quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Tarde de sol


Tarde de sol
e a vizinha à janela.
Nesse reflexo de um reflexo
houveram rugas de outras rugas,
talvez o império adiado
dos dias. Sem sol,
outros tantos, mas não este.

É no novelo de tardes sucumbidas
que vou deixando aos poucos
escritos românticos e nefastos
ou desilusões comuns e niilistas,
sem saber de mim ou da vizinha da outra janela
que me conhece só pelo olhar
meio desconfiado, meio curioso
meio sussurrado, quase uma boa tarde
com voz rouca e constipada,
com tosse e com repreensão
por não conhecer do seu mundo
todo e qualquer ser.
Não lhe saber o nome, a vida,
ou a falta desse nome e dessa vida.

E porém sinto fascínios ocos
por contemplar quem contempla.
Sem modéstia, encaro-me abismo
a profanar os olhos do observador
de buracos existenciais.
A entrar devagar mas inegavelmente
em âmagos recônditos, paraísos perdidos,
dogmas e tabus, revelações exóticas
que sem querer fossilizamos nos cantos da boca,
nos jeitos dos olhos, na frieza das mãos
ou no respirar contrafeito,
mesmo depois de os esquecermos
ou de nos esquecermos.

Sempre que histórias houveram
e vidas nessas histórias,
houve um aquém de além,
uma esperança de augúrios e feitos
desiludida pela margem cinzenta
da realidade. E agora
vejo a cara velha emoldurada num lenço,
o robe coçado, a mão torta descaída
sobre a roupa branca que seca, incolor
sem murmúrios que lhe descubram almas
imprevisíveis, ou sonhos desfeitos.
Vejo um quadro meio triste
como se o meio desculpasse o tédio brutal
do ócio dos dias, do tardar das mortes,
da contagem decrescente para a frente
rumo à toca do coelho que foge,
sem deuses nessa toca que nos orientem
que nos chamem com a voz de Eurídice,
que nos façam andar para trás
e comungar da sorte de sermos eternos.

Podia bem ser túmulo
esta varanda.
Podia bem ser casa já demolida
com ossos dentro dessa casa,
ossos mudos em escombros luminosos
raiados do estirar ocioso da tarde.
Mais do que isso, isto
e ali como aqui
uma ausência.
Não sei como dizer adeus ao vento,
se lhe devo segredar sem querer
as linhas da minha despedida,
a ironia de um lamento que se quer publicado,
uma morte que se quer anunciada e eternizada.
Não. A vizinha olha-me, sem vento
na face que lhe leve as palavras
e ouço-a.
Boa tarde, respondo eu também,
devemos ser assim, dar na mesma medida
a sorte que nos calha.

E pareceu-me ser mais tarde do que julgara.
O sol morno tingia-nos de algo mais
do que a passividade de uma digestão ressonante das horas.
Se tínhamos luz, ela estava também
algures, dentro da nossa pele
e dizia boa tarde, também, sem dúvidas
ou receios de sorrisos enviesados,
olhos desviados pela arrogância.

Só que não havia vizinha,
nem tarde, nem sol nesse dia.
Talvez noutro sim, ou num sonho
que me lembro como se tivesse sido anteontem.
Não saí à varanda.
Não. Eu fiquei à janela
a escrever textos rudimentares
com o fraco veio poético de um
inocente inquieto, sem mais pão de palavras
que a fome delas.
E dessa forma rezei o pai-nosso diário
a fiel oração de quem mente,
escrevi-me com manhas e astúcias
tentando esquecer que não existem
nem vizinhas nem vidas reais
apenas o tormento de vagarosamente
sobreviver.

O tempo hesita em passar,
quer-nos por inteiro na nossa melancolia tosca,
inexprimível acesso de ódios enraizados
que se convulsiona e neutraliza,
se tranveste numa realidade outra
que de ira passa a mal de espírito,
o ennui dos tetravós, ou
a delicada e fugaz contemplação de domingo
para os verdadeiros tetravós sem tempo
de arrebatamentos melancólicos ou espirais de vazio.

Não que me lembre de tudo o que sou.
Mas do que sei engano-me, subtraio-me
inevitavelmente ao autêntico desígnio,
a vontade pura, tantas vezes excisada,
hoje extinguiu-se.
A vocação, a certeza pura de um destino
com vida dentro dele,
tudo isso partiu num outro inverno
mais chuvoso que este.
Tudo hoje construção, arremedo, máscara fria.
Tudo hoje plágio medíocre de um sonho,
sem tempo de realidades que nos beijem
e nos sequem a saliva com um murro seco.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Ore leonis


Ó Ísis, deusa amada,
rebenta lacustres veios a este teu fiel
pecador em semente.

Ó Ísis, alheio mundo
de eflúvios femininos,
dá o seio com que benzeste
Hórus e os profetas
da natureza a este teu fiel
ente das horas perdido.

Sede, porém, de ti ó Ísis
amada, não mais
do que sede do destino
e do haver dos dias.

Se a morte ainda te cura
deusa, os lamentos de Osíris,
dá-me desse pão de Tebas,
águas do Nilo profundo.
Ao persignar vagaroso da tarde,
quando findo te contemplo
no amamentar do falcão adormecido
e penso, deusa, o quão trágico
é o apelido humano
e a carne profana do vazio,
comparo teus traços divinos
à seiva escorrida dos céus.
A verdade telúrica que nos preenche
sem de nós nos conhecermos,
és tu, deusa mãe,
das horas soltas e do ventre tardio.

[sopra a brisa do sul
pelo sol escuro que se põe
nosso velar em rosto
fúria calma do eterno
ou repouso tenso
rubor primevo do homem
em querer amortalhado da carne
ancestral lembrança e esquecida
que nos deu da fome a do vazio.]

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

As pequenas mortes

(Ao cair da noite, nevoeiro.)

Houve um estranho que se aproximou
com um diálogo de suicídios e outros entreténs.
"Ouve lá, tens lume?"
Não tinha
o respeito necessário
ou paciência desmedida para diálogos
circulares. Não existem lábios que teçam
odes perfeitas ao pressentimento
de uma narrativa postergada.
"Escuta, não seremos todos
senão esse grande aborto sociológico
que é o advir das grandes massas?
"Pensa, a arrogância do indivíduo
não terá em si o fardo do solitário sublime?"
As órbitas falam como poucos,
logo o lume que não houve se apagou
antes sequer de se lhe escutar o crepitar,
ou de se lhe sentir o gemido calmo
de um vício.
Se agora me afasto, estranho, ou tu te afastas
e o mundo gira e nenhum de nós sabe bem
como nos afastamos,
não desconfies de quem
sem lume nem cigarros nem critérios nem vida
pára às esquinas dos bairros antigos
a pisar contemplativo
murmúrios das pedras da calçada.
Longe vai o barco
e, porém, o horizonte tão perto.

(Schubert, D.929 - Andante con moto.)

A máscara, tantas vezes
a máscara nos caíra
enquanto dizíamos entre gargalhadas,
sim amor, também tu
sim amor, também nós
temos coisas em comum
e rompemos véus de preceitos e tabus
para nos comungarmos mutuamente.

Um espelho nocturno em lago calmo,
uma profecia de tragédia anunciada.

Esse brilho de quem mente,
que guardas nos olhos. Essa
magnífica seiva, pujança de primavera
que é confundir o mundo com o bálsamo
da ironia.

Que pensamento obscuro sobrevoa
o fixar frio de um jogador?
Será o prazer frívolo do ludíbrio,
ou a diversão solene do escárnio?
Tomar almas e beijos
com a mão celeste de um demiurgo,
substituir o feixe luminoso da aurora
que entra na matinal janela absorta
pela lembrança indelével de um cheiro.

Sei-te mais do que penso.
Mais do que me penso. As imagens
são isso. A solidão rarefeita
quando ingénuos palpamos
o tecido aéreo, a carne desfeita
de um reflexo.
Um abraço e sabemo-nos vazios
incessantemente.

A esfera rósea da noite passa
com o vento. Calor ondulante
de velas que se apagam e derretem
na nossa mão.
Não sei em que dia, em que tempos
acordei e vi sem sombras
outro olhar como o meu.

(Jacto de luz pristino)

Quando levantar o nevoeiro
sei que posso caminhar em paz,
buscando o enredo sensual
do abraço envolvente que esse manto branco
vai deixando entre as árvores.

Ao longe, nas horas
desenham-se ainda
contornos de uma pulsão fria.
Pequenas lagoas que sobram da tempestade
com pequenos céus lá dentro
e pequenas palavras nesses céus.

Quem abre portas
ao firmamento?
Quem deixa entrar em morada proibida
o eco marmóreo do transcendente?

Se repousar
no ombro cáustico da dúvida,
se tirar proveito
da obstinada comiseração interior,
se for tudo
o que me prometo ser. Sem luz
que me revele a bestialidade concreta.
Sem retratos pendurados na parede
e o quotidiano servido na mesa.

Sem climaxes espúrios
que nos ditem a necessidade de existir,
deixamos em tudo o que tocamos
a semente hedionda do medo,
o lamento sórdido de um prazer
que se desfaz no nosso leito,
nesse sufoco rouco da nossas mãos,
o nosso desejo sussurrado em profecias
de manhãs mortas e vidas adiadas.



sábado, 2 de fevereiro de 2013

Da comoção ou a falsa poesia

Senta-te. diante de ti a mesa e a janela.
estranho não te ouvir murmurar
desgostos ou o enfado próprio
de quem anda como sonâmbulo
pelo gotejar da casa fria.

Falei-te. talvez tarde, ontem
mesmo te disse que o que a vida
contém é massa biológica efervescente.
o espírito é gotícula que assoma à superfície
faz cócegas no estômago
explode-te arrotos guturais,
mas é só isso. não te movas.

Olha-me. não fujas lá para fora
como se recolhesses para dentro.
o que há mais neste sentido de ser
são oblíquos sinais e caminhos transversos.
não poderemos ser rectos por convicção.
se hoje te digo para esqueceres
é lembrando que o que passa por nós
vai e deixa a mácula em cicatriz.

Responde-me. haverão mais lagos do que este?
mais reflexos de céu e outras cores,
mais aromas de inverno e estigmas de verão
que estes teus velares nocturnos?
nunca como agora verti sentimento.
e sinto-me fraco vazio. sabendo que fujo também,
não te perdoo o eterno retorno da culpa.
a expiação tem horas de flagelo
e nós continuamos. melhor sem ele
e sem ela. que se guarde o vento num jarro
e os seus murmúrios. que se atenha a alma
a contemplar friamente a natureza pálida
de um segredo  arrependido.

Disse-te que o tempo estava instável.
soube de antemão que tu, e o teu ser de sol
não sabem ser sombra quando há eclipse.
não sabem segurar na mão o espinho que se entranha.
não sabem colher dos dias o traço do contínuo
porvir. e hoje que comoção é essa, que mole
apego é esse aos olhos de quem passa.
que pousar de alma e de vontade como lençol
com que vais cobrindo o mundo, rastejando,
marcando no chão o traço da memória.

Há segredo e assentimento
um murmúrio que ecoa na cavidade das paredes.
mas eu sou isso, a tabula rasa
marcada, pontapeada, cuspida, manipulada.
sou a cicatriz de mim mesmo,
e só assim me sei segurar na trave oscilante
de um ritual. sabendo-me espelho.
sabendo-me falso.
sabendo-me nulo.
mas existindo.