é ao andar pela
mortandade dos girassóis
que sei mais denso o
canto do lodo.
tão pouco interessa
que só três almas de passo
bastam à navegação exacta
do comprido desta
esfera.
por dentro a face
das semanas exíguas
nos mesmos contornos de si
eternos antes que
seja outro este mês de inverno
e mais cedo se queimem
as andorinhas e os meus dedos
de intervalo.
pois não é dizer de tudo
ser tudo esparso e ralo?
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
domingo, 27 de outubro de 2013
porque lavo o meu corpo
na monodia solitária dos pontapés.
e de mim só pende o insaciável
e por mim o sumo dos meus sonhos
entorpecidos.
porque o que o sol diz gigante
cai logo e torna fixa a noite entre dois olhos
da minha tela húmida de negrume
já só o revérbero distante de um rosto
e dele a foz liquefeita de um canto.
na monodia solitária dos pontapés.
e de mim só pende o insaciável
e por mim o sumo dos meus sonhos
entorpecidos.
porque o que o sol diz gigante
cai logo e torna fixa a noite entre dois olhos
da minha tela húmida de negrume
já só o revérbero distante de um rosto
e dele a foz liquefeita de um canto.
sábado, 26 de outubro de 2013
Nastássia Filipovna
vou dizer-te tudo:
a figura intrigou-me
e bem podia ser o meu deus ex machina
a minha hybris ou nem sei que peça
fragmentária da magistral arquitectura trágica.
bem podia ser uma víscera minha palpitante
bem podia ser um esgar um trejeito de boca
um brilho negro de olhar entre duas frases
e
dois silêncios amam-se como
o cheiro da terra húmida se liberta dos teus dedos
nessa perseguição louca de um espaço
dentro
mais dentro de algo que caiba em nós e na bendita
amaldiçoada solidão unânime
dos cobardes.
há quem mate apenas para se matar
constantemente e queiramos sempre
essa febre de mão contorcida
esse jacto flamejante perseguindo a raiz do olho
essa cascata de veneno vertical alucinante
a penar na nossa cabeça e a inflamar
nas línguas um travo azul de insónia
que nos abra a mão dos fantasmas e a boca
dos lugares vazios.
é tua a certeza dos intervalos.
a figura intrigou-me
e bem podia ser o meu deus ex machina
a minha hybris ou nem sei que peça
fragmentária da magistral arquitectura trágica.
bem podia ser uma víscera minha palpitante
bem podia ser um esgar um trejeito de boca
um brilho negro de olhar entre duas frases
e
dois silêncios amam-se como
o cheiro da terra húmida se liberta dos teus dedos
nessa perseguição louca de um espaço
dentro
mais dentro de algo que caiba em nós e na bendita
amaldiçoada solidão unânime
dos cobardes.
há quem mate apenas para se matar
constantemente e queiramos sempre
essa febre de mão contorcida
esse jacto flamejante perseguindo a raiz do olho
essa cascata de veneno vertical alucinante
a penar na nossa cabeça e a inflamar
nas línguas um travo azul de insónia
que nos abra a mão dos fantasmas e a boca
dos lugares vazios.
é tua a certeza dos intervalos.
brindemos às fronteiras:
eu delineei as minhas com um riso tresloucado
engolido durante décadas para que um dia
soltasse na sua queda um paraíso inteiro
que se chamasse
tarde de sexta-feira.
é quando as gaivotas voam
rente às cabeças das mentiras
desflorando as rosas como
vinho ímpio para o sacrifício.
morrem por nós as flores
e uma manhã múltipla
escoa-se pela sarjeta
sem fé.
olhamos e dizemos que belo e triste
o sentir das coisas
e eu só lhes distingo o mesmo sincero grito.
eu delineei as minhas com um riso tresloucado
engolido durante décadas para que um dia
soltasse na sua queda um paraíso inteiro
que se chamasse
tarde de sexta-feira.
é quando as gaivotas voam
rente às cabeças das mentiras
desflorando as rosas como
vinho ímpio para o sacrifício.
morrem por nós as flores
e uma manhã múltipla
escoa-se pela sarjeta
sem fé.
olhamos e dizemos que belo e triste
o sentir das coisas
e eu só lhes distingo o mesmo sincero grito.
era bom
era bom
chegar ao outro lado de uma outra
(esta esta)
sujidade ossificada
por de mais entranhada nos passos que
- até isto até aqui -
só soube calcar contra
uns versos esparsos de chão
irregulares na forma e
no respeito à matéria útil e expectável e qualificável do
Cidadão Respeitado
e um pózinho quase só brilho
também de Admirável e Amigo
(e já agora que sabe sorrir quando lhe pedem)
tudo unido a um só nó de corda e saliva
limipinha e desinfectada
desses
dias de merda
(todos os temos mas não nem todos).
tocar o
lado nenhum
e ser tocado de volta.
um fio de outro fio que se torce.
as minhas mãos nessa força torta
e essa força a pingar nas lajes
sem tapetes a descoberto um nu
de pedra fria.
abro um pedaço de carne mais roxa
para dar mais tempo ao que a consome.
desfaço o novelo dos cabelos presos
pelos olhos dos mortos engolidos
nos gritos que saltam
paralelos às pontes.
a surpresa
não passa de uma ameaça.
deram-lhe um rio como jangada
mas quedou-se prostituiu-se e agora
só dá o braço ao Além-Tédio
que lhe paga as contas e ajuda no que pode.
mas sobretudo eu
não posso ter mais pernas que estas
nem voz que ganhe essoutra doença
e
o que penso
- que é isso -
quer vir direito aos aneurismas
derrubar as comportas e deambular
com o outro a quem lhe chamam
fluxo
vem-me à carteira e sai por dois meses
sem dizer ais que a dor é para quem
nasce velho.
ainda se lhe aceno na despedida
cospe e larga logo
dois ou três nomes
mas nunca lhe perguntei quem era.
por isso fixo o pêndulo das salas
até que nasça um relógio mais lento
e lhe apanhe o jeito
o gosto vem depois.
dizem que o mundo bateu na parede
mas ninguém consegue dizer
qual a face que bateu no espelho.
sempre estanque
anda cá cobarde:
chega aqui filho da
tua consciência
e das tuas circunstâncias
e das tuas aparências
e das tuas indefensáveis paralisias de raciocínio
e dos teus dias mortos - em redor de si mesmos -
e dos teus medos
sim talvez tenhamos chegado à última paragem
talvez agora descarrile o andamento
o marcar passo conjunto a desconjuntar-se
e bem ficaremos à chuva de um solstício - cá não neva -
e permite-me que te bofeteie pelo prazer singular
de te ver ser mais púrpuro
e permite-me que te cuspa
só carinho só carinho
aperto-te a mão estalo-te os ossos
depois só sobram os teus olhos marejados de sangue
e eu pergunto:
o que foi o que foi
foi o meu tempo de ser gente que voou pela janela cerrada em espelhos
e agora que será do dia
e da sua cor de ser sempre estanque?
chega aqui filho da
tua consciência
e das tuas circunstâncias
e das tuas aparências
e das tuas indefensáveis paralisias de raciocínio
e dos teus dias mortos - em redor de si mesmos -
e dos teus medos
sim talvez tenhamos chegado à última paragem
talvez agora descarrile o andamento
o marcar passo conjunto a desconjuntar-se
e bem ficaremos à chuva de um solstício - cá não neva -
e permite-me que te bofeteie pelo prazer singular
de te ver ser mais púrpuro
e permite-me que te cuspa
só carinho só carinho
aperto-te a mão estalo-te os ossos
depois só sobram os teus olhos marejados de sangue
e eu pergunto:
o que foi o que foi
foi o meu tempo de ser gente que voou pela janela cerrada em espelhos
e agora que será do dia
e da sua cor de ser sempre estanque?
vou matar-te imbecil
talvez comer-te a audácia toda num beijo
vou chacinar-te
o sopro
lamber-te as entranhas segregadas
e dizer-te: contempla
um fascínio louco
pelos zeitgeists às esquinas
as travessuras travestidas desta vida em
meias rotas
justamente sim já sabes a que me refiro
a todo este cheiro de manhã queimada
quando te batem à porta
abres o peito e sai de lá um vento húmido
de sul e de precipício
teu sempre esse canto por outro canto
um mundo de trocas
imperfeitas
mas não penso voltar tão cedo
à sujeição das feras. entre os leões
uma calma impera
antes que caia o temporal da nossa dança.
espera
já me lembrei
o que me faz jus
é a parede para lá da janela.
se a contemplar
um pouco mais
pode ser que surja um olho
entre as arestas dos tijolos
e que o fascínio dos lagos fixos
morra.
talvez comer-te a audácia toda num beijo
vou chacinar-te
o sopro
lamber-te as entranhas segregadas
e dizer-te: contempla
um fascínio louco
pelos zeitgeists às esquinas
as travessuras travestidas desta vida em
meias rotas
justamente sim já sabes a que me refiro
a todo este cheiro de manhã queimada
quando te batem à porta
abres o peito e sai de lá um vento húmido
de sul e de precipício
teu sempre esse canto por outro canto
um mundo de trocas
imperfeitas
mas não penso voltar tão cedo
à sujeição das feras. entre os leões
uma calma impera
antes que caia o temporal da nossa dança.
espera
já me lembrei
o que me faz jus
é a parede para lá da janela.
se a contemplar
um pouco mais
pode ser que surja um olho
entre as arestas dos tijolos
e que o fascínio dos lagos fixos
morra.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Drones (II)
ao comprido das vistas
restam os ossos debulhados pelo cão
e uma flor maligna
de jaspe
a crescer podre
no inverno radicular das palavras.
olham-te as trepidações
soltas numa vaga desenfreada
e cresce-lhes o murmúrio
do indizível.
sabe-lhes à errância do ferro
o contraste nítido
das bocas.
queria falar
e deixei vir de dentro
um inferno em pontas de dedos.
já era hora sempre
foi
e agora mais que nunca
mas
tremo.
soltou-se
no coser pontilhado das tripas
a cadeia morna dos meus instintos.
e só os horizontes pulsam
e só eles falam
nos seus gestos
de metamorfose ridícula
quase
sagrada.
tudo o que diz
o rodar ancestral da manivela
é o organum triplum
fremente no rasar das aurículas.
debaixo das vozes hirtas
soa a insónia matinal
e o meu deus do azul da carne.
restam os ossos debulhados pelo cão
e uma flor maligna
de jaspe
a crescer podre
no inverno radicular das palavras.
olham-te as trepidações
soltas numa vaga desenfreada
e cresce-lhes o murmúrio
do indizível.
sabe-lhes à errância do ferro
o contraste nítido
das bocas.
queria falar
e deixei vir de dentro
um inferno em pontas de dedos.
já era hora sempre
foi
e agora mais que nunca
mas
tremo.
soltou-se
no coser pontilhado das tripas
a cadeia morna dos meus instintos.
e só os horizontes pulsam
e só eles falam
nos seus gestos
de metamorfose ridícula
quase
sagrada.
tudo o que diz
o rodar ancestral da manivela
é o organum triplum
fremente no rasar das aurículas.
debaixo das vozes hirtas
soa a insónia matinal
e o meu deus do azul da carne.
digo:
senta-te
e o corpo fende morto
uma carícia prenhe de metástases
todas de encontro ao ponto fixo e derradeiro
esse centro de lábios intermitentes
entre dois dedos e duas mortes.
auguro
uma nova perspectiva
arbitrária na cor da pele e dos versos.
um dia mais finito que os outros
para ser hora estranha a da caminhada
entre duas praças imensas
do nosso silêncio que se diz
modo de vida.
e velo
a antiguidade horizontal
entre as mãos dos parentes
uma mortalha amarelecida
entra-nos sorrateira pelos dentes
e todo o interesse em ser mais
do que o rosto do retrato
desaparece.
é como dizer
ser eu por inteiro.
senta-te
e o corpo fende morto
uma carícia prenhe de metástases
todas de encontro ao ponto fixo e derradeiro
esse centro de lábios intermitentes
entre dois dedos e duas mortes.
auguro
uma nova perspectiva
arbitrária na cor da pele e dos versos.
um dia mais finito que os outros
para ser hora estranha a da caminhada
entre duas praças imensas
do nosso silêncio que se diz
modo de vida.
e velo
a antiguidade horizontal
entre as mãos dos parentes
uma mortalha amarelecida
entra-nos sorrateira pelos dentes
e todo o interesse em ser mais
do que o rosto do retrato
desaparece.
é como dizer
ser eu por inteiro.
sábado, 19 de outubro de 2013
ao comprido dos quintais
olho a mulher do outro lado da lua
repito:
do outro lado da estrada
e
estamos nus ou eu vejo-lhe
a nudez num olho
e um véu
não em silêncio não
lhe é mais do que a pele
e o que faz a pele ser
esse véu preso na cabeça
enrolado num brilho de pranto
gotejante pelas ameias do enorme
horizonte do seu peito
e o que faz o seu sorriso já
então a semelhança inteira do febril
numa mão lacrada a unhas de sangue
como se lhe visse
o fundo do ódio
volta-se
num súbito
és tu és tu
quem não voltaria
para os teus braços
do outro lado do espaço.
aceno talvez
ou
já sei esqueço-me
e escondo a cara no meu peito
e
quem é a mulher do outro lado do espelho
já o véu cai
suspeito
e a pele retira-se para adormecer
modo eterno
como seria dizermos devagar
rente aos ossos
um enroscar de pestanas
pulsantes nos dedos nos lábios nos perfeitos
contornos da cadência a dois
lados de crime.
olho a mulher do outro lado do rio
minto:
do outro lado da cama
reforço:
do outro lado dos cheiros estagnados dos meus bosques de bolonha
ou
tudo clama minha mão-vontade
que lhe aperte um grito
e depois se desfaça
do outro lado dos jardins
a perseguição do véu desnudo
pois um riso estremece
nas fendas do paraíso.
repito:
do outro lado da estrada
e
estamos nus ou eu vejo-lhe
a nudez num olho
e um véu
não em silêncio não
lhe é mais do que a pele
e o que faz a pele ser
esse véu preso na cabeça
enrolado num brilho de pranto
gotejante pelas ameias do enorme
horizonte do seu peito
e o que faz o seu sorriso já
então a semelhança inteira do febril
numa mão lacrada a unhas de sangue
como se lhe visse
o fundo do ódio
volta-se
num súbito
és tu és tu
quem não voltaria
para os teus braços
do outro lado do espaço.
aceno talvez
ou
já sei esqueço-me
e escondo a cara no meu peito
e
quem é a mulher do outro lado do espelho
já o véu cai
suspeito
e a pele retira-se para adormecer
modo eterno
como seria dizermos devagar
rente aos ossos
um enroscar de pestanas
pulsantes nos dedos nos lábios nos perfeitos
contornos da cadência a dois
lados de crime.
olho a mulher do outro lado do rio
minto:
do outro lado da cama
reforço:
do outro lado dos cheiros estagnados dos meus bosques de bolonha
ou
tudo clama minha mão-vontade
que lhe aperte um grito
e depois se desfaça
do outro lado dos jardins
a perseguição do véu desnudo
pois um riso estremece
nas fendas do paraíso.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
dizem
sigo-os
crescentes no teu metalizado arbóreo.
saio à rua para sorver a intempérie
mas não não sou eu
é um outro. amante dos estios.
um que tenha memória suficiente para
cair de vez na linha dos comboios
se sujeitar à mão maquinal da histeria
e dar de si um grito para o lado
num suspiro rouco de caverna
aquilo tudo tudo
o que foi adiado a tempo certo e
um dois três
aos três saltamos
eu na tua mão não sei se é
meu o teu suor também e a aparência
de uma dúvida na linha da testa
e um olhar de refúgio a ferir como uma aresta
um interstício de inquietação.
por que não desta vez e de todas as outras?
é a carne dizem.
e uma língua que ainda não esquece
a marca refulgente da lâmina e o seu doce
escorregar de donzela
engolida inteira.
ainda tenho
a carne dos vitrais saliente nos olhos
e o teu peso nela obriga-os
a ser manhã.
crescentes no teu metalizado arbóreo.
saio à rua para sorver a intempérie
mas não não sou eu
é um outro. amante dos estios.
um que tenha memória suficiente para
cair de vez na linha dos comboios
se sujeitar à mão maquinal da histeria
e dar de si um grito para o lado
num suspiro rouco de caverna
aquilo tudo tudo
o que foi adiado a tempo certo e
um dois três
aos três saltamos
eu na tua mão não sei se é
meu o teu suor também e a aparência
de uma dúvida na linha da testa
e um olhar de refúgio a ferir como uma aresta
um interstício de inquietação.
por que não desta vez e de todas as outras?
é a carne dizem.
e uma língua que ainda não esquece
a marca refulgente da lâmina e o seu doce
escorregar de donzela
engolida inteira.
ainda tenho
a carne dos vitrais saliente nos olhos
e o teu peso nela obriga-os
a ser manhã.
inter-morfologias
mas há quem ande aos arrotos sucessivos
uns sobre os outros
cambada de pulhas de esfreganço
a roçar o que de mais vital há na noite
sobre uma parede branca a descoberto
ou na liquidez fria de um consolo
um gemido abafado como se dissesse
grito.
um corte raso
em três partes unas e equidistantemente
perfeitinhas como dentinhos enfileirados.
uma multidão inquieta
vai e pisa
sem saber o que é o amor
às facas e aos podres e aos óxidos.
talvez cuspa para dar mais
brilho à cena
uma falsidade de pérola espumosa
a descansar redonda os seus sonhos fétidos
num contorno de lábio rígido.
e pode haver no ar uma pergunta
como quem se lembrasse de aliviar
ali mesmo
a alma e os esfíncteres
pouco audazes.
essa nuvem que se adensa
e depois cai e chora
e sobre todos deixa um olho mais largo no seu centro
essa nuvem fazia agora falta.
talvez uma segunda-feira surgisse
mais ela mesma
e não fizesse tanto sol
e pudesse respirar o seco dos troncos
como extensão dos meus cotovelos.
uma margem dentada de espelho
nada disso é plenamente.
é um diálogo infinito da matéria
como se falássemos com verdadeiras insinuações de gente.
só que o teu rosto
não passa de ser sempre a mesma janela
e o que sei só
sei o que ele mente.
uns sobre os outros
cambada de pulhas de esfreganço
a roçar o que de mais vital há na noite
sobre uma parede branca a descoberto
ou na liquidez fria de um consolo
um gemido abafado como se dissesse
grito.
um corte raso
em três partes unas e equidistantemente
perfeitinhas como dentinhos enfileirados.
uma multidão inquieta
vai e pisa
sem saber o que é o amor
às facas e aos podres e aos óxidos.
talvez cuspa para dar mais
brilho à cena
uma falsidade de pérola espumosa
a descansar redonda os seus sonhos fétidos
num contorno de lábio rígido.
e pode haver no ar uma pergunta
como quem se lembrasse de aliviar
ali mesmo
a alma e os esfíncteres
pouco audazes.
essa nuvem que se adensa
e depois cai e chora
e sobre todos deixa um olho mais largo no seu centro
essa nuvem fazia agora falta.
talvez uma segunda-feira surgisse
mais ela mesma
e não fizesse tanto sol
e pudesse respirar o seco dos troncos
como extensão dos meus cotovelos.
uma margem dentada de espelho
nada disso é plenamente.
é um diálogo infinito da matéria
como se falássemos com verdadeiras insinuações de gente.
só que o teu rosto
não passa de ser sempre a mesma janela
e o que sei só
sei o que ele mente.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
outra janela
porque hoje desço a apalpar
a cara dos estranhos
e tudo vem pálido até
o hálito dos jardins de seda.
cruza-se a perna a um sol
de três tempos
e lê-se o jornal devagarinho
com o borrão negro de tinta a crescer
na testa.
ouvem-se dois passos com o meu timbre de queda
diante de uma poça sou de lama
e nem o nome me sei para escorrê-lo.
[a vida podia ser uma
viagem para a cama
em quatro pinceladas e
o meu retrato ungido
de peste a mostrar os dentes
pendentes como velas
líquidas pela manhã.]
entra-se pelos barcos adentro
a furar o lodo sacrílego
todo puritano ao deus da primavera.
uma penetração de osso que estala
nas paredes. um mal-estar de
dever cumprido
e os meus dedos estirados de unhas felinas
longínquos
até à outra janela.
a cara dos estranhos
e tudo vem pálido até
o hálito dos jardins de seda.
cruza-se a perna a um sol
de três tempos
e lê-se o jornal devagarinho
com o borrão negro de tinta a crescer
na testa.
ouvem-se dois passos com o meu timbre de queda
diante de uma poça sou de lama
e nem o nome me sei para escorrê-lo.
[a vida podia ser uma
viagem para a cama
em quatro pinceladas e
o meu retrato ungido
de peste a mostrar os dentes
pendentes como velas
líquidas pela manhã.]
entra-se pelos barcos adentro
a furar o lodo sacrílego
todo puritano ao deus da primavera.
uma penetração de osso que estala
nas paredes. um mal-estar de
dever cumprido
e os meus dedos estirados de unhas felinas
longínquos
até à outra janela.
domingo, 13 de outubro de 2013
fin de siécle com as cuecas despidas
é como uma porta que teima
em abrir e diz:
sou-te um pêndulo
ou o teu fecho daninho éclair
a romper com um zumbido de dentes
a menina dos olhos do avesso.
um escape puro das janelas
estáticas no escavar urinário das nuvens.
admira-as. como pendem escancaradas
mas desculpa julguei que fossem
apenas os teus olhos.
comprei-os ontem
ainda pendentes mornos nos dedos da manhã. habitual:
o retrato lânguido do semicerrado
o gosto seco a sangue mordido
labial sou a minha
cabeça pulsante em segredo ao frio do
azulejo. dois dedos de cigarro
ali do vizinho e numa hora má
uma sonolência de divã
uns pés para o tecto da cova
e uma comichão de sorriso
para não aparentar de menos o cínico.
ora diga
o molhado do colchão
em sussurros de esponja
que tudo isto é falso. e agora já
cai uma tempestade no meio macilento das pernas
sem significância. rompeu-se da própria carne
o sentido. da rendinha amarelada das cuequinhas juvenis
desprende-se o arrepio de um grande século inteiro debaixo
de um comboio sem paragem nem reverberação.
incendeiam-lhes as casas
e os pardais fogem pelas veias
porque lhes chamam de coitados. e dão-lhes
os dedos esmigalhados de uma prisão.
um absurdo não tem maior nome que o teu.
e sobra tudo. sobra tudo.
em abrir e diz:
sou-te um pêndulo
ou o teu fecho daninho éclair
a romper com um zumbido de dentes
a menina dos olhos do avesso.
um escape puro das janelas
estáticas no escavar urinário das nuvens.
admira-as. como pendem escancaradas
mas desculpa julguei que fossem
apenas os teus olhos.
comprei-os ontem
ainda pendentes mornos nos dedos da manhã. habitual:
o retrato lânguido do semicerrado
o gosto seco a sangue mordido
labial sou a minha
cabeça pulsante em segredo ao frio do
azulejo. dois dedos de cigarro
ali do vizinho e numa hora má
uma sonolência de divã
uns pés para o tecto da cova
e uma comichão de sorriso
para não aparentar de menos o cínico.
ora diga
o molhado do colchão
em sussurros de esponja
que tudo isto é falso. e agora já
cai uma tempestade no meio macilento das pernas
sem significância. rompeu-se da própria carne
o sentido. da rendinha amarelada das cuequinhas juvenis
desprende-se o arrepio de um grande século inteiro debaixo
de um comboio sem paragem nem reverberação.
incendeiam-lhes as casas
e os pardais fogem pelas veias
porque lhes chamam de coitados. e dão-lhes
os dedos esmigalhados de uma prisão.
um absurdo não tem maior nome que o teu.
e sobra tudo. sobra tudo.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
voz de rio chão
voz de rio chão
sereno plástico de lama
e canto-guincho de alvorada
sobre o restolho final.
é uma espuma inversa
das horas e a minha boca
nelas só para as insuflar
do coalho pastoso
emaranhado ao comprido
dos cabelos sem velo de Jasão.
---
ora seguimos ao longo das imagens
e esse muro de tarde
é o rosto das laranjas e o nosso
outro meio em queda de si. já passámos
os pomares e agora venha no enjoo
um aperto de intestino meigo
a reclamar que o abracem
silencioso já nem estremece
agora só quer ter consigo o dia inteiro
e o dourado seco dos outonos
como ramagem sólida ao longo
das sombras desses outros olhos
aqui logo já nessa frente de joelho contra joelho.
a catástrofe é um lábio que treme.
e no seu centro uma denúncia de outro canto
um bater de portas com mão de vento
e o murmúrio salgado de uma elegia.
a catástrofe é uma mão que sua
e desliza bem para dentro
até pernoitar num qualquer fundo
esburacado de casaco e só escorrer
quando for tempo de acenar
um adeus filho que vais
para a terra. e o teu nome
tão vincado debaixo do olho
essa mancha que se te alastra
essa mancha é a tua guerra.
sereno plástico de lama
e canto-guincho de alvorada
sobre o restolho final.
é uma espuma inversa
das horas e a minha boca
nelas só para as insuflar
do coalho pastoso
emaranhado ao comprido
dos cabelos sem velo de Jasão.
---
ora seguimos ao longo das imagens
e esse muro de tarde
é o rosto das laranjas e o nosso
outro meio em queda de si. já passámos
os pomares e agora venha no enjoo
um aperto de intestino meigo
a reclamar que o abracem
silencioso já nem estremece
agora só quer ter consigo o dia inteiro
e o dourado seco dos outonos
como ramagem sólida ao longo
das sombras desses outros olhos
aqui logo já nessa frente de joelho contra joelho.
a catástrofe é um lábio que treme.
e no seu centro uma denúncia de outro canto
um bater de portas com mão de vento
e o murmúrio salgado de uma elegia.
a catástrofe é uma mão que sua
e desliza bem para dentro
até pernoitar num qualquer fundo
esburacado de casaco e só escorrer
quando for tempo de acenar
um adeus filho que vais
para a terra. e o teu nome
tão vincado debaixo do olho
essa mancha que se te alastra
essa mancha é a tua guerra.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
canto de desonra
para cantar
eu todo completo enérgico numérico
a desonra.
a minha história
é o sem história do momento.
e hoje a liberdade diz-me nada:
sufoquei o estilo a agulhas
entre os dedos.
e para caminhar
fecho antes a porta a um perfeito vizinho
e sacudo o tempo de chuva
quero eu crer que não
e mergulho a fundo nas travessas.
vou até onde me encontrem
já estirado entre a repulsa dos dois braços
e onde o desencaixe do meu rosto nunca sirva de lição.
enlameado pela crueza do cuspo
vou até onde me pisem
para depois chegar ao destino
inteiro vivo
no núcleo de uma corda de umbigos
a correrem como festa
as varandas opostas dos edifícios.
eu todo completo enérgico numérico
a desonra.
a minha história
é o sem história do momento.
e hoje a liberdade diz-me nada:
sufoquei o estilo a agulhas
entre os dedos.
e para caminhar
fecho antes a porta a um perfeito vizinho
e sacudo o tempo de chuva
quero eu crer que não
e mergulho a fundo nas travessas.
vou até onde me encontrem
já estirado entre a repulsa dos dois braços
e onde o desencaixe do meu rosto nunca sirva de lição.
enlameado pela crueza do cuspo
vou até onde me pisem
para depois chegar ao destino
inteiro vivo
no núcleo de uma corda de umbigos
a correrem como festa
as varandas opostas dos edifícios.
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