sábado, 31 de maio de 2014

o dia tem formas de começar
nos teus cabelos. já não falo
da plenitude de uma hora
nos teus braços talvez só
desse cansaço de te olhar
contra um fundo perdido
uma manhã estiolada em todas
as arestas um sol mais de vidro
mais de medo. acredito-te
na solidão profunda de uma casa
a abrir as goelas dos gatos.
ainda te sinto a fome apertada
como uma faixa inteira de corpo
morto a permitir o início
da estrada. mas não há
caminhar nem tão pouco
céu aberto onde depositar
os meus ossos. só um vidro fosco
atravessado na garganta uma
ginástica lenta em direcção
ao coma. uma esfinge
de pata erguida no lava-loiça
com os olhos da infinita espera
os dias sempre aqui iguais
e verdadeiros. não para mim.
hei-de sair e apanhar o último
autocarro para o país de fora
enquanto na rua só o sorriso
irónico dos melros e as bengalas
insones sussurram o quanto terei
ainda que te esquecer.

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