se levar deste mundo
recordação
que seja só a minha sobre a tua
decepada
esta mágoa que já foi mão.
dá-lhe urgência
dá-lhe latência
dá-lhe a sarna no céu da boca
junto aos dedos também
e contra a folha sem pudor
para não ter pranto de si e apenas
tão só das palavras que não vêm
para lhe restar o amor aos pincéis
e às coisas soltas e silenciosas
espalhadas em artefactos pelas esquinas sujas
uma janela partida
a tinta lascada
uma varanda escondida e sobre ela
a passagem silenciosa do tempo em robe
dá-lhe o amor pela vida para contrariá-la
dá-lhe o aroma dos teus cabelos musa
e rouba-lhe um beijo nos sonhos
para te crer ressurrecta
noite após noite
dia após dia
sem nome que te distinga
sem lágrimas que lhe imprimam na língua sal dos deuses
sem cântico que lhe ofereça a lira
e nela a redenção.
quem surge do inferno
quem se debruça sobre si mesmo
quem aparenta a pulsão fria
de estar só estando consigo mesmo
quem é este vulto e mesmo sem véu
esta carne a qual não conheço
e de que me lembro como de mim
sem mesmo saber
o que de mim escondo e que de mim
fujo senão mesmo
esqueço.
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