sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Pensar que esse cedo

Pensar que esse cedo
teve dentro dele
o carcomer inibido
da mobília de casa.

Como nos ríamos
com gelado a verter-se
de derretido
entre os nosso lábios.
Como se isso fosse puro quadro
e fosse o sol o pressentimento
de uma manhã sempiterna.

Pensar que de ti restam
vestes desperdiçadas,
trapos de deuses não orados.

Pensar que a brisa na janela
cheira a ti e ao canteiro da rua.
E isso ser retiro proibido
para almas dormentes,
para queixumes esfolados, esventrados,
estiolados na exaustão prematura
de um silêncio.

Apenas o teu sopro
canta,
ao longe.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

vá que o destino é lento

vá que o destino é lento
e a carne é fraca.

desse tecido alvo de madrugada
estendido sobre os tectos
da cidade deserta
descobre-se da quarentena
o milagre caritativo da morte.

vá que a hora permanece
e a voz cresce sem dentes que a comam.

desse eterno situar de estrelas
temos a mãos apartadas,
unhas de encontro ao céu
da noite e o que é sideral
de mim pulsa, o quente
verter de alma do assassino.

vá que tudo é ser cego e ser crente
e o caminhar de nós tem sede.

sem te invejar do rosto
a alma, tenho-te o centro
perpetuado no meu.
se foste retrato, moldura caída
na brisa do jardim em chamas,
agora não mais se te queima o olhar.
esse leve bater de asas que temos dentro
deu-nos o nome.

de mãos dadas
caímos.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

que essa veia de aflição escura

que essa veia de aflição escura
que te corre em alvo pescoço
não te cerque e iniba.
não te cerceie os pensamentos vis
de noite.

hábil manejador de espelhos
esse teu reflexo de olhos
contém ínfimas areias de eras
incididas sobre elas mesmas
multiplicadas.

hoje tu, amanhã o velar prolongado
de outro. depois cismas
gigantes como rios dentro de nós.
essa fractura de chão e de terra
lascada no crânio.

o ser uno que se outra
torna-se o ritmo vulgar do contratempo.
é o arrastar do passo no lajedo,
o omnipresente sentido do que existe
dentro.

numa praça deserta, este chapéu
sem chuva guarda duas sombras
desiguais. o morto e o inventado,
vertendo de si o vácuo da duplicação.
e eu qual deles?

domingo, 23 de dezembro de 2012

esse levar de vento

esse levar de vento,
essa brisa suspirada que tem bafos de povos
esperançosos no persignar
de dias adiados.

como eu invejo as frugais horas
das naturezas mortas despidas,
na sua pose de retratos mudos
e ensaguentados vociferares
de pêras e maçãs em taças de cobre.
somos silêncio e queremo-lo.

ouve. verenero-te. em encanto
o teu chamamento é oculto.
tens na mudez do teu gesto
a sombra púrpura de um convite
e invejo-te o ser e os lábios.
queria-los nos meus, o ser também.
e calmo caminho, nesse ventre suspenso
que se desenha em estrelas.
o auguro profano do prazer detém-me os passos.
olho e reflicto.

tu, ali na esquina, em espera.



sábado, 22 de dezembro de 2012

Vejo-te ir, e agora?

Ó tu, sim tu!
Tu que ainda agora me falavas,
me bocejavas insignificâncias do teu presente
e eu a ti do meu presente soprava
a nulidade dos seus dias,
Tu! Estava a falar contigo.

Tu, que agora viraste costas,
assomou-te o interesse de outro interesseiro,
respondeste-lhe com o vigor desnecessário
da salvação a um aborrecimento.
Tu, vergonha das dialéticas discurso-argumentativas,
tu, volta já aqui.

Ainda não acabara a minha tese.
Ainda não fora o momento de findar
o dia sem lhe dizer, perante o dia como juiz
que este eu que sou
se exalta com pouco.
Que este eu que sou
tem doenças e é paranóico
e um dia agarra numa pistola,
desce ao cais do sodré
e mata algum desapercebido bando de transeuntes
que infeliz não fez nada por merecer da vida
a morte insolente de um contrafeito, de um ressabiado.

Tu, sujeito, sabes bem
como todos os da tua laia,
que assim perfazem todos os que conheço
e que em alegorias sarcásticas enumero como amigos,
sabes que virar-me costas é desígnio santo,
é o cumprir das eras, do rodar obstinado dos ponteiros.
Virar-me costas é ser destino,
é tirar-me o suco de um conversa, morna ou fria,
ou quente que seja,
e seguir o que deve ser seguido,
a anulação de bestas inoportunas como eu.
Esse tédio injectado nos meus olhos
resplandesce agora à luz dos candeeiros.
Eu, encostado a este poste
rezo baixinho maldições e conjuro maus-olhados,
eles literais e inteiros, porque o vesgo dos meus olhos
é sincero e por isso, lá está, é mau
porque o quer ser.

Tu, ridículo, mas não mais do que eu,
Tu! volta-te indecente e encara-me
para te dar um murro de vez,
soltar-te o dente brilhante,
inchar-te a face luzidia.
Tu, que sabes tão bem como todos
que não comunicar comigo
é espalhar flores e charme, e perfumes
canforados em amaciados cabelos
imolados de vez da réstia maçadora
do aborrecimento que o meu palavreado sopro provoca.
Tu, suplico-te em compaixão, vive e não te lembres
do meu rosto.

Assim talvez se cumpra,
com a alegria inesperada
de quem acorda no dia de natal
e não se recorda dele senão quando vê as prendas
aos pés da cama e o sorriso dos progenitores,
assim talvez se cumpra o destino
mais cedo que o destino,
e o universo solte um gritinho excitado de criança,
um apito perturbador de contentamento e êxtase
ao saber que por fim
jaz inócuo e esquecido
o importuno maçador de gentes,
o revoltado contemplador de costas,
o insuspeito perseguidor de nomes e conversas alheias.

Jaz ali,
nessa poça meio pegajosa e meio escura
essa cabeça que tanto e tantos trucidou,
mas em metade, que a outra,
a outra ninguém jamais a devolveu e montou peça a peça,
agora que dispersa escorre com pictórico modernismo
pela parede silenciada pelo espanto.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Caminhar Permanente VII

Adormeci
nessa viagem de comboio
a um centro qualquer, mais dentro
de mim que antes. Ainda que longe.

Que dores de cabeça,
que náuseas, cheiros vis
que ressoam em passos chapinhados
e vozes excitadas no clarear do dia.

A agradabilidade da viagem
perdida. Há um oco,
uma falta constante dentro do meu crânio.
Sinto que o perecer não é mais
do que esta decadente deslocação.
Nem há sol que nasça hoje sobre o Tejo,
toda a neblina condensada neste enjoo molhado.

Quando chegar a casa ainda haverá a manhã
ditada pelos ponteiros intransigentes
do relógio da estação,
mas sei sempre que para mim será
incontornavelmente tarde.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Vagamos à toa

Vagamos à toa
no declive de um poema.

- Que significam
os teus modos
de ser?

- Essas palavras
caras e ocas,
que querem elas dizer?

No escuro
desenho rostos vazios.
Com braços que se agitam,
a língua entalada nos dentes,
os olhos abertos na penumbra.
Rostos que não conheço
tomam vida
ante mim.

- São estes os teus poemas?
A carne frouxa de um fingidor?
Um artista cobarde
sem veia que o salve?

- São estas as tuas vozes,
os teus rostos? A lira desmembrada
de um vazio vulgar?
Um quotidiano que aterra e nos suprime?

- Onde está o teu sentido
de ser? A tua alma
não te rompeu o saco maternal
do repouso?

- És este simples esgar de súplica?
O lugar-comum das eras
estilizado até à exaustão?
Um vácuo inaudível de ser?

Círculos em elipses,
elipses sincopadas em estrelas,
estrelar de fusas e colcheias mortas.
Brilhante dizem as passagens difíceis da partitura,
sublime diz o público dormente e desatento,
tísico, maledicente
corroer de alma
engole o pianista.
Uma flor negra e murcha,
no ponto mais podre que conhecemos,
dentro dele e de nós.
Não há lágrimas
que se equivalham a essa flor,
a esse tormento, a essa oferenda
maldita dos deuses alienados.
Prosseguir os dias todos
com o cheiro fétido
que exala das pétalas gastas
desse vil ser herbáceo
que se enraizou no nosso peito,
que sulcou tecidos com penetrantes membros
de vegetal,
e nos transformou em seiva envenenada
o diáfano crer das manhãs.

Sei-te

Sei-te
na bruma.
~
Ainda agora
esse murro que me espetaram,
esse ódio que me cuspiram,
ainda agora te vi aí.
~
Estática,
mãos juntas num aperto
de frémito. Rosto de silêncio
ansioso. Olhas-me com o raiar
sanguíneo de uma força
indelével.
~
Esse crepitar sobrenatural
que te assola.
Essa brisa que te ruge nos vestidos
sussurros, mentiras, profecias.
Insufla-te o apocalipse
nas veias do pescoço,
sodoma e gomorra
sob uma chuva de fogo
dentro dos teus lábios
convictamente cerrados.
~
Macabra
a existência.
Macabro este doer profundo
que é não só de ossos que quebram,
de cortes que esguicham,
de sangue que lateja.
Doer profundo
que é ver o teu reflexo
junto a mim.
Saber-te o som da tua voz
muda.
Sondar-te o pensar
de espectro.
~
Com as horas
somos,
um pouco menos.



Amanhecer

Aquece, porra, aquece!
As mãos que se esfregam em demasia,
até se descolar a pele, até
ser carne viva.
As mãos, que paralisaram nesse inverno,
estão voltadas de encontro ao sol
que desponta.

Aquece!
Nessa manhã pálida
de sílabas mal pronunciadas,
nesse tiritar da madrugada
inconsciente, esfregamos em nós
o sabor obsceno das nossas mãos.
Repetimos ladaínhas secas
ao agreste espírito invernal
dos murmúrios.
Aquece, porra!
Silêncio.

Algum corpo
despido
balança nesse eco
descompassado
de uma morte omnipresente.
Uma dança macabra
no centro de um turbilhão
em repouso.
Algum louco?

Como distinguir
entre o azul denso
de um despertar prematuro
as feições abissais
daquele que sucumbe?
Como lhe discernir
de entre o agitar sórdido
dos gestos e membros
a constância familiar
dos nossos arremedos?

Um raiar que não aquece,
e uma janela
que tem vista para os pesadelos
íntimos
da nossa fauna espectral.
Um amanhecer sombrio,
cadáver dele mesmo.

sábado, 8 de dezembro de 2012

De mãos vazias

Nessa madrugada estática;
nesse sereno dia
do indelével traço perfumado das horas,
fugiremos daqui.

Fugiremos da cidade
para o distante, nunca
o perto.

Encontraremos, entre
os recônditos cantos
de um país que adormece
um nosso canto soalheiro
e sobre ele dormiremos
finalmente.

Um dia
teremos corpos próprios
com vozes próprias,
e entre o nossos risos
nascerá um plano que nos salve
da morbidez dos dias.

Seremos quem nunca fomos,
em passadas rápidas e irregulares,
um viajar de vento entre
os nossos cabelos
como semente de árvore desconhecida
que flutua sobre os montes.

O incógnito por nosso pai
e a aventura por mãe.
No desconhecido
aberto da aurora
tomaremos por nós
a nossa essência
e beberemos da paz secreta
que inunda os olhos
semicerrados do entardecer.

Nessa madrugada imóvel,
encheremos os pulmões da brisa do mar
e subiremos ao cume de nós.

De mãos vazias.

Caminhar Permanente VI

E olha que  o céu
traz em si a marca do justo.

Não te agonizes em vão.
Tens a vida toda pela frente,
fingindo ou não.
Ela é tua
e tu pertences-lhe,
como se na mão dela
tu fosses os seus contornos ziguezagueados,
os sulcos profundos que um chicote
de neve e fogo pálido
escarafunchou.

Andas viajante
por estradas e ruas sempre novas,
sem saberes de ti no meio delas;
de ti, ente vassalo
das vozes discricionárias
do instinto.
Passo após passo,
nova bolha e novo calo
que te nascem no fofo do miolo
e se te inteiram do corpo todo.
Há quanto tempo
te vejo eu,
vagante incrédulo
das nuvens?
Há quanto te oiço
o cuspir desabrido,
o retesar despropositado
dos teus fantasmas
ante o novo e incerto perigo?

Arrastado
como o teu inerte sentido
da hora,
cai o nevoeiro prematuro dos dias.
Desce o lençol de cinza.

E olha que  o céu
traz em si a marca do justo.

Abri a janela de par em par


Abri a janela de par em par.
A humidade penetra-me os ossos
e o respirar contínuo do tempo
é o meu, no acaso.
Oiço vida nessa rua sinuosa
dentro de mim.

Se me questiono
que ferver de alma é este
sei que a resposta é simples.
É a febre dos enfermos,
o cáustico madrugar dos que morrem
na combustão miraculada
de uma ideia ilegível.

Procurei de mais,
em todas as noites, todas as ruas,
a face desse medo,
os contornos imutáveis desse desígnio
fixo do pensamento.
Olhei por demais para rostos múltiplos,
para olhos frios e bocas silenciosas,
de uma vida que não partilha a minha.
Sempre a transparência interposta
de um qualquer limite físico ou mental.
Sempre a mão esticada, no alcançar disposta
sem sentir o toque cálido
de uma terna pulsão exterior.

Que é essa febre que me consome então?
Que me faz tossir a altas horas da madrugada,
expelir pulmões em arrepios eléctricos de suor,
procurar o quente abrasivo ante um frio aterrador?
O que é uma ideia, ela mesma?
O que é a soma das vontades?,
e a minha no meio dessa soma, sem saber se é vontade
porque não sabe para o que tende,
para o que conduz, para o que quer.

Se me debruço na varanda
olho quem passa com arrogância, talvez.
Não sei o que me vêem nos olhos,
os que os sondam em aflitivos esgares.
Na verdade não é a arrogância que os habita,
é o vazio.
Os olhos estão vítreos, congelaram de tanto
haver.
Perseguiram em demasia um contorno disforme
de alma,
e perderam-se nesse voraz caminho.

Sem retorno
sinto que fujo
e que permaneço.
Dói de mais pensar
no que sou. Dói de mais
ser, sem entendimento,
o fervente louco contrafeito
das diásporas mundanas da omnisciência.

06-12-2012

Da insónia


E se partilhássemos
esta insónia estagnada
entre nós?

O rigor soçobrado
de uma madrugada fria
impõem-se. Dentro
desse ar gélido
uma sempre irregular teia
de pensamentos
habita.

Perseguições inoculadas
de uma mente
em perpétuo refluxo.

Não sei se o que oiço,
nesta hora prolongada,
é a angústia existencial
de inebriadas bacantes,
ou o retinir monstruoso
dos vultos outrados de mim.
Um ecoar fantasmagórico
preenche as ruas desertas
do inconsciente.
Esse som de coro,
essa voz de legião,
é um arrepio rasgado na similitude
entre mim e os meus múltiplos.
(Quem pensa verdadeiramente que pensa?
Quem dá ao mundo um novo laivo de incerteza?,
um criar inédito, um cortante novo grito
que dilacere o ruído branco profuso
que nos nasce dos poros
da decadência?)

Não há o novo;
a insónia sempre foi esta
e não outra nova insónia
de redenção.

Os olhos abertos da noite,
que chamam um sono
mais profundo que o sono,
tecem rezas em línguas mortas,
nos dialectos mudos
que só o movimento
milenar dos astros decifra.
É como se pedissem
às coisas
que existem
um tipo de paz perpétua diferente.
É como se puxassem
das almas
alheias adormecidas
os subtis fios dourados que lhes pendem
do imperscrutável sentido do eterno.

...
E depois
disto adormecer finalmente
para o dia.
Após a vigília forçada,
pensar que se sonha
enquanto se caminha,
que se gravita no etéreo esvoaçar onírico
da mente
enquanto se vive.

...
Tenho ante mim o sol
e acredito nele
como numa história mal contada.
Consigo capturar-lhe
os contornos perturbados
do desfasado do meu rosto.

Tudo isto que sou
mente.

07-12-2012

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A Verdade


"A teus pés,
sinto o clássico fluir
do firmamento.
O seu sabor salgado
pelas terminações vivas
do mar cantante.

Amo-te, sem mácula.
Quem somos nós para
nos amarmos, reciprocamente?

Qual o diáfano desígnio
do verso ateu
que nos juntou crus, em escassa hora?

O meu peito
em incêndio vasto.
O comburente carnal do teu corpo,
o espírito vivo omnipresente.
Não pensar, num singelo momento,
no aperto frio da aurora,
na madrugada titubeante
que nos dilacera.
Crer que tudo
é, sem tempo que nos finde,
o desejo um do outro."

...

Como sabes, minto
assertivamente.
Como sabes, sofro
desse esquema mental degenerado
dos que se renegam a si mesmos
a evidência profana
do autêntico.
Como sabes, vagueio
em encostas molhadas
de consternação. Sou o
espírito falhado das eras,
o costume em repugno,
o eremita das paixões latentes
da carne própria.
Como sabes, narcísico
hedon da hipermodernidade,
sou um retiro ensaguentado
de mim. Veias pujantes
que me circundam as vontades,
a rede torrencial dos medos
e das paixões principiam
e findam
nessa linha intemporal
do ego.

Como sabes, a praia deserta,
as gaivotas dispersas,
a areia nos teus cabelos e nos teus seios,
é a efabulação dionísica da minha mente.
Nada disso é, realmente,
porque nada disso o quer ser,
em verdade.
Essa esfera outrada que criei em mim,
esse círculo profundo carregado
dos minérios essenciais do meu sentir,
é uma brutalidade consumida.
É a minha cicuta matinal,
o meu raio de sol cancerígeno,
o meu picar letal
de amores residuais.
Esse efabular mágico que te cria,
outro, que te autentifica,
outro, nesse ser que se molda
na distância dos meus dedos,
essa criação é resina inalada
do abraço próprio.
É, sei lá, a mordida inesperada
que um cão raivoso fabrica
no seu apartado dorso.
A autofagia crítica
dos que sem metades para amar
se amarram ao todo rarefeito.

05-12-2012

murmúrio


(Sinto que desenvolvo o sentido preocupante da paranóia.)

Talvez os poemas sejam isso:
o excretar físico de emoções.
A contemplação difusa
do assoberbamento diário.

(Por que me olham assim?
Mais valia ter uma placa que diz:
"Eu não faço mal!")

A minha vida sempre um não rotundo.
Grande e inegligenciável.
Esse não que como nuvem negra
me persegue todas as tentativas
de contacto humano.

(Só gostava que às vezes
as pessoas não reparassem em mim
pelo que não sou.)

Como tecer comentários
à ausência? À inexistência?
Todos são bons, e grandes e conhecedores,
e deixam isso bem claro.
Deixam bem claro que nós
somos fez, poia com membros
que não fala, regurgita,
que não pensa, imita,
que não vive, apenas esperneia
nulidades latentes.
Cada vez mais esses olhares de soslaio
me convencem
de que sou isso mesmo,
um cocó com um metro e setenta e três,
que o meu cheiro me faz boa jus ao aspecto.
Que não tenho pensar meu,
sou o reciclar de tudo o que vejo e oiço,
o condensar estúpido de um mundo
talvez ainda mais néscio;
mas que importa?
O que importa é sermos nada,
isso é o que importa aos outros.
O que importa é não nos darem crédito,
o que importa é poderem espezinhar-nos,
o que importa é sermos eterna caca.
Se o mundo o quer, quem somos nós
para lho negarmos?

(Ainda mato alguém
nem que esse alguém seja eu.
Ainda atiro uma pedrada despreocupada
ao próximo que me olhar
e não limpar desse olhar
o vulgar sentido da crítica.)

Estou por demais eléctrico, quero sair.
Mas não tenho como.
Como companhia apenas me garanto
a minha própria solidão.
A verdade é esta,
eu preocupo-me demais
com o que os outros se preocupam de menos,
comigo próprio.

Estou a ponto de desejar
uma única coisa.
Pode ser o meu próximo augúrio
frente ao meu próximo soprar de velas.
O meu augúrio eterno, este.
Encontrar entre as mentes
a mente que oiça.
Que me atenda
ao toque singelo do desespero
as inquietações.
Uma mente que eu oiça,
e que eu compreenda, que me fascine
pela sua simples existência.
Estou a ponto disto,
de cair num lugar-comum sem retorno,
ante a célebre evidência
de que o nosso caixão
contém apenas um ser.

Apetece-me gritar,
barafustar com quem não devo,
acelerar relógios
e empurrar velhotas pachorrentas.
Bater com a cabeça num muro,
e esfolar-me todo sem ressentimento,
abanar desabridamente uma moça insolente
e apontar o dedo do meio aos soberbos da vida.

Ninguém tem culpa,
a culpa é minha por me querer
a viver cada dia após outro.
A culpa é minha por querer ser
eu em vez de outro.
Mas eu não sou ninguém,
não tenho caixas, nem gavetas,
não tenho roupas, botas, penteados e carros
para me situar no escadote social.
A minha etiqueta foi arrancada à nascença
sem ela perco-me, e os outros perdem-me.
Para eles a minha face tens as feições
de um picasso. Não sabem o que é.
Tenho a boca torta e os olhos vesgos.
E o meu nome...
Bem, não tenho nome. Não tenho conceito,
não tenho ser.

Tenho corpo
e será que isso basta?

Elogio do Riso


Rir
é ler baixo
um livro que não se gosta
na esplanada exígua de um café.
Admirar a pintura não intencional
dos jogos de outono
ou o casal de namorados
que se degusta em expiação.
Há que empurrar os nossos males,
os pesos aleijados da culpa diária,
de um para o outro, pela língua torta,
pelos lábios carentes,
pela saliva agitada em maré.

Rir
é contorcer na cadeira tosca
um corpo dormente. Sem toques
que nos ecoem a necessidade
de nos humanizarmos
constantemente.
É admirar da areia
os grãos finos do incómodo
ou da chuva a humidade ligeira
do retorno.
Espalmar um mosquito sem piedade
ou rezar odes ao vento que passa.

Rir
é espirrar sem pôr mão à frente
e consternar a senhora do lado
ou o vizinho oblíquo.
É libertar no muco desse espirro
os sonhos dourados da levitação feérica
de um espírito omnisciente.
E é perder nesse espirro
qualquer inspiração pura
de esboço de um novo dia.
Assim que vem, como coisa prematura,
se esvai a musa fria
sonegada pelos dedos puídos de um criador furibundo.

Rir
é amaldiçoar
com palavras bem mais fortes que "amaldiçoar"
quem nos deu a mama do mundo.
Quem nos colocou a boquinha ingénua
na fonte bojuda da criação.
É mostrar o cu e a pila
aos pais dos nossos ancestrais,
aos telúricos movimentos dos corpos
sombrios que desconhecemos.
Tudo porque não somos
o que não nos esforçamos ser.
Tudo porque almejamos a aliciante glória grega
sem retirarmos os pés macios desta cadeira,
verde e velha de esplanada,
enublada pelo fumo de um cigarro alheio,
ou pela miopia própria de quem só vê
ante si o seu café e o seu ser.

Rir
é isso, senhores.
Enfiar uma arma
na boca descerrada.
Contar até três
e premir de entre os sonhos
o verdadeiro:
escolher como desafio
o contornar maroto do destino.
E levar, insuspeitamente, com ele
na testa vazia, no cérebro adormecido.
E depois não ter mais esplanadas de café
exíguas e barulhentas
onde submergir o nosso riso.

05-12-2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Caminhar Permanente V

à conta de nos vermos sós -
essa é a rua deserta onde passos retinem -
à conta de nos vermos sós
calamos.

dentro de mim
vozes
mais altas, mais pujantes,
mais violentas
que eu.

à conta de nos vermos sós,
ouvimos os passos lá fora,
em baixo, junto ao chão.
a rua deserta.

dentro de mim
o arco do candeeiro
rarefeito
em luz branca.

à conta de nos termos sós.
definhamos. perecemos.
o cheiro da madrugada
dentro dos nossos ossos.
esse branco do inverno
em silêncios compassados.
neblina nos nossos olhos.
neblina nos meus olhos.
o fustigar de uma brisa
contra a janela.
o ecoar de um sopro
no vazio.

o luminar triste
desse sol premeditado,
morto.
banha-nos a face
mas não aquece.

à conta de um eterno sentir,
um eterno ressudar.
um eterno definhar.
um eterno entardecer.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Beijo-te as mãos amenas


Beijo-te as mãos amenas.
O dia é morno e as tuas mãos
cálidas nesse dia. Nesse beijo.
"E hoje não chove" dizes-me.
Eu apenas beijo o sol aberto
que raia entre os teus dedos.
"E hoje cansei-me de andar"
desabasfas-me.
Eu não sei que é isso, andar.
Dentro das tuas mãos flutuo.
"E hoje chorei sem razão nenhuma"
confidencias-me.
O que são lágrimas? O vento transversal
da fruição seca-as, leva-as pelo horizonte.
"Não me ouves? Que credo esse o teu"
é a minha fé ensimesmada.
"Não deves ter mesmo amor próprio"
tudo o que tenho são vísceras latentes
de ti, cantarolando melodias sem sentido,
ante a montra aberta de um café.
"Larga-me. Deixa-me. Olha-me."
Visto de perto, o teu rosto.
Vejo nos teus olhos os meus
e a contemplação arrepiante do vazio
encerrada neles.
Perplexo, entre o vapor de uma chávena
e o soar de uma buzina.
Perdi-te as mãos na alvorada
de uma primavera tardia.
O barco que nas vagas se perde
dançante fixo, no profundo abissal
do teu ser.

É tempo de te perguntar, crente


É tempo de te perguntar, crente,
que pensas tu, quando passas na rua
e me olhas?

É agora que todo esse enigma
redondo e aviltante
se deve expôr em traço nítido
ante nós.

Que paira nessa mente?
Um passeio à Bica, ofegar pelo Chiado?
Um assento alheado no Rossio?

Quem me dera não ver tanta gente de vez em quando.
Tanta gente nova e diferente,
tanta gente que não eu, fora
da minha vulgar redoma.
Gente com olhos e vozes enfastiantes.
Gente que nos perscruta a mente,
ou os cabelos levantados pelo vento.
Gente que nos avalia e palra sem
condensação.
Gente cujas vozes se elevam alto
para serem mais e mais compreendidas
face ao rugir dos motores e ao trinar do eléctrico.

Tanta gente
e tão pouca.

O relevo de caras e corpos agasalhados
é a profusão diária dos meus pensamentos.
Tão pouco importa,
tão pouco releva, se abstrai do mundano
e me acena.

Tão pouco
e tanto.

Rumei onde me querem,
porque não sei eu o que quero.
Nesse caminho há sempre, um dia de cada vez,
alguém de cada vez.
Alguém olha e não desvia o olhar
antes de anular feições e perigos.
Mas que momento esse,
eu onde não sei se quero estar,
não sei se quero ver quem me vê.
E o que vê quem o faz?
O que realmente lhe perpassa
pela entranha enovelada do miolo?

Oh, porquê perguntar quando sei
que não lhe passa nada. Nada de novo,
como não me passa a mim há muito.
Tudo o que se vê é rapidamente engolido
por essa cegueira galopante
da memória curta.

Frente a uma qualquer paragem há possíveis passageiros.
A espera é deles como sempre foi.
Quem passa tem passos também e não espera.
Esse é o desígnio dos nomes,
o destino do mundo.
Porquê contrariar, com sacudidelas da mente
o jorrar contínuo dos tempos?