não te sinto o escorrer
de encontro
ao chão
dos cabelos
ou
a sílaba pura a alagar
por inteiro
a margem espaçada dos meus dedos.
não te fixo
lápis embebido na bílis enigmática
dos horizontes sem fio-de-prumo.
não te conheço
carnação rósea de tempestade
sangue aguado dos pastos serenos
da permanência.
tudo o que me és
tem o sabor do indizível.
tudo o que me tragas
da boca em forma de barco caminhante de marés de agosto vazias
tem encerrado a punhaladas de jasmim
um nó de estômago mais redondo
uma veia de olho mais pulsante.
roubas-me sem pudor
o travo escuro das feridas lambidas
para deixares
a ser
presença
o azul de madrugada fria
a retalhar devagar os olhos
com o signo da urgência.
//
chamo-te
margem
para a queda
o estender de corda até
ao precipício.
encerro-te
a volta inteira
duas
três vezes
no sentido mutante das íris
ao pescoço unido em pulsos
este grande imenso todo
um só
nó.
terminação dos pontos
degrau
filamento de sombra.
nomeio-te
(e nasce junto ao céu da boca a nebulosa metálica dos meus vitrais de pó)
o indizível
o interminável
o inominável.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
domingo, 25 de agosto de 2013
quinta-feira, 22 de agosto de 2013
a flor mais sórdida
pode ser que um dia nos encontremos
e tenhamos
a flor mais sórdida na lapela
e o vazio que nos preencheu
durante tantos anos
venha a ser a nossa memória mais singela.
uma lágrima mais escura que se desprende
de um silêncio
não sabe o sal desta inquietação
tu e eu que somos
neste rio imenso?
tu e eu que buscamos
nesta indeterminação?
e tenhamos
a flor mais sórdida na lapela
e o vazio que nos preencheu
durante tantos anos
venha a ser a nossa memória mais singela.
uma lágrima mais escura que se desprende
de um silêncio
não sabe o sal desta inquietação
tu e eu que somos
neste rio imenso?
tu e eu que buscamos
nesta indeterminação?
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
o acto da escrita ferve
tão lento e cáustico
perene
num borbulhar de sopro rarefeito
o pulso que treme
a língua que seca
os meus retratos
espalhados pela casa
são de quem foge por ruas desertas
quem fecha sobre si o céu
ocasos de nuvens como lâminas
de um corpo que certamente não é o meu.
mas todos esses retratos têm o meu nome.
todos esses nomes têm um sibilar estranho
de fim de tarde
com um derrame de luz que desconheço.
nunca vi sombras assim
e contrastes em monocromia como estes.
a têmpora bate um compasso de nojo
o olho ferve a uma luz envenenada
ocasionalmente perco-me em sítios familiares
à espera que caia uma chuva nova
e lhe sinta o doce na ponta dos dedos.
e daí não fujo.
foi aí aliás que me enterrei antes
de saber contar estrelas
para hoje ser fracção de gente
tanto melhor assim quanto menos souber
de mim e do que restou
no arrasto dos membros.
menos um braço ou um pedaço de orgulho
tanto faz
creio que quando choro só o faço hoje por mim
e se brotar o sabor do suicídio
amparo-o com os dentes
faço-lhe um nó na língua
adormeço-o com um parco sentido de contemplação.
é ao cheirar o vento
que desejo ser-lhe
sem pudores
visceral.
tão lento e cáustico
perene
num borbulhar de sopro rarefeito
o pulso que treme
a língua que seca
os meus retratos
espalhados pela casa
são de quem foge por ruas desertas
quem fecha sobre si o céu
ocasos de nuvens como lâminas
de um corpo que certamente não é o meu.
mas todos esses retratos têm o meu nome.
todos esses nomes têm um sibilar estranho
de fim de tarde
com um derrame de luz que desconheço.
nunca vi sombras assim
e contrastes em monocromia como estes.
a têmpora bate um compasso de nojo
o olho ferve a uma luz envenenada
ocasionalmente perco-me em sítios familiares
à espera que caia uma chuva nova
e lhe sinta o doce na ponta dos dedos.
e daí não fujo.
foi aí aliás que me enterrei antes
de saber contar estrelas
para hoje ser fracção de gente
tanto melhor assim quanto menos souber
de mim e do que restou
no arrasto dos membros.
menos um braço ou um pedaço de orgulho
tanto faz
creio que quando choro só o faço hoje por mim
e se brotar o sabor do suicídio
amparo-o com os dentes
faço-lhe um nó na língua
adormeço-o com um parco sentido de contemplação.
é ao cheirar o vento
que desejo ser-lhe
sem pudores
visceral.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
do outro lado és tu
somos dois equinócios
a beber das pulsações não mensuráveis
do estio
dois hemisférios
a esconder nas sombras dos carreiros
o nome das palavras
acostumados a tê-las
na margem diáfana
feito lençol do entardecer
película silvestre pousada sobre os olhos
rasto de saliva brilhante
que se tornou lago
e que segregou o nosso retrato ambíguo.
do outro lado és tu
e o mesmo aperto no sobrolho
a mesma inclinação natural para o vazio
o mesmo tédio de primaveras.
e nesse tremor súbito
encontro a mesma busca.
a beber das pulsações não mensuráveis
do estio
dois hemisférios
a esconder nas sombras dos carreiros
o nome das palavras
acostumados a tê-las
na margem diáfana
feito lençol do entardecer
película silvestre pousada sobre os olhos
rasto de saliva brilhante
que se tornou lago
e que segregou o nosso retrato ambíguo.
do outro lado és tu
e o mesmo aperto no sobrolho
a mesma inclinação natural para o vazio
o mesmo tédio de primaveras.
e nesse tremor súbito
encontro a mesma busca.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
i wonder as i wander by cathy berberian
o pensar do caminhante
é o do novelo desenrolado
ariadne estendeu-lhe o fio
agora resta-lhe o vício do crime
o fumegar de vísceras
na boca ruminante do minotauro
é o do novelo desenrolado
ariadne estendeu-lhe o fio
agora resta-lhe o vício do crime
o fumegar de vísceras
na boca ruminante do minotauro
domingo, 18 de agosto de 2013
night and day
podia dizer o nome
em segredo
escutá-lo só eu
ou alguém dentro de mim.
ainda sinto que não é vão
crer nas pegadas
como no cântico das esferas
a argila nodosa
das tuas mãos.
mas é de madrugada
que retinem mais negros os astros
desfaço-me da língua
da música finita do palato
ornamentos profusos
não nomeiam o inominável.
em segredo
escutá-lo só eu
ou alguém dentro de mim.
ainda sinto que não é vão
crer nas pegadas
como no cântico das esferas
a argila nodosa
das tuas mãos.
mas é de madrugada
que retinem mais negros os astros
desfaço-me da língua
da música finita do palato
ornamentos profusos
não nomeiam o inominável.
dilacera-me
invento os meus axiomas
sou o rei das minhas insónias
mas a água verte um rumor pálido
de sentido
é ténue
e isso dilacera-me.
sou o rei das minhas insónias
mas a água verte um rumor pálido
de sentido
é ténue
e isso dilacera-me.
seis e meia
olha as paisagens.
são a comoção final do verão.
o seco dos olhos que já cresceram
demasiado para dentro
tão pouca lágrima para tão má sorte.
a aridez abrupta de um horizonte
faminto
enterrado fundo como um desejo
tão maior quanto menos tem
esse tal nome com odor
de anseio.
as depressões ocasionais
da ausência
dizem que aqui houve aquilo que nos habita
mas apenas em reflexo
para hoje lhes contemplarmos
negativos
sonantes chamamentos de sem sentido
de inversos
falsas impressões
ilusões de tacto.
afinal o fim do verão
é quando o vento dobra o ciclo
os ponteiros decrescem
e a boca do vazio vem beijar
mais osso que carne.
afinal é aqui o momento
e não existe palavra
porque não existe verdadeiro adeus.
são a comoção final do verão.
o seco dos olhos que já cresceram
demasiado para dentro
tão pouca lágrima para tão má sorte.
a aridez abrupta de um horizonte
faminto
enterrado fundo como um desejo
tão maior quanto menos tem
esse tal nome com odor
de anseio.
as depressões ocasionais
da ausência
dizem que aqui houve aquilo que nos habita
mas apenas em reflexo
para hoje lhes contemplarmos
negativos
sonantes chamamentos de sem sentido
de inversos
falsas impressões
ilusões de tacto.
afinal o fim do verão
é quando o vento dobra o ciclo
os ponteiros decrescem
e a boca do vazio vem beijar
mais osso que carne.
afinal é aqui o momento
e não existe palavra
porque não existe verdadeiro adeus.
sábado, 17 de agosto de 2013
quelque chose à dimanche
fosse sempre domingo
para eu não te guardar nunca.
e uma dança de neblina
em pleno verão pela madrugada
adentro.
fosse sempre o meu
arfar de medo o frio súbito
dos teus dedos
e chegados aqui
a sebe que se enche de sol
a marca silenciosa do nosso finito.
para eu não te guardar nunca.
e uma dança de neblina
em pleno verão pela madrugada
adentro.
fosse sempre o meu
arfar de medo o frio súbito
dos teus dedos
e chegados aqui
a sebe que se enche de sol
a marca silenciosa do nosso finito.
o incómodo de conviver comigo.
ter a minha verdade
ou seja a falta dela
aqui.
e desejar tê-la. não sei
onde.
convertido ao abismo
o corpo é decrépito
mas não tanto como o ânimo
e acredito na morte
como fim.
conviver comigo mesmo.
esse é o peso.
esse é o incómodo.
esse é o propósito.
tudo para estar
e não querer estar
algures
no espaçamento nulo dos dedos
sozinho.
ter a minha verdade
ou seja a falta dela
aqui.
e desejar tê-la. não sei
onde.
convertido ao abismo
o corpo é decrépito
mas não tanto como o ânimo
e acredito na morte
como fim.
conviver comigo mesmo.
esse é o peso.
esse é o incómodo.
esse é o propósito.
tudo para estar
e não querer estar
algures
no espaçamento nulo dos dedos
sozinho.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
onde a rua começa
vamos começar pelo princípio:
a franqueza é sacrossanta
e eu não sei escrever.
ora o candeeiro de rua deu sinais
de uma aparição
mas desta vez não era eu no espelho
era a rua deserta
e a luz oscilante dos olhos entreabertos.
só acreditava em mim
e por isso segui.
não queria ser mais um a buscar
nos silêncios o sereno
das soluções
a súmula fechada do tríptico
inacabado do universo.
não esperei por milagres
e eles não vieram
por isso cheguei igual à porta de casa
e a casa reconheceu-me e entrei
com dias a passarem pelos cabelos
e com os dias o ressequido
mais áspero dos lábios.
aconteceu há pouco
e parece de meio século já
o meu olhar zangado a cruzar
a transparência das cortinas.
castrada a voz
(nunca a tive
porquê isto agora?)
restam-me os sons a prolongar
a linha do finito.
é ali que eu moro
naquela casa ali na esquina
no virar da rua a atravessar
para o lado mais espesso escuro escondido.
é dali que vem o zunido
nem sei se fino e irritante ou grave e confuso.
uma pulsão extrema de algo que morre eternamente.
a fenda que me atravessa a testa e abre caminho
acaba ali
onde a rua começa.
a franqueza é sacrossanta
e eu não sei escrever.
ora o candeeiro de rua deu sinais
de uma aparição
mas desta vez não era eu no espelho
era a rua deserta
e a luz oscilante dos olhos entreabertos.
só acreditava em mim
e por isso segui.
não queria ser mais um a buscar
nos silêncios o sereno
das soluções
a súmula fechada do tríptico
inacabado do universo.
não esperei por milagres
e eles não vieram
por isso cheguei igual à porta de casa
e a casa reconheceu-me e entrei
com dias a passarem pelos cabelos
e com os dias o ressequido
mais áspero dos lábios.
aconteceu há pouco
e parece de meio século já
o meu olhar zangado a cruzar
a transparência das cortinas.
castrada a voz
(nunca a tive
porquê isto agora?)
restam-me os sons a prolongar
a linha do finito.
é ali que eu moro
naquela casa ali na esquina
no virar da rua a atravessar
para o lado mais espesso escuro escondido.
é dali que vem o zunido
nem sei se fino e irritante ou grave e confuso.
uma pulsão extrema de algo que morre eternamente.
a fenda que me atravessa a testa e abre caminho
acaba ali
onde a rua começa.
domingo, 11 de agosto de 2013
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
sicut cervus
às escondidas pela casa
no término das frinchas
no oco dos silêncios
vai lambendo o soalho solto
um nome que desconheço
uma verdade que ensurdece
um rio que chama
escuro o crer sonâmbulo
da madrugada.
por onde andei
quem me viu e quem
me colheu da sorte a errada?
do meu jogo eterno
de busca só entendo
o comprido dos meus dedos
e depois a mão fechada
um cálice de ódio em que afundo
a sentença cumprida no meu corpo.
conto as veias que crescem
abruptas no cruzar dos meus olhos
ao espelho. são outros.
não clareia nem escorre vento
e eu só penso como quem diz
só esqueço:
quem te deu a língua
e depois ta roubou
de novo?
no término das frinchas
no oco dos silêncios
vai lambendo o soalho solto
um nome que desconheço
uma verdade que ensurdece
um rio que chama
escuro o crer sonâmbulo
da madrugada.
por onde andei
quem me viu e quem
me colheu da sorte a errada?
do meu jogo eterno
de busca só entendo
o comprido dos meus dedos
e depois a mão fechada
um cálice de ódio em que afundo
a sentença cumprida no meu corpo.
conto as veias que crescem
abruptas no cruzar dos meus olhos
ao espelho. são outros.
não clareia nem escorre vento
e eu só penso como quem diz
só esqueço:
quem te deu a língua
e depois ta roubou
de novo?
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
finis
surgiu entre os meus dedos
teia reluzente
súbito reflexo de outra mão
de neve e ouro a quebrar
o estio.
surgiu e logo me enchi de dores
e o meu horror foi profundo
com um grito preso
nos recônditos das veias
em ebulição perfeita
no ponto.
soube ali que terminara
eu e a corrente
dos meus dias
no osso raspado
o sarcófago vazio
onde antes diziam habitar
medulares
as palavras.
teia reluzente
súbito reflexo de outra mão
de neve e ouro a quebrar
o estio.
surgiu e logo me enchi de dores
e o meu horror foi profundo
com um grito preso
nos recônditos das veias
em ebulição perfeita
no ponto.
soube ali que terminara
eu e a corrente
dos meus dias
no osso raspado
o sarcófago vazio
onde antes diziam habitar
medulares
as palavras.
domingo, 4 de agosto de 2013
diuturno
é impossível dizer ao certo quando foi.
só mesmo que desde esse dia uma fagulha
ou brilho de vidro
se instalou ao canto de um dos olhos e agora persiste
como um zunido insistente
ou a fala abismal das eras a fazer eco
nas ramagens sobranceiras ao precipício.
é impossível dizer ao certo o que foi.
só mesmo que desde esse dia a saliva queima
e já não há espaço no meu sorriso para amar
arpejos de mel como se o fim da tarde fosse meu
retrato perdido para sempre desse tempo de sóis
mais uns que os outros tão diferentes em trama
de folhagens. os caminhos escuros palpitam-me
na testa uma dor lancinante e vou recitando baixinho
a fazer acorde com os passos os meus trechos
de cor porque sei-os da boca divina de um demónio
nado-morto.
e agora vem o extenso todo de mim
crer-me diferente mas não sou
porque não sei quando
não sei quê
já me marcou
já me deixou
pode ter sido ontem hoje mesmo
pode ter sido sempre.
só mesmo que desde esse dia uma fagulha
ou brilho de vidro
se instalou ao canto de um dos olhos e agora persiste
como um zunido insistente
ou a fala abismal das eras a fazer eco
nas ramagens sobranceiras ao precipício.
é impossível dizer ao certo o que foi.
só mesmo que desde esse dia a saliva queima
e já não há espaço no meu sorriso para amar
arpejos de mel como se o fim da tarde fosse meu
retrato perdido para sempre desse tempo de sóis
mais uns que os outros tão diferentes em trama
de folhagens. os caminhos escuros palpitam-me
na testa uma dor lancinante e vou recitando baixinho
a fazer acorde com os passos os meus trechos
de cor porque sei-os da boca divina de um demónio
nado-morto.
e agora vem o extenso todo de mim
crer-me diferente mas não sou
porque não sei quando
não sei quê
já me marcou
já me deixou
pode ter sido ontem hoje mesmo
pode ter sido sempre.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
se levar deste mundo
se levar deste mundo
recordação
que seja só a minha sobre a tua
decepada
esta mágoa que já foi mão.
dá-lhe urgência
dá-lhe latência
dá-lhe a sarna no céu da boca
junto aos dedos também
e contra a folha sem pudor
para não ter pranto de si e apenas
tão só das palavras que não vêm
para lhe restar o amor aos pincéis
e às coisas soltas e silenciosas
espalhadas em artefactos pelas esquinas sujas
uma janela partida
a tinta lascada
uma varanda escondida e sobre ela
a passagem silenciosa do tempo em robe
dá-lhe o amor pela vida para contrariá-la
dá-lhe o aroma dos teus cabelos musa
e rouba-lhe um beijo nos sonhos
para te crer ressurrecta
noite após noite
dia após dia
sem nome que te distinga
sem lágrimas que lhe imprimam na língua sal dos deuses
sem cântico que lhe ofereça a lira
e nela a redenção.
quem surge do inferno
quem se debruça sobre si mesmo
quem aparenta a pulsão fria
de estar só estando consigo mesmo
quem é este vulto e mesmo sem véu
esta carne a qual não conheço
e de que me lembro como de mim
sem mesmo saber
o que de mim escondo e que de mim
fujo senão mesmo
esqueço.
recordação
que seja só a minha sobre a tua
decepada
esta mágoa que já foi mão.
dá-lhe urgência
dá-lhe latência
dá-lhe a sarna no céu da boca
junto aos dedos também
e contra a folha sem pudor
para não ter pranto de si e apenas
tão só das palavras que não vêm
para lhe restar o amor aos pincéis
e às coisas soltas e silenciosas
espalhadas em artefactos pelas esquinas sujas
uma janela partida
a tinta lascada
uma varanda escondida e sobre ela
a passagem silenciosa do tempo em robe
dá-lhe o amor pela vida para contrariá-la
dá-lhe o aroma dos teus cabelos musa
e rouba-lhe um beijo nos sonhos
para te crer ressurrecta
noite após noite
dia após dia
sem nome que te distinga
sem lágrimas que lhe imprimam na língua sal dos deuses
sem cântico que lhe ofereça a lira
e nela a redenção.
quem surge do inferno
quem se debruça sobre si mesmo
quem aparenta a pulsão fria
de estar só estando consigo mesmo
quem é este vulto e mesmo sem véu
esta carne a qual não conheço
e de que me lembro como de mim
sem mesmo saber
o que de mim escondo e que de mim
fujo senão mesmo
esqueço.
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
a minha luz tem silêncios de vidro
e a tarde é certa
no oblongo das árvores.
enreda-se nos teus cabelos de infância
não mais desperta
nem já tem nome de poema
o teu rosto.
perdi-te os contornos
dei-te o nome de espelho
e no fim o que resta?
o hábito de cuspir nos passeios
o luar sobre as casas
a omissão dos travesseiros
e a minha aparente calma de olhares
ante a parede muda.
sorrio e a explicação do mundo
escreve-me o número na palma da mão
o habitual e desço as escadas
cambaleantes debaixo do meu entendimento
acordo e sei quem sou
porque esqueço.
e a tarde é certa
no oblongo das árvores.
enreda-se nos teus cabelos de infância
não mais desperta
nem já tem nome de poema
o teu rosto.
perdi-te os contornos
dei-te o nome de espelho
e no fim o que resta?
o hábito de cuspir nos passeios
o luar sobre as casas
a omissão dos travesseiros
e a minha aparente calma de olhares
ante a parede muda.
sorrio e a explicação do mundo
escreve-me o número na palma da mão
o habitual e desço as escadas
cambaleantes debaixo do meu entendimento
acordo e sei quem sou
porque esqueço.
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