domingo, 9 de dezembro de 2012

Amanhecer

Aquece, porra, aquece!
As mãos que se esfregam em demasia,
até se descolar a pele, até
ser carne viva.
As mãos, que paralisaram nesse inverno,
estão voltadas de encontro ao sol
que desponta.

Aquece!
Nessa manhã pálida
de sílabas mal pronunciadas,
nesse tiritar da madrugada
inconsciente, esfregamos em nós
o sabor obsceno das nossas mãos.
Repetimos ladaínhas secas
ao agreste espírito invernal
dos murmúrios.
Aquece, porra!
Silêncio.

Algum corpo
despido
balança nesse eco
descompassado
de uma morte omnipresente.
Uma dança macabra
no centro de um turbilhão
em repouso.
Algum louco?

Como distinguir
entre o azul denso
de um despertar prematuro
as feições abissais
daquele que sucumbe?
Como lhe discernir
de entre o agitar sórdido
dos gestos e membros
a constância familiar
dos nossos arremedos?

Um raiar que não aquece,
e uma janela
que tem vista para os pesadelos
íntimos
da nossa fauna espectral.
Um amanhecer sombrio,
cadáver dele mesmo.

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