o que disser
fica entre nós
para ser muro
entre as violetas
enroladas aos olhos
e os mantos adocicados
da podridão animal
vamos banhando os joelhos descarnados
em esteva.
estepe inteira a germinar
a fenda na raiz.
uma passagem plana na terra
meu amor de nenhures
e
depois que nos espera?
um colar de dentes
a dizer à noite
estou aqui estou aqui
e tenho
uma vontade de fazer frio
encher os becos da cor da luz do frio
preencher as paredes com o olho
esburacado do frio.
mas
chega a hora e
vou espremer às avessas
o dia pela vidraça da manhã
em
cegueira directa
contra as ondas refractadas
dos lençóis de carne.
tão brancos os céus das manhãs de novembro
lixiviados
rasgados em dois grandes términos de olho.
quem te trouxe
uma cara nova neste inverno de madrugada?
quem te colou
este hálito pálido à língua?
pergunto-te o nome
(e é talvez a única vez que o faço)
para te esquecer
o que disser
fica entre nós
sábado, 23 de novembro de 2013
ore stigmata
lava-me os olhos
que uma boca só não chega
chegas tarde
depois do jantar
para já não sobrar nada.
o espelho espera-te de guardanapo em riste.
fala-me dos lagos
e dos outonos
e das superfícies esféricas
ou dos ombros de bronze desses dias.
tudo são relevos, meu caro
tudo são relevos
e eles furam-te os olhos
à velocidade do tacto.
a língua já espirra sangue
e o corpo amolece.
quem diria que não passaríamos de um só corpo inerte
nas vagas dos abismos
eco lá no fundo da carne
sopro de júpiter em metaformose entumescida.
segue o sabor da conquista com selo
e a saliva que o lacra
a saliva que o encoraja corte entre os dedos
a saliva que o engana
passa-lhe rente ao corpo uma mão de banho nocturno
maresias de rios podres
odes de poetas frios
véus pútridos da fantasia
e
o diáfano só no olho. só no olho
a sensação de um abraço forte
de tempo forte com
sol forte e porém tanto frio.
marcou o céu com a boca das nuvens
um corpo neste corpo
até perder a voz pela dor do esmagamento.
até que te digam
"eu espero por ti
e colo aos lençóis
as crostas dos meus
estigmas inflamados".
que uma boca só não chega
chegas tarde
depois do jantar
para já não sobrar nada.
o espelho espera-te de guardanapo em riste.
fala-me dos lagos
e dos outonos
e das superfícies esféricas
ou dos ombros de bronze desses dias.
tudo são relevos, meu caro
tudo são relevos
e eles furam-te os olhos
à velocidade do tacto.
a língua já espirra sangue
e o corpo amolece.
quem diria que não passaríamos de um só corpo inerte
nas vagas dos abismos
eco lá no fundo da carne
sopro de júpiter em metaformose entumescida.
segue o sabor da conquista com selo
e a saliva que o lacra
a saliva que o encoraja corte entre os dedos
a saliva que o engana
passa-lhe rente ao corpo uma mão de banho nocturno
maresias de rios podres
odes de poetas frios
véus pútridos da fantasia
e
o diáfano só no olho. só no olho
a sensação de um abraço forte
de tempo forte com
sol forte e porém tanto frio.
marcou o céu com a boca das nuvens
um corpo neste corpo
até perder a voz pela dor do esmagamento.
até que te digam
"eu espero por ti
e colo aos lençóis
as crostas dos meus
estigmas inflamados".
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
o passo
mais correcto
dá-se para trás. preenche-se-lhe
o tremolo de violino
frente ao arco
de uma hesitação
regurgita à saliva
inodora no sentido cálido da queda
a tua
voz a furar
a minha
mão.
o idioma
mais incerto
ainda vende flores na lapela
sorrisos preenchidos de enjoos de sol
e apertos no bolso do coração.
pois:
fala-se apenas da prosa de cada um
e do estilo supra-proto-todo-individual.
não resta mais.
talvez só um sintoma de inteiros dias úteis corridos.
é isso somos nós já completos. morramos por aí.
e chamar-nos-ão de irmãos.
mais correcto
dá-se para trás. preenche-se-lhe
o tremolo de violino
frente ao arco
de uma hesitação
regurgita à saliva
inodora no sentido cálido da queda
a tua
voz a furar
a minha
mão.
o idioma
mais incerto
ainda vende flores na lapela
sorrisos preenchidos de enjoos de sol
e apertos no bolso do coração.
pois:
fala-se apenas da prosa de cada um
e do estilo supra-proto-todo-individual.
não resta mais.
talvez só um sintoma de inteiros dias úteis corridos.
é isso somos nós já completos. morramos por aí.
e chamar-nos-ão de irmãos.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
prolegómenos à arte do sorvo
ou melhor dizendo:
come a sopa toda
abraça os novelos sem lã
apenas aqueles de carne mais madura
e suga-lhes os caroços.
prende à boca a vacuidade insubmissa
sai com ela à rua entra com ela em casa
leva-a no carro leva-a dentro de ti
à mostra como porcelana lascada ao canto do olho.
já cresceu tanto. é o hábito de ser tia.
os dias submetem-se ao carpir do gato e
ele só quer a sua jaula ele só quer
arranhar de novo o gelo arreganhar
o dente podre já era chamam-lhe
inexistente. como se a vida fosse posta à porta
amontoada com as folhas do mês
mais doente. os corrimentos nasais
saem-nos mais obscuros que a renda
dos cristais perfeitos. somos o reflexo dos copos de enxoval
limpinhos limpinhos limpinhos
imaculados das obscenidades desses lábios
farejadores das borras de sangue menstruado
livres da marca oleosa dessas línguas
penetradoras dos finíssimos veios horizontais
(aqueles mais temíveis. os que nos ligam).
chega a hora do jantar e não resistimos a mandar um
NÃO! QUE SE FODA!
mas vem o zunido das abelhas de avental
crescer a peste junto aos seios. as mãos uma na outra
um arrepio prematuro. e um braço quase sem pele de nervos.
melhor dizendo como a sopa toda. comemos todos a sopa toda.
por isso também tu
chegas ao prato e só vês a mosca.
assumes que vestiu a vida do avesso.
mentira. mentira.
ignoras a colher. ignoras a mulher. engoles o prato
num só sorvo.
come a sopa toda
abraça os novelos sem lã
apenas aqueles de carne mais madura
e suga-lhes os caroços.
prende à boca a vacuidade insubmissa
sai com ela à rua entra com ela em casa
leva-a no carro leva-a dentro de ti
à mostra como porcelana lascada ao canto do olho.
já cresceu tanto. é o hábito de ser tia.
os dias submetem-se ao carpir do gato e
ele só quer a sua jaula ele só quer
arranhar de novo o gelo arreganhar
o dente podre já era chamam-lhe
inexistente. como se a vida fosse posta à porta
amontoada com as folhas do mês
mais doente. os corrimentos nasais
saem-nos mais obscuros que a renda
dos cristais perfeitos. somos o reflexo dos copos de enxoval
limpinhos limpinhos limpinhos
imaculados das obscenidades desses lábios
farejadores das borras de sangue menstruado
livres da marca oleosa dessas línguas
penetradoras dos finíssimos veios horizontais
(aqueles mais temíveis. os que nos ligam).
chega a hora do jantar e não resistimos a mandar um
NÃO! QUE SE FODA!
mas vem o zunido das abelhas de avental
crescer a peste junto aos seios. as mãos uma na outra
um arrepio prematuro. e um braço quase sem pele de nervos.
melhor dizendo como a sopa toda. comemos todos a sopa toda.
por isso também tu
chegas ao prato e só vês a mosca.
assumes que vestiu a vida do avesso.
mentira. mentira.
ignoras a colher. ignoras a mulher. engoles o prato
num só sorvo.
sábado, 2 de novembro de 2013
o sentido do cais
eu que criei dentro
de qualquer traço descontínuo
de rosto
a justeza do ponto. a circularidade do olhar.
as sete da manhã em nu horizontal.
vejo agora
nítido
o elemento cego dos interstícios
a flora larvar
que geme O grito
para que lhe cortem os tentáculos
prematuros. sem
começo
fomos longe de mais:
até que houvesse nome
para dar às marés e
abrisse a porta
em nós
nova língua de mar adentro
reentrante
neste lodo de gaivota repisada.
dorme cosida ao seu cheiro.
e diz-se inteiro
o sentido do cais.
de qualquer traço descontínuo
de rosto
a justeza do ponto. a circularidade do olhar.
as sete da manhã em nu horizontal.
vejo agora
nítido
o elemento cego dos interstícios
a flora larvar
que geme O grito
para que lhe cortem os tentáculos
prematuros. sem
começo
fomos longe de mais:
até que houvesse nome
para dar às marés e
abrisse a porta
em nós
nova língua de mar adentro
reentrante
neste lodo de gaivota repisada.
dorme cosida ao seu cheiro.
e diz-se inteiro
o sentido do cais.
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