no silêncio talvez
o jogo ansiado seja outro
e o que pensáramos
nosso, debruçado num convés,
caia límpido de madrugada.
cascata surda.
amplo afogo
de nada.
domingo, 31 de março de 2013
sábado, 30 de março de 2013
a falsa poesia
um pouco frio cedo demais.
um pouco atrás tanto de menos.
em prol do eu usei
da súmula dos feitiços pessoais.
chamando-me de nós
houve o esconjuro de um dia
saber-me só e partido.
assim engano o ventre que vai parir
um rato ou um celeste advento de eras
com o nome do poeta.
essa seta dentro do olho
raiar claro-escuro carne
apertada num ardor desconhecido sempre
novo e repetido. o indizível
o movimento de ancas da existência
o bambolear louco, trepidação perene
infra-som telúrico, a vibração das horas.
se expresso o oco
sei-me oco.
mas pululante. coisa abjecta
com vontade que não nasce dos capilares
de alma das raízes do carvalho novo
do viço inebriante de uma intenção.
aos poucos quero aproximar-me
da marca na parede por mais escura
mais redonda mais saliente que seja
com que brilhos sinistro seja
quero isso sim quero
sem porquês de quero
sem erros de porquê
porque a marca está lá.
talvez nem me sinta
talvez nem se sinta
e não emane mais do que o som
da sua presença calada e sombria.
mas quando revirei outro dia
os olhos um só olho possível
parou e não conseguiu discernir
a causa da marca que nascera
talvez quando lhe pusera
o revirar de olhos em cima
como farol.
e agora coço-me em desespero
por lhe saber um sentido que não meu
um existir se vazio for mas
não meu não meu não meu.
quando vem nestas manhãs o grito de um melro
tão diferente quanto a luz que o precede
eu sinto o fixar frio da marca
de si em mim em si
coisa paralela a todas as coisas
que já aconteceram na vida dos outros
com vida se a sei ela sempre foi
aqui não. aqui outra
mesma mas outra.
e sinto-me um idiota. falso
sabendo que roubei de virginia
a marca de mim
o paradoxo da respiração acetinada
e da lenta decomposição celular
que nos dá a marca na parede
quando era sonho e nostalgia
saber que não havia marca
e saber que outrora houve quem fumasse
depois de um chá e visse descobrindo-se
na dança monocórdica do fumo melado
uma presença outra que não sua.
a ideia de arte que morreu com o paradoxo
da marca da consciência e do ego
multiplicado em marcas e consciências
pequeninas no fundo do jarro acrítico
nódulo pestilento da certeza
da coisas inamovíveis
sacrossantamente relativizáveis.
tanto que me mataria
indelevelmente me mataria
sem compunções
sem choro sem coro
sem tragédia
vergonha ou falta dela
tanto que seria marca
sinal rasgado
sem sinal de ser
mais que o fluido
mais que o verter soçobrado
na maré um desejo que cai
e levanta
a tona morta
espuma de restos desperdícios de corpo
na vaga do levante que cresce
o caminho feito objecto riscado
o objecto feito olhar
o olhar feito parede
a parede feita folha
caduca
rasteja no chão
desaparece.
um pouco atrás tanto de menos.
em prol do eu usei
da súmula dos feitiços pessoais.
chamando-me de nós
houve o esconjuro de um dia
saber-me só e partido.
assim engano o ventre que vai parir
um rato ou um celeste advento de eras
com o nome do poeta.
essa seta dentro do olho
raiar claro-escuro carne
apertada num ardor desconhecido sempre
novo e repetido. o indizível
o movimento de ancas da existência
o bambolear louco, trepidação perene
infra-som telúrico, a vibração das horas.
se expresso o oco
sei-me oco.
mas pululante. coisa abjecta
com vontade que não nasce dos capilares
de alma das raízes do carvalho novo
do viço inebriante de uma intenção.
aos poucos quero aproximar-me
da marca na parede por mais escura
mais redonda mais saliente que seja
com que brilhos sinistro seja
quero isso sim quero
sem porquês de quero
sem erros de porquê
porque a marca está lá.
talvez nem me sinta
talvez nem se sinta
e não emane mais do que o som
da sua presença calada e sombria.
mas quando revirei outro dia
os olhos um só olho possível
parou e não conseguiu discernir
a causa da marca que nascera
talvez quando lhe pusera
o revirar de olhos em cima
como farol.
e agora coço-me em desespero
por lhe saber um sentido que não meu
um existir se vazio for mas
não meu não meu não meu.
quando vem nestas manhãs o grito de um melro
tão diferente quanto a luz que o precede
eu sinto o fixar frio da marca
de si em mim em si
coisa paralela a todas as coisas
que já aconteceram na vida dos outros
com vida se a sei ela sempre foi
aqui não. aqui outra
mesma mas outra.
e sinto-me um idiota. falso
sabendo que roubei de virginia
a marca de mim
o paradoxo da respiração acetinada
e da lenta decomposição celular
que nos dá a marca na parede
quando era sonho e nostalgia
saber que não havia marca
e saber que outrora houve quem fumasse
depois de um chá e visse descobrindo-se
na dança monocórdica do fumo melado
uma presença outra que não sua.
a ideia de arte que morreu com o paradoxo
da marca da consciência e do ego
multiplicado em marcas e consciências
pequeninas no fundo do jarro acrítico
nódulo pestilento da certeza
da coisas inamovíveis
sacrossantamente relativizáveis.
tanto que me mataria
indelevelmente me mataria
sem compunções
sem choro sem coro
sem tragédia
vergonha ou falta dela
tanto que seria marca
sinal rasgado
sem sinal de ser
mais que o fluido
mais que o verter soçobrado
na maré um desejo que cai
e levanta
a tona morta
espuma de restos desperdícios de corpo
na vaga do levante que cresce
o caminho feito objecto riscado
o objecto feito olhar
o olhar feito parede
a parede feita folha
caduca
rasteja no chão
desaparece.
um outro triste mesmo I
não sem antes perder a decência
atravessei-me num beco.
o traço pálido de um olho ateu
e o divagar de sonhos diurnos
fizeram de mim o cuspo sujo
que espera calmamente em defesa,
buraco no chão seguro
voz longínqua estarrecendo
e repugnando os dias últimos
desse deus nosso sem corpo.
o alaranjar comprido da noite
que retine, que perturba,
que penetra sem justificação.
dei por mim e babava mercúrio,
expulsava no vómito matéria celeste,
abriam-se os bubões latejantes
do silêncio e o pus dourado
com que carregava a fé, esse sumo
de supremacia, vertendo calmo
num esvaimento atroz.
é de mim que falo,
se me conheço.
é de mim que me escondo,
se me encontro.
é de mim a récita vazia,
sólido oom que percorre vogais,
revela harmónicos gritos,
sinal do eterno, do resíduo
do todo que permaneceu.
antes porém de o entoar,
fodi-o.
atravessei-me num beco.
o traço pálido de um olho ateu
e o divagar de sonhos diurnos
fizeram de mim o cuspo sujo
que espera calmamente em defesa,
buraco no chão seguro
voz longínqua estarrecendo
e repugnando os dias últimos
desse deus nosso sem corpo.
o alaranjar comprido da noite
que retine, que perturba,
que penetra sem justificação.
dei por mim e babava mercúrio,
expulsava no vómito matéria celeste,
abriam-se os bubões latejantes
do silêncio e o pus dourado
com que carregava a fé, esse sumo
de supremacia, vertendo calmo
num esvaimento atroz.
é de mim que falo,
se me conheço.
é de mim que me escondo,
se me encontro.
é de mim a récita vazia,
sólido oom que percorre vogais,
revela harmónicos gritos,
sinal do eterno, do resíduo
do todo que permaneceu.
antes porém de o entoar,
fodi-o.
sábado, 23 de março de 2013
Ensaio sobre a brisa
Podia ser da boca aberta
o desígnio de um canto novo.
O chamamento primevo
de uma enseada morta.
Mas fui eu que,
caminhando entre searas,
o vazio firme sem cores
de maresia,
me vi reflectido em anómalos
estertores nocturnos.
De um cego talvez
sem nome
a carne que nos resta
vem na espuma
vagarosa de um mosto.
Rubor cálido da terra.
o desígnio de um canto novo.
O chamamento primevo
de uma enseada morta.
Mas fui eu que,
caminhando entre searas,
o vazio firme sem cores
de maresia,
me vi reflectido em anómalos
estertores nocturnos.
De um cego talvez
sem nome
a carne que nos resta
vem na espuma
vagarosa de um mosto.
Rubor cálido da terra.
sexta-feira, 22 de março de 2013
Porém dias são os de sol
Uma visão soturna das coisas
ou nem tanto.
Algures, um receio de madrugada
como faca
lâmina nocturna de um reflexo
adiado. A chuva nítida na palma da mão
fechada.
ou nem tanto.
Algures, um receio de madrugada
como faca
lâmina nocturna de um reflexo
adiado. A chuva nítida na palma da mão
fechada.
terça-feira, 5 de março de 2013
A Câmara Clara
Ou a síntese de nós
estáticos.
Sem redoma de cristal
o vento dissolve-nos os cabelos
e olhamo-nos eternos
num reecontro surdo.
Houve algures
no horizonte um grito
abafado contra o peito.
Sei que na senda da noite
a trágica alucinação do completo
nos suprime.
estáticos.
Sem redoma de cristal
o vento dissolve-nos os cabelos
e olhamo-nos eternos
num reecontro surdo.
Houve algures
no horizonte um grito
abafado contra o peito.
Sei que na senda da noite
a trágica alucinação do completo
nos suprime.
domingo, 3 de março de 2013
Invenção a três vozes nº11
Por ti as sombras,
e por entre os teus cabelos,
o teu corpo sentado em revés.
A névoa de calmo preencher-te
e contar-te, elevado,
as mentiras mundanas.
Essa couraça cosida à pele,
feita do pó e do cumprir
do quotidiano.
sexta-feira, 1 de março de 2013
Ouve os lamentos de Orfeu
Ouve os lamentos de Orfeu
ou o eco arbóreo na manhã.
Onde houve horas neste lugar
que trouxessem sol sem pejo
e flores de primavera
sem sorte de bons tempos?
Ouve e mente-te.
Assim talvez na resiliência
do barro que se molda sem jeito
mas que escapa ao criador,
sejas tu mais coisa que as coisas
e lamentes menos o não ser.
Mas se por ora mortos,
sem prazeres nem rituais
que diluam da face a expressão
com que a lira nos impregnou,
sejamos junco dançante e disperso
à margem da montanhosa torrente
Do incerto. Só o verdadeiro
gosto salgado da infinitude
nos sabe queimar de cor a língua.
Sem sabermos que deusa tece os mantos
de Odisseu, culpamos-lhe a mulher
e o tempo. Mas o rio e as marés
Que nos levam quem somos
têm mais da criação
que os nossos anseios pecadores.
Sublimes vontades alheias
ao palpitar firme das crenças,
santa genoflexão ao altar
Da natureza, sem vozes proféticas
para além dos risos lascivos
dos enamorados que lhes combrem
mantos de malmequeres e urze
com o suor intempestivo
dos corpos em contracção.
Olhai fixo, poeta,
o tempo e o lugar em que as coisas
se esvaem de si mesmas.
Nesse ponto azul do horizonte,
inconstante fluxo de precipício,
tens a alma encarcerada com prazer
E fé, porém, na queda.
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