vês essa cor?
essa cor do tédio de todos os dias.
ontem dizia que fazia sol, e hoje nem sei...
ainda há pouco chovia.
eu tinha a porta da rua aberta,
um convite: se algum estranho quisesse vir
e beber chá comigo, e amaciar o pêlo do gato
que é fantasma, porque não tenho gatos,
eu deixaria que entrasse e não me iria mover daqui.
mas a casa ecoa miares pelos cantos.
são esses sons esquisitos das canalizações
que mais do que água e esgotos
têm cheiros e sons próprios, quase uma química humana
deglutiva dos pavores que lhes vou inundando
ao lavar os dentes ou sangrar os pulsos,
só um pouco, de vez em quando.
assim, gota a gota, fez-se o mar
e o dilúvio.
houve iras que se foram impregnando
gota a gota,
em carnes ingénuas.
nem sei quem morreu, por quem dobram
os sinos daquela igreja?
talvez hoje não tenha morrido ninguém
e os sinos toquem à mesma, como que esperando
o dilúvio e o chorrilho de mortes que hão de vir.
em boa verdade não fumo,
mas também quem fuma?
o puxar de um cigarro, o beijar desocupado
de uma combustão,
é isso fumar?
se eu pudesse fumava os meus pensamentos,
numa mortalha gigante
enrolava-os directos para a sepultura.
um lençol de caridade hipócrita
para depois os queimar devagarinho,
ouvi-los gritar sem pejo, sem dor
porém,
que todo o pensamento é oco,
e o nervo que o circunda é feito do êxtase lunático
de um vazio.
depois de varrer a cinza decomposta
para debaixo de um qualquer tapete,
talvez o chá me soubesse melhor.
talvez me levantasse e fosse pôr comida na tigela do gato.
mas esse morreu, e a sensação dele também.
a tigela é que continua ali, escangalhada pelo tempo
e pelo depurar húmido dos invernos.
ora, volta-te e crê, estranho,
se a vida não é um mar de rosas
quando sentados à janela
acreditamos, sombrios, que temos
amor e temos tempo
apenas porque um dia nos apelidaram de humanos?
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