sexta-feira, 27 de março de 2015

para o olhar
o que fica o que basta
encerrado no opaco
(não terei forças)

assumirei os dedos na terra
(agarrar as pedras por dentro
desbastar o invisível de perto)

um sussurro no imediato
(a força de um eco no vácuo
quem o ouvirá dentro?)

apenas um dia limpo
(por dentro o ar)

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comecemos
as rochas a água os limos
a decomposição negra ao sol

passeemos
nas marés a carne morta das aves
o voo a descoberto na areia

finquemos os pés
juntas as mãos o sangue
a raíz um filamento saliente da boca

pulsemos manhãs
frias gotas de suor raso
a língua a noite o fruto

por dentro comecemos
a chegar de perto aos sítios
discretos onde habitamos

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nuage
cabelo etéreo
por dentro da mão
a carta da doença
perto do grito
ir ali e não voltar mais



quarta-feira, 18 de março de 2015

é saber que foi escrita demasiada
que só calar é já isso
que no fundo não há nada que se escreva
que não mude e morra

disse:

aos pontapés também eu quis
um desnorte a extrema unção
as costas uma carga montada
para o desespero

levar pancada desta gente toda
odiar mais para ser mais inocente
e ascender pelas frestas
flutuar o peso aos tombos porque

reparo:

a existir o sacro
é o aqui dentro onde
o cúmplice e o nada
- súbito o poema ferve e redunda

nisto:

a boca serve para sorver
com gosto para se lhe ouvir
com o silêncio circular profundo o
ar nos tubos.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Com horror as horas em pano
Linho desfiado na cara e é um estalo
De vento. Com horror o azul

Com que te sorrio e queimo
A ultima linha de pensamento
Nada vale tanto como a corda retesada

O veloz laminar do lençol gigante
Contra o olho um corte amaciado de prece
Em dia de luz passo concreto para o sincero

Cegar das fontes.
A primeira ingenuidade: a idade
Foi de falar puro que não te olhei
(Na altura os olhos partidos de vidro)
E nem sequer um sopro um dia em

Que o teu nome nascesse
Janela aberta para os quintais
Como nasce o que vem antes
Do dia das coisas de ser dia onde

Há apenas a presença
Preenchendo pelos rios o desespero
Do que corre para saber ser fim.
Ainda o teu cheiro como quem

Chegou antes de si. Veio
A um mundo e era menos agora
Que completo o sentido.
Haveria ao longe a paisagem

Servindo aos olhos o resto.

domingo, 8 de março de 2015

caro leitor:
vamos explicar essa febre
os lábios arreganhados e uma vontade súbita
de um amanhã com horas gastas.
há quanto tempo não escreve? há quanto tempo não ferve
nem faz carícias da pior espécie
no travo humano dos versículos na estante?
há quanto tempo um relaxe muscular e um grito em surdina
o dia inteiro a estragar o dia inteiro
a pôr-lhe sal no osso da língua meio destra meio vesga
meio cega já só um pedacinho de carne e também vazia
há quanto
é ainda campeão de um extraordinário furor entre os curvados
e há quanto
a loucura ainda lhe disse um adeus amor volto logo
porque e reflicta nisto caro leitor
não há assim tanta espécie de ódio no mundo
e o seu até nem é do mais variegado é apenas isso
um ódio modo de comichão ou perna dorida de tanto andar tão pouco
um pudor ou o arremedo do pudor na ponta dos dedos
e diga porque não se esgana e volta e meia também não
se tenta na arte do nó na garganta ou naquela bem conhecida
em fascículos e às mijinhas
a do veneno da lascívia e beba um trago outro daí em diante
os dias ficarão menos mas melhores
e saberá que ferver por pouco até pelo que dizem é desumano
e que o seu rigor mortis antecipado é apenas demais no rançoso
de menos no rigoroso
vá expulse a questão isso sofre-lhe e creio que é esta
"porque haveremos sempre de tocar a face do medo"
pois lhe digo falta-lhe aí uma face
um ser estranho à esquina olhando para a outra rua
e de súbito para este lado e não é para este lado
é para mim quer dizer para si
e esse ser mais belo agora que estranho é-lhe isso
desfigurado e profundamente temido
quase lhe sentindo o cheiro aproxima-se
você daquilo mas aquilo vê através
com que olhos não sei mas vê
e você leitor sabe que é aí que morre
desta vez verdadeiramente faça-se-lhe justiça
há muito que ansiava esta a morte derradeira
mas não esta de quem olha a uma esquina sendo noite
e estando gente e menos gente que noite mas mesmo assim
muito mundo em volta e um calor interminável do peito aos dedos
mas uns olhos só olhos e através
e a si leitor ferve-lhe a palavra não dita
é dali que brota o veneno nocturno e o oceano pulsando aos pés da cama
no tecto olhando lúgubre o lugar da face sem face dentro desse lugar
o leitor apaixonado pelos próprios dedos
eles amando o leitor e agarrando-lhe o pescoço
já é hora já é hora
e apaga-se o crime.
queira o silêncio e ame-o no maior
despojamento. 


quinta-feira, 5 de março de 2015

as mãos
adereço síncrono do corpo

procurando debaixo das roupas
prometendo debaixo da pele

um limite uma falha
nos apetrechos dos afectos

o sentido ínvio do resto

as mãos não são mãos apenas
unhas raspando o crânio quieto
da terra
um silêncio percutido rente à cara
a unha do silêncio em brecha
amante dentro dos edifícios inabitados

no silêncio das madrugadas
as mãos dadas até ao corte

descubro as mãos
contra a luz as minhas mãos
não são minhas apenas
a pele que lhes emprestaste
o rasto iníquo do teu calor
uma mancha ainda a rua um perfume
secretamente o som díficil de uma veia
bebendo a custo
o êmbolo deslizante da pulsação.