um pouco frio cedo demais.
um pouco atrás tanto de menos.
em prol do eu usei
da súmula dos feitiços pessoais.
chamando-me de nós
houve o esconjuro de um dia
saber-me só e partido.
assim engano o ventre que vai parir
um rato ou um celeste advento de eras
com o nome do poeta.
essa seta dentro do olho
raiar claro-escuro carne
apertada num ardor desconhecido sempre
novo e repetido. o indizível
o movimento de ancas da existência
o bambolear louco, trepidação perene
infra-som telúrico, a vibração das horas.
se expresso o oco
sei-me oco.
mas pululante. coisa abjecta
com vontade que não nasce dos capilares
de alma das raízes do carvalho novo
do viço inebriante de uma intenção.
aos poucos quero aproximar-me
da marca na parede por mais escura
mais redonda mais saliente que seja
com que brilhos sinistro seja
quero isso sim quero
sem porquês de quero
sem erros de porquê
porque a marca está lá.
talvez nem me sinta
talvez nem se sinta
e não emane mais do que o som
da sua presença calada e sombria.
mas quando revirei outro dia
os olhos um só olho possível
parou e não conseguiu discernir
a causa da marca que nascera
talvez quando lhe pusera
o revirar de olhos em cima
como farol.
e agora coço-me em desespero
por lhe saber um sentido que não meu
um existir se vazio for mas
não meu não meu não meu.
quando vem nestas manhãs o grito de um melro
tão diferente quanto a luz que o precede
eu sinto o fixar frio da marca
de si em mim em si
coisa paralela a todas as coisas
que já aconteceram na vida dos outros
com vida se a sei ela sempre foi
aqui não. aqui outra
mesma mas outra.
e sinto-me um idiota. falso
sabendo que roubei de virginia
a marca de mim
o paradoxo da respiração acetinada
e da lenta decomposição celular
que nos dá a marca na parede
quando era sonho e nostalgia
saber que não havia marca
e saber que outrora houve quem fumasse
depois de um chá e visse descobrindo-se
na dança monocórdica do fumo melado
uma presença outra que não sua.
a ideia de arte que morreu com o paradoxo
da marca da consciência e do ego
multiplicado em marcas e consciências
pequeninas no fundo do jarro acrítico
nódulo pestilento da certeza
da coisas inamovíveis
sacrossantamente relativizáveis.
tanto que me mataria
indelevelmente me mataria
sem compunções
sem choro sem coro
sem tragédia
vergonha ou falta dela
tanto que seria marca
sinal rasgado
sem sinal de ser
mais que o fluido
mais que o verter soçobrado
na maré um desejo que cai
e levanta
a tona morta
espuma de restos desperdícios de corpo
na vaga do levante que cresce
o caminho feito objecto riscado
o objecto feito olhar
o olhar feito parede
a parede feita folha
caduca
rasteja no chão
desaparece.
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