quarta-feira, 5 de outubro de 2016

é o dia que fala
o urinol público de arremesso
no chão a cabeça em pés
de esgoto sobra-nos a língua

vontade muita de retesar o sorriso
ligar à mãe estrangeirada
cumprir a válvula pericárdica da vida

não se oponham
pastéis de bacalhau
ao destino enxovalhado a esmalte
de pratos corroídos pela seiva
dos dentes
hoje os teus certos
onde dantes sobrepostos ao lábio
mordiam a sangue a vera
autofagia

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

tens o que trazes
o vento translúcido alto
recorte assinalável a dentes na escarpa
um fio terrestre dentro dos olhos
para uma inquietação falta-te o faltar rosto

construo rigores limites resguardos de métrica
ao sal imposto no rosto às gengivas
no seu inchaço prematuro
ao quinhão de mentiras soalheiras
de andar a pé

onde eu não viva haja essa distância de aqui
padecer outras dores onde eu não
seja a tua mão dentro do meu centro
o regurgitar neutro das marés
uma aurora levada em braços na retina

isso para isto quando eu te for
mais cansaço de voz que pensamento
mais um escrúpulo ao fim da noite
a beber da negligente rega
a senilidade aguenta-te um número
menor que convexo

certa neblina à hora correcta traz
O silêncio abrupto
ou pela manhã o suor frio
a língua vibrando na areia
dentro do que foi um corpo
arrefece um outro rasgo
um outro pulso desagua rios
imensos os sons os secos sons
da matança

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

IV

antes que te diga
três pancadas na nuca
um exame à consciência a alma nu
a cunha da porta a bater na testa
o repente e somos gémeos
irmãos da mesma cepa
guilhotinados sem troco
acordados para a vida eterna e isto é já de tarde
antes que te diga o que devo
vem a morte pela certa
o ser isto e de repente um pouco mais nada ainda
há-de faltar palavra
juro que há-de mais tempo haver que corra
debaixo da língua que procura
nesta forma dizer o que de outra apenas sabe
chego-me e antes que te diga
há não ter eu estado lá para me chegar e dizer
pensava nisso em casa como se fosse
coisa de pensar
apenas para perder algum comboio
ou a soma desgovernada dos meus passos
na direcção do que
não há antes
há não ter dito nada e se morresse
(acabavam-se os poemas)
et in terra pax hominibus

agora a sério

perdi-me na conversa
dois dedos cortados a meio como
fome de inspiração
mas outras coisas sempre outras coisas
a pairarem na nuvem dos olhos
não me chega o arrependimento
dos crimes que nem pensei
chega-me só ouvir gente a passar na rua
fingir que isto aqui um café ali
uma cidade que ainda treme
como fogo posto a uma hora certa
dentro do espectro de uma testa comprimida
há um sinal de cuspo no chão
nódoa de gordura sobre a mesa
barata ínclita a escalar as pernas da consciência
e eu a sentir o descolar dos ossos sob a carne dizendo
ontem foi hoje para não ser nunca isto aqui
falando a sério
há um sistema de narração do ódio
que ainda não foi descoberto
outros há que se agarram à faca
mas nada como o fingimento e o abatanado
a prole socializada e o parque do supermercado
enfim as coisas bonitas
enfim as coisas bonitas



 

sábado, 5 de setembro de 2015

III

emparelhando a verdade nua e crua com bolinhos
considere-se:
podia ter morrido há já muitos anos
os sítios que nunca vi podem até nunca ter existido
saber os nomes das coisas apenas ajuda a esquecê-las melhor
coisas sinceras destas até aquecem
até forram o estômago dos pobrezinhos
dão a esmola que devem dar e depois vão-se
para mais um ano de travessia pelo deserto das ideias
e é passando assim um bom bocado em conversa de circunstância
cruzando a perna ou colando os joelhos
um ao outro o sangue espesso fazendo o contacto certo
por debaixo da pele como se nunca antes sentida
a carícia do sossego
é desta forma que se enganam as tardes
e enganar tardes é a suprema exigência da etiqueta
pela salubridade mental das casas
pela higiene sã dos lavabos e das psiques
a lotaria do desespero só calha mesmo a quem não cuida
do seu quinhão de justo cemitério.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

II

a arte de levitar fogos
florestais carpidores de
cônjuges mortos
os eternos
de mãos dadas quando cai
dentro deles
a casa o túmulo
com três quartos e varanda
para dedos empestados numa trança
a eterna
fica-se a saber no obituário
há um monte em chamas
lá dentro
houve quem voasse longe
sobra só o peso dos beijos
para marcar o lugar
um aroma a defuntos
sob a buganvília um assunto
pendente o queixo aberto ao fotógrafo
o verão passado em cascata
mas já nem esse peso
se voou se voou
a casa levitada no fogo
a falta de molduras
fazendo horror muito grande
não haver quem aqui visse sequer
arder fogo algum

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

I

diziam
no fim o jogo é só uma vida
e eu via ao fundo
a Beatriz
calando no parque entre os gritos
olha que linda
a nossa menina
eu julgava-a morta
eu julgava-a como o que
podia ter sido
era o fim e havia um jogo
nos cafés a acenar calando
olha que linda
uma questão dentro dos olhos
ou isso era eu dentro de um
podia ter sido
outro tempo ou podia ser hoje
e não me aperceberia
havia mesmo uma maneira de olhar
no parque os gritos
de passear o cão entre as árvores
pernas num desmanche ou esse
olha que linda
a nossa menina
como quem crescesse depressa
para desaparecer despressa
como se não bastasse ser cego para ser pai
há ainda um grito impronunciável
no meio das tuas pernas há
um meio outro de atingir este fim
olhando-te como se calasses
esse som de quem persegue o filho
na esquina onde o fixo cego se perde
dá-lhe um braço
e vejo porque é uma vida o quanto basta
para nunca te ter visto onde
algures um banco
ou sempre o parque onde vou matar
o que me resta
para que não haja o meu corpo
certo e verdadeiro
aplicação da regra da idade vezes
o três da responsabilidade genética
olhando por mim e pelos meus cães e pelos meus dentes
porque é de facto tarde
para os ter todos
no fim
é tudo um outro jogo ou antes
um outro conjunto de prédios
o que me interessa é quem já viveu neles
tempo suficiente para se casar
e vir a amar as coisas
deixando no fim a própria pele
do que eu podia ter sido

segunda-feira, 11 de maio de 2015

há o dizer o que nao se busca
há o revelar o indizível

há a mancha de gordura na janela
há o pó nas escadas

há a casa a um silêncio certo
a estalar
por dentro o rosto

por dentro o outro
fora só
o símbolo ou a estrada cega

ir dar a sítio nenhum
a única missão nossa