sábado, 1 de dezembro de 2012

Beijo-te as mãos amenas


Beijo-te as mãos amenas.
O dia é morno e as tuas mãos
cálidas nesse dia. Nesse beijo.
"E hoje não chove" dizes-me.
Eu apenas beijo o sol aberto
que raia entre os teus dedos.
"E hoje cansei-me de andar"
desabasfas-me.
Eu não sei que é isso, andar.
Dentro das tuas mãos flutuo.
"E hoje chorei sem razão nenhuma"
confidencias-me.
O que são lágrimas? O vento transversal
da fruição seca-as, leva-as pelo horizonte.
"Não me ouves? Que credo esse o teu"
é a minha fé ensimesmada.
"Não deves ter mesmo amor próprio"
tudo o que tenho são vísceras latentes
de ti, cantarolando melodias sem sentido,
ante a montra aberta de um café.
"Larga-me. Deixa-me. Olha-me."
Visto de perto, o teu rosto.
Vejo nos teus olhos os meus
e a contemplação arrepiante do vazio
encerrada neles.
Perplexo, entre o vapor de uma chávena
e o soar de uma buzina.
Perdi-te as mãos na alvorada
de uma primavera tardia.
O barco que nas vagas se perde
dançante fixo, no profundo abissal
do teu ser.

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