o dia tem formas de começar
nos teus cabelos. já não falo
da plenitude de uma hora
nos teus braços talvez só
desse cansaço de te olhar
contra um fundo perdido
uma manhã estiolada em todas
as arestas um sol mais de vidro
mais de medo. acredito-te
na solidão profunda de uma casa
a abrir as goelas dos gatos.
ainda te sinto a fome apertada
como uma faixa inteira de corpo
morto a permitir o início
da estrada. mas não há
caminhar nem tão pouco
céu aberto onde depositar
os meus ossos. só um vidro fosco
atravessado na garganta uma
ginástica lenta em direcção
ao coma. uma esfinge
de pata erguida no lava-loiça
com os olhos da infinita espera
os dias sempre aqui iguais
e verdadeiros. não para mim.
hei-de sair e apanhar o último
autocarro para o país de fora
enquanto na rua só o sorriso
irónico dos melros e as bengalas
insones sussurram o quanto terei
ainda que te esquecer.
sábado, 31 de maio de 2014
sexta-feira, 30 de maio de 2014
ainda vamos ver
o pulsar leguminoso da vida
crescer em nós o tentáculo aéreo
espécie de flor numa árvore de chacina.
uma membrana de tempo
no lugar da boca
o sorriso de uns cabelos estranhos
levitados augustos etéreos incinerados
numa obliquidade de sol às quatro em ponto.
ainda vamos ver
a exorbitância do que não cresce
o que não dissolve nem promete
mais que um encosto à alma descaroçada.
isso a sermos nós uma vida inteira
de quarentas e muitos
depois ainda teremos isso de volta
mas saberemos encaixar-lhes o corpo
perceber-lhes o eco sentir-lhes o calor
nos dedos. e não reparar nisso.
o pulsar leguminoso da vida
crescer em nós o tentáculo aéreo
espécie de flor numa árvore de chacina.
uma membrana de tempo
no lugar da boca
o sorriso de uns cabelos estranhos
levitados augustos etéreos incinerados
numa obliquidade de sol às quatro em ponto.
ainda vamos ver
a exorbitância do que não cresce
o que não dissolve nem promete
mais que um encosto à alma descaroçada.
isso a sermos nós uma vida inteira
de quarentas e muitos
depois ainda teremos isso de volta
mas saberemos encaixar-lhes o corpo
perceber-lhes o eco sentir-lhes o calor
nos dedos. e não reparar nisso.
terça-feira, 27 de maio de 2014
comia
como quem diz
abria
como quem diz
esfolava
como quem diz
matava
como quem ama sente
túrgida lágrima na fronte do ventre
ah que bem me sabem os érres na boca
ah que bem que morremos nesta geração
descontinuados
como quem diz
amados
como quem diz
explodidos para dentro
não se manchem as cortinas o divã
a louca paralisia da boca das horas
a oca astúcia de te haver pranto
e agora? amo amo amo
lamechas
amo amo amo
ameixas
pela minha cara boca aberta ao sol genital
só sôfrego de medo sou o puto
o karma inacessível a alma aberta
arroxeada assada esventrada
nem digo o que sinto
nem olho o que leio
rápido fulge olho dedo no teu tecto
de verbo apalavrado com os antes
a musa com o rendimento de inserção
não fala não é aquilo o não sei quê
social que me permite cuspir na cara
dos reflexos das árvores dos copos
do teu almoço de canto sibilino
do vento que passa lá fora é dia
de casamento e lembro-me da minha
dor de pele de peito fascínio em virilhas
pouco alento vontade de leito ah que recobro
e só o vinho dá aso à solidez dos corpos
eu tu dói por acaso dói por acaso
não fascina não equilibra não dá jacto
não me vem o vómito não nem vem
o ócio não vem a peste às três da manhã
acordo! ai chiça que morro
não não tu ficas
hás-de ser o último cavalo
o último a vir em último
porque sim a vida também é madrasta
em quem mama nela não te agoires
passa o ferro o pente pela cara
a carícia pelo tornozelo somos
demasiadas horas juntas
já tivemos demasiados
escaldos de água quente nas costas
vontade de escorregar parir as moscas
ah amor lanço-te o que me resta
torpe fascínio por ti madrugada
a hora mais estiolada entre as costelas
uma raiz de quero-mais-fundo espetada
até aos meus olhos naquelas janelas
de frente de trás ao comprido do bairro inteiro
meu amor assaz hora te prego
os membros na roda da fortuna escolho o
puta-que-pariu-a-sorte esse sai
sempre de mim este líquido insonso
ando roto dizem os vizinhos
ando chocho e nem como assim tão pouco.
sou reles e porquê?
para te abraçar de noite e que não me sintas
ora a afronta a ginecologia em hora de ponta
a babugem minha idiotia de monstro
a descansar nos teus cabelos.
vai-te imundo
sim que eu sou dos que se esfregam
vai-te e lambe-me
a poiesis
o sentido inabitável do tempo que se assiste
à hora solitária do encontro com o sexo
o mesmo
aquele nosso aquele já esconso
aquele baloiçante sentido para a existência
permanecer frio irar a reticência.
eu caí e alguém me viu alguém me ajudou?
todos uns velhacos mas respeito
aqui jaz olho vitríolo camões abaixo
onde não vivo onde não sinto nada
nem os dentes no cachaço ah
sobreveio a dor te ver um carro às cegas
fascina-me o mar estar bem longe a acidez das ideias
já escrevi demais
para quem tem a dentição do desespero
a hemorróida do desalento
uma vida inteira a sorver os miradouros
com o inferno no cu. ninguém merece
este desinteresse pela arte. vai de mim queima
treslê tresluz de parte a parte
e eu que me foda. ah acabe esta merda de poema
e o blog que se ponha na chacina
obre-se o medo a conduta malsã o degredo
da minha parte vou solfejando como quem lê na clave de dó
dói dói aqui fica dói e ninguém sabe o que custa
doer ao estado hoje em dia. adeus
a política ofende e arrota. não queremos disso aqui
entre as pernas.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
essa coisa de ter
o pé torcido
o olho em sangue
um dia avesso de
vez em quando
a unha mal roída no reverso
a telepatia a versar
sobre o terço das horas.
chego quando bem
me apetece. morro
como quem também se esquece
e ainda me sobram
os resquícios da viuvez
a casa de janelas à banda
a falta que fazem as sardinheiras.
a metástase paralela
do meu rosto onde canta aquele
tal jingle semi-erótico
da inocência perdida. um
pré-guerra genital. uma
belle époque mais reles
a dar o laço sofrer o braço
a cuspir o nome em que me desgraço.
pois que me rendo às ladaínhas
de abraçar sonâmbulo a dança
das bainhas das cortinas das histórias.
nenhuma delas a minha.
o pé torcido
o olho em sangue
um dia avesso de
vez em quando
a unha mal roída no reverso
a telepatia a versar
sobre o terço das horas.
chego quando bem
me apetece. morro
como quem também se esquece
e ainda me sobram
os resquícios da viuvez
a casa de janelas à banda
a falta que fazem as sardinheiras.
a metástase paralela
do meu rosto onde canta aquele
tal jingle semi-erótico
da inocência perdida. um
pré-guerra genital. uma
belle époque mais reles
a dar o laço sofrer o braço
a cuspir o nome em que me desgraço.
pois que me rendo às ladaínhas
de abraçar sonâmbulo a dança
das bainhas das cortinas das histórias.
nenhuma delas a minha.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
só para mim
dizem:
cheiras mal
sinal de pobreza
tosses como os fúteis
queimas os cabelos que te restam
às bocas dos metros feitas sereias serigráficas
cospes no teu prato vazio arrotas assim que te acalmas
expurgas o ateísmo através do pus dos dedos ensebados
cara imunda gato possuído pelas febres ritual assassino de uma
noite de discoteca que dá sempre para o torto cabeça em passos
de paralelos ah a formidável aspereza do poema interminável a vida
não é literatura. já o sabíamos mesmo antes de vermos a cara prostituída
dos fins dos nossos meses baterem à porta sem motivo. sempre a tivemos
escancarada para a possibilidade dos mendigos. digo nós. digo antes que eles
digam nós que somos um nós dentro da negação da mão contrangida apertada
junto à víscera perfeita. entre-meio de nádegas de entre-tudo em futuro póstumo
às arribas das tuas pernas a começarem em mim a acabarem no bem depressa que isto
foi. não há solução para a sorte. caiu-nos a falta de verbo em cima. palavras escassas para
aquela sim aquela pressão junto à língua mas que vem antes sobe em formigueiro força a água
das veias expele os pulmões para dentro da cova dos braços que não temos a puxar como quem
fere aos arrancos o últimos dos nossos cordões. o tal que nos liga à terra e tritura o pescoço a sobejar de vontade. aquela de ter mais espaço para acabar esta letra. o poema que se foda. tenho sede. falta ainda dizer tudo. afinal não. só falta nada.
dizem:
cheiras mal
sinal de pobreza
tosses como os fúteis
queimas os cabelos que te restam
às bocas dos metros feitas sereias serigráficas
cospes no teu prato vazio arrotas assim que te acalmas
expurgas o ateísmo através do pus dos dedos ensebados
cara imunda gato possuído pelas febres ritual assassino de uma
noite de discoteca que dá sempre para o torto cabeça em passos
de paralelos ah a formidável aspereza do poema interminável a vida
não é literatura. já o sabíamos mesmo antes de vermos a cara prostituída
dos fins dos nossos meses baterem à porta sem motivo. sempre a tivemos
escancarada para a possibilidade dos mendigos. digo nós. digo antes que eles
digam nós que somos um nós dentro da negação da mão contrangida apertada
junto à víscera perfeita. entre-meio de nádegas de entre-tudo em futuro póstumo
às arribas das tuas pernas a começarem em mim a acabarem no bem depressa que isto
foi. não há solução para a sorte. caiu-nos a falta de verbo em cima. palavras escassas para
aquela sim aquela pressão junto à língua mas que vem antes sobe em formigueiro força a água
das veias expele os pulmões para dentro da cova dos braços que não temos a puxar como quem
fere aos arrancos o últimos dos nossos cordões. o tal que nos liga à terra e tritura o pescoço a sobejar de vontade. aquela de ter mais espaço para acabar esta letra. o poema que se foda. tenho sede. falta ainda dizer tudo. afinal não. só falta nada.
quarta-feira, 21 de maio de 2014
hei-de dizer toda a mentira
vender atrás de uma esquina
atrás de um ventre esmigalhado aquilo
que não sinto. coser ensanguentada
língua bífida a um sol certo.
marejar de lêndeas o nevrálgico trema
sur la tête. por onde vão em desgraça
os hinos em filamentos. casta entediada
do sacro verme. o assunto:
a verdade
só conseguida em nacos e aos arrancos.
palmadas no focinho.
caritativas ansiedades pelos rodapés
à paneleiragem de um sufixo.
bisogna de significação. a gente
cá se entende. não falta assim tanto
para subvertermos a penugem seca
das palavras. cuspir-lhes um hálito
decente daqueles de dar emprego.
pôr-lhes o risco ao lado
com pente de ódio determinista.
de mim só sei
que ainda ontem comi arroz estragado
pois ainda cá está ainda cá canta.
vender atrás de uma esquina
atrás de um ventre esmigalhado aquilo
que não sinto. coser ensanguentada
língua bífida a um sol certo.
marejar de lêndeas o nevrálgico trema
sur la tête. por onde vão em desgraça
os hinos em filamentos. casta entediada
do sacro verme. o assunto:
a verdade
só conseguida em nacos e aos arrancos.
palmadas no focinho.
caritativas ansiedades pelos rodapés
à paneleiragem de um sufixo.
bisogna de significação. a gente
cá se entende. não falta assim tanto
para subvertermos a penugem seca
das palavras. cuspir-lhes um hálito
decente daqueles de dar emprego.
pôr-lhes o risco ao lado
com pente de ódio determinista.
de mim só sei
que ainda ontem comi arroz estragado
pois ainda cá está ainda cá canta.
terça-feira, 20 de maio de 2014
devíamos todos viver em lisboa, ter carro e fins-de-semana e trazer ao pescoço a mecha bafienta dos cabelos da nossa morte
pego no café não o bebo
(abocanha-me o ventre)
sei que dali virá não bom tempo
uma madrugada ferida pela missão dos campanários
um comboio de frente para os estrangeiros
um idioma uma face estranha neutra
corre a apanhar aos soluços o jornal espalhado sobre
a ronha dos que partem. vem em paragonas
que abriste a janela para ver o traço físico dos homens
as suas mãos cabeludas e desordenadas
aos arranques pela santa estação fora.
hei-de sempre voltar aqui
pagar uma conversa. desprezar o café.
fingir que não fumega. que já chove. ou ainda
que o azul é só meu. da auspiciosa cor que se esfrega nos bebés.
o talco de morte que te desenha os contornos da tosse.
a fatalidade da luz enviesada. o decalque sobre o vidro
dos teus ossos de espera. mala aviada. cigarro desfeito.
uma fome de manhã. sempre eterna manhã antes das partidas.
jejuamos que é como quem diz
apertamos as mãos e sofremos
para alguém que resta além de nós. o inevitável
cego ou uma cautela irreconhecível
colada ao meu sapato molhada e terna
a vacuidade da despedida.
venho aqui apenas para te ver na pele de quem parte
que sei que não vai longe. o mundo já não é só
paris e planície. lisboa às sextas. trovoada sobre o monsanto.
estes adormecem no resíduo. ainda o cheiro. vão a braçadas de cinzeiro
ter com o destino
e tu com eles hás-de chegar uma manhã
aceitar o café morno cruzar a perna e achá-la fria
a minha mão. não te enganes tudo é esforço.
aprendi com os teus olhos
a ter medo dos dedos. a cortar cedo a peste dos membros
a definhar com os pombos a melhor idade para escrever.
hei-de ter trinta e estar para além do velho
sentado no banco que ainda pressinto meu por defeito.
esqueci-me de fazer evocação às flores neste poema
e à música. faço-o num post scriptum ou
no teu seio. não importa. ainda hão-de haver
manhãs como esta
iguais às que nunca vivi enquanto estive por casa
e tu vieste no das sete e meia segundo creio.
viu-te o taxista e uma língua de sol sobre o tejo
e termino aqui. só digo que
a poesia nunca nos há-de dar filhos
daqueles sãos e verdadeiros
daqueles que interessam.
(abocanha-me o ventre)
sei que dali virá não bom tempo
uma madrugada ferida pela missão dos campanários
um comboio de frente para os estrangeiros
um idioma uma face estranha neutra
corre a apanhar aos soluços o jornal espalhado sobre
a ronha dos que partem. vem em paragonas
que abriste a janela para ver o traço físico dos homens
as suas mãos cabeludas e desordenadas
aos arranques pela santa estação fora.
hei-de sempre voltar aqui
pagar uma conversa. desprezar o café.
fingir que não fumega. que já chove. ou ainda
que o azul é só meu. da auspiciosa cor que se esfrega nos bebés.
o talco de morte que te desenha os contornos da tosse.
a fatalidade da luz enviesada. o decalque sobre o vidro
dos teus ossos de espera. mala aviada. cigarro desfeito.
uma fome de manhã. sempre eterna manhã antes das partidas.
jejuamos que é como quem diz
apertamos as mãos e sofremos
para alguém que resta além de nós. o inevitável
cego ou uma cautela irreconhecível
colada ao meu sapato molhada e terna
a vacuidade da despedida.
venho aqui apenas para te ver na pele de quem parte
que sei que não vai longe. o mundo já não é só
paris e planície. lisboa às sextas. trovoada sobre o monsanto.
estes adormecem no resíduo. ainda o cheiro. vão a braçadas de cinzeiro
ter com o destino
e tu com eles hás-de chegar uma manhã
aceitar o café morno cruzar a perna e achá-la fria
a minha mão. não te enganes tudo é esforço.
aprendi com os teus olhos
a ter medo dos dedos. a cortar cedo a peste dos membros
a definhar com os pombos a melhor idade para escrever.
hei-de ter trinta e estar para além do velho
sentado no banco que ainda pressinto meu por defeito.
esqueci-me de fazer evocação às flores neste poema
e à música. faço-o num post scriptum ou
no teu seio. não importa. ainda hão-de haver
manhãs como esta
iguais às que nunca vivi enquanto estive por casa
e tu vieste no das sete e meia segundo creio.
viu-te o taxista e uma língua de sol sobre o tejo
e termino aqui. só digo que
a poesia nunca nos há-de dar filhos
daqueles sãos e verdadeiros
daqueles que interessam.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
quem conta um coto
o que pode queimar
a mão aberta
rasgada já até sem dedos
acéfalos membros
quietas tiras de carne mínima
acariciando a testa dos gatos
passeando na boca de um
recusando a astúcia de outro
pela quietude
já nada queima a palma ossuda
transparente já até sem caligrafia
bafeja um ódio pelas coisas
límpidas à luz pálida
da manhã solene calada.
o que pode queimar
uma fé amputada
aqui esperemos
um passeio à igreja
marca a meia hora uma só badalada
e treme o pedacinho de pele que ainda nos pende
não só do meio do ventre mas também
do meio da ...
aqui declaremos
o mundo é bem o sabemos
todos-o-sabemos
um belíssima merda e nada se salva Girolamo
ao fogo ao fogo
nem a chuva te esmaga o crânio
nem a putice pegada
hipócrita pulha falta-de-bom-gosto hálito-de-carpideira sabão-sujo-de-pintelheira
nem aguarrás bem engolida
de calcanhares encolhidos joelhos de boca lânguida cegueira na voz desnuda carne
aberta aberta
nada nos salvará da poça semi-sangue cuspida à pressa.
aqui morreremos
já lhe vemos meia face na barriga aberta
um narizinho de gangrena diz que sai à mãe.
sai sempre tudo de si
desprendem-se os fios que nos seguram
a destreza de nos amarmos
um corpo rebola em pedaços ladeira abaixo
diz
segura filho
um joelho esfolado bebido a lágrimas e ranho salgado
foi o nosso natal insonso sempre
a insónia dos amores e resmunguice dos amigos
as bocas podres podres podres
sentadas nos passeios
paralelismo na desilusão nos dentes
crescemos faz hoje uma parga de anos
e sujamos a camada vísivel da alma
nas calças da porcaria canina e urbana.
dá-me a mão e eu desfaço-a
faço-te a vontade
amordaço-a se for preciso também
e rompo-te os lábios
é só pedires é só pedires
e sou todo teu
pedaço de bar canto nunca varrido encostado
à cadeira mais distante
que só te oiça o crepitar áureo
de um arroto satisfeito.
belos dias excedentários para a poesia.
mente-se como a carne ferve.
a mão aberta
rasgada já até sem dedos
acéfalos membros
quietas tiras de carne mínima
acariciando a testa dos gatos
passeando na boca de um
recusando a astúcia de outro
pela quietude
já nada queima a palma ossuda
transparente já até sem caligrafia
bafeja um ódio pelas coisas
límpidas à luz pálida
da manhã solene calada.
o que pode queimar
uma fé amputada
aqui esperemos
um passeio à igreja
marca a meia hora uma só badalada
e treme o pedacinho de pele que ainda nos pende
não só do meio do ventre mas também
do meio da ...
aqui declaremos
o mundo é bem o sabemos
todos-o-sabemos
um belíssima merda e nada se salva Girolamo
ao fogo ao fogo
nem a chuva te esmaga o crânio
nem a putice pegada
hipócrita pulha falta-de-bom-gosto hálito-de-carpideira sabão-sujo-de-pintelheira
nem aguarrás bem engolida
de calcanhares encolhidos joelhos de boca lânguida cegueira na voz desnuda carne
aberta aberta
nada nos salvará da poça semi-sangue cuspida à pressa.
aqui morreremos
já lhe vemos meia face na barriga aberta
um narizinho de gangrena diz que sai à mãe.
sai sempre tudo de si
desprendem-se os fios que nos seguram
a destreza de nos amarmos
um corpo rebola em pedaços ladeira abaixo
diz
segura filho
um joelho esfolado bebido a lágrimas e ranho salgado
foi o nosso natal insonso sempre
a insónia dos amores e resmunguice dos amigos
as bocas podres podres podres
sentadas nos passeios
paralelismo na desilusão nos dentes
crescemos faz hoje uma parga de anos
e sujamos a camada vísivel da alma
nas calças da porcaria canina e urbana.
dá-me a mão e eu desfaço-a
faço-te a vontade
amordaço-a se for preciso também
e rompo-te os lábios
é só pedires é só pedires
e sou todo teu
pedaço de bar canto nunca varrido encostado
à cadeira mais distante
que só te oiça o crepitar áureo
de um arroto satisfeito.
belos dias excedentários para a poesia.
mente-se como a carne ferve.
sábado, 17 de maio de 2014
joão vicente - sim o próprio - não concretiza.
é enquanto ouve o magnum misterium de lauridsen
que percebe que não concretiza. um homónimo
confundido às bilheteiras dos teatros
- e isto não é
pouco senhores - falso
até no verbo que dormita
inconsciente num fio de saliva seu só.
as palavras aguardam mas joão vicente olha
para outras bocas. de onde migrarão os medos
de onde escorrerá - teima ele em crer -
parto apenas de placentas:
a nuvem vocálica dos versos.
[cheira-lhe ao inefável pela manhã
mistura de pão morno e lixo prenhe de calor.
um sol já lento fere-lhe um pensamento
- teima ele em crer - goethe é o derradeiro auctor
deu-nos a sua última sonata para flauta e cravo.]
cobarde ajeita a posição das pernas mas é o ventre
que custa. suportar o peso desconjuntado do corpo
em viagens eternas para a terra que lhe sabe o nome.
ele dela nunca o soube. o verdadeiro. porventura terá
um mar nos olhos. arde nesse esfreganço salgado
a idiotia. chega um tempo em que somos
verdadeiramente medíocres. ainda bem.
talvez um dia
assuma a mendicidade íntima das coisas.
talvez aprenda a decalcar
através do vidro
a forma última do silêncio.
é enquanto ouve o magnum misterium de lauridsen
que percebe que não concretiza. um homónimo
confundido às bilheteiras dos teatros
- e isto não é
pouco senhores - falso
até no verbo que dormita
inconsciente num fio de saliva seu só.
as palavras aguardam mas joão vicente olha
para outras bocas. de onde migrarão os medos
de onde escorrerá - teima ele em crer -
parto apenas de placentas:
a nuvem vocálica dos versos.
[cheira-lhe ao inefável pela manhã
mistura de pão morno e lixo prenhe de calor.
um sol já lento fere-lhe um pensamento
- teima ele em crer - goethe é o derradeiro auctor
deu-nos a sua última sonata para flauta e cravo.]
cobarde ajeita a posição das pernas mas é o ventre
que custa. suportar o peso desconjuntado do corpo
em viagens eternas para a terra que lhe sabe o nome.
ele dela nunca o soube. o verdadeiro. porventura terá
um mar nos olhos. arde nesse esfreganço salgado
a idiotia. chega um tempo em que somos
verdadeiramente medíocres. ainda bem.
talvez um dia
assuma a mendicidade íntima das coisas.
talvez aprenda a decalcar
através do vidro
a forma última do silêncio.
sexta-feira, 16 de maio de 2014
eritreu deslocado
raça do miúdo
sempre perna à banda nos
queixos dos aviões
rasam a calva das
cuecas quando roçam pelas bicicletas
idiota! tu que ruges
perfumes diante dos vestidos
senhora a cara face à vela
límpida vejo-lhe já arfar o seio
queima queima ai não! a mão
raios te partam
ganiste um potro
truncaste a mulher
violaste a árvore com um grito
golo! que se foda
já era tempo nunca mais ai! não nunca
que dizes que escreves
só passado amor
tudo muge tudo tuge
pega-lhe no membro e ri
está murcho hahaha hihihi
não
a tua alma é que se finou ao toque certo
arrefinfa nos urinóis
dá-lhe de gatas e aos três
upa lá pra cima lá pra dentro
não porra aí não
ó que se lixe
também me benzi de creolina diz que não
dá mais sangue à guelra
ah se tu visses o que eu vi
um beijo numa pedra
puta! puta! três vezes puta!
tudo o que mexe sabe-te a pouco
entre as varizes. não com sal não
já tenho dilemas que me bastem
e dentro de pouco tempo hei-de me vir
abre a cara abre a cara
algum coração dentro? alô?
preciso de mais vinho. mas este mês não deixa
ainda vai a meio carril até aqui só
uma gotícula de desespero todas as manhãs
acordo de boca fendida
um grito nos joelhos queima
onde ninguém oiça aqui não aqui não
tenho vergonha tenho
aquele acrescento do homem moderno término de casta
um sítio agreste de flor inabitada
onde devia morar
o fim das nossas mãos.
sicut erat in principio nunc et semper
porra queime-se o poema
dobrado bem espetado
na boca de um filho.
anda cá rapaz
cuspo-te nas mãos
ora toma a prece. vá fina-te.
raça do miúdo
sempre perna à banda nos
queixos dos aviões
rasam a calva das
cuecas quando roçam pelas bicicletas
idiota! tu que ruges
perfumes diante dos vestidos
senhora a cara face à vela
límpida vejo-lhe já arfar o seio
queima queima ai não! a mão
raios te partam
ganiste um potro
truncaste a mulher
violaste a árvore com um grito
golo! que se foda
já era tempo nunca mais ai! não nunca
que dizes que escreves
só passado amor
tudo muge tudo tuge
pega-lhe no membro e ri
está murcho hahaha hihihi
não
a tua alma é que se finou ao toque certo
arrefinfa nos urinóis
dá-lhe de gatas e aos três
upa lá pra cima lá pra dentro
não porra aí não
ó que se lixe
também me benzi de creolina diz que não
dá mais sangue à guelra
ah se tu visses o que eu vi
um beijo numa pedra
puta! puta! três vezes puta!
tudo o que mexe sabe-te a pouco
entre as varizes. não com sal não
já tenho dilemas que me bastem
e dentro de pouco tempo hei-de me vir
abre a cara abre a cara
algum coração dentro? alô?
preciso de mais vinho. mas este mês não deixa
ainda vai a meio carril até aqui só
uma gotícula de desespero todas as manhãs
acordo de boca fendida
um grito nos joelhos queima
onde ninguém oiça aqui não aqui não
tenho vergonha tenho
aquele acrescento do homem moderno término de casta
um sítio agreste de flor inabitada
onde devia morar
o fim das nossas mãos.
sicut erat in principio nunc et semper
porra queime-se o poema
dobrado bem espetado
na boca de um filho.
anda cá rapaz
cuspo-te nas mãos
ora toma a prece. vá fina-te.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
tens um blog rapaz
a vida feita
uma mão nas costas
palpitações generosas no peito
uma palavra sempre ansiosa
a arredondar a ponta da língua
lágrimas mais sujas (já cresceram tanto)
um gosto musical selecto
predilecção pelo rancor dos automóveis
e uma afinação característica na voz interior
a de poeta domingueiro madrugador afoito
dos que não têm medo de ter só medo
às aranhas pelas casas meio nus depois
do eterno banho
lodo lodo ante lodo
rapaz tu branquinho saído do mobiliário cavalheiresco de wc
olha chegámos tarde de mais ao casamento
já devia ser meia-noite se tanto copo de água e embriaguez
e matamos demasiado cedo talvez se bem me lembro
o sorriso afectado de uma insónia canina.
diante dos hialinos caros verbos às montras
tamborilam outros dedos estranhos
uma boca fechada imita uma sonata de schubert
muito mal amanhada muito mal amanhada
a afinação destes dias sempre muito acima
a ranger os olhos a rasgar os cantos das bocas
fico-me. boquiaberto. não sei quem canta
ninguém nunca canta rua abaixo só
debaixo da capa de pele aberta
uma chuva intensa de som rasteiro. fico-me
blog à banda adeus ao regional para tomar
e em diante somos por fim alguém.
já custa. é um tempo
com outro espírito dentro.
já basta.
a vida feita
uma mão nas costas
palpitações generosas no peito
uma palavra sempre ansiosa
a arredondar a ponta da língua
lágrimas mais sujas (já cresceram tanto)
um gosto musical selecto
predilecção pelo rancor dos automóveis
e uma afinação característica na voz interior
a de poeta domingueiro madrugador afoito
dos que não têm medo de ter só medo
às aranhas pelas casas meio nus depois
do eterno banho
lodo lodo ante lodo
rapaz tu branquinho saído do mobiliário cavalheiresco de wc
olha chegámos tarde de mais ao casamento
já devia ser meia-noite se tanto copo de água e embriaguez
e matamos demasiado cedo talvez se bem me lembro
o sorriso afectado de uma insónia canina.
diante dos hialinos caros verbos às montras
tamborilam outros dedos estranhos
uma boca fechada imita uma sonata de schubert
muito mal amanhada muito mal amanhada
a afinação destes dias sempre muito acima
a ranger os olhos a rasgar os cantos das bocas
fico-me. boquiaberto. não sei quem canta
ninguém nunca canta rua abaixo só
debaixo da capa de pele aberta
uma chuva intensa de som rasteiro. fico-me
blog à banda adeus ao regional para tomar
e em diante somos por fim alguém.
já custa. é um tempo
com outro espírito dentro.
já basta.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
pois sim:
de quanto precisas para
inaugurares a rua
ignorares a dieta
pores-te assim nua
cuspires na sarjeta
da filarmónica da bandinha da sinfonietta
do diabo a rês a quatro
de quatro antes que te ponha os pés
no destino amor no destino
mas dize-me serpente
de quanto precisas para
bater na retirada
ir ao fotógrafo em cabelos
tirar os ratos dos cotovelos
giolhos princesa nem sempre são só joelhos
e a alma também quer fé
café? à entrada recolhida o assombro
porra língua queimada. nem penses
nem lhe toques nem lhe sofras nem lhe
mas que porra de vez que juro que
nunca mais nunca prometo que mais
assim como tal deixo de ser a tua
garganta em gaguez carburada pelas tardes fora
solavancos como beijos razão toda nula
a tarde palpita no espaço quebrado dos teus olhos
já te disse a harmonia dos joelhos
mas crês que não nem sempre são só
lágrimas. pernas. coxeio de loucos.
sinto que me perco. do outro lado baço só
o teu pescoço. que é que eu perdi?
deixado inútil sem berço na travessa dos penedos
eles eu sós contra os ventos rua abaixo rua
acima. sinto que me perco. já me perdi
acima do mar onde respira a noite mais nítida
deixei os meus dentes. perdoa-me se cuspo.
só quero a paz universal entre os agrafos
estender-me na beleza dos semáforos
corroer-me com a sinfonia do comboio suburbano
entupido de cinco e meia. tantos que eu passei
testa com testa a ouvir contar os rastos
dos chapéus cheios de chuva escriturária.
sinto que me perco e o discurso é gigante.
ante ele eu na miríade de dedos na cara trémulos
e sem qualquer droga ou laxante te digo
esta língua nem ferve. o abdómen sim doutor
a língua nunca nunca ingiro de tudo mas nunca
e se me queixo é só pelo zunido nos ouvidos
santo zunido que me acorda e me faz escrever enormidades
nomes devassos às santinhas apontamentos para jogar
à bola com a baliza dos nichos e eu nem sou disso
sou mais de sábados tristes e zangados comichão na cara
e uma vontade louca de morrer ou sair. melhor morrer e sair
ao mesmo tempo. talvez isso sim cure esta apneia.
sinto que me perco onde ia ah
um futuro ejaculado à pressa
já nada se faz devagar e solto. o meu tempo também não
aprecia solenidades irmãos beijinhos abraços saudades
é tudo por tudo. um nota crente de contrabaixo e basta
tenho pão para três
mais dias que se sigam
ao longe. ele vem bem perto
que se há-de fazer? temo não acabar
as voltas que ainda hei-de dar pela cidade. estou
ausente não esta boca já falou antes
e
creiamos na ressurreição das palavras.
e que no fundo não há devir
amén.
de quanto precisas para
inaugurares a rua
ignorares a dieta
pores-te assim nua
cuspires na sarjeta
da filarmónica da bandinha da sinfonietta
do diabo a rês a quatro
de quatro antes que te ponha os pés
no destino amor no destino
mas dize-me serpente
de quanto precisas para
bater na retirada
ir ao fotógrafo em cabelos
tirar os ratos dos cotovelos
giolhos princesa nem sempre são só joelhos
e a alma também quer fé
café? à entrada recolhida o assombro
porra língua queimada. nem penses
nem lhe toques nem lhe sofras nem lhe
mas que porra de vez que juro que
nunca mais nunca prometo que mais
assim como tal deixo de ser a tua
garganta em gaguez carburada pelas tardes fora
solavancos como beijos razão toda nula
a tarde palpita no espaço quebrado dos teus olhos
já te disse a harmonia dos joelhos
mas crês que não nem sempre são só
lágrimas. pernas. coxeio de loucos.
sinto que me perco. do outro lado baço só
o teu pescoço. que é que eu perdi?
deixado inútil sem berço na travessa dos penedos
eles eu sós contra os ventos rua abaixo rua
acima. sinto que me perco. já me perdi
acima do mar onde respira a noite mais nítida
deixei os meus dentes. perdoa-me se cuspo.
só quero a paz universal entre os agrafos
estender-me na beleza dos semáforos
corroer-me com a sinfonia do comboio suburbano
entupido de cinco e meia. tantos que eu passei
testa com testa a ouvir contar os rastos
dos chapéus cheios de chuva escriturária.
sinto que me perco e o discurso é gigante.
ante ele eu na miríade de dedos na cara trémulos
e sem qualquer droga ou laxante te digo
esta língua nem ferve. o abdómen sim doutor
a língua nunca nunca ingiro de tudo mas nunca
e se me queixo é só pelo zunido nos ouvidos
santo zunido que me acorda e me faz escrever enormidades
nomes devassos às santinhas apontamentos para jogar
à bola com a baliza dos nichos e eu nem sou disso
sou mais de sábados tristes e zangados comichão na cara
e uma vontade louca de morrer ou sair. melhor morrer e sair
ao mesmo tempo. talvez isso sim cure esta apneia.
sinto que me perco onde ia ah
um futuro ejaculado à pressa
já nada se faz devagar e solto. o meu tempo também não
aprecia solenidades irmãos beijinhos abraços saudades
é tudo por tudo. um nota crente de contrabaixo e basta
tenho pão para três
mais dias que se sigam
ao longe. ele vem bem perto
que se há-de fazer? temo não acabar
as voltas que ainda hei-de dar pela cidade. estou
ausente não esta boca já falou antes
e
creiamos na ressurreição das palavras.
e que no fundo não há devir
amén.
sábado, 10 de maio de 2014
pronto rasguei-te um poema
a cara em três golpes de solidão e desgosto
que seríamos nós sem as sextas bem medidas
a fala abrupta suja cuspida rançosa
um aperto a eclodir o nome sempre murmurado
por detrás das cortinas por detrás das fronteiras
toma os meus olhos ouvidos boca
o embrulho não custou nada
só me custa olhar-te por detrás
dos olhos dos outros
ser-te lá o rosto e a hora
a loucura
onde a mão ponta minguada de língua
não chega.
a cara em três golpes de solidão e desgosto
que seríamos nós sem as sextas bem medidas
a fala abrupta suja cuspida rançosa
um aperto a eclodir o nome sempre murmurado
por detrás das cortinas por detrás das fronteiras
toma os meus olhos ouvidos boca
o embrulho não custou nada
só me custa olhar-te por detrás
dos olhos dos outros
ser-te lá o rosto e a hora
a loucura
onde a mão ponta minguada de língua
não chega.
quarta-feira, 7 de maio de 2014
dixitque auctor: merda para os títulos
a embriaguez da propulsão do verbo
vai
é a língua como êmbolo
na parede asfixiada
pressionada como a corda
se retesa na lúbrica
incorrecção do emparedado
a tua alma sangue saliva de calças
descidas pelos joelhos na irmandade atroz
nua da escolha. juras um
parto sublime lúcido aéreo
às gramáticas invioladas
mas só o corte nos teus olhos
de viés raios que tu na obliquidade sempre
te mentes revela carne por dentro
do prometido pachorrento néctar
do silêncio. ó puta parideira de som e ideias
vaga salgada a encher-me a boca da espuma inicial
que te morras que te ofendas que te
porras agarro-me ao pescoço todo vosso nosso
a ver se isto entope de vez. falemos das paisagens
e elas talvez se calem e elas talvez se falem
entre elas não entre nós não
[dor de cabeça forte-brufen-repetição].
a memória de um lapso
apaga o teu véu. bendita
speciosa mater et pulchra
rebentaste para nos dar o pranto
toda nem-só-pontos nem sóagulhas
a perna na direcção astrológica de um orgasmo
porque sim porque sim porque sim
quem grita é o caranaval lá fora
lá nos nossos ouvidos de fora. apre
respirar cansa custa a dança ai a bela e doce
ejaculada lágrima da loucura. tanto nos custou
talvez uma civilização inteira para tudo isto agora degenerar
sim sim sim
degenere e que se cace a pulhice
não somos nós fé para ninguém.
ai que sucinto e escorreito
verso chega mais tarde que os outros.
morro atrás de um aneurisma. essa metáfora perfeita.
vai
é a língua como êmbolo
na parede asfixiada
pressionada como a corda
se retesa na lúbrica
incorrecção do emparedado
a tua alma sangue saliva de calças
descidas pelos joelhos na irmandade atroz
nua da escolha. juras um
parto sublime lúcido aéreo
às gramáticas invioladas
mas só o corte nos teus olhos
de viés raios que tu na obliquidade sempre
te mentes revela carne por dentro
do prometido pachorrento néctar
do silêncio. ó puta parideira de som e ideias
vaga salgada a encher-me a boca da espuma inicial
que te morras que te ofendas que te
porras agarro-me ao pescoço todo vosso nosso
a ver se isto entope de vez. falemos das paisagens
e elas talvez se calem e elas talvez se falem
entre elas não entre nós não
[dor de cabeça forte-brufen-repetição].
a memória de um lapso
apaga o teu véu. bendita
speciosa mater et pulchra
rebentaste para nos dar o pranto
toda nem-só-pontos nem sóagulhas
a perna na direcção astrológica de um orgasmo
porque sim porque sim porque sim
quem grita é o caranaval lá fora
lá nos nossos ouvidos de fora. apre
respirar cansa custa a dança ai a bela e doce
ejaculada lágrima da loucura. tanto nos custou
talvez uma civilização inteira para tudo isto agora degenerar
sim sim sim
degenere e que se cace a pulhice
não somos nós fé para ninguém.
ai que sucinto e escorreito
verso chega mais tarde que os outros.
morro atrás de um aneurisma. essa metáfora perfeita.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
poesis para cães
diz a mão trémula
já escrevi
é como tu
acordada algures
num filme remoto às esquinas
a fixar a água turva
opaca tez do teu véu
de boca mordida pelas
evasivas enunciações do amor.
dizes tu
o romance é a cona da terra
não se há-de achar nunca
esse aroma
o furor final sito
da ausência.
a verticalidade de um enfisema pulmonar
que me prometeste
estática de olhos
vazios a pé de madrugada
beijando a ombreira da porta
sussurrando as minhas cem mil mortes
antes que eu acorde.
vestes o corpo de um avesso qualquer
sais puta apetrechada toda um ponto fixo
ao ar fresco das cinco e meia
a sangrar
o queixume redondo da estrofe.
queimei-te o rosto
a linha do queixo aos poucos
só a minha mão dentro da tua boca.
parece demasiado fácil
fingir que se ama
a folha branca em carne viva
aresta genital
crescida em torno esfinge.
mas
é um ódio
só um. a tua presença.
olhos postos na nuca de um sonho.
cresces à noite o silêncio entre os joelhos
a tua pele metida nele
e isso basta para me abrir os olhos
não voltar a adormecer
crer na cama nua apenas
o peso de uma palavra
de que não me recordo.
já escrevi
é como tu
acordada algures
num filme remoto às esquinas
a fixar a água turva
opaca tez do teu véu
de boca mordida pelas
evasivas enunciações do amor.
dizes tu
o romance é a cona da terra
não se há-de achar nunca
esse aroma
o furor final sito
da ausência.
a verticalidade de um enfisema pulmonar
que me prometeste
estática de olhos
vazios a pé de madrugada
beijando a ombreira da porta
sussurrando as minhas cem mil mortes
antes que eu acorde.
vestes o corpo de um avesso qualquer
sais puta apetrechada toda um ponto fixo
ao ar fresco das cinco e meia
a sangrar
o queixume redondo da estrofe.
queimei-te o rosto
a linha do queixo aos poucos
só a minha mão dentro da tua boca.
parece demasiado fácil
fingir que se ama
a folha branca em carne viva
aresta genital
crescida em torno esfinge.
mas
é um ódio
só um. a tua presença.
olhos postos na nuca de um sonho.
cresces à noite o silêncio entre os joelhos
a tua pele metida nele
e isso basta para me abrir os olhos
não voltar a adormecer
crer na cama nua apenas
o peso de uma palavra
de que não me recordo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)