e do mundo que há-de vir
das mitologias e dos factos:
sujeito n.º1:
casado e itinerante
com filhos
olha o corpo infinito do horizonte
não sem a mão por debaixo das calças.
sujeito n.º2:
encontrou a inspiração na matéria fecal
e rochosa. viemos do pó voltamos
a pé. tu es petrus. tu es petra. idem idem.
mudam as moscas.
sucumbe a viroses várias.
sujeito n.º3:
do livro das revelações
o mais ignóbil
e por isso o mais sublime.
esquarteja três com as próprias unhas
de seis meses em gestação.
tinha vida profissional estável
carro cão e família
mas abdicou de tudo isso ante o chamamento
da latrina.
cenário:
apocalíptico q.b.
não demasiado caprichoso nos apetrechos
de mãos dadas com o regime e com o escol
diverso mas não saturado
averso ao sentimentalismo das cores frouxas e das mortes em catadupa.
que sirva de lição ao espectador.
adereço (fora de cena):
flor de lapela
digna de apartes
que ecoe ao fundo
que mutile o olhar
mas pouco.
[terminus]
constrangimento
não soam aplausos
os espectadores abandonam a sala
é de dia ainda lá fora
(passou-se um dia na verdade)
cada um segue rigorosamente a sua sombra
marido/filho/avô morto na guerra chega a casa
senta-se à mesa
comida quente
o sol brilha na parede de azulejos
por onde penetra um extenso frio.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
não entres de mansinho na noite amena
um estômago reclama
pára que te aleijas
e eu penso
faz muito tempo que não ouço
as voz das coisas.
uma forma de entender isto tudo
era simular de novo a corda latejante
queimando o pescoço em dois
em nós dois
a ferida abrindo ao morto
à mão do morto
o rio sombrio das palavras.
também elas abrem brechas
e dentro das brechas descobrem
o ar oblíquo do vazio.
esgotados os ácidos
sobra um corpo sem estômago
planando nas ruas como num rio
para o destino cumprido e para o dia findo.
esgotam-se as conversas num café
olha-se a rua. a tarde demora-se mais do que devia.
pára que te aleijas
e eu penso
faz muito tempo que não ouço
as voz das coisas.
uma forma de entender isto tudo
era simular de novo a corda latejante
queimando o pescoço em dois
em nós dois
a ferida abrindo ao morto
à mão do morto
o rio sombrio das palavras.
também elas abrem brechas
e dentro das brechas descobrem
o ar oblíquo do vazio.
esgotados os ácidos
sobra um corpo sem estômago
planando nas ruas como num rio
para o destino cumprido e para o dia findo.
esgotam-se as conversas num café
olha-se a rua. a tarde demora-se mais do que devia.
sábado, 11 de outubro de 2014
1.
antes de chegar o teu tempo:
ouvido encostado ao coração das casas.
2.
para quem dorme
de olhos abertos
é sempre dia.
3.
digo-te
tarde certamente escura dos teus olhos
digo-te antes que acabem as palavras
o beijo das flores apodrecidas
do teu colo
digo-te
há um poema
nas reentrâncias das pedras
nas marés ao som dos corpos
na água límpida que o teu pé descalço
abençoa
de inverno
abençoa digo-te como
um esquecimento momentâneo
a tua mão na janela a crescer um jardim
de novo
digo-te
cresce na aproximação do solstício
a dor da tua sombra
bebendo nas paredes
a humidade magnífica
do silêncio das montanhas.
antes de chegar o teu tempo:
ouvido encostado ao coração das casas.
2.
para quem dorme
de olhos abertos
é sempre dia.
3.
digo-te
tarde certamente escura dos teus olhos
digo-te antes que acabem as palavras
o beijo das flores apodrecidas
do teu colo
digo-te
há um poema
nas reentrâncias das pedras
nas marés ao som dos corpos
na água límpida que o teu pé descalço
abençoa
de inverno
abençoa digo-te como
um esquecimento momentâneo
a tua mão na janela a crescer um jardim
de novo
digo-te
cresce na aproximação do solstício
a dor da tua sombra
bebendo nas paredes
a humidade magnífica
do silêncio das montanhas.
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