segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

sejamos a contemplação fria dos pardais
ou a tenhamos a vida poética das árvores.
hoje, como Caeiro, servo feliz do sol,
nos ensinou, interessa não pensar.

sábado, 12 de janeiro de 2013

enquanto tocava a morgen de strauss

Sei que a verdade tem momentos de nudez.
Se te olhasse nos olhos fixamente,
se não desviasses do meu o teu olhar nesse arco,
essa hora imóvel de marmóreos refluxos
seria a nossa verdade, despojada da invenção.

Observo, e dos meus poros jorram
jactos da diáfana luz da manhã.
Persigo o coreográfico levitar
das minhas mãos. Esses palpitar
de alma meu, tão só.

Mas hoje veio o dia desperto,
e se o solstício nos trouxe a sombra
e um outro refulgir de contrastes,
também nos trouxe as esguias redomas de luz.
Contemplada no vazio,
a couraça mole do destino desfez-se.
Penetrando até à cegueira de um oblívio
veio o crepitar da madrugada.

Se por ora dormentes,
e o sopro quente na manhã fria
tem volutas e arcos e capitéis nossos,
a coríntia flora que me coroa
de silvestres afagos o espírito
nesse ressurgir imaculado
das epifanias  matinais,
são os teus olhos, por detrás
do sol fremente.
O despir claro da manhã,
de ombro fresco e seio saliente
em clamor de aurora.


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

três e um quarto ou o fumo de um cigarro

vês essa cor?
essa cor do tédio de todos os dias.
ontem dizia que fazia sol, e hoje nem sei...
ainda há pouco chovia.
eu tinha a porta da rua aberta,
um convite: se algum estranho quisesse vir
e beber chá comigo, e amaciar o pêlo do gato
que é fantasma, porque não tenho gatos,
eu deixaria que entrasse e não me iria mover daqui.
mas a casa ecoa miares pelos cantos.
são esses sons esquisitos das canalizações
que mais do que água e esgotos
têm cheiros e sons próprios, quase uma química humana
deglutiva dos pavores que lhes vou inundando
ao lavar os dentes ou sangrar os pulsos,
só um pouco, de vez em quando.

assim, gota a gota, fez-se o mar
e o dilúvio.
houve iras que se foram impregnando
gota a gota,
em carnes ingénuas.
nem sei quem morreu, por quem dobram
os sinos daquela igreja?
talvez hoje não tenha morrido ninguém
e os sinos toquem à mesma, como que esperando
o dilúvio e o chorrilho de mortes que hão de vir.

em boa verdade não fumo,
mas também quem fuma?
o puxar de um cigarro, o beijar desocupado
de uma combustão,
é isso fumar?
se eu pudesse fumava os meus pensamentos,
numa mortalha gigante
enrolava-os directos para a sepultura.
um lençol de caridade hipócrita
para depois os queimar devagarinho,
ouvi-los gritar sem pejo, sem dor
porém,
que todo o pensamento é oco,
e o nervo que o circunda é feito do êxtase lunático
de um vazio.
depois de varrer a cinza decomposta
para debaixo de um qualquer tapete,
talvez o chá me soubesse melhor.
talvez me levantasse e fosse pôr comida na tigela do gato.
mas esse morreu, e a sensação dele também.
a tigela é que continua ali, escangalhada pelo tempo
e pelo depurar húmido dos invernos.

ora, volta-te e crê, estranho,
se a vida não é um mar de rosas
quando sentados à janela
acreditamos, sombrios, que temos
amor e temos tempo
apenas porque um dia nos apelidaram de humanos?

récita breve e o sonho desfeito

Se esse pardal
que te poisa nos sonhos, descarado
bicho, com castanho depenar
de sombras,
se esse animal fugaz
te sussurrar
revelações de madrugada,
não me fales no outro dia.

Não sejas o morto vagante,
o qual, na expiação nocturna,
julga poder germinar
do poema a sinfonia.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

a Lídia

Sei, pois, que o teu rosto
tem a constância fugaz de um sol de inverno,
o lado claro que não retorna cedo,
a face oculta no seu espectro de gelo,
o limbo de sortes nulas em contemplação.

Por isso não te quero
como coisa, nem como espírito.
Talvez o retrato vazio dos teus olhos
me baste ao tempero escuro da carne.
Se fores móvel de museu prematuro
na suspensão vítrea das horas,
quem não te tecerá helénicas odes
no refrear de um amor puro?