sábado, 20 de dezembro de 2014

não te vou chamar uma sexta-feira
um dia longo de mais para poder absorvê-lo
um nunca acabar de frases como a tarde a ser hora
sobre hora a tecer tempo de espera para
um último salto animal sobre a terra
escreverei sempre quando me faltar tempo de escrita
quando uma ideia prematura tiver morrido
quando caminhar em oblíquo na cidade
e os meus pés digam apenas já chega de tanto
querer ter sextas-feiras
longuíssimas um dia madrugada outro dia
porque o belo é o rastilho perfeito
é a rua dobrada em esquina e eu cá
quando me lembro de percorrer de tanto
em tanto pés a calcar a cara oblíqua desta cidade
como chegar a casa e um corte de luz
manhã em espelho um pequeno sopro de janela aberta
e a agonia do sincero
porque o belo é o silício perfeito
e tenho as mãos em sangue não já agora só coágulo
e seco o corpo numa cama que lateja cumpre
o que lhe prometeram um dia renda a renda
uma casa nova um sistema de vizinhos e regas
sem oscilações e de facto tudo é
um joelho a gritar e um basta
até termos a idade que os outros nos dão de cara
o que me disseram foi antes de mais nada
vais e guardas a tua vida como se fosse
a tua vida mas eu vim para andar pelos passeios
sem os ombros de ninguém contra os meus
a fingir que vida era isto e que tinha dentes e siso
e que andava porque o destino era certo e andar
era só um passo atrás de um
tempo atrás de um passo quanto mais
isto que demora uma tarde inteira
um dia longuíssimo um fim-de-semana
que já passou e que veio depois sem aviso
para poder absorvê-lo três vezes
das três nem lhe notei o rosto foi apenas isso
algo que teve início antes de mim e termina
talvez quando já não tiver palavras
durante o dia longuíssimo enquanto ao olhar para as janelas
eu ali sem nada que te diga de novo
sem um dia longuíssimo à minha espera porque
toda a espera este banco e esta janela e um tempo novo
lá fora diante e em frente e sem nós dentro.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

mescalina na menina

come a pasta dentífrica pequena
pérola ou o tamanho dos dedos
em noz e súbito a garganta cheia no goto
engasgado às avessas come-se a si

assim abre-se espreme-se engole-se
deixa-se verter sobre a nódoa na roupa escura
besunta-se na cara caso lua ou vermelhidão
e deixa o número junto às calças

como quem conversa a pequena
noite vai de alças e mostra ombros
em peito singela mas de recheio neutro
sabemos que nos rouba a pipa

digo o coração essa enchente de gás butano
desconsiderando a permanência de algum
vinco ou lassidão arroxeada e umas areias
pouco grossas junto aos rins poucas mãos

para lhe dar altiva a que come
a noite toda só olhos esgazeados
a espremer a pista de dança e leva
três de encomenda o júri decide-a boa

santa porque hoje ainda faz aquele tempo
de quarentena e quem sai come
e quem sai esfrega sal nos olhos
e quem sai tem  pão de manobra na boca.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

que tu me digas
o riso ferve-me nos lábios
e o corpo todo treme contra ti
fascínio oblongo da tarde desnuda
em que eu peço
que tu me digas
o incesto das árvores o ridículo
que somos nós uma aventura
aberta ao destino de ser semana
cheia de trabalho mas pelos
teus dentes digo a espera
digo que me aguento
digo que falta muito até sermos gente
nobre e sincera
para um dia debaixo de uma pedra acharmos
o que quero
que tu me digas

um resquício de saliva nos teus lábios
já não digo
nos teus dentes
e a minha loucura nessa saliva
por dentro já não digo
como dantes quando andava pela cidade
o passo vivo e carente mas tu longe
onde ainda não te sabia a dor do corpo
um mundo abjecto e o meu estilo
de dizer um não antes do pés e um sim
como quem pede para andar rastejando
numa lamúria indecente para quem já tem
a idade do mundo numa pressa brutal
de escrita idónea porém bárbara e alcoólica

perdoa-me as vestes e o signo
perdoa-me a casa e o que me minto
perdoa-me os dias e não ser janeiro
e não serem os teus olhos primeiro
depois a pele e talvez um rosto e as palavras
que vêm desse rosto directas e só para
o ponto exclusivo na parede que tanto aprecias

a cabeça a prémio não
a tintura de iodo a prémio
os meus órgãos apertados contra o espelho a prémio
um crescente do dente do ouvido a sério
e um prémio
querer morrer antes de todos os que já morreram
para não deixar rasto o acolhimento dos ossos
a aspereza do meu trato

tu
janela diáfana
e rimos porque tu nada disso
tu um nome antes de haverem nomes
mas quando olho nada
nem sombra nem cheiro
e tantas cadeiras por encher no recheio
por sentar por dentro por amar por dentro
como se hoje fosse sempre a primeira
vez que eu dissesse tu
e tu as costas abertas
ao som do meu
não antes de te amar
não antes de te sonhar um rosto e medo
por favor diz-me
uma manhã e que isso acabe
e que o texto acabe as palavras o sentido e
o poema no topo disso seja a rasura da memória
o esquecimento a casa nova o betão por cima
e saliente não saliente
apenas chão pisado
a mão óssea corpo velho e mudo
mais que tudo um ritmo
e fechado.

sábado, 6 de dezembro de 2014

não trazer muita voz no ventre
morrer para ficar sempre doente
escrever pior cada dia menos
um espelho fende manhãs sucessivas
últimas azuis e permanentes
enquanto. não
a aspereza da língua sem palavras
só secura limpa entre os dentes.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

como se esta mão
esfera armadilhada
os dedos em garra
prendesse o teu pescoço
tu um terraço e a roupa
a estalar por dentro
dobrando um sol branco
e um linho morno
a tua pele presa às grades
os teus dedos armadilhados
nos meus uma trança solta
somos vento e descemos
a gravidade a latejar-te o colo
e gritas a manhã nos teus brônquios
o peso da água na roupa
ainda não hoje não
um sol ténue tu do outro lado
onde sobra um lago enorme
e o teu cheiro na roupa violenta-
mente um nome estalo na cara
contra a parede no terraço
o prédio um braço e outro prédio
para te ver num sítio onde não há
a tosse o sangue e o ferro na boca
as costas da engomadeira as tuas mãos
finas lanças rasgando a roupa
armadilhada contra o peito e negra
suja de tanto tempo onde
um almoço e saio tarde
como se tivesse pressa
não tenho e tu um lençol ao meio dia
o terraço deserto.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

como assim o silêncio
como assim essa enorme falha
esse corte de orelha a orelha
esse risco indefinível de loucura
que tesouro e que sentimento
como assim o silêncio
e a palavra perfeita
e o ouvido que a escute perfeita
e o som perfeito que essa palavra desenha
cruzando o sangue dos ribeiros
e abrindo a corrente às manhãs ainda
em sono como assim
um intervalo um interregno e um início
um poço e um dos meus olhos no fundo
como falar disto sem língua semelhante
e ainda a corda presa pelos dentes
sem dentes
nós de dedos esculpidos a fogo e uma lágrima
oca depressa de repente como
a palavra digo a vida
que nunca vem queimando rápida
um vapor breve de segundos e passou
e eu não estava em casa naquele momento
a corda acabando sei lá onde
por entre mil e um tectos
mil vezes perscrutados sem nunca
um único sopro ou semblante
lembrando
como assim o silêncio
à noite o silêncio às quatro onde nunca chega a ser dia
o silêncio no sofá uma cova no seu lugar e quieto
apenas
resposta porque nunca dúvida.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

invariavelmente toda a linha do comboio
vista de cima é um crime
e eu dentro de um comboio que passe
dentro desta minha falta de tempo
falta-me a palavra e talvez fosses tu
que passasses dentro do comboio
e cruzasses a linha do crime
e trouxesses dentro de ti todas as janelas
de olhar triste para o mundo quando ainda
é de manhã
e me engano. sei que fui eu
que percorri os dias úteis à hora certa
me sentei naquele banco e olhos apertados
contra os teus olhos
senti por dentro a morte lenta
de quem descobre as palavras na linha correcta
e porém as erradas. e porém
as agulhas indicando a mudança de linha
a ameaça dos carris no sentido
intenso da queda. invariavelmente surdo
como se o corpo agitado fosse cuspido
no ar e no fundo
despido vim a sorver a linha como
veio desenhado em voo p'lo vento.
eu ao ar frio deste tempo gigante
onde devagar caem comboios pelos penhascos
quase tocando com um beijo as mãos frias da terra
chego a ler nos teus olhos
um corpo iluminado. à janela voraz que passa
noutra linha em sentido inverso.
o crime paralelo de um espaço.

sábado, 29 de novembro de 2014

vim ao cimo para te dizer
há muito que parasito esta cidade
sei-lhe os limos vagarosos do rio
e o ponto de fuga palpitante dos olhos
a pontilhação das casas em lâmina numa outra
encarnação de fé.
também a tortuosidade descalça dos caminhos
mas não tanto aquele tempo distante
onde uma vez perdi o rosto.
e há um som sem freio um riso
e isto é um país menino um país
pequeno mas com tanto grão de sal
lá dentro: onde raspa a unha invisível
do medo. onde percutida gota de suor
visível nos teus lábios sabe a carnificina.
onde o riso aos cafés soa a morte
leitura de sina prematura um desconjuntamento
nos ossos um ai que dói a espinha
e não sofremos mais o suave torpor
dos passeios a linha aérea dos edifícios
e a barba dos apodrecidos. // a cara limpa:
da empregada. da fachada ao sol de domingo.
da palidez destas flores de plástico tão nobres
tão deste sítio tão deste
café espírito de tempo. // isso. ódio
e isso. mãos recentes sobre a mesa
na outra mesa não nesta
uma diz os dias outra conta os passos
foi daquela vez que sorri lembrando-me
havia anos que saíra para comprar
pão fresco e laranjas. não fumava e crescia-me
uma espécie de formigueiro de arejar
os olhos aligeirar as lágrimas levantar a lenta
circulação do lajedo. // era o regular inverno
chuvoso. tinha uma vontade permanente
de me ver  rosto esculpido às montras fechadas.
para obras. ou então. trespassa-se
a cara do transeunte. não tem olhos.
não sem perto de si a curva necessária do tédio.
digo ódio digo ébrio. trindade leda
como um pássaro-poeta
canta nas argênteas poças. chapinhando louco e talvez
mais profundamente triste.// importa a cidade.
importa que se tenha a um tempo
dois pedaços dissemelhantes de carne no peito
um coração mais vivo e sombrio outro mais
de uma época de azul agreste. ambos roucos
combinando agulhas. afinando as cavidades evidentes
do desejo. importa isto: eu quebrando as mãos contra a cara
mas enterrando-as em sopro no sono desperto deste peito.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

canção de empalar palestrantes

compêndio de esgrima
de la taxation do pouvoir économique
o reader's digest das mamãs

em querendo
ENLARGE YOUR CAPITAL

saudades de levar porrada

a bancarrota e a branca que arrota à boca branda

amiga comunhão
de bens
na boca
a hóstia
e a porrada
ei-la 

saudades de levar na estrada
um sorriso pelos joelhos

cantar às cegas uma meditação

massenet vende castanhas à dúzia
quem as come engole cascas mas
se é tosca a casta também canta

os seus males estranha
primeiro cospe-se depois

lave-se
água ao fole medra a terra

a minha mão na tua perna
ribanceira abaixo em sintra
três mortos no tal sinistro

dispensário da viuvez
a artrose da avó

a vizinha dentro de chaimites loucas
loucas loucas loucas e laranjas

em fevereiro
doces e castas
velhas lombrigadas ao caroço

uma dor um achaque um lábio
de fraque no dorso

minha mãe mandou-me à vila
ver de tudo o que havia em conta

vistas curtas perna longa
a mão manietada à montra dos monhés
disse-me

é um ver se te avias
chibo cabrão furtaste-me
da cabra com cio o coração

era casta a mandriona
agora basta
água naquela lona
de chover todo o dia

manda ao pai este aviso vivaz
vá de metro
sem tenaz.


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ou isso
a tarde
inqueta-se presume-se
vibra na linguagem das falanges
ignorando
o manto despido sobre as árvores
como quem dá à luz
devagar uma auréola
em pranto
uma dor de cabeça.

ou isto
a encefaleia dos ninhos vazios
a ceifa esgotada pelos montes.
não me queima as mãos este frio
este andar despido e de vermelho cru
como se buscasse
como se fingisse que buscasse
a tua boca vazia num horizonte de glaciares.

(observemos o que se segue.
o poeta sucumbe à clique. prostrado. boca de cena. aparte.
isto era desnecessário. o leitor sabe. o leitor compreende.
o leitor vê-lhe os olhos cavos. vê-lhe um sentido inato de gente.
ele que escreve/canta/escarra também é gente. também comunica
por signos. peixe e quiçá escorpião. ascendente não tem nem falta de pão.)

novembro é quando mais amo
este rigor calado de morte
o mundo segreda-me o nome
abjecto como
um beijo florido e podre
(sei que me repito

vejam-lhe o sofrimento. pede compaixão.
mas furta-se. coitado. coitado não. bizarro.
uma mão de fora como quem pede. outra para dentro
como quem esmurra. a figura pálida até podia ser esguia.
mas não. é de T3 em Linda-a-Velha
Peugeot 206 e sextas na marginal. o poeta fede
a fumo de escape. ai se fede. a Lisboa ela inteira na diagonal.
a sua vida própria é a vida de qualquer um. o incomum
já lhe saiu caro em 1983 [não nascido repare-se
apenas projectado e desenhado a carvão seco]
vinha de mal com a existência com olhar perdido
em cafés nas luzes estranhas sobre gente estranha que nem dá por elas.
o poeta sente. mas tem só de podre ali aquele
aquele dente. como dizer isto sem comiseração.
é tudo canja de galinha. sopa com pés e unhas ainda.
um frango no talho mal cortado. amparado pelo amor são
do cutelo. sangue pouco. dor que já foi muita.
e onde entra o poeta nisto? sorve a canja. é daqueles sujeitos incorrectos
aqui na mesa de trás enquanto se engana [as pessoas não são assim estranhas.
a luz sim. mas as pessoas são pessoas não vale a pena o espanto
o trabalho. o sujeito e o predicado. o silogismo. a condição suficiente.
o puta que pariu o dente. as pessoas são como cada qual e assim está certo que o sejam.]
enquanto se espanta e se dilata está na pândega o poeta. também merece.
mas não merece o sorvo. a arte do sorvo. o ouvido salpicado no sorvo.
o talher sujo o guardanapo em sangue o unguento do caldo o cuspo e o ovo.
não. é demasiado. ora cale-se e às mágoas. o frio é lá fora. faz chuva é novembro.
sempre foi. aqui ao quente não. isto não. esta mentira indecente.
cuspa o que tem na boca sujeito. cuspa esse dente podre essa maldição.
o poeta olha-me de frente. mas ingratidão. era só o bancário inócuo.
o farmacêutico de portas abertas até às oito. o pasteleiro do conde barão.
escuso-me. ridículo. faço cara feia. o tempo persiste. chove porque é novembro.
sempre a enchaqueca neste mês e neste momento. sempre a dor na nuca. a ilusão de ser eu
dentro daquela pastelaria ali à conde barão sentado e é julho. acaba-se o vinho.
sorrio. lá dentro. fazem almoços e hoje deve ser polvo. prossigo raquítico e de esmola na mão.)

sábado, 22 de novembro de 2014

dois transeuntes cruzam-se na rua
então e esse manifestozinho
então e essa artritezinha
isso sai? isso fica?
já lhe cheiro a tinta fresca
já lhe vejo a perna lesta

num outro ponto da cidade
leia isto diz aqui
o sentido do poema é o poema
averiguemos
o poeta não está
saiu sem nota morreu
algures no espaço sideral onde conquistou
o último croissant de chocolate
a calma da mastigação eterna
o after-life das estrelas
quer ver
leia isto diz aqui

algures no centro nevrálgico da letra
de crédito
amor traz-me o panado de frango que te pedi
sou assim delicodoce com os salgados
não era este amor
o amor sai de cena
fim do acto conjugal
(poupe-se o leitor aos indecorosos celeumas
da maquinação do tempo)

por fim aqui ao lado saguão com nespereira
um bota-cigarros desesperado
pulmão abaixo calçada do duque acima
os prédios a terem o lume virado para as traseiras
a magnífica luz que se esconde nas traseiras
a pilha de livros pronta a queimar nas traseiras
está-se no inverno e tem-se medo
mesmo com um quotidiano comprado a prestações
certinho direitinho todo o mês
com feriado santo à porta
mas mesmo assim medo
rabo entre as pernas
cu como os demais
um desfilar certinho de meditações
na avaria correcta imposta pelo medo
na centrifugação a aprox. 1080 rpm do medo
(sai sempre seco)
tenho isto
não ver o término das mãos
turva-se-me a vista ali chegando ao pulso
ando pelas ruas a apalpar nem sei bem o quê
paredes animais géneros humanos
um sei lá de malvadezas
porque sou sobretudo o dia retirado
o espécime de nojo com que olho para o nojo
a embarcação empoleirada num vento podre de verão.
determinado a cair
cara rente ao chão
leia isto diz aqui
amigo somos demasiados
tantos que a conta se nos perde
economize luz
guarde a artrite para si mesmo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Da-guerre-ó-tipos

os resultados destas experiências foram algo ambivalentes
ora vejamos:
gogól na capa de um livro de contos
penteado à menina judia bigode curto
rimbaud passeando o ornintorrinco argelino
calça branca cara negra
rilke de olhos protuberantes clamando aos anjos
sem cor porém muito verdes pressente-se
eu na parte afastada do divã
eu sentado não leio
leio pouco aliás
cruzo a perna traço uma linha
na parede bem concreta
sinto a dor raspar o osso
deixo as experiências
a minha herança ao sobrinho desconhecido
perdido na guerra toda
a minha biblioteca mental e ainda
os invólucros e as primeiras edições
as balas de canhão e os dentes ali do general
morto na primeira ou à segunda
queira deus que isto seja só a terceira.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

vem já aqui
disse-me
errei na possibilidade de serem frésias
tudo isso que contei para mim mesmo
tudo isso levava dentro de si um grande balde de água suja
parei como se o sussurro fosse um grito
as paredes lancinantes abrindo
vem rápido
e eu corri a abrir as janelas da casa
(chovia muito nesse tempo)
dei por mim encostado ao canto da sala
as mãos dentro da água suja
errei com certeza seriam gardénias
pensando em como dizer-lhe tudo isto
chorei um pouco mas um homem não chora
não chorei portanto
quis uma vida sedentária de rosto para os papéis
cresci sem pais fui nobre nesta guerra
como um jacto de crime que
vem porra
que fazes tu aqui
errei porque sabia serem rosas
plantei-as eu naquele quintal há muitos anos
outras mãos
sei que já lá estavam quando para aqui vim
bonitas bonitas sabe quem as plantou?
não vejo porquê
ainda ontem aqui estava só um terreiro seco e morto
um corpo aberto ao sol e às pragas
hoje veja já nem há jardim
destroem tudo aqueles malvados
mas tem que cá vir mais vezes
(o meu rosto contra a parede)
começo a contar os precipícios
quem disse
vem já se não queres apanhar
mãe tenho medo
eu também
a jovem louca aos rodopios grita
mão rasante nas grades do hospital
arbustos muitos sobre os olhos queimam.
a topiaria deseja-lhe
os dedos cortados
a parede emudece.

domingo, 16 de novembro de 2014

deixa-me aos poucos sentir a perturbação da casa
quando acordo de manhã e ainda é bem cedo
e não tenho sono e só se respira um azul nítido
rasante na tua boca.

abro devagar os olhos
tento seguir o fio ondeante da poesia
e acabo contra o muro. sempre.

ainda há muito a dizer
ainda há dias dizia eu
chovia como se fosse
o tempo último dos crentes
e ainda há dias dizia eu
um estranho som entrou pela janela
e veio habitar na ferida imensa
que o meu peito cumpre.
um estilhaço de espelho abriu-me
bem no centro da vontade
uma luz desmaiada
um castanho de casa habitada
um já são sete e acendemos o candeeiro.

bréu
a horta o jardim o idiota do vizinho
descansam em bréu.
e tudo isto era manhã
e tudo isto era a minha mão na tua
cosendo a manhã aos olhos
cosendo as mãos à manhã
e os olhos noves fora nada.
não são meus.
não são suficientemente meus.


sábado, 15 de novembro de 2014

a experiência enfezada da humanidade
deus sentado à escrivaninha
tergivesando sobre a colheita de 82
a touriga nacional à porta
o alicante bouschet de passagem
à janela dos eléctricos
a saudar vizinhos ex-colegas de escola
a viúva o ardina a varina
o sentido proibido pelas ruas estreitas
não vou por aí
a verruga encostada ao queixo de uma avó
o tempo perdido na contemplação da dita
a palavra sofrer ao invés de vendem-se castanhas
a tosse convulsa do papá e o dia de inverno a nascer
a postura curvada deste tempo
um guarda-chuva partido nas urgências
um grito chamem o doutor por favor
uma parede de azulejos e os cantos da parede sujos
um pitéu o almoço em hora de almoço e o café a terminar
a tarde na cidade a manhã no campo
as pernas a sacudirem a lama a sacudirem na cama
o tremor de ser sexta-feira
um olho mais dilatado que o outro
deus à secretária contando os cabelos
rape-se-lhe a cabeça
deus escutando nas portas
raspe-se-lhe os joelhos
deus espreitando nas ranhuras
fure-se-lhe as orelhas
deus cheirando o lombo de porco no forno
deus faz cara feia
deus diz querida hoje não janto
deus faz de conta que é domingo
um tiro arregaça as calças chove e
outro tiro meu deus tem seis dedo num dos pés e
mais um estrondo dizem que é segredo
mas a vizinha viu um dia contou à porteira
agora a do terceiro também comenta e ele há vezes
que até lhe pressinto as conversas com a do quinto.

porém:

os ouvidos dentro de água
a água por dentro do cravo de Bach
suite francesa à chuva (os scones arrefeceram)
sinto tudo isto dentro
de um eco de um canto de um eco dentro de um canto
desnecessário seria dizê-lo
a repetição enjoa mas para o ouvidor
a repetição enjoa da forma que enjoa
o cheiro da nossa casa quando regressamos
de um poema lido à pressa
sem pontuação ou meios termos
sem aquele sal de esfregar nos olhos
de nos abrir a vertigem e a queda.
sinto tudo isto incerto
e o quadro adensa-se até restar só tela
o olho molhado contra a pincelada
da saliva no papel.
espero e por fim só o óleo do tempo
pingando pelas arestas receitas da titi
a bouillabaisse e a charlotte de framboesas
o quanto choro pelo fim
pela sobremesa
que o poema termine que acabe
que faça sentido e faça isto.


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

o que se esconde por detrás do marmeleiro de victor erice?

a referência ao filme já está.
venha a referência ao poeta
constructo primordial do poema
ser hábil de agilidade mental ímpar
sabedor da boa piada do bom beicinho
do bom licor quando muito do bom vinho
e acima de tudo um aglutinador
dos seus próprios olhos
mil e uma vez cerrados enquanto é dia
cerrados frente a cada objecto
a cada pulsão de luz sobre cada objecto.
e quando à noite chega a casa
a aranha sem lugar onde habitar nos seus cabelos
é quando mais sofre a lentidão do espaço
o cansaço do chão seco e resiliente
o abraço de um colchão mole e sujo de si
poeta às avessas com o tempo
com a locomoção das palavras
com a sentença das árvores que lhe batem no quinto
andar para o saguão desesperado de um milagre.
o feitio lilás que desencanta das horas frias de sol poente
é esse o seu feixe único de tralha no fundo dos bolsos.
é um preguiçoso. e gaba-se
tem muito respeitinho e até é bom rapaz.
às vezes cala-se e aí
é como se o pergaminho do mundo
descansasse aberto e límpido.

sábado, 8 de novembro de 2014

há um odor incrível
um frémito doente a irradiar
dos prédios cheios de
gente à hora do jantar.
não. a chuva não limpa
as mãos de quem escreve.
há um horror incrível
em andar pelos passeios
ouvindo o tilintar dos talheres
solteiros na inebriação de uma
conversa ausente.
a cidade tosse lentamente
cospe os próprios pulmões
com o vagar sanguíneo dos séculos
mas sentimos-lhe já o rio secreto
coagulando pelas sarjetas.
e mesmo assim sei que
há um pormenor incrível
na transpiração das casas
na inundação das massas
no valor centrípeto dos corpos
contando pelos dedos a seiva que fica
da humanidade. a infância a brincar na rua
a cair nas poças lentas de lamas
a engolir do ar os dias que nunca chegam
mesmo que já seja fim-de-semana.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

forma de dizer
a noite
desmembrada no silêncio curvo das árvores
onde o brilho dos aviões colide
com o passo metronómico da tua
forma de andar
hesitante. um destino sobra
nesta sexta nocturna
para os cometas e há
quem repare em tudo. eles
lá do longe desenhando a múltipla
sensação do minério astral
mergulhando na retina pálida
adormecida sob os teus dentes. um olho fende
um olho de frente.
grita-lhe um segredo às avessas na rua
que pariu um subúrbio pela cauda do tempo.
antes que te levem a vida
forma de cumprir
o medo acumulado nos ombros durante anos
assalta-lhes o rosto com o teu rosto
de frente sob a luz
mais velha e doente.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

e do mundo que há-de vir
das mitologias e dos factos:

sujeito n.º1:
casado e itinerante
com filhos
olha o corpo infinito do horizonte
não sem a mão por debaixo das calças.

sujeito n.º2:
encontrou a inspiração na matéria fecal
e rochosa. viemos do pó voltamos
a pé. tu es petrus. tu es petra. idem idem.
mudam as moscas.
sucumbe a viroses várias.

sujeito n.º3:
do livro das revelações
o mais ignóbil
e por isso o mais sublime.
esquarteja três com as próprias unhas
de seis meses em gestação.
tinha vida profissional estável
carro cão e família
mas abdicou de tudo isso ante o chamamento
da latrina.


cenário:
apocalíptico q.b.
não demasiado caprichoso nos apetrechos
de mãos dadas com o regime e com o escol
diverso mas não saturado
averso ao sentimentalismo das cores frouxas e das mortes em catadupa.
que sirva de lição ao espectador.


adereço (fora de cena):
flor de lapela
digna de apartes
que ecoe ao fundo
que mutile o olhar
mas pouco.

[terminus]
constrangimento
não soam aplausos
os espectadores abandonam a sala
é de dia ainda lá fora
(passou-se um dia na verdade)
cada um segue rigorosamente a sua sombra
marido/filho/avô morto na guerra chega a casa
senta-se à mesa
comida quente
o sol brilha na parede de azulejos
por onde penetra um extenso frio.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

não entres de mansinho na noite amena

um estômago reclama
pára que te aleijas
e eu penso
faz muito tempo que não ouço
as voz das coisas.

uma forma de entender isto tudo
era simular de novo a corda latejante
queimando o pescoço em dois
em nós dois
a ferida abrindo ao morto
à mão do morto
o rio sombrio das palavras.

também elas abrem brechas
e dentro das brechas descobrem
o ar oblíquo do vazio.
esgotados os ácidos
sobra um corpo sem estômago

planando nas ruas como num rio
para o destino cumprido e para o dia findo.

esgotam-se as conversas num café
olha-se a rua. a tarde demora-se mais do que devia.

sábado, 11 de outubro de 2014

1.
antes de chegar o teu tempo:
ouvido encostado ao coração das casas.

2.
para quem dorme
de olhos abertos
é sempre dia.

3.
digo-te
tarde certamente escura dos teus olhos
digo-te antes que acabem as palavras
o beijo das flores apodrecidas
do teu colo
digo-te
há um poema
nas reentrâncias das pedras
nas marés ao som dos corpos
na água límpida que o teu pé descalço
abençoa
de inverno
abençoa digo-te como
um esquecimento momentâneo
a tua mão na janela a crescer um jardim
de novo
digo-te
cresce na aproximação do solstício
a dor da tua sombra
bebendo nas paredes
a humidade magnífica
do silêncio das montanhas.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

chegou a hora de escrever
todos os epitáfios.

os caminhos dizem-me:
a mão que escreve
suja.

por isso espero.

o mundo canta em língua estrangeira
e respeito menino respeito
a hora da refeição

é uma promessa.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

diz-me
há um dia prateado que começa
por detrás dos teus olhos
e sinto-lhe a distância.
daqui todas as coisas
soam ao negro.
é como se me fechasse
dentro do próprio sentir das esferas
num registo etéreo de fim-dos-dias
antes
do fim-de-semana prolongado em que
saí e fui à deriva ter com
esses teus olhos sem freio
como se a estrada fosse a tua língua
a levar-me até ti
naquele dia último
em que um horizonte de árvores se fendeu
para deixar entrar a morte.
e os seus dedos na curva de um nevoeiro
pousados sobre a minha testa.
como quem conforta um filho.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

der angst

o brilho das manhãs enfurece.
a ira reverte para dentro do corpo
e há um brevíssimo som de queda
um simulacro de uma tempestade
antes de ser tempestade
como os contornos frágeis
dos dedos sonâmbulos do tempo
desenhando no ar a sombra por vir
a vontade de morrer bem cedo
- antes do primeiro autocarro
para o primeiro destino -
e uma fervura de língua
agitando as chuvas serenas dos equinócios.

a vontade mutila
dá-nos o sumo dos cortes
a certeza anunciada
de um corpo estrangeiro no chão.
o nosso. antes de ser nosso.
antes de ter o nome
do nosso rosto
cravado na pele em ritmo precoce.

...

a janela
antecipada ao medo
guarda-nos as raízes de uma voz
imaculada. mas o sopro das palavras
permanece ausente.

sábado, 13 de setembro de 2014

não creio que faça assim tanta diferença
o meu olhar rejeitado pela
manhã que se veste à pressa
no parapeito da janela seguinte
onde as minhas mãos
(local nenhum de guardar restos dos outros)
não chegam nem
para sufocar de espanto
a flor de pele que se descobre
entre o cinzento luminar confuso
de uma hora já crescida e prenhe
do ar saturado do meu rosto.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

uma vez que termine
a significação dos pontos
(andorinhas cruzando no ar
o ritmo da derrota)
teremos algo a dizer
por fim

a música
penetrada pelos poros
numa semelhança de outonos:
um por um
desfeitos contra o branco
da parede de papel eternamente
vazia e dissemelhante.

sábado, 6 de setembro de 2014

pode ser o teu último e humilíssimo Bruckner
e olharás como se fosse sempre
estrada por abrir com os próprios dedos como
fruta macia num verão que tarda a aparecer
por entre os ombros dos desconhecidos.

as frases inteiras
demasiado longas demasiado inúteis
girando numa conspiração de desmazelo
e falta de rigor
e absoluto nada.
(ninguém que as ouça.)

pode ser o teu último e humilíssimo dia.
estranharás sempre o sabor final de uma árvore
que descanse no seu último sol. das teias
que a luz projecta sobre o teu rosto
como hora de incendiar o tempo
de abrir o fundo dos poços
de esventrar e secar todos os começos.

pode ser que não venha.
há quem nem conheça
a oitava e todas as outras.
há quem nunca as venha a ouvir.
e o lamber ressequido do pano amortalhado
saberá exactamente ao mesmo.

domingo, 24 de agosto de 2014

a esse sítio de ser domingo
à sinfonia das avenidas mortas
ao horror das casas silenciosas
inflamadas numa respiração
que habita dentro

tenho a dizer
que o fim disto tudo podia ser bonito
mas não é.

sábado, 23 de agosto de 2014

transiência dos venenos

disso posso dizer
do crepitar ocioso das árvores
posso dizer

não há forma de se ser um oposto.

//
coabitamos com uma réplica ensurdecedora de som
uma palavra abafada entre os lençóis
que separam a contingência dos dias.

no fundo não sei língua nenhuma. sabemos
que não. anuis
terceira pessoa a espreitar à porta
no vislumbre de um órgão
amaciado pela cor da manhã
ainda prenhe de cinzento.

carrego a culpa plural
e alterno entre
um passeio ao acaso
e um estado saliente de vergonha
de passear ao acaso
não tendo pés que girem na direcção de uma
morada correcta.

antes que caia a noite
queria muito terminar esta estranheza.
(exprimi-la mal. vesti-la mal. senti-la mal.)

//
a culpa
foi sempre da insistente troca corporal
entre o interior e o litoral.
no fundo
a cidade rejeitou-me
enquanto lhe amava ainda
os bordados de sol no topo dos edifícios
à hora em que o envidraçado das tílias
lhe projectava nos passeios uma face
sonora de sítio de ser nunca.

senti-me logo aí cuspido
(o andar torto. o olhar resumido às saliências das pedras)
para não mais distinguir
faces e nomes
apenas cheiros
apetrechos inconcretos 
como marca dos espaços.

tenho a  recordar
tarefa última do dia
o contorno líquido das palavras.
uma última bênção
segregada nas sombras dos edifícios.






sexta-feira, 22 de agosto de 2014

podíamos ser
lentamente
um enxame sulfuroso
em abraço simétrico
uma fúria e um cheiro nauseabundo
tudo num só aperto
tão pouco comovido tão pouco
ele só
ele

como a porta que abre por último
o silêncio irreparável da noite
a lâmina de uma ausência
crescida bem no centro do corpo.

podíamos ser
no fim
uma ordem desmesurada de partos
em luz e em riste
das coisas salientes das coisas.
pretéritos
de um compasso anterior
de um engano de um
gole sôfrego
de ar submerso.
no fim
a beleza etérea
de um espasmo.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

quero dizer por fim
que este tom tingido de enjoo
é só o que me resta

disse-o claramente
mas pintei por dentro
uma atrocidade mais oblíqua.

para significar
sê semelhante
para andar -

perdido nu na cidade esférica
ao ponto do tamanho das casas ser
do tamanho das vidas e da crueza do chão
rastejar pelo corpo como mistério
como dolorosa partida para a humanidade
onde poisa a nitidez dos pombos pousa
a minha mão inquieta e desejo ir para debaixo das sombras
onde só falam num dialecto de paisagens adormecidas
os lugares declinados das fragrâncias e onde
se me quebram os ossos todos sem assomo de fé
e onde me minto e me guardo um resto de mim
camada fina de sangue nos rios entre as pedras
apartadas pelas mãos cinzentas e finais dos cafés
um dia a mostrar-se a outro dia a fazer
medo aos que o olham o dia
a fazer segredo das coisas vãs a mostrar o interior
do dia que sabe tudo e que até vem de carga pronta
para nos dizer
morremos
e isso tudo é muito lindo é bem lindo de facto
morremos antes de viajar e conhecer a feição carnuda
de outros dias de outros azeites de outros mundos
religiosamente apartados pelas mãos cinzentas e finais
dos mistérios da terra onde nasci
raramente chove mas é um sítio onde me chove muito
dentro de casa dentro do olho dentro do peito
nessas alturas vêm as mãos cinzentas e finais
afinar o piano tornar mudo o cego e humedecer os lábios dos que dormem
como quem lhes dobra lençóis e conserta pescoços
como quem vira os prédios do avesso e sofre
de ver tanto resto de gente de joelhos ou em pé
sem pai nem mãe nem cabelos
porque a igualdade punitiva da atmosfera também sofre
uma flor desfeita em sangue no meu ouvido
gritada algures pelas sereias de um rio apodrecido
onde descanse minha alma junto de teu corpo
onde minha náusea de rés e em espelho
sozinha descanse nos relevos embevecidos
dos que assassinam de manhã a raiva imensa da madrugada
olhando-a de frente sem sinal de terem dormido

- para andar sê
primeiro
o último.
tanto que eu te pedi
que me circunscrevesses
círculo dourado iluminado
à passagem do teu olhar.

tanto que até me lembro
foi um revés dos dias
um maremoto em ponto
morto vindo na direcção dos que engolem

pela janela a imensidão de uma serra
em verde de manhã num ano
que começa em dormência
seminal. um dia após o outro

sem sofrermos do atrito dos nomes
e das vontades restar apenas
um planar raso de ave morta.
rompi-te o ventre

país imenso e seco
para te trazer mais pó
nos sapatos um outro andar
mais de tom perdido. tu

ilha à deriva e sem pensamento
tu hás-de abrir brecha destes nós
e deste sossego emaranhar a carne
humana que há tanto te espera.

sábado, 9 de agosto de 2014

há tanto tempo se carrega
porém
o peso concentrado da dissonância
num latejar de têmpora fora do tempo
num estalar de língua frouxo e rançoso

sempre com
a derrota a servir-nos de travesseiro
e um sistema solar de equinócios mudos
expectantes pelo nosso passo inconcreto
a esboroar de tinta plástica
a curiosidade decomposta dos dias

aquilo que te disse
foi certamente o meu mais correcto sentido
de fuga para o interior
das asas pueris das aves mortas
em primaveras mal chocadas paridas e abandonadas
aos ninhos esburacados.

sinto que sofro da coesão parcelar
das agulhas que se escorrem pelo rosto
e nos falam de um passado neutro sem cores
de olheiras e de sentido findo.

faço o mínimo barulho possível
é de noite e faço o mínimo som
para que o meu lugar de suor
nesta cama se evapore e se cale
e não conte de mim mais do que
o traço desfocado de um mês passado
num ano qualquer passado
quando um comboio explodiu sem razão
bem no interior de um país adulto
que tinha partido entre lenços ensopados
para uma guerra nunca sua.

porque temos demasiadas vezes aquele pensamento
como um jeito arqueado de costas
um murmurar de canção nenhuma na outra divisão
um silêncio de que cumpriremos cumpriremos
mas vem um dia outro e não. simplesmente não.

quem me olha assim e vê
a figura desfigurada do caminhante
roto e cego e
nu se não o vejo
perdido num quintalejo de espinhos
como pálpebra sua. propriedade defunta.
espalhado ardor de tardes em fecho corrido
durante agostos só de secura.

a minha sílaba fundida com o crepitar pagão
de uma estrada sem percurso.
um beijo na animalidade sincera das amoras
prenhes ainda antes de o mundo se moldar
à carne dos que vagueiam.
mas sei que a minha morada é certa
sem noção de hoje ser sábado e não haver
tanto pé para abrir estrada. é aquele
recôndito canto talvez cinzento
num nó de garganta de dedos de cotovelo
onde antes olhos.

um corpo nu vale isso
tapando a cara ao ardor dos crimes em espera
dos outros
vale isso. um cheiro de cremação anunciada.
varrendo os lábios. a incisão do desejo
três nós abaixo.

domingo, 3 de agosto de 2014

um quadro de bosch para não dizer mais nada.
a guerra soçobra nas veias. desagua nítida até ao bisneto.
mas eu tenho apenas pó de obras ainda a braços. a terra ainda precisa
de gente que a desfaça que lhe deixe no ventre
a certeza de uma ameaça.

sábado, 2 de agosto de 2014

é na vontade crescente
de ser noite
que te lembro as mãos.
as minhas
- num outro tempo -
agora carne alheia futura
fio límpido de uma lembrança em
espelho côncavo.
sublimo a antecipação deste silêncio que cresce
no debruçar-se lânguido das janelas
sobre a via respiratória de um
afastamento.
- num outro dia -
aquele em que
vieram as palavras
houve uma morte secreta sem semelhante.
elas
as palavras
ficaram sob uma ombreira de porta despida
e um insecto na ferocidade da prata
zuniu-lhes o precipício
rente à boca
justo à boca.
cumpriu-se distante
talvez próximo daquele hiato profundo
de mundo anterior que guardamos
nas mãos uns dos outros
um escasso e nervoso espasmo de aurora
sem espectador.

terça-feira, 22 de julho de 2014

no fim de contas
já caminhámos de mais
esmagámos sem pudor
o sentido intenso das coisas

por isso é bom descansar
onde morra uma sombra de árvore
mais silenciosa.

sábado, 19 de julho de 2014

se pudesse ajustar contas com os ponteiros
diria:
aquela hora. aquela
hora em que acordei demasiado cedo.
ainda sem fome. ainda sem medo.
ainda só o meu corpo
a rondar as janelas para um tempo mudo.
uma chuva a ameaçar
um caminho dentado enorme de dias
só de manhãs.
um meio corte nos dedos
frouxos das meias horas
feitas só de um resto
de um vício de um canto de prato
de um tapete de cigarros mal apagados
fendidos no ponto mais correcto.
a fulminar a humidade dos passeios
pés tortos perdem-se enquanto
são só sete e pouco e ainda ninguém vê
a cara triste medonha dos prédios
à pinha de sono cinzento.
este estranho nojo sem estômago
sem lábios nem olhos encaixados
esta forma de dizer bom dia às coisas
mais silenciosas
que preparam uma digestão rouca de caminhos
por findar.
este ritmo de monge cego
que lambe com o vagar certo
a secura doce e tremenda
da sombra dos espinhos.

terça-feira, 15 de julho de 2014

hei-de carregar
o peso imenso desse dia que parte
entre a circunferência dos dedos
entre as margens dos teus olhos
atravessados
na linha tépida dos comboios.

não te reconhecer
e que isso baste

quinta-feira, 10 de julho de 2014

terça-feira, 8 de julho de 2014

não sei o que isto é

é o nosso corpo
a falar a língua anterior
aos mortos

é o teu sair à rua e ser domingo
dia parado nas lojas
dia redondo na letras

um encontro subterrâneo
entre a mão e a perna

um grito preciosíssimo
no espaço fendido do teu cheiro inacabado.

sábado, 5 de julho de 2014

três andamentos para um chevrolet

I.
lacro-te os orifícios com a seiva fleumática
do espaço inacabado do teorema.
o poema acaba mal
começa pior.
uma falange no recto
modo de dizer
tu contra um parapeito de rio sem centro
em saudação à Lisboa antiga das calças coçadas
de dentro dos seios ilustres de fora
das noctívagas reentrâncias
do martírio dos teus lábios
em repouso contra o envidraçado do tempo
em que eras só o encontro de uma mão solitária
contra o sono circunflexo do seu bolso.
cometas assoberbados pelo desejo
lambemos a angústia que finda a estrada.
essa fricção inerte de pedra na língua
ante o brocado do canto.
um dia só de sol e marmeleiros
nos quintais fechados do teu último vinco
tão de frio. tão de tudo inverso.
hei-de te chegar ao estigma
a mão contorcida em ventosa de pó
ascético. a vida ela mesma uma unha
cravada na solidão rítmica
de um beco em condensação. como a noite
perseguindo-nos. e nós tendo nisso
a certeza de ser chão
superfície cosida à pele rectilínea
da tua perna enlaçada em cruz. se o silêncio
me fosse boca para estagnar
a tua membrana de cigarros circunspectos
a tua crina de cinza no chicote da madrugada
a tua voz de fundo de anil gritante
nos dias de trepidação mais densa.
parimos o desejo de sermos filhos das guerras
de cumprirmos as três pestes entre as pernas
mas em vão
desenha-se um arco diante da janela empoeirada
do quinto andar sem sonhos dos teus olhos.
é uma tarde num fuso correcto.
e sobra em nós a tal estranheza de mão que raspa
o tecto de cal silencioso dentro
de um crânio em brecha.

II.
dizer tudo para te
magoar um dia passado em frente à costa.
descer-te dos punhais azulados
dos cafés só cheios de gente
calada em verso.

um lençol de espelhos
brilha nos cantos mais húmidos
dos teus lábios limpos à pressa.
demoram-se por aí
nesses sítios mais de som
os habituais clientes carnais
dos fonemas.

III.
a extensão límpida do teu corpo
em marejado sorriso aberto
quando a última porta se fecha
e caem sem significado os três últimos
acordes sobre o espectro ausente
das nossas caligrafias de animais sem céu
para onde gotejar
quando houver um fim.

a vírgula infinitesimal a cerzir um segredo
junto aos nós da garganta
concretamente abandonada aos uivos róseos
do teu cheiro pulsante de rua que amanhece e se despede.

na minha ideia cresceram
as mais longas hespérides
desde que o sol abrasou a tua queda
as mais nítidas extensões
abrasivas dos dedos à tua passagem
dentro dos comboios em horas de ninguém.

este espaço que falta
ao ar cuspido da manhã
suspenso.

este frio só teu
do lago gigante da tua boca
encaixada na lâmina do pavor
desfaz-me o feixe alado
dos dias em corrente crepitante.

no fim nunca saberei o que de facto digo
apenas por te crer
mais do lado da música
rotativa dos astros em queda.
o terramoto de uma flor em chamas.
a contorção cega
dos rostos. das montanhas.



terça-feira, 1 de julho de 2014

a eventualidade
da tua pele trespassada pelo comboio das seis e meia.
apenas um torpor macio contra o vidro da tarde
ainda a meio.
não sei porque te procuro entre a cinza
dos dias cansados de ser verão.
talvez a sombra de um teu não estar
- lençol nítido de pedra sobre o rio -
seja apenas nos meus olhos. num meu
acordar mais cedo do que devia. sempre um
chegar antes
do grito dilacerante das embarcações
antes da sentinela ausente das marés
contemplando a liquidez calada dos bancos
infectos de sono
enquanto esperam o próximo feriado 
para não vir gente.
se te odeio é porque
a tua carne em espelho só sabe
devolver-me a ternura e a estranheza
da minha boca cravando os dentes
os ásperos ossos caninos sem rutilância
por dentro dos cimentos.

domingo, 29 de junho de 2014

tenho dois pés
a sofrer da lentidão do espaço

um ar cansado nos olhos
como areia erodida a metrónomo ternário

uma dúvida resiliente no queixo
desaparecida na terra linear das fronteiras

muitas muitas vastas longas
[e súbito] olheiras

rastejando vejo-me um terço de mim
sobre o ardor das pedras em planar

marcescente. tenho a mão sempre fechada
até a unha beber da carne viva a lágrima certa

mais doente. sempre uma hora existe em que me desfaço
empurrado pela folha mais jovem

definho os caminhos por onde passo.
já não existem dias suficientes para a obra

e: retiro da cidade os ácidos e os gumes
deixo-lhe na garganta a língua de um laço.

escrevo minto e morro de cansaço

sábado, 28 de junho de 2014

o crime está no olhar
de quem mente.

(uma enorme quantidade de fetos
beija-nos os pés.)

enrolados nos cardos horizontais
gritamos a uma janela uníssona.

ser diuturno também nos fere os lábios.
placas de sangue bebem nas tuas pernas

o núcleo fechado
dos equinócios.


a ave noctívaga
do teu peito
deita um grito mais solene sobre a manhã

ainda vemos a forma dos lençóis
contornar-nos
a boca em sede.
escrevo em três passos
o poema justo

calo-me
antes que me afogue
nos teus dedos.

domingo, 22 de junho de 2014

hei-de levar comigo rosas em cabelo
a incerteza de um dia feito do teu cheiro
de abandono. a querela das alvoradas
numa forma tua de ser sempre noite
antes de um abraço antes de um tom
de uma forma de forçar a morte
quando calas a dor de um século
sem som. ficamos sempre na linha
metódica da palavra não dita.

resta-nos a forma dos divãs
enrolada ao corpo. os dias cumpridos
nos passeios de fecho de loja
de feriado municipal nas ruas
de corpo aberto ao sol das dez na varanda.

havemos de ansiar uma sentença
saber o nosso nome por fim quando mortos.
porém hoje só a uma enorme vontade
de não te querer. de ter um dia
de ossos dolorosos entre os lençóis
colados à estranheza
do idioma comum das horas.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

vim porque me esperavam

e vim
às cegas.
a boca a latejar um crime.
nunca sair de casa. ansiar
as praças vazias e o cheiro dos dias quentes
dentro de alguém que passe à pressa.

e vim
porque é tarde.
pode ser que te encontre ainda
passagem última dos autocarros para
os dormitórios em abismo. um suor
já seco em cristal sobre os ombros dos dias
cheios da nossa pele
de véspera.


sábado, 14 de junho de 2014

olá boa noite
estamos à conversa com a mediocridade
cresceu-lhe um espinho na língua
durante os intervalos
esperem
ela vai mostrar-nos o seu estranho espinho
esperem não há língua esperem não há
espinho esperem
ela trouxe isto entre as pernas
isto não sei que é isto
não lhe pego
mas já é meu
por distância
por olho contra olho
sorri sabe o nome
o meu e o dos outros
sorri sabe que vence
a estranha sensação de cair e ser chão
encher tudo alagar tudo
com uma presença.

cheiro nauseabundo na antecâmara
vida privada da rotação dos motores
pulsos latejantes às horas mediúnicas
da chamada teleológica. vem de avião
come o traço do caminho o resto de nós
troncos e membros para lhe ser estrada
para lhe abrir o piso queimado em flores
de passo certo em salto falso. tudo
tem uma forma de nunca acabar entre
as paredes deste quarto em concerto agónico.

simplifiquemos
a palavra fede. sobretudo fede.

o sacrum convivio

deitámos três leitões abaixo
(uma aranha a crescer-nos na boca)
as patas convulsas a sacudirem
para fora para fora
réstia de luz e esperança de tempo
mas deitámos tudo abaixo
e ainda sobrou um fio de navalha
para nos entretermos a esquadrinhar
as veias palpáveis
da deusa em pescoço sobre a mesa.

sábado, 7 de junho de 2014

casta diva

putéfia
sonsa
insonsa
esconsa
manca coxa marreca
gorda e velha
falsa
tez de lustre
mão de cera
um pavão na cona
um relógio enganchado na boca
um supositório alegre
a profanar o canto do ventre.
bellini aos domingos
champanhe na blusa às sextas
a carne estrangulada a carne amarfanhada
revela-te uns dentes mais dentes que os outros.
gira roda tudo
para dentro
mete-o com a mão até ao cotovelo
enche o ar dele todo
debaixo de ti dentro de ti
um ritmo imparável
um batucar de calos e dias inteiros
a rebentar
debaixo dos pés dentro dos pés
calçada de lisboa inteira
acima abaixo
que o país é só isto
que o amor é só isto
que os pêlos no peito são só isto
que o teatro municipal truncado dos teus cabelos
é só isto porra um vento lúgubre
a despontar-te
por debaixo por dentro através
o nojo senhores o nojo
cai e rebola ri chiado abaixo
nem s. carlos nem s. paulo
só a travessa do cotovelo em forma de ti
no sentido da noite
aquele que mais curva e depois nos lambe os pés
como
uma água de prédio em cheia
a sorrir nos espelhos dos armários
o autor vira-se e
já não vê o seu século
as belas e longas pernas varicosas
a fugirem pela corda branca da roupa em estalo
um gorjeio de actriz como em callas
um puta-que-pariu esta febre nestas mãos
como quem queima a folha branca
entre os dentes sobre a testa
os meus lábios só sabem derreter breve a tinta da anunciação
macerada do teu nome
um grito último enquanto a rua ainda abre as pernas
ao incêndio meticuloso da madrugada.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

beau séjour

tudo isto é só uma tentativa
e eu hei-de ficar à porta
a lamentar o café a lembrar
as pernas dos dias que passam
nem vestígio da veia mais densa
dentro dos corpos
apenas o teu copo outra maré
outro riso noutra mesa
outra granada posta nos meus dedos
a esperar a minha manhã de cremação. hei-de
regressar a esse dia
uma tabuleta sobre a alma
dos nados-mortos. teus jardins de carne
ao vento. um sussurro da dormência
que foi. já não vem de novo
o recitativo secco a lembrança
de monsieur de blancrocher
nos meus braços ah miséria humana
entorpecimento de (e voltamos!) lindas e fracas pernas
pelas escadas abaixo falham-me os joelhos
falham-me os teus peitos a minhas mãos
de repente sem osso sem caroço no chão
eu todo chão falho e bom ali sempre
debaixo de nós. só lhe senti o beijo
já a cabeça explodia em flores
ornatos no clavicórdio couperin às sextas
meu divagar clandestino para a província
terra de dentro terra por dentro
que digo sou o parvo inútil
comparo a careca ao armário dos poetas
a gente cá se entende entre apalpões
e a mão de deus há-de ser sempre invisível nesta solidão.
 (...)

sábado, 31 de maio de 2014

o dia tem formas de começar
nos teus cabelos. já não falo
da plenitude de uma hora
nos teus braços talvez só
desse cansaço de te olhar
contra um fundo perdido
uma manhã estiolada em todas
as arestas um sol mais de vidro
mais de medo. acredito-te
na solidão profunda de uma casa
a abrir as goelas dos gatos.
ainda te sinto a fome apertada
como uma faixa inteira de corpo
morto a permitir o início
da estrada. mas não há
caminhar nem tão pouco
céu aberto onde depositar
os meus ossos. só um vidro fosco
atravessado na garganta uma
ginástica lenta em direcção
ao coma. uma esfinge
de pata erguida no lava-loiça
com os olhos da infinita espera
os dias sempre aqui iguais
e verdadeiros. não para mim.
hei-de sair e apanhar o último
autocarro para o país de fora
enquanto na rua só o sorriso
irónico dos melros e as bengalas
insones sussurram o quanto terei
ainda que te esquecer.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

ainda vamos ver
o pulsar leguminoso da vida
crescer em nós o tentáculo aéreo
espécie de flor numa árvore de chacina.
uma membrana de tempo
no lugar da boca
o sorriso de uns cabelos estranhos
levitados augustos etéreos incinerados
numa obliquidade de sol às quatro em ponto.

ainda vamos ver
a exorbitância do que não cresce
o que não dissolve nem promete
mais que um encosto à alma descaroçada.
isso a sermos nós uma vida inteira
de quarentas e muitos

depois ainda teremos isso de volta
mas saberemos encaixar-lhes o corpo
perceber-lhes o eco sentir-lhes o calor
nos dedos. e não reparar nisso.

terça-feira, 27 de maio de 2014

comia
como quem diz
abria
como quem diz
esfolava
como quem diz 
matava
como quem ama sente 
túrgida lágrima na fronte do ventre
ah que bem me sabem os érres na boca
ah que bem que morremos nesta geração
descontinuados
como quem diz
amados
como quem diz
explodidos para dentro
não se manchem as cortinas o divã
a louca paralisia da boca das horas
a oca astúcia de te haver pranto
e agora? amo amo amo
lamechas
amo amo amo
ameixas
pela minha cara boca aberta ao sol genital
só sôfrego de medo sou o puto
o karma inacessível a alma aberta 
arroxeada assada esventrada
nem digo o que sinto
nem olho o que leio
rápido fulge olho dedo no teu tecto
de verbo apalavrado com os antes
a musa com o rendimento de inserção
não fala não é aquilo o não sei quê
social que me permite cuspir na cara 
dos reflexos das árvores dos copos 
do teu almoço de canto sibilino
do vento que passa lá fora é dia
de casamento e lembro-me da minha 
dor de pele de peito fascínio em virilhas
pouco alento vontade de leito ah que recobro 
e só o vinho dá aso à solidez dos corpos
eu tu dói por acaso dói por acaso 
não fascina não equilibra não dá jacto
não me vem o vómito não nem vem
o ócio não vem a peste às três da manhã
acordo! ai chiça que morro 
não não tu ficas
hás-de ser o último cavalo
o último a vir em último 
porque sim a vida também é madrasta 
em quem mama nela não te agoires
passa o ferro o pente pela cara
a carícia pelo tornozelo somos
demasiadas horas juntas
já tivemos demasiados
escaldos de água quente nas costas
vontade de escorregar parir as moscas
ah amor lanço-te o que me resta
torpe fascínio por ti madrugada
a hora mais estiolada entre as costelas
uma raiz de quero-mais-fundo espetada
até aos meus olhos naquelas janelas
de frente de trás ao comprido do bairro inteiro
meu amor assaz hora te prego 
os membros na roda da fortuna escolho o 
puta-que-pariu-a-sorte esse sai 
sempre de mim este líquido insonso
ando roto dizem os vizinhos
ando chocho e nem como assim tão pouco.
sou reles e porquê?
para te abraçar de noite e que não me sintas
ora a afronta a ginecologia em hora de ponta
a babugem minha idiotia de monstro
a descansar nos teus cabelos.
vai-te imundo 
sim que eu sou dos que se esfregam
vai-te e lambe-me
a poiesis
o sentido inabitável do tempo que se assiste
à hora solitária do encontro com o sexo
o mesmo
aquele nosso aquele já esconso 
aquele baloiçante sentido para a existência
permanecer frio irar a reticência.
eu caí e alguém me viu alguém me ajudou?
todos uns velhacos mas respeito
aqui jaz olho vitríolo camões abaixo
onde não vivo onde não sinto nada
nem os dentes no cachaço ah
sobreveio a dor te ver um carro às cegas
fascina-me o mar estar bem longe a acidez das ideias
já escrevi demais
para quem tem a dentição do desespero
a hemorróida do desalento
uma vida inteira a sorver os miradouros
com o inferno no cu. ninguém merece
este desinteresse pela arte. vai de mim queima
treslê tresluz de parte a parte
e eu que me foda. ah acabe esta merda de poema
e o blog que se ponha na chacina
obre-se o medo a conduta malsã o degredo 
da minha parte vou solfejando como quem lê na clave de dó
dói dói aqui fica dói e ninguém sabe o que custa
doer ao estado hoje em dia. adeus
a política ofende e arrota. não queremos disso aqui
entre as pernas.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

essa coisa de ter
o pé torcido
o olho em sangue
um dia avesso de
vez em quando
a unha mal roída no reverso
a telepatia a versar
sobre o terço das horas.
chego quando bem
me apetece. morro
como quem também se esquece
e ainda me sobram
os resquícios da viuvez
a casa de janelas à banda
a falta que fazem as sardinheiras.
a metástase paralela
do meu rosto onde canta aquele
tal jingle semi-erótico
da inocência perdida. um
pré-guerra genital. uma
belle époque mais reles
a dar o laço sofrer o braço
a cuspir o nome em que me desgraço.
pois que me rendo às ladaínhas
de abraçar sonâmbulo a dança
das bainhas das cortinas das histórias.
nenhuma delas a minha.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

só para mim
dizem:
cheiras mal
sinal de pobreza
tosses como os fúteis
queimas os cabelos que te restam
às bocas dos metros feitas sereias serigráficas
cospes no teu prato vazio arrotas assim que te acalmas
expurgas o ateísmo através do pus dos dedos ensebados
cara imunda gato possuído pelas febres ritual assassino de uma
noite de discoteca que dá sempre para o torto cabeça em passos
de paralelos ah a formidável aspereza do poema interminável a vida
não é literatura. já o sabíamos mesmo antes de vermos a cara prostituída
dos fins dos nossos meses baterem à porta sem motivo. sempre a tivemos
escancarada para a possibilidade dos mendigos. digo nós. digo antes que eles
digam nós que somos um nós dentro da negação da mão contrangida apertada
junto à víscera perfeita. entre-meio de nádegas de entre-tudo em futuro póstumo
às arribas das tuas pernas a começarem em mim a acabarem no bem depressa que isto
foi. não há solução para a sorte. caiu-nos a falta de verbo em cima. palavras escassas para
aquela sim aquela pressão junto à língua mas que vem antes sobe em formigueiro força a água
das veias expele os pulmões para dentro da cova dos braços que não temos a puxar como quem
fere aos arrancos o últimos dos nossos cordões. o tal que nos liga à terra e tritura o pescoço a sobejar de vontade. aquela de ter mais espaço para acabar esta letra. o poema que se foda. tenho sede. falta ainda dizer tudo. afinal não. só falta nada.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

hei-de dizer toda a mentira
vender atrás de uma esquina
atrás de um ventre esmigalhado aquilo
que não sinto. coser ensanguentada
língua bífida a um sol certo.
marejar de lêndeas o nevrálgico trema
sur la tête. por onde vão em desgraça
os hinos em filamentos. casta entediada
do sacro verme. o assunto:
a verdade
só conseguida em nacos e aos arrancos.
palmadas no focinho.
caritativas ansiedades pelos rodapés
à paneleiragem de um sufixo.
bisogna de significação. a gente
cá se entende. não falta assim tanto
para subvertermos a penugem seca
das palavras. cuspir-lhes um hálito
decente daqueles de dar emprego.
pôr-lhes o risco ao lado
com pente de ódio determinista.

de mim só sei
que ainda ontem comi arroz estragado
pois ainda cá está ainda cá canta.





terça-feira, 20 de maio de 2014

devíamos todos viver em lisboa, ter carro e fins-de-semana e trazer ao pescoço a mecha bafienta dos cabelos da nossa morte

pego no café não o bebo
(abocanha-me o ventre)
sei que dali virá não bom tempo
uma madrugada ferida pela missão dos campanários
um comboio de frente para os estrangeiros
um idioma uma face estranha neutra
corre a apanhar aos soluços o jornal espalhado sobre
a ronha dos que partem. vem em paragonas
que abriste a janela para ver o traço físico dos homens
as suas mãos cabeludas e desordenadas
aos arranques pela santa estação fora.
hei-de sempre voltar aqui
pagar uma conversa. desprezar o café.
fingir que não fumega. que já chove. ou ainda
que o azul é só meu. da auspiciosa cor que se esfrega nos bebés.
o talco de morte que te desenha os contornos da tosse.
a fatalidade da luz enviesada. o decalque sobre o vidro
dos teus ossos de espera. mala aviada. cigarro desfeito.
uma fome de manhã. sempre eterna manhã antes das partidas.
jejuamos que é como quem diz
apertamos as mãos e sofremos
para alguém que resta além de nós. o inevitável
cego ou uma cautela irreconhecível
colada ao meu sapato molhada e terna
a vacuidade da despedida.
venho aqui apenas para te ver na pele de quem parte
que sei que não vai longe. o mundo já não é só
paris e planície. lisboa às sextas. trovoada sobre o monsanto.
estes adormecem no resíduo. ainda o cheiro. vão a braçadas de cinzeiro
ter com o destino
e tu com eles hás-de chegar uma manhã
aceitar o café morno cruzar a perna e achá-la fria
a minha mão. não te enganes tudo é esforço.
aprendi com os teus olhos
a ter medo dos dedos. a cortar cedo a peste dos membros
a definhar com os pombos a melhor idade para escrever.
hei-de ter trinta e estar para além do velho
sentado no banco que ainda pressinto meu por defeito.

esqueci-me de fazer evocação às flores neste poema
e à música. faço-o num post scriptum ou
no teu seio. não importa. ainda hão-de haver
manhãs como esta
iguais às que nunca vivi enquanto estive por casa
e tu vieste no das sete e meia segundo creio.
viu-te o taxista e uma língua de sol sobre o tejo
e termino aqui. só digo que
a poesia nunca nos há-de dar filhos
daqueles sãos e verdadeiros
daqueles que interessam.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

quem conta um coto

o que pode queimar
a mão aberta
rasgada já até sem dedos
acéfalos membros
quietas tiras de carne mínima
acariciando a testa dos gatos
passeando na boca de um
recusando a astúcia de outro
pela quietude
já nada queima a palma ossuda
transparente já até sem caligrafia
bafeja um ódio pelas coisas
límpidas à luz pálida
da manhã solene calada.
o que pode queimar
uma fé amputada

aqui esperemos
um passeio à igreja
marca a meia hora uma só badalada
e treme o pedacinho de pele que ainda nos pende
não só do meio do ventre mas também
do meio da ...

aqui declaremos
o mundo é bem o sabemos
todos-o-sabemos
um belíssima merda e nada se salva Girolamo
ao fogo ao fogo
nem a chuva te esmaga o crânio
nem a putice pegada
hipócrita pulha falta-de-bom-gosto hálito-de-carpideira sabão-sujo-de-pintelheira
nem aguarrás bem engolida
de calcanhares encolhidos joelhos de boca lânguida cegueira na voz desnuda carne
aberta aberta
nada nos salvará da poça semi-sangue cuspida à pressa.

aqui morreremos
já lhe vemos meia face na barriga aberta
um narizinho de gangrena diz que sai à mãe.
sai sempre tudo de si
desprendem-se os fios que nos seguram
a destreza de nos amarmos
um corpo rebola em pedaços ladeira abaixo
diz
segura filho
um joelho esfolado bebido a lágrimas e ranho salgado
foi o nosso natal insonso sempre
a insónia dos amores e resmunguice dos amigos
as bocas podres podres podres
sentadas nos passeios
paralelismo na desilusão nos dentes
crescemos faz hoje uma parga de anos
e sujamos a camada vísivel da alma
nas calças da porcaria canina e urbana.

dá-me a mão e eu desfaço-a
faço-te a vontade
amordaço-a se for preciso também
e rompo-te os lábios
é só pedires é só pedires
e sou todo teu
pedaço de bar canto nunca varrido encostado
à cadeira mais distante
que só te oiça o crepitar áureo
de um arroto satisfeito.

belos dias excedentários para a poesia.
mente-se como a carne ferve.


sábado, 17 de maio de 2014

joão vicente - sim o próprio - não concretiza.
é enquanto ouve o magnum misterium de lauridsen
que percebe que não concretiza. um homónimo
confundido às bilheteiras dos teatros
- e isto não é
pouco senhores - falso
até no verbo que dormita
inconsciente num fio de saliva seu só.
as palavras aguardam mas joão vicente olha
para outras bocas. de onde migrarão os medos
de onde escorrerá - teima ele em crer -
parto apenas de placentas:
a nuvem vocálica dos versos.

[cheira-lhe ao inefável pela manhã
mistura de pão morno e lixo prenhe de calor.
um sol já lento fere-lhe um pensamento
- teima ele em crer - goethe é o derradeiro auctor
deu-nos a sua última sonata para flauta e cravo.]

cobarde ajeita a posição das pernas mas é o ventre
que custa. suportar o peso desconjuntado do corpo
em viagens eternas para a terra que lhe sabe o nome.
ele dela nunca o soube. o verdadeiro. porventura terá
um mar nos olhos. arde nesse esfreganço salgado
a idiotia. chega um tempo em que somos
verdadeiramente medíocres. ainda bem.

talvez um dia
assuma a mendicidade íntima das coisas.
talvez aprenda a decalcar
através do vidro
a forma última do silêncio.


sexta-feira, 16 de maio de 2014

há aqui qualquer coisa que mente.

(isto ainda há-de dar verso)
eritreu deslocado
raça do miúdo
sempre perna à banda nos
queixos dos aviões
rasam a calva das
cuecas quando roçam pelas bicicletas
idiota! tu que ruges
perfumes diante dos vestidos
senhora a cara face à vela
límpida vejo-lhe já arfar o seio
queima queima ai não! a mão
raios te partam
ganiste um potro
truncaste a mulher
violaste a árvore com um grito
golo! que se foda
já era tempo nunca mais ai! não nunca
que dizes que escreves
só passado amor
tudo muge tudo tuge
pega-lhe no membro e ri
está murcho hahaha hihihi
não
a tua alma é que se finou ao toque certo
arrefinfa nos urinóis
dá-lhe de gatas e aos três
upa lá pra cima lá pra dentro
não porra aí não
ó que se lixe
também me benzi de creolina diz que não
dá mais sangue à guelra
ah se tu visses o que eu vi
um beijo numa pedra
puta! puta! três vezes puta!
tudo o que mexe sabe-te a pouco
entre as varizes. não com sal não
já tenho dilemas que me bastem
e dentro de pouco tempo hei-de me vir
abre a cara abre a cara
algum coração dentro? alô?
preciso de mais vinho. mas este mês não deixa
ainda vai a meio carril até aqui só
uma gotícula de desespero todas as manhãs
acordo de boca fendida
um grito nos joelhos queima
onde ninguém oiça aqui não aqui não
tenho vergonha tenho
aquele acrescento do homem moderno término de casta
um sítio agreste de flor inabitada
onde devia morar
o fim das nossas mãos.
sicut erat in principio nunc et semper
porra queime-se o poema
dobrado bem espetado
na boca de um filho.
anda cá rapaz
cuspo-te nas mãos
ora toma a prece. vá fina-te.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

tens um blog rapaz
a vida feita
uma mão nas costas
palpitações generosas no peito
uma palavra sempre ansiosa
a arredondar a ponta da língua
lágrimas mais sujas (já cresceram tanto)
um gosto musical selecto
predilecção pelo rancor dos automóveis
e uma afinação característica na voz interior
a de poeta domingueiro madrugador afoito
dos que não têm medo de ter só medo
às aranhas pelas casas meio nus depois
do eterno banho
lodo lodo ante lodo
rapaz tu branquinho saído do mobiliário cavalheiresco de wc
olha chegámos tarde de mais ao casamento
já devia ser meia-noite se tanto copo de água e embriaguez
e matamos demasiado cedo talvez se bem me lembro
o sorriso afectado de uma insónia canina.
diante dos hialinos caros verbos às montras
tamborilam outros dedos estranhos
uma boca fechada imita uma sonata de schubert
muito mal amanhada muito mal amanhada
a afinação destes dias sempre muito acima
a ranger os olhos a rasgar os cantos das bocas
fico-me. boquiaberto. não sei quem canta
ninguém nunca canta rua abaixo só
debaixo da capa de pele aberta
uma chuva intensa de som rasteiro. fico-me
blog à banda adeus ao regional para tomar
e em diante somos por fim alguém.
já custa. é um tempo
com outro espírito dentro.
já basta.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

pois sim:
de quanto precisas para
inaugurares a rua
ignorares a dieta
pores-te assim nua
cuspires na sarjeta
da filarmónica da bandinha da sinfonietta
do diabo a rês a quatro
de quatro antes que te ponha os pés
no destino amor no destino
mas dize-me serpente
de quanto precisas para
bater na retirada
ir ao fotógrafo em cabelos
tirar os ratos dos cotovelos
giolhos princesa nem sempre são só joelhos
e a alma também quer fé
café? à entrada recolhida o assombro
porra língua queimada. nem penses
nem lhe toques nem lhe sofras nem lhe
mas que porra de vez que juro que
nunca mais nunca prometo que mais
assim como tal deixo de ser a tua
garganta em gaguez carburada pelas tardes fora
solavancos como beijos razão toda nula
a tarde palpita no espaço quebrado dos teus olhos
já te disse a harmonia dos joelhos
mas crês que não nem sempre são só
lágrimas. pernas. coxeio de loucos.
sinto que me perco. do outro lado baço só
o teu pescoço. que é que eu perdi?
deixado inútil sem berço na travessa dos penedos
eles eu sós contra os ventos rua abaixo rua
acima. sinto que me perco. já me perdi
acima do mar onde respira a noite mais nítida
deixei os meus dentes. perdoa-me se cuspo.
só quero a paz universal entre os agrafos
estender-me na beleza dos semáforos
corroer-me com a sinfonia do comboio suburbano
entupido de cinco e meia. tantos que eu passei
testa com testa a ouvir contar os rastos
dos chapéus cheios de chuva escriturária.
sinto que me perco e o discurso é gigante.
ante ele eu na miríade de dedos na cara trémulos
e sem qualquer droga ou laxante te digo
esta língua nem ferve. o abdómen sim doutor
a língua nunca nunca ingiro de tudo mas nunca
e se me queixo é só pelo zunido nos ouvidos
santo zunido que me acorda e me faz escrever enormidades
nomes devassos às santinhas apontamentos para jogar
à bola com a baliza dos nichos e eu nem sou disso
sou mais de sábados tristes e zangados comichão na cara
e uma vontade louca de morrer ou sair. melhor morrer e sair
ao mesmo tempo. talvez isso sim cure esta apneia.
sinto que me perco onde ia ah
um futuro ejaculado à pressa
já nada se faz devagar e solto. o meu tempo também não
aprecia solenidades irmãos beijinhos abraços saudades
é tudo por tudo. um nota crente de contrabaixo e basta
tenho pão para três
mais dias que se sigam
ao longe. ele vem bem perto
que se há-de fazer? temo não acabar
as voltas que ainda hei-de dar pela cidade. estou
ausente não esta boca já falou antes
e
creiamos na ressurreição das palavras.
e que no fundo não há devir
amén.

sábado, 10 de maio de 2014

pronto rasguei-te um poema
a cara em três golpes de solidão e desgosto

que seríamos nós sem as sextas bem medidas
a fala abrupta suja cuspida rançosa

um aperto a eclodir o nome sempre murmurado
por detrás das cortinas por detrás das fronteiras

toma os meus olhos ouvidos boca
o embrulho não custou nada

só me custa olhar-te por detrás
dos olhos dos outros

ser-te lá o rosto e a hora
a loucura

onde a mão ponta minguada de língua
não chega.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

dixitque auctor: merda para os títulos

a embriaguez da propulsão do verbo
vai

é a língua como êmbolo
na parede asfixiada

pressionada como a corda
se retesa na lúbrica

incorrecção do emparedado
a tua alma sangue saliva de calças

descidas pelos joelhos na irmandade atroz
nua da escolha. juras um

parto sublime lúcido aéreo
às gramáticas invioladas

mas só o corte nos teus olhos
de viés raios que tu na obliquidade sempre

te mentes revela carne por dentro
do prometido pachorrento néctar

do silêncio. ó puta parideira de som e ideias
vaga salgada a encher-me a boca da espuma inicial

que te morras que te ofendas que te
porras agarro-me ao pescoço todo vosso nosso

a ver se isto entope de vez. falemos das paisagens
e elas talvez se calem e elas talvez se falem

entre elas não entre nós não
[dor de cabeça forte-brufen-repetição].

a memória de um lapso
apaga o teu véu. bendita

speciosa mater et pulchra
rebentaste para nos dar o pranto

toda nem-só-pontos nem sóagulhas
a perna na direcção astrológica de um orgasmo

porque sim porque sim porque sim
quem grita é o caranaval lá fora

lá nos nossos ouvidos de fora. apre
respirar cansa custa a dança ai a bela e doce

ejaculada lágrima da loucura. tanto nos custou
talvez uma civilização inteira para tudo isto agora degenerar

sim sim sim
degenere e que se cace a pulhice

não somos nós fé para ninguém.
ai que sucinto e escorreito

verso chega mais tarde que os outros.
morro atrás de um aneurisma. essa metáfora perfeita.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

poesis para cães

diz a mão trémula
já escrevi

é como tu
acordada algures
num filme remoto às esquinas
a fixar a água turva
opaca tez do teu véu
de boca mordida pelas
evasivas enunciações do amor.
dizes tu
o romance é a cona da terra
não se há-de achar nunca
esse aroma
o furor final sito
da ausência.

a verticalidade de um enfisema pulmonar
que me prometeste
estática de olhos
vazios a pé de madrugada
beijando a ombreira da porta
sussurrando as minhas cem mil mortes
antes que eu acorde.
vestes o corpo de um avesso qualquer
sais puta apetrechada toda um ponto fixo
ao ar fresco das cinco e meia
a sangrar
o queixume redondo da estrofe.

queimei-te o rosto
a linha do queixo aos poucos
só a minha mão dentro da tua boca.
parece demasiado fácil
fingir que se ama
a folha branca em carne viva
aresta genital
crescida em torno esfinge.

mas
é um ódio
só um. a tua presença.
olhos postos na nuca de um sonho.
cresces à noite o silêncio entre os joelhos
a tua pele metida nele
e isso basta para me abrir os olhos
não voltar a adormecer
crer na cama nua apenas
o peso de uma palavra
de que não me recordo.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

aos dias que sofrem do reflexo tardio das árvores de fruto dos logradouros

a tarde estática ajuda-te a crer
a sinfonia dos limoeiros
- e isto soa bem digam o que disserem -
e acredito que morro eternamente
a morte de todos os dias
a mais sã e mais pura
- mas que digo minto cuspo sujo esfrego amo -
o corpo é o teu linho meu linho nosso linho
azul no reflexo da uva molestada
- canta nos meus lábios a profusão negra da aurora -
um êxtase não ejaculado
foi essa a minha espera ante a flor incendiada
- que beijos que beijos o sol diuturno mas hoje só hoje que beijos -
de uma rajada escrevo a mentira
a irmandade dos corpos unidos na sua junção mais concêntrica
ah fluído do limoeiro
agora o aroma doce abre gretas nos lábios
a delícia das lâminas abre espaços a lágrimas frouxas
- sou tão de medo tão de medo tão de medo -
se choro é porque te amo sob a luz de uma sexta-feira
e amo a letra prensada no teu rosto
e amo a carne branca da tua saliva
a tua voz crente dos hemisférios
das faces negras das luas da saliência dos corpos apertados contra
a linha do meu

do meu

do meu
tão antigo pudor de palavras anseio de bocas jorrar silente na noite na semântica de
um verso.

não hei-de parir nunca a tua
autêntica face pristina na madrugada contra os lençóis submersos

e ainda bem.
que a flor desabroche a concavidade abismal do teu peito
e eu já esteja sorvendo a terra que te alimenta
o odor rarefeito.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Laocoonte

retesa a saliva
ajusta a corda contra a língua
abraça as veias
comprime o fluído quente do ventre
entrega a voz
sufoca o olho voraz
segrega a paixão
fende o molusco da carne
crava os dentes na respiração.

como quem sofresse
viperino contacto cálido
das correntes

apenas o que bebe da própria peste
sabe emanar sibilino o odor
suado de um não.

sábado, 19 de abril de 2014

musica ficta

a pluma espécie plena de espuma
dá música suficiente para três.
antigamente era assim que alimentávamos
famílias inteiras descalças dos pés à cabeça
nem vestígio de piolheira
apenas música santa sacra música
podia ser
a fagulha que acende nos teus olhos a mais falha agulha
onda de medo onde o céu expande o seu manto
e tínhamos a boca vazia o estômago mais confortado
as mãos cicatrizadas um brilho saciado nos olhos
dos avós os netinhos de cabeça no colo das bonecas
catando uma vida já cheia do grosso sebo
da memória escorregadia. ah que belos
azeites brilhavam no escuro acendendo nesses tempos
mais claramente a noite que pairava dentro
augusto plúmbeo uterino refúgio
tão bem nos sabiam as espinhas das letras
a garganta rasgada à velocidade dos estalidos da língua.
depois veio uma grossa veia
rebentar dentro da cabeça do pai
a mãe chorou e fugiu
para dentro de uma mudez de fogão apagado
comida fria e ranho absorto na face do pequeno.
era tudo tão cedo ainda. a mais velha juntava as letras
queimava tudo na grossura dos caracóis engolia as lágrimas
não lhe saía o destino na rifa apenas o verão
a imensidão da fazenda bruxuleante
a queimar lenta um responsório de Victoria.

(musica ficta)


pequenas mortes seguidas de ressurreição ad tertiam die

e tudo isto me fascinou:
a semelhança imaculada dos dedos
a tez pálida da sucção
o cálice hediondo servido
ao centro rubro do medo.
regresso à terra no último momento
e em lugar de cotos
os pés já só carícia suprema
sobre o tapete do levante. foi aéreo o poema
do êxtase. na mão o pedaço de cara
que me resta. boca aberta como quem diz:
morreste.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

evasão fiscal

foi durante
o meu último retiro em Avestruz-a-lém
que mirei Gioconda
inocência das inocências
pietá debruada a rosas
carmim sobre os laranjais em flor
doce e porca
desnuda
ainda mal parida do seu último aborto
um tumor
tudo begnigno tudo begnino
a quem apelidou de inácio
como o santo
que a tirou da sarjeta
a carícias de bisturi e malvasia.
um lanche com ela
no recinto fechado do nosso cós
e foi suficiente para lhe explicar
que amena cavaqueira significa
bom tempo se não chover e parlapié de ervas daninhas
ela riu e disse ainda redonda tão já só rotunda
ai que você até tem graça.
(entre os dentes entre as pernas
um pedacinho verde que a natureza instiga
uma lisonja de espinafre mal deglutido
uma mãozinha suada e inábil
a palitar as miudezas.)
obturei-lhe um venha comigo
mas perdi o rolo
porém passado todo este tempo venal
da reencarnação espasmódica dos incensos em Avestruz-a-lém
que é quando morre o senhor
morte santa dizem eu digo é outro rissol e a conta se faz favor
num arroto encantado (afinal era de camarão e eu estava certo)
lembro que Gioconda só tinha de interessante uma marreca
escondida entre as duas mãos
daí sorrir sempre com ar de quem guarda o segredo dos sangues dos arrozes de cabidela.
sempre soube mais de mim do que eu dela
e isso fascinava-me mas cortava-me a tesão.

ele que diz:
canto a perseguição dos faróis
a tinha inflamada a principiar a carne aberta
o acerto de contas com a penugem evanescente
da morte ridícula abraçada ao estratosférico
amor barroco das violações amedrontadas

uma mão na boca
remete para um som novo
mudaram-lhe as cordas
o sangue também algo dentro
efervesce. não me fodam
é ampla misericódia clamada
aos altares aéreos dos etanóis
sei bem que sim
que também seremos rostos do mármore
revolvido das raízes e enquanto isso
cá bem dentro
a loura dissolução submissa
ataca-nos o corte cego ataviado
a voluta negra do teu pulmão saliente
palpitante sob o sufoco da talha dourada
fende perto bem perto
mas que queres que eu faça
também me custa cuspir-te no olho
furar-te os sorrisos de viés
ornar-te a regra majestática do vício
com o bordão insistente dos meus pés.

ele que canta:
vamos pôr-nos todos numa espécie de
caralho mais velho.
ai que bem cedo o disse e assim se foi
voz de ventania de domingo.
não mais cá chora a humidade rançosa das lamúrias.
de barriga cheia
verso iníquo para dizer o que ao vulgo lato obriga
de papo para o ar
corramos a cortina de nuvens
agora de fora o cinto a cintura a carne o estômago o almoço
desembainhemos ao longo dos divãs
a matéria originária da nossa submersão.

o descanso
que paz meu deus que paz
traz-me outras lágrimas estas não me servem
talvez também o jornal e um outro dia
este cheira-me que me vai dar diarreia.

terça-feira, 1 de abril de 2014

caíram-me os olhos ao loreto

a mão
deixada abandonada numa vitrina
de alfarrábio com ódio

os lábios
incinerados na aspersão dionísica do cafés

mas foi o que deus quis
e dou-me por mim já
sem rosto
às voltas como quem
traz a custo o susto
do calhariz

e alguém repete
guarda o mosto
num entre-dentes
a parede sussurra o côncavo
crasso minério

mas cruzo-me com o cão de cabeceira
palmilhando a calçada inteira
de um teu não
me querer de sexta-feira

pobre vil bêbedo abandonado às vésperas
de um dia gigante e
ainda tão longe da sé
só se ouve o grito agudo da ribeira

chama-te um corno
a crescer nas marés. sente-lo
morno entre as pernas. o quê
a fricção de uns teus pés

mas juizinho na precocidade
a vida vem sempre antes de nós
quando dás por ti
olhe ainda agora passou um 28 para cima
e só lhe sentes o febril flamejar na perna do carril

a sereia metálica virando a esquina
dando o cu aos medos
oh rapaz o ócio vira mães pais avós penedos
distantes rochas sobrenaturais
rompendo a carne dos fumos
cumprimentando os sóis muitos ainda por vir
os só já passados. o teu rosto
maquinal

a exprimir negligente
o amargo dente criminoso
sibilante ordinário bem-me-quer lastimoso
crente extraordinário da receita irrepetível
do aroma do trema.

sai a mão da montra
debaixo de um manto de pés enjaneirados
vem estender-se ao filho que lhe dê
nos anéis o labiozito inocente rechonchudo
endinheirado um beijo triste e doente
que o patriarca abençoa com o hissopo
outra forma seja essa de se dizer do cuspo
a chama poética que brota do gargalo do mundo
engasga-nos as manhãs em arranques de traqueia
vem servir a carne jovem
na dissolução de uma diarreia
e nós à beira dos caminhos
com um pé na cama ainda a contemplar
o segredo dos vincos todos até os mais imersos
calamos uma doidice de domingo
uma ponte sobre um jardim de cardos
uma janela fracturada a lírios
uma pistola furando a tripa da lira
uma boca calada na sofreguidão transbordante do rio.



sarabande

assim mesmo se abrem
os inversos decalques
da tua só ínfima
substância.

sobre um sal de línguas abertas
raia um sol invertebrado
de nós. a morte pode
esperar na ombreira

até que um sussurro sufoque
os intervalos que nos perseguem.
a distância entre duas mãos
crime linfático das auréolas

descobre-nos a ferida rigorosa
incisão perfeita dos teus dentes
contra a candura dos linhos da primavera.
semelhante ócio não mataria mais

que o revérbero fendente
deste beijo.

segunda-feira, 24 de março de 2014

jeanne hébuterne é um nome lindo

morro
parto à primeira pedra
cuspida da janela de um táxi
que ronde entrecampos
no ziguezague furioso das antenas
a curva a máquina mesquinha explode em penas
o retiro insuflado do velho embriagado
entre os girassóis sob o fumo
plácido anímico dos urinóis
e por detrás dos óculos de sol
encavalitados na espera
morro
velho de babugens tão pouco selectas
a barba rala branca ruga rega a escala
do infinito horizonte dos teus escapes
sobe a falésia das ruas até ao sol
que nos remate mas
se morro
se venho beber a modorra do café às horas certas
porque não vêm também com as aldrabas
as correntes as perseguições as metamorfoses
as agulhas empoleiradas no teu acetinado crer de
fim-de-semana passado. um passeio um gelado
uma rotação ao fim da tarde
a rotunda vazia cospe as setas
meu amor olha a virilha o vinco das calças em tremor
a apoteose da carburação periclitante
trepida por mim acima vai
monstro sentado no banco só ao centro
um corpo sem copo morto abandonado
morno como o dia foi rápido
e agora sento-me à jangada tua
espera de veleiros tem já
consumada uma hora no tecto astral das nucas
e abraço a saliva dos sapatos que te embainharam
a tez. morro. pedaço de pele rejeitado.
mas sem tretas poéticas
de mais tempo que foge do que o que eu escarro
que isso
é só mais chuva sobre o molhado
sou só eu como quem esfrega da alma um eterno sarro.

sábado, 22 de março de 2014

segue a mensagem selada

crescendo nas mãos
uma voz incendiada
mais vil que a pluma
cospe a cruz das sentenças
adorna a orla dos caminhos
com a metástase florida
dos caules de lepra.
uma idade humedecida
a filtros repisados sob o teu
nome. a fresta crestante
dos teus cabelos
saliente na dobra da crença .

agudo trai o que escuro sente
cisma no canto obsediado
da animalidade jacente
onde já tudo fende onde
já a lâmina ao fundo da mala
lambe a lânguida vastidão
da crina amarelada da alma.
relâmpago não molestado
p'la ironia da letra rutilante
faz o gesto suja a brandura do lábio
até que a língua estale o seu arremesso
derradeiro a morte na latada suja
despeja a salmodia dos rechaçados.

a palavra ondeia
gritante
sob a retalhada telepatia
dos telhados.

domingo, 9 de março de 2014

domingo de pijama

emudecida casa
arejada nas pontas dos cabelos
pelos retratos de uma neblina
pretérita sempre entre os
lábios o fungo iridiscente
cria a seiva dos novelos.

bebe das horas
a luz mais escassa
e contempla a fachada
das avenidas inundadas
até ao cotovelos. imagina
um rio só feito de crepúsculos
ardente à hora certa
de um adeus.

eternizou-se
num sábado tardio talvez
domingo espectral
onde o cinzento petrifica
a sílaba farta. o chá arrefece
abraçado às unhas da espera
e um cheiro senil inflama
a camada gorda de luto
na vidraça.

sábado, 8 de março de 2014

[os meses acenam-te sorridentes
entre a flutuação nauseada dos ferryboats]

e dizes
tem dias
que desabam violentos
numa enxurrada
de manhãs graníticas.
a aspereza imaculada
dos linhos silvando à luz morna
do teu nome.

e dizes
nunca há nada
(só temos mesmo os dentes
para engolir.) mas
a tepidez dos gerânios já brota
num murmúrio de vizinhas solitárias.
e a roupa já seca
entre os dois dedos amputados
à conversa.
a trepidação dos eléctricos-fantasma
à cunha no ângulo mais morto desta rua é um
fonema
a rasgar o carril da língua.

e dizes
porém
as costas calam o abraço
de um frio mais perene.
e não acharemos tão cedo
- só queira sempre deus nunca -
o sentido da propulsão das veias.

sexta-feira, 7 de março de 2014

a luz escoa-se
pelo ralo mais sujo da sonolência.
vai-se um rio vão-se
as casas nele e a memória sorridente
acenando em fotografias
unicamente
póstumas. um bracinho
alvo descobre-se por entre
um céu de lodo.
cumprimenta diz o seu adeus
acostumado chama aos pardais
os nomes que lhes roubaram
e por fim desaba nas gangrenas mais
finas mais lúcidas mais
horizontais.
alguém lhe contempla o ajuste de contas
com o destino. vêem-se larvares
louvores à criança
desmanchada.
só entulho nas línguas de quem espera.
só uma pedra abocanhada inteira
na candura dos exegetas.
um verso desflora em corrimento solto
de manhãs supuradas
e sabemos
aqui só uma mão que rasgue a face das estrelas.



sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

chiaro-scuro a tua mãe!

e depois da tempestade
venha o encanto dos melismas
à meia luz das arcadas
estende-se o reflexo de um lençol
sonoro sob as pálpebras
de um fauno.

a foice corta os dias
neste contraste de chama acesa.
através do olho quase negro
rasga-se uma brusquidão de poço sagrado.
jacente sob os folhos da indolência
contempla-nos o chão rutilante dos oceanos.

a metade vazia
do teu peito chegado aos
sobre-humanos aromas da tinta apodrecida
tão fresca no martírio dos poetas
aflora a queda. dá-lhe um sentido
mais perene

até que findam as estações
e a humidade dos nossos corpos
sangra um novo silêncio.
suspende-se o grito das rosas
(a boca atulhada de pétalas e fonemas)
para sobrar apenas
num qualquer canto agoniado
a convulsão regurgitando
sumo espesso e estranho de outros olhos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

são genet

1.
vamos ao encontro dos mártires
prender-lhes as mãos os cabelos
a pele rasgá-la com um beijo
partir-lhes os pés os tornozelos

debruar-lhes as bocas
da prata corroída do vício
abraçar-lhes no reverso do vértice
a doçura enegrecida do silício.

//

2.
um entretanto
distância apenas lúbrica dos nossos
intervalos desfeitos

agarra a chama
morde-a até ao sangue
até onde o lábio verta

mais negro mais
incompleto o fundo do silêncio
o estalar comprido

do eterno penetrar do espelho.

//

3.
regressamos à noite
ao amor estéril dos gumes insaciados
ao odor das fricções dos anjos
à súmula da carne das estrelas
gemendo um brilho sujo e violento

que nos vaze os dois olhos
o grito fascinante do arame revigorado
silvando na noite a animalidade pestífera
do arquejo.




sábado, 22 de fevereiro de 2014

um limoeiro em prece.
de que nos vale esse sol entre
o véu dos aromas?
e as manhãs simétricas silenciosas
apenas novo eflúvio das nossas misérias.

bailam num compasso antigo
a cartilagem das folhas do meu credo
e só o vento mais sereno se contagia
da posse mercurial do verbo.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

aperta-se um ombro contra um ombro
uma sombra mais densa incendeia-lhes os sulcos
e circula entre o hálito côncavo a mesma
eterna solidão.

faz-se uma madrugada da sujidade dos passeios
da negligência dos mortos às esquinas.
a nossa única verdadeira mão corroída ao ar frio
de um deserto de avenidas

inunda-se de campos de lírios
à passagem da lágrima mais retraída
o fervor do sangue oratório
palpitante sobre a benção dos cortes

que o meu olho estala
sobre os lábios só
um diluído desejo deles
através do véu nítido das arcadas

vultos que me contornem os dedos
calados na demasia de uma hora negra
bebida com o parto do verbo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

o travo de uma sombra imensa
descente pelo rasto dos cabelos
do último mês do último estio
da língua defunta onde brota a flor
na ânsia da razia
de um golpe de asa
mais longe mais frio
o que nos esqueça o baque da voz amena.

tão só sentimos a carne aquosa
do nosso querer tanto
dos demónios soltos em diálogos
de rua deserta.

onde eram capilares veias crepitantes da matéria
densa do nosso ofício expectante
hoje o néctar vitríolo das arestas.
só a sede nos esgota
a
livre putrefacção de que bebe este rio.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

crescem-me as mãos no sentido
vocal das musas da terra
apodrecida.

fala-se demasiado das desilusões de um parto.
tudo a ter o seu término antes do previsto
as esperanças a morrerem todas num só
túnel aberto à discórdia do lado
mais negro do disco
uma cascata perene parece iniciar
um vómito longínquo. o mais puro
sublime gesto de um adeus é quando
desponta de entre a terra humedecida
a língua pronta e aberta do êxtase das estações.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

litanias de domingo.
a margem espelhada do adeus
às terras submersas entre os joelhos
da fuga pátria.

coros ascendentes esvoaçando a mortalha
sobre o sol definitivo do
nosso deletério deambular entre
a esquelética dos junquilhos.

(um olho enterrado no profundo das silvas
aurora de um outono latente
crescerá na peçonha viperina das amoras.)
freme sob os corpos inertes

o contacto de um oco por si próprio.
a corrente dos dias preenchida apenas
pelo lugar dos mortos tragados
na hídrica carestia estática

da têmpora subterrânea.