma, tenho-te o centro
perpetuado no meu.
se foste retrato, moldura caída
na brisa do jardim em chamas,
agora não mais se te queima o olhar.
esse leve bater de asas que temos dentro
deu-nos o nome.

de mãos dadas
caímos.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

que essa veia de aflição escura

que essa veia de aflição escura
que te corre em alvo pescoço
não te cerque e iniba.
não te cerceie os pensamentos vis
de noite.

hábil manejador de espelhos
esse teu reflexo de olhos
contém ínfimas areias de eras
incididas sobre elas mesmas
multiplicadas.

hoje tu, amanhã o velar prolongado
de outro. depois cismas
gigantes como rios dentro de nós.
essa fractura de chão e de terra
lascada no crânio.

o ser uno que se outra
torna-se o ritmo vulgar do contratempo.
é o arrastar do passo no lajedo,
o omnipresente sentido do que existe
dentro.

numa praça deserta, este chapéu
sem chuva guarda duas sombras
desiguais. o morto e o inventado,
vertendo de si o vácuo da duplicação.
e eu qual deles?

domingo, 23 de dezembro de 2012

esse levar de vento

esse levar de vento,
essa brisa suspirada que tem bafos de povos
esperançosos no persignar
de dias adiados.

como eu invejo as frugais horas
das naturezas mortas despidas,
na sua pose de retratos mudos
e ensaguentados vociferares
de pêras e maçãs em taças de cobre.
somos silêncio e queremo-lo.

ouve. verenero-te. em encanto
o teu chamamento é oculto.
tens na mudez do teu gesto
a sombra púrpura de um convite
e invejo-te o ser e os lábios.
queria-los nos meus, o ser também.
e calmo caminho, nesse ventre suspenso
que se desenha em estrelas.
o auguro profano do prazer detém-me os passos.
olho e reflicto.

tu, ali na esquina, em espera.



sábado, 22 de dezembro de 2012

Vejo-te ir, e agora?

Ó tu, sim tu!
Tu que ainda agora me falavas,
me bocejavas insignificâncias do teu presente
e eu a ti do meu presente soprava
a nulidade dos seus dias,
Tu! Estava a falar contigo.

Tu, que agora viraste costas,
assomou-te o interesse de outro interesseiro,
respondeste-lhe com o vigor desnecessário
da salvação a um aborrecimento.
Tu, vergonha das dialéticas discurso-argumentativas,
tu, volta já aqui.

Ainda não acabara a minha tese.
Ainda não fora o momento de findar
o dia sem lhe dizer, perante o dia como juiz
que este eu que sou
se exalta com pouco.
Que este eu que sou
tem doenças e é paranóico
e um dia agarra numa pistola,
desce ao cais do sodré
e mata algum desapercebido bando de transeuntes
que infeliz não fez nada por merecer da vida
a morte insolente de um contrafeito, de um ressabiado.

Tu, sujeito, sabes bem
como todos os da tua laia,
que assim perfazem todos os que conheço
e que em alegorias sarcásticas enumero como amigos,
sabes que virar-me costas é desígnio santo,
é o cumprir das eras, do rodar obstinado dos ponteiros.
Virar-me costas é ser destino,
é tirar-me o suco de um conversa, morna ou fria,
ou quente que seja,
e seguir o que deve ser seguido,
a anulação de bestas inoportunas como eu.
Esse tédio injectado nos meus olhos
resplandesce agora à luz dos candeeiros.
Eu, encostado a este poste
rezo baixinho maldições e conjuro maus-olhados,
eles literais e inteiros, porque o vesgo dos meus olhos
é sincero e por isso, lá está, é mau
porque o quer ser.

Tu, ridículo, mas não mais do que eu,
Tu! volta-te indecente e encara-me
para te dar um murro de vez,
soltar-te o dente brilhante,
inchar-te a face luzidia.
Tu, que sabes tão bem como todos
que não comunicar comigo
é espalhar flores e charme, e perfumes
canforados em amaciados cabelos
imolados de vez da réstia maçadora
do aborrecimento que o meu palavreado sopro provoca.
Tu, suplico-te em compaixão, vive e não te lembres
do meu rosto.

Assim talvez se cumpra,
com a alegria inesperada
de quem acorda no dia de natal
e não se recorda dele senão quando vê as prendas
aos pés da cama e o sorriso dos progenitores,
assim talvez se cumpra o destino
mais cedo que o destino,
e o universo solte um gritinho excitado de criança,
um apito perturbador de contentamento e êxtase
ao saber que por fim
jaz inócuo e esquecido
o importuno maçador de gentes,
o revoltado contemplador de costas,
o insuspeito perseguidor de nomes e conversas alheias.

Jaz ali,
nessa poça meio pegajosa e meio escura
essa cabeça que tanto e tantos trucidou,
mas em metade, que a outra,
a outra ninguém jamais a devolveu e montou peça a peça,
agora que dispersa escorre com pictórico modernismo
pela parede silenciada pelo espanto.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Caminhar Permanente VII

Adormeci
nessa viagem de comboio
a um centro qualquer, mais dentro
de mim que antes. Ainda que longe.

Que dores de cabeça,
que náuseas, cheiros vis
que ressoam em passos chapinhados
e vozes excitadas no clarear do dia.

A agradabilidade da viagem
perdida. Há um oco,
uma falta constante dentro do meu crânio.
Sinto que o perecer não é mais
do que esta decadente deslocação.
Nem há sol que nasça hoje sobre o Tejo,
toda a neblina condensada neste enjoo molhado.

Quando chegar a casa ainda haverá a manhã
ditada pelos ponteiros intransigentes
do relógio da estação,
mas sei sempre que para mim será
incontornavelmente tarde.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Vagamos à toa

Vagamos à toa
no declive de um poema.

- Que significam
os teus modos
de ser?

- Essas palavras
caras e ocas,
que querem elas dizer?

No escuro
desenho rostos vazios.
Com braços que se agitam,
a língua entalada nos dentes,
os olhos abertos na penumbra.
Rostos que não conheço
tomam vida
ante mim.

- São estes os teus poemas?
A carne frouxa de um fingidor?
Um artista cobarde
sem veia que o salve?

- São estas as tuas vozes,
os teus rostos? A lira desmembrada
de um vazio vulgar?
Um quotidiano que aterra e nos suprime?

- Onde está o teu sentido
de ser? A tua alma
não te rompeu o saco maternal
do repouso?

- És este simples esgar de súplica?
O lugar-comum das eras
estilizado até à exaustão?
Um vácuo inaudível de ser?

Círculos em elipses,
elipses sincopadas em estrelas,
estrelar de fusas e colcheias mortas.
Brilhante dizem as passagens difíceis da partitura,
sublime diz o público dormente e desatento,
tísico, maledicente
corroer de alma
engole o pianista.
Uma flor negra e murcha,
no ponto mais podre que conhecemos,
dentro dele e de nós.
Não há lágrimas
que se equivalham a essa flor,
a esse tormento, a essa oferenda
maldita dos deuses alienados.
Prosseguir os dias todos
com o cheiro fétido
que exala das pétalas gastas
desse vil ser herbáceo
que se enraizou no nosso peito,
que sulcou tecidos com penetrantes membros
de vegetal,
e nos transformou em seiva envenenada
o diáfano crer das manhãs.

Sei-te

Sei-te
na bruma.
~
Ainda agora
esse murro que me espetaram,
esse ódio que me cuspiram,
ainda agora te vi aí.
~
Estática,
mãos juntas num aperto
de frémito. Rosto de silêncio
ansioso. Olhas-me com o raiar
sanguíneo de uma força
indelével.
~
Esse crepitar sobrenatural
que te assola.
Essa brisa que te ruge nos vestidos
sussurros, mentiras, profecias.
Insufla-te o apocalipse
nas veias do pescoço,
sodoma e gomorra
sob uma chuva de fogo
dentro dos teus lábios
convictamente cerrados.
~
Macabra
a existência.
Macabro este doer profundo
que é não só de ossos que quebram,
de cortes que esguicham,
de sangue que lateja.
Doer profundo
que é ver o teu reflexo
junto a mim.
Saber-te o som da tua voz
muda.
Sondar-te o pensar
de espectro.
~
Com as horas
somos,
um pouco menos.



Amanhecer

Aquece, porra, aquece!
As mãos que se esfregam em demasia,
até se descolar a pele, até
ser carne viva.
As mãos, que paralisaram nesse inverno,
estão voltadas de encontro ao sol
que desponta.

Aquece!
Nessa manhã pálida
de sílabas mal pronunciadas,
nesse tiritar da madrugada
inconsciente, esfregamos em nós
o sabor obsceno das nossas mãos.
Repetimos ladaínhas secas
ao agreste espírito invernal
dos murmúrios.
Aquece, porra!
Silêncio.

Algum corpo
despido
balança nesse eco
descompassado
de uma morte omnipresente.
Uma dança macabra
no centro de um turbilhão
em repouso.
Algum louco?

Como distinguir
entre o azul denso
de um despertar prematuro
as feições abissais
daquele que sucumbe?
Como lhe discernir
de entre o agitar sórdido
dos gestos e membros
a constância familiar
dos nossos arremedos?

Um raiar que não aquece,
e uma janela
que tem vista para os pesadelos
íntimos
da nossa fauna espectral.
Um amanhecer sombrio,
cadáver dele mesmo.

sábado, 8 de dezembro de 2012

De mãos vazias

Nessa madrugada estática;
nesse sereno dia
do indelével traço perfumado das horas,
fugiremos daqui.

Fugiremos da cidade
para o distante, nunca
o perto.

Encontraremos, entre
os recônditos cantos
de um país que adormece
um nosso canto soalheiro
e sobre ele dormiremos
finalmente.

Um dia
teremos corpos próprios
com vozes próprias,
e entre o nossos risos
nascerá um plano que nos salve
da morbidez dos dias.

Seremos quem nunca fomos,
em passadas rápidas e irregulares,
um viajar de vento entre
os nossos cabelos
como semente de árvore desconhecida
que flutua sobre os montes.

O incógnito por nosso pai
e a aventura por mãe.
No desconhecido
aberto da aurora
tomaremos por nós
a nossa essência
e beberemos da paz secreta
que inunda os olhos
semicerrados do entardecer.

Nessa madrugada imóvel,
encheremos os pulmões da brisa do mar
e subiremos ao cume de nós.

De mãos vazias.

Caminhar Permanente VI

E olha que  o céu
traz em si a marca do justo.

Não te agonizes em vão.
Tens a vida toda pela frente,
fingindo ou não.
Ela é tua
e tu pertences-lhe,
como se na mão dela
tu fosses os seus contornos ziguezagueados,
os sulcos profundos que um chicote
de neve e fogo pálido
escarafunchou.

Andas viajante
por estradas e ruas sempre novas,
sem saberes de ti no meio delas;
de ti, ente vassalo
das vozes discricionárias
do instinto.
Passo após passo,
nova bolha e novo calo
que te nascem no fofo do miolo
e se te inteiram do corpo todo.
Há quanto tempo
te vejo eu,
vagante incrédulo
das nuvens?
Há quanto te oiço
o cuspir desabrido,
o retesar despropositado
dos teus fantasmas
ante o novo e incerto perigo?

Arrastado
como o teu inerte sentido
da hora,
cai o nevoeiro prematuro dos dias.
Desce o lençol de cinza.

E olha que  o céu
traz em si a marca do justo.

Abri a janela de par em par


Abri a janela de par em par.
A humidade penetra-me os ossos
e o respirar contínuo do tempo
é o meu, no acaso.
Oiço vida nessa rua sinuosa
dentro de mim.

Se me questiono
que ferver de alma é este
sei que a resposta é simples.
É a febre dos enfermos,
o cáustico madrugar dos que morrem
na combustão miraculada
de uma ideia ilegível.

Procurei de mais,
em todas as noites, todas as ruas,
a face desse medo,
os contornos imutáveis desse desígnio
fixo do pensamento.
Olhei por demais para rostos múltiplos,
para olhos frios e bocas silenciosas,
de uma vida que não partilha a minha.
Sempre a transparência interposta
de um qualquer limite físico ou mental.
Sempre a mão esticada, no alcançar disposta
sem sentir o toque cálido
de uma terna pulsão exterior.

Que é essa febre que me consome então?
Que me faz tossir a altas horas da madrugada,
expelir pulmões em arrepios eléctricos de suor,
procurar o quente abrasivo ante um frio aterrador?
O que é uma ideia, ela mesma?
O que é a soma das vontades?,
e a minha no meio dessa soma, sem saber se é vontade
porque não sabe para o que tende,
para o que conduz, para o que quer.

Se me debruço na varanda
olho quem passa com arrogância, talvez.
Não sei o que me vêem nos olhos,
os que os sondam em aflitivos esgares.
Na verdade não é a arrogância que os habita,
é o vazio.
Os olhos estão vítreos, congelaram de tanto
haver.
Perseguiram em demasia um contorno disforme
de alma,
e perderam-se nesse voraz caminho.

Sem retorno
sinto que fujo
e que permaneço.
Dói de mais pensar
no que sou. Dói de mais
ser, sem entendimento,
o fervente louco contrafeito
das diásporas mundanas da omnisciência.

06-12-2012

Da insónia


E se partilhássemos
esta insónia estagnada
entre nós?

O rigor soçobrado
de uma madrugada fria
impõem-se. Dentro
desse ar gélido
uma sempre irregular teia
de pensamentos
habita.

Perseguições inoculadas
de uma mente
em perpétuo refluxo.

Não sei se o que oiço,
nesta hora prolongada,
é a angústia existencial
de inebriadas bacantes,
ou o retinir monstruoso
dos vultos outrados de mim.
Um ecoar fantasmagórico
preenche as ruas desertas
do inconsciente.
Esse som de coro,
essa voz de legião,
é um arrepio rasgado na similitude
entre mim e os meus múltiplos.
(Quem pensa verdadeiramente que pensa?
Quem dá ao mundo um novo laivo de incerteza?,
um criar inédito, um cortante novo grito
que dilacere o ruído branco profuso
que nos nasce dos poros
da decadência?)

Não há o novo;
a insónia sempre foi esta
e não outra nova insónia
de redenção.

Os olhos abertos da noite,
que chamam um sono
mais profundo que o sono,
tecem rezas em línguas mortas,
nos dialectos mudos
que só o movimento
milenar dos astros decifra.
É como se pedissem
às coisas
que existem
um tipo de paz perpétua diferente.
É como se puxassem
das almas
alheias adormecidas
os subtis fios dourados que lhes pendem
do imperscrutável sentido do eterno.

...
E depois
disto adormecer finalmente
para o dia.
Após a vigília forçada,
pensar que se sonha
enquanto se caminha,
que se gravita no etéreo esvoaçar onírico
da mente
enquanto se vive.

...
Tenho ante mim o sol
e acredito nele
como numa história mal contada.
Consigo capturar-lhe
os contornos perturbados
do desfasado do meu rosto.

Tudo isto que sou
mente.

07-12-2012

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A Verdade


"A teus pés,
sinto o clássico fluir
do firmamento.
O seu sabor salgado
pelas terminações vivas
do mar cantante.

Amo-te, sem mácula.
Quem somos nós para
nos amarmos, reciprocamente?

Qual o diáfano desígnio
do verso ateu
que nos juntou crus, em escassa hora?

O meu peito
em incêndio vasto.
O comburente carnal do teu corpo,
o espírito vivo omnipresente.
Não pensar, num singelo momento,
no aperto frio da aurora,
na madrugada titubeante
que nos dilacera.
Crer que tudo
é, sem tempo que nos finde,
o desejo um do outro."

...

Como sabes, minto
assertivamente.
Como sabes, sofro
desse esquema mental degenerado
dos que se renegam a si mesmos
a evidência profana
do autêntico.
Como sabes, vagueio
em encostas molhadas
de consternação. Sou o
espírito falhado das eras,
o costume em repugno,
o eremita das paixões latentes
da carne própria.
Como sabes, narcísico
hedon da hipermodernidade,
sou um retiro ensaguentado
de mim. Veias pujantes
que me circundam as vontades,
a rede torrencial dos medos
e das paixões principiam
e findam
nessa linha intemporal
do ego.

Como sabes, a praia deserta,
as gaivotas dispersas,
a areia nos teus cabelos e nos teus seios,
é a efabulação dionísica da minha mente.
Nada disso é, realmente,
porque nada disso o quer ser,
em verdade.
Essa esfera outrada que criei em mim,
esse círculo profundo carregado
dos minérios essenciais do meu sentir,
é uma brutalidade consumida.
É a minha cicuta matinal,
o meu raio de sol cancerígeno,
o meu picar letal
de amores residuais.
Esse efabular mágico que te cria,
outro, que te autentifica,
outro, nesse ser que se molda
na distância dos meus dedos,
essa criação é resina inalada
do abraço próprio.
É, sei lá, a mordida inesperada
que um cão raivoso fabrica
no seu apartado dorso.
A autofagia crítica
dos que sem metades para amar
se amarram ao todo rarefeito.

05-12-2012

murmúrio


(Sinto que desenvolvo o sentido preocupante da paranóia.)

Talvez os poemas sejam isso:
o excretar físico de emoções.
A contemplação difusa
do assoberbamento diário.

(Por que me olham assim?
Mais valia ter uma placa que diz:
"Eu não faço mal!")

A minha vida sempre um não rotundo.
Grande e inegligenciável.
Esse não que como nuvem negra
me persegue todas as tentativas
de contacto humano.

(Só gostava que às vezes
as pessoas não reparassem em mim
pelo que não sou.)

Como tecer comentários
à ausência? À inexistência?
Todos são bons, e grandes e conhecedores,
e deixam isso bem claro.
Deixam bem claro que nós
somos fez, poia com membros
que não fala, regurgita,
que não pensa, imita,
que não vive, apenas esperneia
nulidades latentes.
Cada vez mais esses olhares de soslaio
me convencem
de que sou isso mesmo,
um cocó com um metro e setenta e três,
que o meu cheiro me faz boa jus ao aspecto.
Que não tenho pensar meu,
sou o reciclar de tudo o que vejo e oiço,
o condensar estúpido de um mundo
talvez ainda mais néscio;
mas que importa?
O que importa é sermos nada,
isso é o que importa aos outros.
O que importa é não nos darem crédito,
o que importa é poderem espezinhar-nos,
o que importa é sermos eterna caca.
Se o mundo o quer, quem somos nós
para lho negarmos?

(Ainda mato alguém
nem que esse alguém seja eu.
Ainda atiro uma pedrada despreocupada
ao próximo que me olhar
e não limpar desse olhar
o vulgar sentido da crítica.)

Estou por demais eléctrico, quero sair.
Mas não tenho como.
Como companhia apenas me garanto
a minha própria solidão.
A verdade é esta,
eu preocupo-me demais
com o que os outros se preocupam de menos,
comigo próprio.

Estou a ponto de desejar
uma única coisa.
Pode ser o meu próximo augúrio
frente ao meu próximo soprar de velas.
O meu augúrio eterno, este.
Encontrar entre as mentes
a mente que oiça.
Que me atenda
ao toque singelo do desespero
as inquietações.
Uma mente que eu oiça,
e que eu compreenda, que me fascine
pela sua simples existência.
Estou a ponto disto,
de cair num lugar-comum sem retorno,
ante a célebre evidência
de que o nosso caixão
contém apenas um ser.

Apetece-me gritar,
barafustar com quem não devo,
acelerar relógios
e empurrar velhotas pachorrentas.
Bater com a cabeça num muro,
e esfolar-me todo sem ressentimento,
abanar desabridamente uma moça insolente
e apontar o dedo do meio aos soberbos da vida.

Ninguém tem culpa,
a culpa é minha por me querer
a viver cada dia após outro.
A culpa é minha por querer ser
eu em vez de outro.
Mas eu não sou ninguém,
não tenho caixas, nem gavetas,
não tenho roupas, botas, penteados e carros
para me situar no escadote social.
A minha etiqueta foi arrancada à nascença
sem ela perco-me, e os outros perdem-me.
Para eles a minha face tens as feições
de um picasso. Não sabem o que é.
Tenho a boca torta e os olhos vesgos.
E o meu nome...
Bem, não tenho nome. Não tenho conceito,
não tenho ser.

Tenho corpo
e será que isso basta?

Elogio do Riso


Rir
é ler baixo
um livro que não se gosta
na esplanada exígua de um café.
Admirar a pintura não intencional
dos jogos de outono
ou o casal de namorados
que se degusta em expiação.
Há que empurrar os nossos males,
os pesos aleijados da culpa diária,
de um para o outro, pela língua torta,
pelos lábios carentes,
pela saliva agitada em maré.

Rir
é contorcer na cadeira tosca
um corpo dormente. Sem toques
que nos ecoem a necessidade
de nos humanizarmos
constantemente.
É admirar da areia
os grãos finos do incómodo
ou da chuva a humidade ligeira
do retorno.
Espalmar um mosquito sem piedade
ou rezar odes ao vento que passa.

Rir
é espirrar sem pôr mão à frente
e consternar a senhora do lado
ou o vizinho oblíquo.
É libertar no muco desse espirro
os sonhos dourados da levitação feérica
de um espírito omnisciente.
E é perder nesse espirro
qualquer inspiração pura
de esboço de um novo dia.
Assim que vem, como coisa prematura,
se esvai a musa fria
sonegada pelos dedos puídos de um criador furibundo.

Rir
é amaldiçoar
com palavras bem mais fortes que "amaldiçoar"
quem nos deu a mama do mundo.
Quem nos colocou a boquinha ingénua
na fonte bojuda da criação.
É mostrar o cu e a pila
aos pais dos nossos ancestrais,
aos telúricos movimentos dos corpos
sombrios que desconhecemos.
Tudo porque não somos
o que não nos esforçamos ser.
Tudo porque almejamos a aliciante glória grega
sem retirarmos os pés macios desta cadeira,
verde e velha de esplanada,
enublada pelo fumo de um cigarro alheio,
ou pela miopia própria de quem só vê
ante si o seu café e o seu ser.

Rir
é isso, senhores.
Enfiar uma arma
na boca descerrada.
Contar até três
e premir de entre os sonhos
o verdadeiro:
escolher como desafio
o contornar maroto do destino.
E levar, insuspeitamente, com ele
na testa vazia, no cérebro adormecido.
E depois não ter mais esplanadas de café
exíguas e barulhentas
onde submergir o nosso riso.

05-12-2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Caminhar Permanente V

à conta de nos vermos sós -
essa é a rua deserta onde passos retinem -
à conta de nos vermos sós
calamos.

dentro de mim
vozes
mais altas, mais pujantes,
mais violentas
que eu.

à conta de nos vermos sós,
ouvimos os passos lá fora,
em baixo, junto ao chão.
a rua deserta.

dentro de mim
o arco do candeeiro
rarefeito
em luz branca.

à conta de nos termos sós.
definhamos. perecemos.
o cheiro da madrugada
dentro dos nossos ossos.
esse branco do inverno
em silêncios compassados.
neblina nos nossos olhos.
neblina nos meus olhos.
o fustigar de uma brisa
contra a janela.
o ecoar de um sopro
no vazio.

o luminar triste
desse sol premeditado,
morto.
banha-nos a face
mas não aquece.

à conta de um eterno sentir,
um eterno ressudar.
um eterno definhar.
um eterno entardecer.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Beijo-te as mãos amenas


Beijo-te as mãos amenas.
O dia é morno e as tuas mãos
cálidas nesse dia. Nesse beijo.
"E hoje não chove" dizes-me.
Eu apenas beijo o sol aberto
que raia entre os teus dedos.
"E hoje cansei-me de andar"
desabasfas-me.
Eu não sei que é isso, andar.
Dentro das tuas mãos flutuo.
"E hoje chorei sem razão nenhuma"
confidencias-me.
O que são lágrimas? O vento transversal
da fruição seca-as, leva-as pelo horizonte.
"Não me ouves? Que credo esse o teu"
é a minha fé ensimesmada.
"Não deves ter mesmo amor próprio"
tudo o que tenho são vísceras latentes
de ti, cantarolando melodias sem sentido,
ante a montra aberta de um café.
"Larga-me. Deixa-me. Olha-me."
Visto de perto, o teu rosto.
Vejo nos teus olhos os meus
e a contemplação arrepiante do vazio
encerrada neles.
Perplexo, entre o vapor de uma chávena
e o soar de uma buzina.
Perdi-te as mãos na alvorada
de uma primavera tardia.
O barco que nas vagas se perde
dançante fixo, no profundo abissal
do teu ser.

É tempo de te perguntar, crente


É tempo de te perguntar, crente,
que pensas tu, quando passas na rua
e me olhas?

É agora que todo esse enigma
redondo e aviltante
se deve expôr em traço nítido
ante nós.

Que paira nessa mente?
Um passeio à Bica, ofegar pelo Chiado?
Um assento alheado no Rossio?

Quem me dera não ver tanta gente de vez em quando.
Tanta gente nova e diferente,
tanta gente que não eu, fora
da minha vulgar redoma.
Gente com olhos e vozes enfastiantes.
Gente que nos perscruta a mente,
ou os cabelos levantados pelo vento.
Gente que nos avalia e palra sem
condensação.
Gente cujas vozes se elevam alto
para serem mais e mais compreendidas
face ao rugir dos motores e ao trinar do eléctrico.

Tanta gente
e tão pouca.

O relevo de caras e corpos agasalhados
é a profusão diária dos meus pensamentos.
Tão pouco importa,
tão pouco releva, se abstrai do mundano
e me acena.

Tão pouco
e tanto.

Rumei onde me querem,
porque não sei eu o que quero.
Nesse caminho há sempre, um dia de cada vez,
alguém de cada vez.
Alguém olha e não desvia o olhar
antes de anular feições e perigos.
Mas que momento esse,
eu onde não sei se quero estar,
não sei se quero ver quem me vê.
E o que vê quem o faz?
O que realmente lhe perpassa
pela entranha enovelada do miolo?

Oh, porquê perguntar quando sei
que não lhe passa nada. Nada de novo,
como não me passa a mim há muito.
Tudo o que se vê é rapidamente engolido
por essa cegueira galopante
da memória curta.

Frente a uma qualquer paragem há possíveis passageiros.
A espera é deles como sempre foi.
Quem passa tem passos também e não espera.
Esse é o desígnio dos nomes,
o destino do mundo.
Porquê contrariar, com sacudidelas da mente
o jorrar contínuo dos tempos?

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A perda de um rosto


Se esse tremer for de choro
detenho-me. Que é esse soluçar
forte que te asperge ranho
sobre os lábios finos?

Alguém caiu e bateu com a cara no chão.
A gravidade a chamar a si a beleza alheia
que passa insolente na rua.
Humilhando madames e coquetes,
homens galãs e crianças mimadas.

Apre, sacana do destino!
Quiseste consumir os prazeres levianos
da expectativa,
retirar de nós a produção divina
da rara estética.

E o mundo fica mais triste?
Face à feiura nova de um ente perdido
o mundo não se compadece.
Não se entristece; ri talvez!, mesmo.
Agora és um de nós, meio enjeitado
sentirás o fel da rejeição humana.

Toma um lenço, pobre alma.
Limpa esse sangue. Essa cana do nariz
desperdiçada, esse olho rompido.
Tudo isso agora serve-te de nada.


Não chores. Não te resignes à dor.
Levanta-te e persegue, desfigurada,
as portas abertas de um destino novo.

O cabrão que te abandonou,
que te cuspiu nas pedras redondas da calçada
e não te segurou nessa queda,
morreu.

Hoje porém há sol, e há carros que passam,
e gente feliz com sacos pela mão.
E gritinhos eufóricos, e pais alegres
com risonhos petizes a engordar para a ceia de natal.
Torna-te um deles, vai!

Mas cospe antes esse dente solto que pende nessa boca escura.

28-11-2012

domingo, 25 de novembro de 2012

Ante a sórdida esquina

Não pares aí fora.
Não pares nessa sórdida esquina,
deformada circunscrição da realidade sonora.
Não detenhas os teus passos
no cruzar macabro de um desconhecido incomum.
Não, não te fixes diante do húmido
cair latente das sombras traçadas.

Vejo-te estranho, da janela de um quarto
que não é meu. A rua não é minha.
Eu não sou eu.
E, no entanto, o ritmar inconstante do teu caminhar
denuncia-te o velado cisma que te percorre
os veios mentais. Olhas e vês
em tudo um medo presente.

Tenho a afeição desnecessária por quem padece
dos males fortuitos da existência;
um desses, o de ser somente
a fuga em suores frios
e febris arrepios espinais.
Como eu sei que sofres, estranho caminhante
nesses passos mudos
do outro lado do mundo.
Um vidro entre nós,
e um universo inteiro,
não abafam o inerente
decair da compaixão.

Percebo-te, mais do que tudo,
nesses olhos que fitam as ruas pela
derradeira vez de um relance.
Sei que o tempo
é-te pouco,
escasso na sede condensada
de viver.
Esse desígnio
que as forças ancestrais de um destino oco
te imprimiram na testa determinística
do advento,
esse desígnio consome-te.
Sabe-lo como te sabes a ti mesmo,
acabado.

Mas peço-te,
não pares na irresolução vazia
de te achares resolvido.
Não pares nesse dobrar de rua
que é um dobrar de vida,
nessa esquina oblíqua do medo,
contando as horas que vagam
até ao teu exclusivo juízo final.
Não estanques as dinâmicas incompletas
que te forçam a brotar dos pulmões
ar tardio,
e a absorver das coisas
cheiros novos frementes.
Não te assumas
uno, completo, finito, acabado, circunscrito
perfeito.
As arestas bicudas do edifícios,
linhas contínuas de corte e mutilação,
almejam-te o cerne.
Não lhes abraces os rigores
de sacrílegos sacrificantes intemporais.
A sua imolação irredenta
de emparedadas almas ancestrais,
não te vale a espera hedionda
nem o escorrer suado
da superficial aflição
do vazio.
.



domingo, 18 de novembro de 2012

Do limbo

depois de te atirares de uma ponte
depois de te enforcares em pêlo
depois de dares o tiro certeiro
depois de engolires a última lâmina


contenta-te
benze-te diante de teu buda sentado

cruza as pernas
cingidas na comoção
do sossego

agora és tu
e mais quem
dentro de ti?



sábado, 17 de novembro de 2012

Caminhar Permanente IV

Alguém corre lá em baixo,
na urgência desconhecida
da salvação.

Sim, o medo latente
da perda. Sim,
o enxofre visceral
dos terrores interiores.

Sim, fugir disso,
como se foge da própria pele.
Das paranóias redundantes
de um medo latente.
Fugir de nós,
de encontro ao outro,
inocente, desfasado, anónimo
transeunte incompleto.

Não hesitar, não bastar
o tempo que falta. Não
bastar o corpo a decair.
Ir de encontro ao abismo
ante o desígnio forçado
dos deuses.

Cumprir o desafio da existência
levado pelo próprio pé
na sua própria atribulação.

É isso que quem corre
busca.

Afinal não,
corre apenas para apanhar,
com um óbvio desespero,
um óbvio autocarro.

Ode ao quotidiano

Não te eternizes
no virar da página

às tantas ainda apanhas
com a saliva desleixada
de um dedo rastejante.

Não sejas o herói
concreto dos tempos
pós-modernos

às tantas ainda
disparam sobre ti
por sobrevoares sem capacete
o a torre da igreja.

Não queiras ser
o queixume do pivô

as notícias da televisão
envelhecem-te a pele
e dão-te a cintura
de um cachalote tresmalhado.

Não te faças
aquilo que não és

dentro de ti a réstia
de miséria descansa arredada
esperando os dias calmos
do armistício com o quotidiano.

Tenta por isso
levantar-te cedo
ter trabalho a horas fixas
ser pago a dias fixos
montar a mulher a noites fixas
comer bifes em restaurantes fixos
conduzir em carros fixos
por ruas estreitas sempre fixas
despejar o lixo nos momentos fixos
e verte-te ao espelho

nessa hora morta
em que o cansaço te cega
as órbitas moles e fluídas

elas e tu
dentro desse olhar
sempre fixo.


Esse amuleto

Esse amuleto
que trazes no peito.
Cavado nos interstícios
das tuas crenças.

Essa fonte de inconformismo
e resignação.
Solene paradoxo
do ser pensante.

Algum dia o ponderaste
desirmanar de ti?
Atirá-lo a um esgoto
sequioso de ideologia?

Algum dia te despiste
de ti mesmo?
Algum dia te esqueceste
de ser a face reconhecível
do teu eu?

Penso que não.
Incrustado na pele,
latejando pelas horas
vivas do tempo,

permanece o teu amuleto
regurgitante de emoções vastas,
de diárias contemplações
idílicas da verdade universal.

Ele dá-te as respostas
e tu dás-lhe a carne viva.
Simbiose perfeita
entre o profeta e o seu cajado.


terça-feira, 13 de novembro de 2012

O aperto


Foi ao vestir a camisola apertada,
num trejeito desleixado de quem sufoca
que sentenciei na impaciência:
"Isto é para outro ser que não eu!"

Não, de facto, a camisola não era para mim,
era para o comprador anónimo, de tamanho
médio, que paira  numa loja à procura
das vestes com que se aquecer.

Não era, de facto, para mim
essa camisola, e essa loja, e essa
máscara de comprador de tamanho médio.
Não era para mim esse tempo.

Penso em quantas camisolas apertadas
e largas vesti em desespero de causa.
O término da alfaiataria mental
deu-me cabo dos esquemas ideológicos.

Nada se ajusta, digo eu.
Nada te fica bem; isso não é a tua cara.
Nenhum apetrecho da vida se me encaixa
no orgásmico enluvar da junção perfeita.

Vou recorrendo aos pequenos incómodos,
pequenos apertos, pequenas comichões,
pequenas abrasões e pequenos desafinos.
(O molde de onde saí quebrou por inteiro.)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Novembro

De Novembro
sobram as paisagens
de folhas estioladas.

A deriva do quotidiano
parece vazia.

Encontrei dois gatos
a colher do sol a luz,
com os olhos inquisidores
postos em mim.

Esperei que parassem de me olhar.
Não aconteceu.
Perseguiram-me até eu virar caminho
para aí voltarem a cerrar as pálpebras
sobre o lençol morno da manhã.

A deriva do quotidiano,

o tapete morto e alheado
do outono,
a puta da nostalgia.

domingo, 11 de novembro de 2012

O conto da rua de baixo

Havia um pobre,
um aviltado,
sobre o qual todos ajuizavam.
O pobre,
que comia papas de milho
e que as guardava nas barbas longas
sujas pelo carcomer dos dias,
não ligava muito a conversas.
Calava o que sentia
porque, na verdade,
não sentia nada.
As papas de milho já não tinham sabor,
os bancos dos jardins eram sempre
da mesma madeira fria e húmida,
a dureza do pó de pedra, a entranhar os pulmões,
era sempre a mesma todos os dias.
Por isso ele não sentia,
não por ser mais fácil,
mas porque sentir lhe estava vedado.

E todos diziam,
coitado do pobre!,
uns reclamavam,
mais comida para o pobre! mais casa para o pobre!
outros murmuravam,
cheira mal este pobre!
outros gritavam,
que pouco que faz este pobre!
e outros pontapeavam
sem o querer, um cartão rasgado e podre,
que guardava o pobre.

E o pobre calava.
Não pensava se queria ou não queria.
Apenas esperava pelas papas de milho diligentes
que uns estranhos lhe traziam.

Alguém disse,
o pobre tem que se habituar a ser pobre!
porque riqueza há pouca, realmente,
e mais vale tê-la quem faz por merecê-la.
Alguém disse,
o pobre tem que ser pobre para não haver mais pobres como o pobre!
porque o pobre, naquela rua, era só um
na imagem aparente de um rua de passeantes
e ninguém quer uma rua pejada de pobres
em vez de passeantes.
Alguém disse,
é pena ser pobre, mas o pobre é pobre, caso contrário que seria?
porque todos temos um nome
que nos esperou no sideral concílio das ideias,
e o destino do pobre era receber o seu nome
e fazer-lhe jus, como nós todos.

Alguém ouviu um outro alguém
e armou-se uma rixa.
A confusão que era, ver-se na rua
antes clássica, sóbria e serena,
a confusão dos apetrechos da violência.
Palavras, pontapés, murros e cacetadas
espraiados ao longo da travessa irregular.
Porque uns gritavam,
vocês não sabem o que é ser pobre!
e não sabiam,
e outros buzinavam,
o pobre só é pobre porque o quis, saiu de casa e fez-se pobre!
e de facto saíra,
e outros proclamavam,
ninguém merece ser pobre, ninguém deve ser pobre!
e assim era que ninguém merecia nem devia.

Os carros pararam,
a bulha acentuou,
e portanto a polícia logo se
aprontou a declarar término
ao inaudito rebuliço.
O ralho que fazem estes cidadãos
quando lhes apertam as convicções!,
houve um agente que repetia.

A poeira assentou
e de novo houve sol naquele dia
e o murmúrio do vento nas árvores
negligentes.
Veio uma noite de estrelas
vagarosas e vazias
e chegou nas mãos de um inocente
um prato de papas de milho
quase frias.
E o pobre onde estava?
O que fazia?

Pisado e alheado,
num gemido mutilado,
o pobre morria.




domingo, 4 de novembro de 2012

Do vazio

E isto que sinto
que é senão a verdadeira
ausência?
E isto que te peço
que é senão o verdadeiro
encontro?
Tantas vezes o barco distante
navega perto,
e eu que não pego na tua mão
porque quero ter algo
com que tapar os olhos.
E eu que não te olho
porque tenho o passo curto
e voraz,
e passo sem pensar
nas certezas.
E eu que clamo, cego
a dádiva do toque,
sem estender primeiro
o mais ínfimo dedo.

Eu que tenho em mim
a soma dos vácuos
incompletos.


Do sopro

A maresia agreste
foi o que nos fez mudar para cá.

Esse cheiro do infinito
a penetrar-nos os pulmões secos,
essa invasão natural do condensar
vazio dos tempos.

Foi essa maresia o que nos uniu
e matou, lascando aos poucos
as pontes rarefeitas
da nossa memória.
Um sopro perene
no sussurro da mente.

Um dia isto
e outro nada.

sábado, 3 de novembro de 2012

Da transcendência II

Nem todos temos o dom
de sermos superiores.

Nem todos temos esse charme
ecléctico, vasto, indeterminado
de sermos donos de tudo.

Nem todos temos a certeza do que somos,
nem do que comemos, do que fazemos,
nem por onde andamos, quem pisamos,
quem amamos, quem roubamos,
quem esquecemos e o que dissemos.

Nem todos temos a ciência,
o saber viver na ponta dos dedos
e da língua.

Portanto nem todos falamos
do que é ser-se tudo ao mesmo tempo.
Do cosmos perfeito, fechado,
hermeticamentente selado
por um vácuo redentor
de êxtase pessoal.
Esse cosmos
que é o ser perfeito,
quando furtivamente
se cruza com o seu próprio olhar
na ondulação negligente de um lago calmo.

Portanto, por mais que a vida,
ou o demiurgo antropo,
escrevam direito por linhas tortas,
nada desafiará os cientes
de si mesmos.
Só a eles pertence o pináculo,
a dourada esfera vazia
do fluir do tempo.
Só a eles a verdadeira determinação dos eventos
em se cruzarem em linha segura,
passadeira extensa que se humilha
perante a tão determinada
confiança do passo seguro.

Só a eles a face da vida
reservada aos semideuses.
Pois só eles sabem apontar,
com o indicador em riste,
a sua directa proveniência
da copulação alada
dos anjos.





Do frio II

Os dias somem-se
azuis.
Por detrás
das cortinas transparentes.

Há alguém que procura,
eternamente,
o amado que não volta,
ou o gato que se evadiu
das carícias constantes.

Um vulto, nada mais,
banhado pelos reflexos cadentes
da tarde moribunda.
Quem daqui lhe ouve
as inflexões
ciciadas
do pensamento?

Entre o húmido do casario
e os pulmões congestionados
da solidão urbana,
os passos ecoam com o desleixo
de um chapinhar
comum.
Não sou mais do
que eu mesmo.
Isso eu sei.
Não sou mais do que um vulto
prisioneiro de cinco andares de
íngreme
escadaria.

No alto de uma torre
ou nos serpenteantes
caminhos de um transeunte perdido,
guardamos todos o mesmo
olhar
sobre as horas,
vagas e dispersas.
O olhar de quem procura,
de quem perscruta dentro dos autocarros,
das montras, das janelas negligenciadas
do abandono,
o gato desaparecido.

De quem sente,
por momentos,
o ronronar sossegado
da alma.

De quem lhe estende
a mão aberta, a voz suave,
e lhe vê escapar, fugaz,
a vida.




Da transcendência


O espírito que se sopra.

O dia era outro, e a dança
cadente,
era a tua.
Em roda, uma rua turva.
Casas soltas do chão. Dançante
nevoeiro de lágrimas e riso.

Uma hora não são horas,
um tempo dentro de todo o tempo,
não é nada. É vento
bafejado na nossa cara, nos teus aromas
cabelos que voam.
Vamos, vá, o tempo é agora!
Rimos sem pudor
porque desconhecemos
a vergonha humana.
Todo o orgulho, toda a fome de ser
nutrida em nós.

Uma música, não sei de onde
proveniente.
Dos passos, talvez.
Ritmos marcados na
frontes animadas.
O suor despejado na harmonia húmida
do toque furtivo.
Ritmado temporal nas nossas mentes.
O céu desaba e dançamos
sem sentir medo. Nunca.

...

O espírito bafejado
toldou-nos os olhos. Vermelhos,
reviram-se em elipses viciadas.
Trincámos o fruto e a memória cedeu-nos
o espaço da libertação.
Uma e outra vez caímos em rituais
efémeros. O sempre que se parte
em novelos desgarrados de carne.
O meu centro a afastar-se
do teu eixo primário.
As voltas dando voltas em si.
A náusea, o pudor, o medo
numa derradeira espiral
inesperada.

...

Horror de nós mesmos,
descobertos finitos.

Do ócio


Doce milagre
de abandono perene.
Uma quebra momentânea,
um arrepio.
Da inutilidade da vida
somos todos
rebanho lancinante
presente.
A testemunha.

Lassos, mais lassos que um sol tardio.
A demora nos gestos e nas sílabas,
a moleza do ser, congénita.
Distantes rostos, sombras do destino traçado.
O medo comido todo
por uma gigante paralisia
das vontades.

Num cerco fechado


Esparsos comentários
dilatados no silêncio incauto
do tempo noctívago.

Falar do quotidiano,
embrenhado nele
é magistralmente absurdo.

Começar o dialógo
só; o martírio de uma
resposta limpa, escorreita

Que se espera, que não vem,
que nem se vislumbra nos sussurros
bocejados do vento.

Cortinas dançantes
da nossa ansiedade perene;
E tudo bem?

Tudo... normal?
O dia é derradeiro,
sabias? É...

Mais um dia. Sim.
Outro, a seguir a uma noite
de contemplações insómnicas

Aos passos do vizinho de cima,
o seu som. Guardamos todos
a essência de uma verdade partilhada.

O cordão que nos prende à terra
é um só. Cortámos da vida os laços
sombrios dos outros.

Ganhámos o nome, os bens e a atitude
de nós mesmos. E fomos quem?
Sempre nós dentro de nós.

Outros que não nós, também nós
sem o sabermos.
Ego sobrenatural estendido

a mil milhares de milhões
de cabeças, espiraladas
em raciocínios voláteis.

Como a existência é isto tudo.
A imagem vã,
a distorção da realidade pristina,

a sensação de se ser mundo inteiro e completo
num cerco fechado.
Ser-se isso e gente humana.

Ser-se o pensamento, a carne que o guarda,
ser-se a magia profana da alma,
ser-se isso e ser nada.



Mundividências


Mundividências analíticas
e a água escura de um esgoto.

A parecença brutal, feroz, carnal
das coisas relativas,
com acentos circunflexos
em flexões concâvas
do tédio.

A bola que gira na sua translucidez,
o ar que emana a luz da tarde,
o bafo do verão
e o redondo dos dias.
As coisas dissemelhantes porém
e iguais, tão perto de si mesmas.

Viver não é mais do que ser a ligação
entre as ligações não ditas.
Não é mais do que parir ratos
entre montanhas malditas.

(A marcha lenta dos eléctricos vai carregada do fascínio.
Rente ao chão, o mundo é outro.)

Caminhar Permanente III


Lava-te da podridão diária.
O rosto que tens
é o que te consome.
A máscara dos medos
colada à razão profana.

Emana da alma o indizível,
faz-te gente diante de um espelho.
Canta louvores de boca cerrada
às tensões telúricas da irracionalidade.
Morde os lábios
e o corpo inteiro de seguida.

Quem és tu?, finges...
as coisas todas que te pisaram,
que te acabaram,
que te excisaram
dos pedaços pristinos
do teu deus.

Quem és tu?, mentes...
diante da hora vaga
é sempre madrugada e não é,
a insónia tem raios de sol nos cabelos
e dançam os dedos no aperto
assassino do sufoco.

Quem és tu?, mataste-te cedo...
as badaladas ainda eram poucas,
o sinal dos tempos era a linha
horizontal
do desconhecido.
O mundo ainda era mundo
e as coisas estavam fixas
na tua mão.
Creste no divino prematuro
que te inflamava as veias.
Sucumbiste ao vácuo
da sensação.

Deste-te como cordeiro.
O altar ruiu.

A negligente e execrável órbita
dos corpos;
olhou e
prosseguiu.

domingo, 28 de outubro de 2012

Do frio I

(lá estava o sujeito, parado em frente da montra. quieto. a expirar calmamente o tempo nocturno, sem ver montras, nem espelhos, nem objectos.)

O que tenho em mim
é o vapor
emanado em volúveis terminações
espiraladas.

O mais que ele contém
são essas volutas secretas,
irrepetivelmente perdidas.

É tudo.
Palavras.
Vapor puro,
excrescência comum
de brônquios saturados.

Não há dia que não pense
em quanto tudo acaba assim.

Caminhar Permanente II

(canção de outono)

«E agora que a noite vem fria
deixa-me buscar em ti
as paisagens sonoras
da inocência.

«Deixa-me queimar
os restos da alma,
sacudi-los no varandim
secreto do vício.

«Tornar-me mais uma vez
o invernal ser primevo,
caminhante solitário
das agonias rarefeitas.

«O limpo ócio de um renascer
em cada folha cadente;
diz-me: tentamos ser
nós próprios apenas?

[O que é o minguar dos dias
no teu rosto:
o fio subtil
do adensar das sombras?]

«O cortante vento estendido
no horizonte tardio
não mais frio
que as palavras que desejo.

«Quero outrar-me no agora.
Num oblívio dormente
cair em mim como se fosse
o incógnito que passa.»

...

-Cala-te, por favor! O tempo passa
e são horas de dormir
sobre o assunto. Portanto... adeus. Vou indo.
- Sim, eu sei. É tarde, não queres que te leve?
-Não, deixa estar. Eu sei bem por que caminhos
vagueia o meu pensamento. Não vou por aí...
- Como quiseres; a vida é uma só, e tua, só.
-Sim, sim, isso que tu dizes... São metáforas, não são? Tu não és,
realmente,
assim, pois não? É tudo mentira, eu sei que é.
- É, é tudo mentira isto que sou. Podes tocar-me,
o toque da minha pele é uma mistificação dos sentidos.
-Fia-te nos solipsismos, sim. Faz bem à alma.
-Boa noite.
-Chove lá fora...
-E é tarde.





Caminhar permanente I

E agora que o tempo é vasto,
e que da fúria ampla sobram restos
esmorecidos
de espuma branca
aos cantos da boca.

Assim sabemos que são as coisas.

Assim somos nós
em decadência.
O atractivo unânime
do abismo.
A pulsão fria, exígua,
de nos arrastarmos
para dentro.
Contemplarmos o vazio
e ele sugar-nos os tecidos ocos
da vontade,
com as suas aspirações lânguidas
de medo.

Assim tudo o que passa
é isso.
A fuga perene,
os corpos em gravitação díspar,
no desencontro fortuito
de um adeus.

Essa a esfera única do ser,
a dinâmica.

E agora, sempre depois de algum
agora,
que nos vemos
despidos das palavras.
De olhos fixos no côncavo do cosmos
como se fosse o côncavo
de nós mesmos.

Agora que o vento nos leve,
que a erosão das marés
nos crave sulcos infinitos.
Que os outros nos esqueçam
entre os dedos de conversa esparsa
que fluem nos dias.

Que a matéria da alma,
se torne o pó das estrelas.