sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

que digo?
choveu vinho sagrado pelo vale a abaixo
é sangue senhor é sangue
não que digo?
era a bacia hidrográfica junto ao cós
o leito das ninfas dentadas
o mênstruo das piranhas
também mas não
então? mas que digo?
não sei se era tempo de inverno
mas foi uma enxurrada por ali abaixo
uma água turva turva turva que fazia dó
nem os peixes escutavam que digo? nem
os peixes falavam mas seria impressão minha
ou traziam as águas o teu corpo de jangada
anjo amadeirado das fontes
ali despejado da torneira divina foi quando
te vi pela primeira vez há tantos anos
tantos quando te vi pela última vez
mas que digo? estás
agora aqui à minha frente e a mão pousa no canto
do verso e se não o acabo a culpa é tua e da chuva
de lodo que fazia nesse dia em que o caudal transbordou
e o teu corpo morto veio bater à ombreira da minha porta
a pedir o ar dos séculos.
ainda estavam as vizinhas com o ímpeto das línguas
a sugar as cascatas de vinho que lhes corriam pelas janelas
já os meus olhos sacudiam o mosto da tua boca.
porquê tanto tempo? mas que digo?
não foi tanto tempo assim foi
só uma vida.

a cara inteira debaixo de um molho
de olhos iluminados.
similes sphaeras volitans in aethere.
entre ti entre mim
um gigante pressentimento de ódio.

insufla-te no palato o negrume
da multidão de costas.

mas só falámos brevemente
dissemos três palavras e voltámos
ao fraseado do passeio. não houve
aquele vento que vira pescoços
que viola a correspondência criminosa
dos crânios. se te encontrasse outra vez
em dias de sol sobre os campos esquartejados em luz
uma lâmina de verão no teu vestido branco
um cego de braços abertos à forca desabrido
entre nós
talvez o rio o muro a aspereza das ceifeiras sem mãos
talvez só o jogo da tela em branco para nos bastar
um sopro.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

o que será a delícia de um laço?

não te posso dar a noite
não esta. a minha. noite.

mais uma ferida a latejar na febre
mais uma tépida água de caules
de flores apodrecidas.

banham-me o início dos pés
e é só o prelúdio de todas

as manchas negras da viuvez.
quanto esperei por este dia
quanto fui eu antes de mim

só dentro de um convexo
de colher cuidadosamente polida.

as mãos bastam-se. e adormecem.





terça-feira, 24 de dezembro de 2013

é a solidão dos rodapés
uma que é digna de ceia de natal com copo de vinho na mão
reparámos nela teríamos
ainda designado metro e meia para a altura
um olhar cheio de cantos e ângulos mortos
para gastar ainda.
agora tudo cheio
e o lixo até pode acumular aos cantos da casa
pode ser que ressuscite alguma aranha morta
seria bom vir uma nova aranha morta a este mundo
mas não. foram os olhos que te deram.
disseram-me e eu nem sei de que cor são
mas são os olhos que me deram.

não há vastidão que reste. só uma miopia prematura.
rente à linha de água. onde as ondas são agora
só os meus dedos.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

conta-se uma história
de trás para a frente
e dizes-me é o teu cabelo
é o teu rosto que ficou
do avesso e pressinto nesse
inquieto tremor de lábio
de meia à meia a meias
luzes que eu sou apenas
o roçar insatisfeito dos caminhos
sob os pés as auroras
sob as auroras um tempo sem
roçares de caminhos e depois calos
calo-me antes de uma solidão
quando a pressinto ainda no ar como
o cheiro do mar antes da tempestade como
o cheiro do mar antes de morrer
também é bom começar de novo um episódio
de um agosto de praia que nunca se viveu
mas prefiro uma mentira
que só tenha um sol e é o teu
o vulto que ainda ontem pressenti entre os carreiros
as encruzilhadas matam-me
a ti nada disto te afecta eu sei
mas ainda sobra tempo para ficarmos
entre o chá frio e os dedos cruzados da infelicidade.
ainda sobra tempo e entretanto não mudámos.
um suicídio de comboios
e chamam-lhe amor
desculpa choque frontal.
não desculpes
era um apenas um espelho
contra um espelho.

e talvez nem fizesse sol.


em golfadas de assombro
a terra inteira na boca

uma saliva de vermes
a escorrer debaixo da pele

a inocência das horas perfeitas.

domingo, 22 de dezembro de 2013

era o tempo das tempestades
mas tu ficavas sempre à janela
com o rosto embutido na trevas
sem forma
para que fosse eterno
o ar pesado da humidade
já a roer os ossos e a curva das mãos
chamando
um sofrimento de piano frio
um grito a rasgar o tecido das arestas
das cortinas do líquido frémito de corpo
febril a dançar no espaço da queda
da fúria acalmada das palavras mornas
entre os teus dedos.

não fomos sempre
a semente de um engano

fomos também o transpirar de um dia
cumprido
o pranto demoníaco das paredes da casa velha
as nossas mãos nessa corrente
os nossos olhos recortados
na cegueira inútil da pedra.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

requiem para uma charneca em flor

um dia desaparecerá
a mansidão dos pinheiros
e eu levar-te-ei
cansado triste rosto
de espiga morta
agulha em flor pelas giestas
uma dor de espinho
um martírio de solstício a bater na
tua porta de seiscentos e seis mil dias
de neve ausente. de morte em vento
aquela que fica mais ténue presa ao olho
esfregas e cai-te o sentido no colo
e esperas até veres florir
até o veres florir
mundo novo sem admirabilidade
apenas o teu rosto em reflexo.
tão inteiro que se quebra
num reverso de janela
num salto gélido para o caminho dos profetas
a noite alta em que se atravessam as estrelas
e o teu sol despido nas serras
onde esse leito de misérias e de sangue suspenso?

um dia desaparecerá
a parede inteira
a corrente vagarosa
o nítido rio caudaloso das fachadas.

e
entre a mão e a espiga
a tua face amor
a tua face verterá sombria
o beijo febril de um cardo.

sábado, 23 de novembro de 2013

o que disser

o que disser
fica entre nós

para ser muro

entre as violetas
enroladas aos olhos
e os mantos adocicados
da podridão animal
vamos banhando os joelhos descarnados
em esteva.
estepe inteira a germinar
a fenda na raiz.
uma passagem plana na terra
meu amor de nenhures
e
depois que nos espera?

um colar de dentes
a dizer à noite
estou aqui estou aqui
e tenho
uma vontade de fazer frio
encher os becos da cor da luz do frio
preencher as paredes com o olho
esburacado do frio.

mas
chega a hora e
vou espremer às avessas
o dia pela vidraça da manhã
em
cegueira directa
contra as ondas refractadas
dos lençóis de carne.

tão brancos os céus das manhãs de novembro
lixiviados
rasgados em dois grandes términos de olho.
quem te trouxe
uma cara nova neste inverno de madrugada?
quem te colou
este hálito pálido à língua?

pergunto-te o nome
(e é talvez a única vez que o faço)
para te esquecer

o que disser
fica entre nós

ore stigmata

lava-me os olhos
que uma boca só não chega

chegas tarde
depois do jantar
para já não sobrar nada.
o espelho espera-te de guardanapo em riste.

fala-me dos lagos
e dos outonos
e das superfícies esféricas
ou dos ombros de bronze desses dias.
tudo são relevos, meu caro
tudo são relevos
e eles furam-te os olhos
à velocidade do tacto.

a língua já espirra sangue
e o corpo amolece.
quem diria que não passaríamos de um só corpo inerte
nas vagas dos abismos
eco lá no fundo da carne
sopro de júpiter em metaformose entumescida.
segue o sabor da conquista com selo
e a saliva que o lacra
a saliva que o encoraja corte entre os dedos
a saliva que o engana
passa-lhe rente ao corpo uma mão de banho nocturno
maresias de rios podres
odes de poetas frios
véus pútridos da fantasia
e
o diáfano só no olho. só no olho
a sensação de um abraço forte
de tempo forte com
sol forte e porém tanto frio.
marcou o céu com a boca das nuvens
um corpo neste corpo
até perder a voz pela dor do esmagamento.

até que te digam
"eu espero por ti
e colo aos lençóis
as crostas dos meus
estigmas inflamados".

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

o passo
mais correcto
dá-se para trás. preenche-se-lhe
o tremolo de violino
frente ao arco
de uma hesitação
regurgita à saliva
inodora no sentido cálido da queda
a tua
voz a furar
a minha
mão.

o idioma
mais incerto
ainda vende flores na lapela
sorrisos preenchidos de enjoos de sol
e apertos no bolso do coração.
pois:
fala-se apenas da prosa de cada um
e do estilo supra-proto-todo-individual.
não resta mais.
talvez só um sintoma de inteiros dias úteis corridos.
é isso somos nós já completos. morramos por aí.
e chamar-nos-ão de irmãos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

prolegómenos à arte do sorvo

ou melhor dizendo:
come a sopa toda
abraça os novelos sem lã
apenas aqueles de carne mais madura
e suga-lhes os caroços.
prende à boca a vacuidade insubmissa
sai com ela à rua       entra com ela em casa
leva-a no carro          leva-a dentro de ti
à mostra como porcelana lascada ao canto do olho.
já cresceu tanto. é o hábito de ser tia.
os dias submetem-se ao carpir do gato e
ele só quer a sua jaula         ele só quer
arranhar de novo o gelo      arreganhar
o dente podre já era            chamam-lhe
inexistente. como se a vida fosse posta à porta
amontoada com as folhas do mês
mais doente. os corrimentos nasais
saem-nos mais obscuros que a renda
dos cristais perfeitos. somos o reflexo dos copos de enxoval
limpinhos limpinhos limpinhos
imaculados das obscenidades desses lábios
                     farejadores das borras de sangue menstruado
livres da marca oleosa dessas línguas
                     penetradoras dos finíssimos veios horizontais
                     (aqueles mais temíveis. os que nos ligam).
chega a hora do jantar e não resistimos a mandar um
NÃO! QUE SE FODA!
mas vem o zunido das abelhas de avental
crescer a peste junto aos seios. as mãos uma na outra
um arrepio prematuro. e um braço quase sem pele de nervos.
melhor dizendo como a sopa toda. comemos todos a sopa toda.
por isso também tu
chegas ao prato e só vês a mosca.
assumes que vestiu a vida do avesso.

mentira. mentira.
ignoras a colher. ignoras a mulher. engoles o prato
num só sorvo.

sábado, 2 de novembro de 2013

o sentido do cais

eu que criei dentro
de qualquer traço descontínuo
de rosto
a justeza do ponto. a circularidade do olhar.
as sete da manhã em nu horizontal.
vejo agora
nítido
o elemento cego dos interstícios
a flora larvar
que geme O grito
para que lhe cortem os tentáculos
prematuros. sem
começo
fomos longe de mais:
até que houvesse nome
para dar às marés e
abrisse a porta
em nós
nova língua de mar adentro
reentrante
neste lodo de gaivota repisada.

dorme cosida ao seu cheiro.

e diz-se inteiro
o sentido do cais.




segunda-feira, 28 de outubro de 2013

é ao andar pela
mortandade dos girassóis
que sei mais denso o
canto do lodo.

tão pouco interessa
que só três almas de passo
bastam à navegação exacta
do comprido desta
esfera.

por dentro a face
das semanas exíguas
nos mesmos contornos de si
eternos antes que
seja outro este mês de inverno
e mais cedo se queimem
as andorinhas e os meus dedos
de intervalo.

pois não é dizer de tudo
ser tudo esparso e ralo?


dois olhos em semente
onde não chega nenhuma boca.

foi do fio do teu pescoço
que penderam mais ledos os meus
contrastes de sombras sem dedos.

e a senha arbitrária dos dias
que nos viraram
as costas dos hemisférios

não bastam para nos preencher
um lugar que se diz

nome.

domingo, 27 de outubro de 2013

porque lavo o meu corpo
na monodia solitária dos pontapés.
e de mim só pende o insaciável

e por mim o sumo dos meus sonhos
entorpecidos.

porque o que o sol diz gigante
cai logo e torna fixa a noite entre dois olhos
da minha tela húmida de negrume

já só o revérbero distante de um rosto
e dele a foz liquefeita de um canto.

sábado, 26 de outubro de 2013

Nastássia Filipovna

vou dizer-te tudo:
a figura intrigou-me
e bem podia ser o meu deus ex machina
a minha hybris ou nem sei que peça
fragmentária da magistral arquitectura trágica.
bem podia ser uma víscera minha palpitante
bem podia ser um esgar um trejeito de boca
um brilho negro de olhar entre duas frases
e
dois silêncios amam-se como
o cheiro da terra húmida se liberta dos teus dedos
nessa perseguição louca de um espaço
dentro
mais dentro de algo que caiba em nós e na bendita
amaldiçoada solidão unânime
dos cobardes.
há quem mate apenas para se matar
constantemente e queiramos sempre
essa febre de mão contorcida
esse jacto flamejante perseguindo a raiz do olho
essa cascata de veneno vertical alucinante
a penar na nossa cabeça e a inflamar
nas línguas um travo azul de insónia
que nos abra a mão dos fantasmas e a boca
dos lugares vazios.


é tua a certeza dos intervalos.

brindemos às fronteiras:
eu delineei as minhas com um riso tresloucado
engolido durante décadas para que um dia
soltasse na sua queda um paraíso inteiro
que se chamasse
                         tarde de sexta-feira.

é quando as gaivotas voam
rente às cabeças das mentiras
desflorando as rosas como
vinho ímpio para o sacrifício.

morrem por nós as flores
e uma manhã múltipla
escoa-se pela sarjeta
sem fé.
olhamos e dizemos que belo e triste
o sentir das coisas

e eu só lhes distingo o mesmo sincero grito.

era bom

era bom
chegar ao outro lado de uma outra
(esta esta)
sujidade ossificada
por de mais entranhada nos passos que 
- até isto até aqui -
só soube calcar contra
uns versos esparsos de chão
irregulares na forma e 
no respeito à matéria útil e expectável e qualificável do
Cidadão Respeitado
e um pózinho quase só brilho
também de Admirável e Amigo
(e já agora que sabe sorrir quando lhe pedem)
tudo unido a um só nó de corda e saliva 
limipinha e desinfectada
desses 
dias de merda 
(todos os temos mas não nem todos).

tocar o
lado nenhum
e ser tocado de volta.

um fio de outro fio que se torce.
as minhas mãos nessa força torta
e essa força a pingar nas lajes 
sem tapetes a descoberto um nu
de pedra fria.
abro um pedaço de carne mais roxa
para dar mais tempo ao que a consome.
desfaço o novelo dos cabelos presos
pelos olhos dos mortos engolidos
nos gritos que saltam 
paralelos às pontes.

a surpresa
não passa de uma ameaça.
deram-lhe um rio como jangada
mas quedou-se prostituiu-se e agora
só dá o braço ao Além-Tédio 
que lhe paga as contas e ajuda no que pode.
mas sobretudo eu
não posso ter mais pernas que estas
nem voz que ganhe essoutra doença

e

o que penso
- que é isso -
quer vir direito aos aneurismas
derrubar as comportas e deambular
com o outro a quem lhe chamam
fluxo
vem-me à carteira e sai por dois meses
sem dizer ais que a dor é para quem
nasce velho.
ainda se lhe aceno na despedida
cospe e larga logo
dois ou três nomes
mas nunca lhe perguntei quem era.
por isso fixo o pêndulo das salas
até que nasça um relógio mais lento
e lhe apanhe o jeito
o gosto vem depois.

dizem que o mundo bateu na parede
mas ninguém consegue dizer
qual a face que bateu no espelho.


sempre estanque

anda cá cobarde:
chega aqui filho da
tua consciência
e das tuas circunstâncias
e das tuas aparências
e das tuas indefensáveis paralisias de raciocínio
e dos teus dias mortos - em redor de si mesmos -
e dos teus medos
sim talvez tenhamos chegado à última paragem
talvez agora descarrile o andamento
o marcar passo conjunto a desconjuntar-se
e bem ficaremos à chuva de um solstício - cá não neva -
e permite-me que te bofeteie pelo prazer singular
de te ver ser mais púrpuro
e permite-me que te cuspa
só carinho só carinho
aperto-te a mão estalo-te os ossos
depois só sobram os teus olhos marejados de sangue
e eu pergunto:
o que foi o que foi
foi o meu tempo de ser gente que voou pela janela cerrada em espelhos
e agora que será do dia
e da sua cor de ser sempre estanque?

vou matar-te imbecil
talvez comer-te a audácia toda num beijo
vou chacinar-te
o sopro
lamber-te as entranhas segregadas
e dizer-te: contempla
um fascínio louco
pelos zeitgeists às esquinas
as travessuras travestidas desta vida em
meias rotas
justamente sim já sabes a que me refiro
a todo este cheiro de manhã queimada
quando te batem à porta
abres o peito e sai de lá um vento húmido
de sul e de precipício
teu sempre esse canto por outro canto
um mundo de trocas
imperfeitas
mas não penso voltar tão cedo
à sujeição das feras. entre os leões
uma calma impera
antes que caia o temporal da nossa dança.

espera
já me lembrei
o que me faz jus
é a parede para lá da janela.
se a contemplar
um pouco mais
pode ser que surja um olho
entre as arestas dos tijolos
e que o fascínio dos lagos fixos
morra.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Drones (II)

ao comprido das vistas
restam os ossos debulhados pelo cão
e uma flor maligna
de jaspe
a crescer podre
no inverno radicular das palavras.

olham-te as trepidações
soltas numa vaga desenfreada
e cresce-lhes o murmúrio
do indizível.
sabe-lhes à errância do ferro
o contraste nítido
das bocas.

queria falar
e deixei vir de dentro
um inferno em pontas de dedos.
já era hora sempre
foi
e agora mais que nunca
mas
tremo.

soltou-se
no coser pontilhado das tripas
a cadeia morna dos meus instintos.
e só os horizontes pulsam
e só eles falam
nos seus gestos
de metamorfose ridícula
quase
sagrada.

                     tudo o que diz
o rodar ancestral da manivela
é o organum triplum
fremente no rasar das aurículas.
debaixo das vozes hirtas
soa a insónia matinal

e o meu deus do azul da carne.
digo:
senta-te
e o corpo fende morto
uma carícia prenhe de metástases
todas de encontro ao ponto fixo e derradeiro
esse centro de lábios intermitentes
entre dois dedos e duas mortes.

auguro
uma nova perspectiva
arbitrária na cor da pele e dos versos.
um dia mais finito que os outros
para ser hora estranha a da caminhada
entre duas praças imensas
do nosso silêncio que se diz
modo de vida.

e velo
a antiguidade horizontal
entre as mãos dos parentes
uma mortalha amarelecida
entra-nos sorrateira pelos dentes
e todo o interesse em ser mais
do que o rosto do retrato
desaparece.

é como dizer
ser eu por inteiro.




sábado, 19 de outubro de 2013

ao comprido dos quintais

olho a mulher do outro lado da lua
repito:
do outro lado da estrada
e
estamos nus ou eu vejo-lhe
a nudez num olho
e um véu
não em silêncio não
lhe é mais do que a pele
e o que faz a pele ser
esse véu preso na cabeça
enrolado num brilho de pranto
gotejante pelas ameias do enorme
horizonte do seu peito
e o que faz o seu sorriso já
então a semelhança inteira do febril
numa mão lacrada a unhas de sangue

como se lhe visse
o fundo do ódio
volta-se
num súbito
és tu és tu
quem não voltaria
para os teus braços
do outro lado do espaço.
aceno talvez
ou
já sei esqueço-me
e escondo a cara no meu peito
e
quem é a mulher do outro lado do espelho
já o véu cai
suspeito
e a pele retira-se para adormecer
modo eterno
como seria dizermos devagar
rente aos ossos
um enroscar de pestanas
pulsantes nos dedos nos lábios nos perfeitos
contornos da cadência a dois
lados de crime.

olho a mulher do outro lado do rio
minto:
do outro lado da cama
reforço:
do outro lado dos cheiros estagnados dos meus bosques de bolonha
ou
tudo clama minha mão-vontade
que lhe aperte um grito
e depois se desfaça
do outro lado dos jardins
a perseguição do véu desnudo

pois um riso estremece
nas fendas do paraíso.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

dizem

sigo-os
crescentes no teu metalizado arbóreo.

saio à rua para sorver a intempérie
mas não não sou eu
é um outro. amante dos estios.

um que tenha memória suficiente para
cair de vez na linha dos comboios
se sujeitar à mão maquinal da histeria
e dar de si um grito para o lado
num suspiro rouco de caverna
aquilo tudo tudo
o que foi adiado a tempo certo e
um dois três
aos três saltamos
eu na tua mão não sei se é
meu o teu suor também e a aparência
de uma dúvida na linha da testa
e um olhar de refúgio a ferir como uma aresta
um interstício de inquietação.
por que não desta vez e de todas as outras?

é a carne dizem.
e uma língua que ainda não esquece
a marca refulgente da lâmina e o seu doce
escorregar de donzela
engolida inteira.
ainda tenho
a carne dos vitrais saliente nos olhos
e o teu peso nela obriga-os
a ser manhã.

inter-morfologias

mas há quem ande aos arrotos sucessivos
uns sobre os outros
cambada de pulhas de esfreganço
a roçar o que de mais vital há na noite
sobre uma parede branca a descoberto
ou na liquidez fria de um consolo
um gemido abafado como se dissesse
grito.

um corte raso
em três partes unas e equidistantemente
perfeitinhas como dentinhos enfileirados.
uma multidão inquieta
vai e pisa
sem saber o que é o amor
às facas e aos podres e aos óxidos.
talvez cuspa para dar mais
brilho à cena
uma falsidade de pérola espumosa
a descansar redonda os seus sonhos fétidos
num contorno de lábio rígido.

e pode haver no ar uma pergunta
como quem se lembrasse de aliviar
ali mesmo
a alma e os esfíncteres
pouco audazes.
essa nuvem que se adensa
e depois cai e chora
e sobre todos deixa um olho mais largo no seu centro
essa nuvem fazia agora falta.

talvez uma segunda-feira surgisse
mais ela mesma
e não fizesse tanto sol
e pudesse respirar o seco dos troncos
como extensão dos meus cotovelos.
uma margem dentada de espelho
nada disso é plenamente.

é um diálogo infinito da matéria
como se falássemos com verdadeiras insinuações de gente.
só que o teu rosto
não passa de ser sempre a mesma janela
e o que sei só
sei o que ele mente.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

outra janela

porque hoje desço a apalpar
a cara dos estranhos
e tudo vem pálido até
o hálito dos jardins de seda.

cruza-se a perna a um sol
de três tempos
e lê-se o jornal devagarinho
com o borrão negro de tinta a crescer
na testa.
ouvem-se dois passos com o meu timbre de queda
diante de uma poça sou de lama
e nem o nome me sei para escorrê-lo.

[a vida podia ser uma
viagem para a cama
em quatro pinceladas e
o meu retrato ungido
de peste a mostrar os dentes
pendentes como velas
líquidas pela manhã.]

entra-se pelos barcos adentro
a furar o lodo sacrílego
todo puritano ao deus da primavera.
uma penetração de osso que estala
nas paredes. um mal-estar de
dever cumprido
e os meus dedos estirados de unhas felinas
longínquos
até à outra janela.

domingo, 13 de outubro de 2013

fin de siécle com as cuecas despidas

é como uma porta que teima
em abrir e diz:
sou-te um pêndulo
ou o teu fecho daninho éclair
a romper com um zumbido de dentes
a menina dos olhos do avesso.
um escape puro das janelas
estáticas no escavar urinário das nuvens.
admira-as. como pendem escancaradas
mas desculpa julguei que fossem
apenas os teus olhos.

comprei-os ontem
ainda pendentes mornos nos dedos da manhã. habitual:
o retrato lânguido do semicerrado
o gosto seco a sangue mordido
labial sou a minha
cabeça pulsante em segredo ao frio do
azulejo. dois dedos de cigarro
ali do vizinho e numa hora má
uma sonolência de divã
uns pés para o tecto da cova
e uma comichão de sorriso
para não aparentar de menos o cínico.

ora diga
o molhado do colchão
em sussurros de esponja
que tudo isto é falso. e agora já
cai uma tempestade no meio macilento das pernas
sem significância. rompeu-se da própria carne
o sentido. da rendinha amarelada das cuequinhas juvenis
desprende-se o arrepio de um grande século inteiro debaixo
de um comboio sem paragem nem reverberação.

incendeiam-lhes as casas
e os pardais fogem pelas veias
porque lhes chamam de coitados. e dão-lhes
os dedos esmigalhados de uma prisão.

um absurdo não tem maior nome que o teu.
e sobra tudo. sobra tudo.


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

voz de rio chão

voz de rio chão
sereno plástico de lama
e canto-guincho de alvorada
sobre o restolho final.
é uma espuma inversa
das horas e a minha boca
nelas só para as insuflar
do coalho pastoso
emaranhado ao comprido
dos cabelos sem velo de Jasão.
---
ora seguimos ao longo das imagens
e esse muro de tarde
é o rosto das laranjas e o nosso
outro meio em queda de si. já passámos
os pomares e agora venha no enjoo
um aperto de intestino meigo
a reclamar que o abracem
silencioso já nem estremece
agora só quer ter consigo o dia inteiro
e o dourado seco dos outonos
como ramagem sólida ao longo
das sombras desses outros olhos
aqui logo já nessa frente de joelho contra joelho.

a catástrofe é um lábio que treme.
e no seu centro uma denúncia de outro canto
um bater de portas com mão de vento
e o murmúrio salgado de uma elegia.
a catástrofe é uma mão que sua
e desliza bem para dentro
até pernoitar num qualquer fundo
esburacado de casaco e só escorrer
quando for tempo de acenar
um adeus filho que vais
para a terra. e o teu nome
tão vincado debaixo do olho
essa mancha que se te alastra
essa mancha é a tua guerra.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

canto de desonra

para cantar
eu todo completo enérgico numérico
a desonra.

a minha história
é o sem história do momento.
e hoje a liberdade diz-me nada:
sufoquei o estilo a agulhas
entre os dedos.

e para caminhar
fecho antes a porta a um perfeito vizinho
e sacudo o tempo de chuva
quero eu crer que não
e mergulho a fundo nas travessas.

vou até onde me encontrem
já estirado entre a repulsa dos dois braços
e onde o desencaixe do meu rosto nunca sirva de lição.
enlameado pela crueza do cuspo
vou até onde me pisem
para depois chegar ao destino
inteiro vivo
no núcleo de uma corda de umbigos
a correrem como festa
as varandas opostas dos edifícios.

sábado, 21 de setembro de 2013

bureau

bicho interior de roer
o mole de ouvido
mais recôndito. enganchado
numa comichão passageira
numa alucinação de espelho
vai enumerando sob o queixume
dos sussurros nocturnos
a modelação arquétipa
que rege em ponteiros os dedos
maiores dos pés na passada
mais longa que fura o autocarro
e desemboca nas nove de emprego são
para só acreditar na fricção
de derrames essenciais entre
o olho cinzento o dedo quase negro
e o tão pouco profissional borrado
do papel de impressão.

o leporino que macha o cínico

por onde andam os pés que nos caminham?
onde essa força toda ela
motriz
a chacinar sobre nós
vagarosas noites de cristal
de olhos pisados por existir
com fel e terra e mosto
no lugar de lágrimas?

por onde o traçado dos caminhos
e sobre as veredas por onde
um sol que se ponha
infinito na distância mais
concreta
do ideal de horizonte?

por onde o inefável
e o sumo das palavras?
por onde o dizer pouco
dizer nada até
e saber tudo dito?

ainda me contemplo ao fundo dos cafés
meus inimigos naturais
minha nascença paralítica
através deles para eles com eles
sorte de quem não tem na testa desígnio dela.
ainda me vejo com cor de vidraça suja
e num tempo talvez prematuramente outonal
sei de mim a minha figura.
e com que nojo
(o mesmo com que se descobre a maculadora nódoa sobre o lençol mais puro)
com que nojo desfaço entre dedos esse tempo
de cigarros mornos a encher
baratos as narinas mais inquietas.
com que raiva fecho entre os dentes
um sabor férreo de tempo
óxido volátil dos meus detritos pensantes.

nasceu um condenado
desde o papo das olheiras
ao condescendente dos dedos.
nasceu um inquieto colado ao banco
para sempre sentado no seu dia mais plano
de luz morna e vento lacustre.
que belo o seu semblante de coisa nenhuma
o seu existir sem paralelo.
que sombra tão escorrida pela a parede
em aguados traços lúgubres de desconsolação.
que fulgurante traço de idiota naquele nariz
tão normal quanto obtuso
naquele trejeito simbólico de lábios
[o leporino que macha o cínico]
naquele olho entortado por tamanha
incomparabilidade com os objectos
e as coisas diárias de sair à rua
e ter menos tempo que ontem para pensar
que se tem menos tempo que ontem.

ouviu
(julgou)
no tremor da mão
no frémito indolor dos dedos
uma vontade de musa escondida
a indicar damasco e por ora o seu caminho.
vem alucinação vem
proclamou
e fumou de uma vez meio charro
(julgou)
e bebeu de um trago meia garrafa
(julgou)
e trouxe para casa os sem-abrigos que encontrara àquela hora
mas na verdade nunca tivera casa
nem portanto sem-abrigos para estimação.

estivera
incolor mas não desse tom
do incolor dos dedos depois de mergulhados
no bendizer das águas tépidas de templo
durante horas até que
afogados por tanta inércia santa
se calam sem cor.
mais um incolor de inverno
meio lama de chuva meridional
meio bafo de velho contra o vidro de autocarro.
e esse incolor por inteiro
tornara-se o seu mote
a sua inspiração. sua
eternamente uma
incolor admiração.

pernoita agora nos bancos
mais afastados do ruído e das lágrimas
dos jardins
sem acolher cafés na sua deambulação.
o que lhe basta
é uma nesga de lago estanque
um cortar de espelho
que lhe devolva um retrato de céu.

ainda o julga seu
por inteiro.

o bas-fond de s. bento [episódio xyz]

eu te invoco taberna rouca
a suar política com frituras
sob os meus pés de sesta morna.

eu te invoco baixio de s. bento
com a fachada desigual do silêncio
a tua habitual alma de bulício

e noites sussurradas em novelas
de janelas abertas e cortinas gotejantes
para o mundo outro mundo teu dentro

outro tanto. consome-se o dia
em lentas horas de almoço
e rasantes eléctricos ansiosos. o meu

dia dentro do teu
já não é dia. é hora extensa
enquanto espero ponteiros que me mintam

é agora.

Variações sobre um tema vulgar

hoje começa a vida
a entrar pura pela janela
e eu vou
e eu perco-me nela.

hoje começa a ante-manhã
a caminhar junto aos muros abertos
de cal suada pelas mãos dos
ventos. e eu durmo antes de mim.

hoje quem me chama recortado
pelo silêncio do deserto
não sabe que aqui
repousa só e fixa a ausência.

amanhã depois de anteontem
uma encruzilhada no meio
de mim floresta árida de planura
chega ao término. dá-lhe

um fim e uma intenção de vida
administrativa para sôfrego correr
sobre o asfalto dos papéis meus
dedos ensalivados de mioleira

fria a verter sobre a testa
o sentido mais perfeito
da vida. ela vem e tem a escada
atapetada quase direita.

ela vem hoje e
entra áspera e dura
vem densa e exacta
sem mistura de sonos e

ziguezagues de passadas
ao comprido da rua.
vem com o meu nome e gaveta
à medida. derradeiro paliativo

como narcisos em linha diante
dos olhos cansados e cheios
do horóscopo da terra
virado eterno para si mesmo.

hoje começa
e tem vindo a começar sempre mais
até um dia terminar o começo
e principiar a ser o que esqueço.

2013-09-08

sábado, 14 de setembro de 2013

meus
todos os dias
meus entrançados 
caudais de púrpura tardio.
reclamo-os arenosos à margem
dos meus dedos dos meus dias das
sempre minhas eternas janelas de tarde 
sombria a levar para a rua o calafrio da 
aragem o equinócio cá dentro a espera a 
seiva manchando de tempo líquido a imagem
que eu perdi da minha infância. espero-a
balançando na minha espera de estação
agitando-a com o vigor das horas
crescentes e súbito descentes
até ao pleno mais descrente
do meu retrato postiço
eu imaginado face
cara na cara
dos outros
antes de
mim.

//

roubaram-me a miséria
roubaram-me a ideia feita
a casa e os vizinhos e um quintal
tão possível quanto o meu nome.
ardeu e depois esparso foi sobre
uma vaga de onda 
tão igual.
roubaram-me antes de ter sentido
o paladar da luz que irradia
de dentro das coisas
que se recordam.
roubaram-me a língua e o verbo
nela adormecido.
roubaram-me. OIÇAM
e o que clamo meu
é só uma lâmina de impostura.
é apenas camada límpida e pura
para esconder
o não haver.

antes de mim
antes de mim

uma tarde
um durante.
talvez eu.

domingo, 8 de setembro de 2013

slows

sintomático
o movimento de pernas
o balançar da cabeça.
raça decadente
a rejeitar cervejas
ao canto dos bares
aquosos.
por sobre a mesa
uma cruz de braços
e uma dor de cabeça
abandonada a cinzas.
fumega sobre as lâmpadas
um dia a ser recusado
mas quem fica
aqui
sentado à espera
que os pés cresçam
para baixo
directos à raiz dos saxofones?

menos morte
e tanto cheiro dela.

"verifica-se que Xis atingiu a maturidade poética"

se um dia eu pender da haste
e fruto maduro rasgar o chão
matem-me!

pisem-me
escorracem-me
firam-me da latência
do ostracismo.

quero que me expludam as veias
e germine apenas néctar de vácuo sobre os campos.
que não reste nada.
que não deixe nada.
nem herança nem herdeiros
nem a cor dos olhos nem o horror das palavras
nem o odor inculcado de suor pelos caminhos.
tudo o que pisei se aniquile e me finja
nunca existido.

esqueça-se a fala
esqueça-se a letra.
se um dia aprouver que me tragam
como osso canino saliente entre baba e boca
que me torne merda e me cuspam em sentença

"este porco que amadureceu
ingrato
afinal estava podre."

felizmente
sempre estive podre.

sábado, 7 de setembro de 2013

a Ideia também faz bicos

meu rumor de manhãs rarefeitas
minha cor de leito de luz trespassado
minha curva idêntica de silêncio a cada
esquina. uma nova rua sedenta dos teus
passos. um frio de espinha a crescer
no teu seio o arfar insurrecto
de estilhaço.

minha distância de permanência
carne branca em sangue que se condensa
olho revirado a perder nos sulcos
a linha que corta a fronte e o crente.
não temas mais a força de um
sol postiço sobre a rajada de um verso.

a [minha] palavra comeu do mel da podridão entreaberta
para secar de vez a saliva inane.
ainda ouço os reflexos de prata cozidos
entre os meus dentes
mas calo-os com a chacina limpa

da língua.

corre em mim o rio parasita

corre em mim o rio parasita
e aflora seco à boca

lacrada a jaspe e madrepérola.
o presságio das abelhas dentro do alecrim

mais a promessa de chuva sobre as colinas.
corre em mim o vento eremita.

o olho do homem sobre os campos
uma cicatriz de terra com charrua

a ornar paralela o desabar do frio
corre em mim o tempo de sóis nenhuns

corre em mim um sentido mais opaco
de mudez. o que corre é o corpo inerte

e nos dedos corre estéril um carreiro
de palavras-formiga. para dentro onde corre

o nome.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

o remate de um poema

o que eu quero é ser medo
de mim e ser canto
de distância.
também com isso o tempo do fim
cai lento e já nos envenenou a pele
queimou devagar os olhos
ao ritmo das fagulhas
e deu ao mundo o aspecto sagrado do tardio.
sempre os ponteiros batem prematuros
o remate de um poema.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

e se uma onda diverge?
assim também o sentido
tumular da espera
assim também a hora precipício
de poente. a nossa
escassa saliva laudatória
aos cantos frugais da primavera.
//
já se não vê
mais que a faca desse cume
de montanha fechada.
duas mãos chegam para a abarcar
e um lábio adormecido
ainda se esquece sob a aparência da rocha.
é a cor do tempo essa que cai em maresia
e a gente de pó que o abençoa
de joelhos sob uma cruz
de cantos de pássaros e de amoras silvestres
eleva ao alto uma ressonância horizontal
cria este homem cego
da cor dos pinheiros e dos cedros
da cor dessa mesma reverberação de oratória.

e este homem foge
da carne dele mesmo.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

e segue o rasto dos bosques
e da distância.
todos necessitamos 
da mentira.
//
por quem são os montes
e os pinhais?
por quem dormem
os reflexos de um anterior nosso
a serem mancha de manhã
na sombra imaculada dos olivais?
há muito que ouço a espera
como eco
e já não conto os passos
nem os olhares roubados.
o que eu quero é deixar
sobre a toalha da mesa
a marca do café
e residir nela
a contemplar no canto do olho
o respirar tímido da janela
o tingir de verde adormecido.
já aí tão morto
o cerrado dos dentes
e o crime da pulsação.
já aí tão eu 
nomeado
eu fechado 
sobre mim
nova crença 
certa e derradeira

eu 
minha escarpa de fim.
o fio das palavras
que te enterraram na língua
permanece
para te imprimir (e)terno
o sabor da ausência.
//
o caminhar de floresta
enredou-nos os passos
na distância dos milénios.
feitos pelas estações
não mais cremos no luminoso do dia sobre as sebes.
somos os mesmos e sabemo-lo.
ainda guardamos os mesmos sinais
e o corpo ainda fala através das fricções.
mas não mais guardamos
o dom da água saliente
a cadência dos trinados
e o término das orações dançantes dos ramos.
somos a vacuidade do verbo
e esse espaço côncavo
embebeu-nos os dedos
penetrou nas veias periféricas de uma sempre
esquecida inocência
apodreceu-nos os membros
e deu aos olhos
novo contorno sórdido
a fazer lembrar aos eclipses
a carne telúrica em fim de gestação
a tempestade ainda em zunido sobre os campos
o quebrar estático de uma latência mais profunda.

então
na mudez dos líquenes
atingimos a língua mais primeva.
somos rocha e contemplamos o horizonte
enrugado na nossa mão.

vai
e o que te prende
sucumbe.
//
os laços forjaram esta cicatriz
imensa que vai desde mim
a ti num infinito gume
de horizonte.
como chegámos a ser
coisa nenhuma?
mais que o nevoeiro disperso
ao sopro dissipador da manhã
menos que a sombra estival
dos nossos segredos
uma lembrança para derreter
no fim de um verão de outra década
e enterrar antes da mortandade das folhas
e da podridão solta dos frutos.

esta secura de pensamento
este impedimento cruel por natureza
impele-me ainda
mais e mais
como se a força de uma cobardia
anulasse o gesto
a inteira e imensa culpa
a face soterrada diante dos próprios pés
uma contrição de fim
uma unção e não sei em que tempos
um vil deleite de perdão.

a margem de lá
é esse muro
idioma que os olhos não alcançam.
perdido do lado de cá
caminho com a urgência a criar teias pelas esquinas
e é na mesma velocidade da descida calada do pó
que me deito manto sobre as fachadas dos edifícios
e preencho os espaços daninhos da calçada.

espero um dia cobrir por inteiro este rio
morada desesperada de tântalo
e nele silenciar
fundo
a cor extinta
deste olhar.


domingo, 1 de setembro de 2013

refreia a deriva
com o dobrar contínuo dos olhos.
//
a mão que te estendi
e que por si só furou os céus mais fundos
até os picos dos pinheiros bravos
os cumes inteiros de um ocidente vulcânico
essa mão aguarda a fé
rebusca agora no perfume dos órgãos
nas manhãs mais sombrias onde jazem
perdidos pela estrada
os corpos esventrados dos peregrinos
essa mão que te cingiu
a volta contínua aos rins dilacerados
a sucção dos frutos feita romance
e nós dois
só nós no meio da podridão
feitos fendas inacabadas
com tremores amargurados
e esgares vítreos
(somos a iconoclastia dos lagos).
a mão que te criou
cristal cantante de aurora
foi decepada
(com três golpes inteiros cumpriu-se o rápido serviço)
e hoje quem a tem
sobre a cabeceira
vela-a em silêncios insones
criou-a e deu-lhe uma morada.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Drones (I)

não te sinto o escorrer
de encontro
                   ao chão
             dos cabelos

ou

a sílaba pura a alagar
por inteiro
a margem espaçada dos meus dedos.

não te fixo
lápis embebido na bílis enigmática
dos horizontes sem fio-de-prumo.
não te conheço
carnação rósea de tempestade
sangue aguado dos pastos serenos
da permanência.

tudo o que me és
tem o sabor do indizível.
tudo o que me tragas
da boca em forma de barco caminhante de marés de agosto vazias
tem encerrado a punhaladas de jasmim
um nó de estômago mais redondo
uma veia de olho mais pulsante.

roubas-me sem pudor
o travo escuro das feridas lambidas
para deixares
a ser
            presença
o azul de madrugada fria
a retalhar devagar os olhos
com o signo da urgência.

//

chamo-te
margem
             para a queda
o estender de corda até
ao precipício.
encerro-te
a volta inteira
duas
      três vezes
      no sentido mutante das íris
      ao pescoço unido em pulsos
este grande imenso todo
                            um só
nó.

terminação dos pontos
degrau
filamento de sombra.

nomeio-te
(e nasce junto ao céu da boca a nebulosa metálica dos meus vitrais de pó)
o indizível
o interminável
o inominável.

domingo, 25 de agosto de 2013

pensa como quem adormece:
o teu núcleo fechado de alma
mercúrio a romper na queda
o lábio mais secreto

de uma afastada
inocência.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

a flor mais sórdida

pode ser que um dia nos encontremos
e tenhamos
a flor mais sórdida na lapela

e o vazio que nos preencheu
durante tantos anos
venha a ser a nossa memória mais singela.

uma lágrima mais escura que se desprende
de um silêncio
não sabe o sal desta inquietação

tu e eu que somos
neste rio imenso?
tu e eu que buscamos

nesta indeterminação?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

o acto da escrita ferve
tão lento e cáustico
perene
num borbulhar de sopro rarefeito

o pulso que treme
a língua que seca

os meus retratos
espalhados pela casa
são de quem foge por ruas desertas
quem fecha sobre si o céu
ocasos de nuvens como lâminas
de um corpo que certamente não é o meu.
mas todos esses retratos têm o meu nome.
todos esses nomes têm um sibilar estranho
de fim de tarde
com um derrame de luz que desconheço.
nunca vi sombras assim
e contrastes em monocromia como estes.

a têmpora bate um compasso de nojo
o olho ferve a uma luz envenenada

ocasionalmente perco-me em sítios familiares
à espera que caia uma chuva nova
e lhe sinta o doce na ponta dos dedos.
e daí não fujo.
foi aí aliás que me enterrei antes
de saber contar estrelas
para hoje ser fracção de gente
tanto melhor assim quanto menos souber
de mim e do que restou
no arrasto dos membros.
menos um braço ou um pedaço de orgulho
tanto faz
creio que quando choro só o faço hoje por mim
e se brotar o sabor do suicídio
amparo-o com os dentes
faço-lhe um nó na língua
adormeço-o com um parco sentido de contemplação.

é ao cheirar o vento
que desejo ser-lhe
sem pudores
visceral.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

do outro lado és tu

somos dois equinócios
a beber das pulsações não mensuráveis
do estio
dois hemisférios
a esconder nas sombras dos carreiros
o nome das palavras
acostumados a tê-las
na margem diáfana
feito lençol do entardecer
película silvestre pousada sobre os olhos
rasto de saliva brilhante
que se tornou lago
e que segregou o nosso retrato ambíguo.

do outro lado és tu
e o mesmo aperto no sobrolho
a mesma inclinação natural para o vazio
o mesmo tédio de primaveras.
e nesse tremor súbito
encontro a mesma busca.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

i wonder as i wander by cathy berberian

o pensar do caminhante
é o do novelo desenrolado

ariadne estendeu-lhe o fio
agora resta-lhe o vício do crime

o fumegar de vísceras
na boca ruminante do minotauro

domingo, 18 de agosto de 2013

night and day

podia dizer o nome
em segredo

escutá-lo só eu
ou alguém dentro de mim.

ainda sinto que não é vão
crer nas pegadas
como no cântico das esferas
a argila nodosa
das tuas mãos.

mas é de madrugada
que retinem mais negros os astros

desfaço-me da língua
da música finita do palato

ornamentos profusos
não nomeiam o inominável.

dilacera-me

invento os meus axiomas
sou o rei das minhas insónias

mas a água verte um rumor pálido
de sentido

é ténue
e isso dilacera-me.

seis e meia

olha as paisagens.

são a comoção final do verão.
o seco dos olhos que já cresceram
demasiado para dentro
tão pouca lágrima para tão má sorte.
a aridez abrupta de um horizonte
faminto
enterrado fundo como um desejo
tão maior quanto menos tem
esse tal nome com odor
de anseio.
as depressões ocasionais
da ausência
dizem que aqui houve aquilo que nos habita
mas apenas em reflexo
para hoje lhes contemplarmos
negativos
sonantes chamamentos de sem sentido
de inversos
falsas impressões
ilusões de tacto.

afinal o fim do verão
é quando o vento dobra o ciclo
os ponteiros decrescem
e a boca do vazio vem beijar
mais osso que carne.
afinal é aqui o momento
e não existe palavra
porque não existe verdadeiro adeus.

sábado, 17 de agosto de 2013

quelque chose à dimanche

fosse sempre domingo
para eu não te guardar nunca.

e uma dança de neblina
em pleno verão pela madrugada
adentro.

fosse sempre o meu
arfar de medo o frio súbito
dos teus dedos

e chegados aqui
a sebe que se enche de sol
a marca silenciosa do nosso finito.
o incómodo de conviver comigo.

ter a minha verdade
ou seja a falta dela
aqui.

e desejar tê-la. não sei
onde.

convertido ao abismo
o corpo é decrépito
mas não tanto como o ânimo
e acredito na morte
como fim.

conviver comigo mesmo.
esse é o peso.
esse é o incómodo.
esse é o propósito.

tudo para estar
e não querer estar
algures
no espaçamento nulo dos dedos
sozinho.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

onde a rua começa

vamos começar pelo princípio:
a franqueza é sacrossanta
e eu não sei escrever.

ora o candeeiro de rua deu sinais
de uma aparição
mas desta vez não era eu no espelho
era a rua deserta
e a luz oscilante dos olhos entreabertos.

só acreditava em mim
e por isso segui.
não queria ser mais um a buscar
nos silêncios o sereno
das soluções
a súmula fechada do tríptico
inacabado do universo.

não esperei por milagres
e eles não vieram
por isso cheguei igual à porta de casa
e a casa reconheceu-me e entrei
com dias a passarem pelos cabelos
e com os dias o ressequido
mais áspero dos lábios.

aconteceu há pouco
e parece de meio século já
o meu olhar zangado a cruzar
a transparência das cortinas.

castrada a voz
(nunca a tive
porquê isto agora?)
restam-me os sons a prolongar
a linha do finito.
é ali que eu moro
naquela casa ali na esquina
no virar da rua a atravessar
para o lado mais espesso escuro escondido.
é dali que vem o zunido
nem sei se fino e irritante ou grave e confuso.
uma pulsão extrema de algo que morre eternamente.

a fenda que me atravessa a testa e abre caminho
acaba ali
onde a rua começa.

domingo, 11 de agosto de 2013

são as cortinas em brisa e a tua sombra
as duas da madrugada diluídas no teu rosto
solto os lábios e eles carregam
o peso obsceno de um morto

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

sicut cervus

às escondidas pela casa
no término das frinchas
no oco dos silêncios
vai lambendo o soalho solto
um nome que desconheço
uma verdade que ensurdece
um rio que chama
escuro o crer sonâmbulo
da madrugada.

por onde andei
quem me viu e quem
me colheu da sorte a errada?
do meu jogo eterno
de busca só entendo
o comprido dos meus dedos
e depois a mão fechada
um cálice de ódio em que afundo
a sentença cumprida no meu corpo.

conto as veias que crescem
abruptas no cruzar dos meus olhos
ao espelho. são outros.

não clareia nem escorre vento
e eu só penso como quem diz
só esqueço:

quem te deu a língua
e depois ta roubou
de novo?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

finis

surgiu entre os meus dedos
teia reluzente
súbito reflexo de outra mão
de neve e ouro a quebrar
o estio.

surgiu e logo me enchi de dores
e o meu horror foi profundo
com um grito preso
nos recônditos das veias
em ebulição perfeita
no ponto.

soube ali que terminara
eu e a corrente
dos meus dias

no osso raspado
o sarcófago vazio
onde antes diziam habitar
medulares
as palavras.


domingo, 4 de agosto de 2013

diuturno

é impossível dizer ao certo quando foi.
só mesmo que desde esse dia uma fagulha
ou brilho de vidro
se instalou ao canto de um dos olhos e agora persiste
como um zunido insistente
ou a fala abismal das eras a fazer eco
nas ramagens sobranceiras ao precipício.

é impossível dizer ao certo o que foi.
só mesmo que desde esse dia a saliva queima
e já não há espaço no meu sorriso para amar
arpejos de mel como se o fim da tarde fosse meu
retrato perdido para sempre desse tempo de sóis
mais uns que os outros tão diferentes em trama
de folhagens. os caminhos escuros palpitam-me
na testa uma dor lancinante e vou recitando baixinho
a fazer acorde com os passos os meus trechos
de cor porque sei-os da boca divina de um demónio
nado-morto.

e agora vem o extenso todo de mim
crer-me diferente mas não sou
porque não sei quando
não sei quê
já me marcou
já me deixou
pode ter sido ontem hoje mesmo
pode ter sido sempre.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

se levar deste mundo

se levar deste mundo
recordação
que seja só a minha sobre a tua
decepada
esta mágoa que já foi mão.

dá-lhe urgência
dá-lhe latência
dá-lhe a sarna no céu da boca
junto aos dedos também
e contra a folha sem pudor
para não ter pranto de si e apenas
tão só das palavras que não vêm
para lhe restar o amor aos pincéis
e às coisas soltas e silenciosas
espalhadas em artefactos pelas esquinas sujas
uma janela partida
a tinta lascada
uma varanda escondida e sobre ela
a passagem silenciosa do tempo em robe
dá-lhe o amor pela vida para contrariá-la
dá-lhe o aroma dos teus cabelos musa
e rouba-lhe um beijo nos sonhos
para te crer ressurrecta
noite após noite
dia após dia
sem nome que te distinga
sem lágrimas que lhe imprimam na língua sal dos deuses
sem cântico que lhe ofereça a lira
e nela a redenção.

quem surge do inferno
quem se debruça sobre si mesmo
quem aparenta a pulsão fria
de estar só estando consigo mesmo
quem é este vulto e mesmo sem véu
esta carne a qual não conheço
e de que me lembro como de mim
sem mesmo saber
o que de mim escondo e que de mim
fujo senão mesmo
esqueço.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

a minha luz tem silêncios de vidro
e a tarde é certa
no oblongo das árvores.

enreda-se nos teus cabelos de infância
não mais desperta
nem já tem nome de poema
o teu rosto.

perdi-te os contornos
dei-te o nome de espelho
e no fim o que resta?

o hábito de cuspir nos passeios
o luar sobre as casas
a omissão dos travesseiros
e a minha aparente calma de olhares
ante a parede muda.

sorrio e a explicação do mundo
escreve-me o número na palma da mão
o habitual e desço as escadas
cambaleantes debaixo do meu entendimento

acordo e sei quem sou
porque esqueço.


quarta-feira, 31 de julho de 2013

ruído branco

de que vale
esse suco na boca
velho da cor
sempre fosca
desse rio que canta
os séculos nas correntes
e tem nos olhos os outros
daqueles que o viram ser rio
antes de ter nome
e ser gente?

vale mais o contraponto cego
já sem a vibração dos vitrais
e toda a horda de cantores de infinito
a trazer fôlego de deus
ao canto mudo das flores
e dos minerais. mas nem isso
nem isso refulge já
em aurora
este tipo de movimento
em víscera profunda a sangrar
contínuo jorro desde a linha
do firmamento.

o que é este domingo
sempre presente
a estirar os dedos
e a romper do fundo dos cabelos
o sono morno e mastigado?
o que é este acordar de fundo
a tingir o quadro de negro
e a dar ao palpitar das horas
a tonalidade de um roxo cansado
a vir cada vez mais inteira
ao encontro sensual da tempora
pulsante? enche-me os olhos
e é som puro fechado em ruído atroz.

nomear o inominável
fazer verbo do pré-verbo
do anterior a um anterior
crer palavra onde habita
somente a onda pura
de um silêncio.




segunda-feira, 22 de julho de 2013

revisitar

e se eu não quiser nada?

posso ainda escrever o meu tratado
político-teológico sem cuspo algum
que macere esta tinta de corpo inerte
posso ainda olhar de soslaio
o quente da brisa e negar solene
a iridiscência do crepúsculo
posso odiar a vida o quanto baste
espetar-lhe o picador de gelo
calmamente pelo olho adentro
com o rigor natural de uma viagem
entre o secreto escarnecer de nós todos
a subsumir para dentro através
das camadas fofas do medo
com a carne os dentes e o miolo
tão passivos tão lascivos tão evidentes
para demonstrar com o raciocínio inato
a matéria menstrual de um absoluto esvaído
concreto a drenar-nos
a escorrência marcial feita em passos
para abrir e revisitar a cidade das segundas-feiras
cravando em nós tecido em buracos
os intermináveis desníveis da calçada
as abomináveis fachadas da transcendência.

sento-me e trazem-me a bandeja a fumegar por dentro
e não lhe vejo a mão que a segura
nem o que fumega
nem o que a sustenta
nem traz ela o meu reflexo
nem as palavras soam as mesmas
nem os olhares se revelam os mesmos
nem os nomes vêm à cabeça
nem eu sei onde me sento
nem isto faz sentido e eu
só queria
o quê não sei.
não era isso nem isto nem aquilo
nem vá aquilo que ali está
nem tão pouco aquilo que por ali há
mas sei que sim que queria
mas já não sei quando o quis

e alguém se zanga por esperar?
e alguém se cansa por revisitar?



domingo, 21 de julho de 2013

cismo cínico
no contorno silencioso das tílias
a beber da forma das casas

e é o espaço desse contorno
o meu olhar de espectro
ambivalente
o meu tingir de tempo
a beber da forma das décadas

tão sós e tão minhas
como este corpo feito planície
de mar mais ausente.


sábado, 20 de julho de 2013

con bocca chiusa

agora é sempre manhã e os pássaros passam e cantam
elegias mais tristes

chocam contra o tecto
das palavras
em cadência monocórdica
perfazem um uníssono

ao fundo
da cor da distância
o vibrar de uma latência
estende os seus veios de seda
dissonantes sem resolução

e eu busco no dicionário
o espaço de uma folha rasgada
que tenha inscrito a unhas
o verdadeiro nome disto.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

descerra-se o novelo
dos teus lábios

espelho

escorre deles
essa água do Lete.

uma cerveja no baptistério

suo com a água
que um deus verteu
deste seminal
encontro nosso.

deixou-me depois
esta luz laminar
para em vão cindir
dos mármores os veios

de campa. e um doloroso
frio de palavras em espaços
secos.

Nasceu outro cristão
para sair à rua
tropeçar no degrau
verter o miolo pelas fendas
da alma contra o soalho
da comiseração. Nasceu
mais um salvífico pulmonar
arquétipo de espessura
para fissurar a terra com o olhar
e perder nela o seu signo vital
a cantar lonjura.

do riso vem a sorte do desapego

o que eu queria não ter que pousar
sobre um afago outro afago simultâneo

cobrem-se os ossos com carne para
mais sossego

mas este grito quem o vela sonâmbulo
quem lhe dá um nome?

quem sopra o pó que tape as janelas
e subtraia voraz o insone negro canto?


prenúncios de sexta-feira anunciada

um baque profundo

e súbito a vontade da escrita
seca
tão de si mesma como
ralo profundo de criação
ornamento invertido de lábios.

não vale a pena orar credos
nem queimar legítimas
palavras de defesa
em mordidelas obscenas
e apertos de braços.

tudo o que resta quando temos
saudades de um inverno
feito estrangeiro
é colocar mais sal sobre o cabelo
também ele esquece em nós

o que derrama

o que em mim chama
e não

suspende.

terça-feira, 16 de julho de 2013

perdi-lhe o rasto

perdi-lhe o rasto.
entrou pelo cais das colunas adentro
nem deu espaço à mesquinhez das gaivotas
vestiu-se de rio
seguiu os seus passos.

terei reparado em súbita mancha
no reflexo das janelas à rua dos douradores.

corri atrás e cansei-me
até lá ao fundo enquanto
caia um céu de nuvens mais contrariadas.
um aperto de nojo dormente nos olhos.

ainda em obras
mas já se lhes viam as serpentes aos pés
equestres de uma tarde de quinta
a passar tempo para os augúrios
de sexta.

o suor não provou
quanto tempo passara
entre um passo e outro.
creio que me fixara num conto
a meio do livro. não lhe entendo já o título.

abandonado
branco a criar chão com pó
de terreiro
perdeu a marca e a dobra na página.
talvez também o sublinhado
e quem sabe a memória do tacto.

rasgou-se um pedaço à garganta
que canta mar
e já só cruzado
entre o resto que falta ao tempo
desalinhado assimilei:
perdi-lhe o rasto.

sempre dia

hoje foi dia
de encontrar outro corpo absorto

cuspia latim
revirava os olhos 
intercalava com lieder de schubert
e tinha convulsões de justo

não me acrescentou
à nudez
mais olhos
nem mais florestas
nem mais corpos a contemplar corpos

outro dia
e debaixo daquelas árvores
um outro nosso rasgo de céu

segunda-feira, 15 de julho de 2013

não creias no habitar das ninfas [aforismos]

[explora esse vazio
e torna-o teu.]

as águas já sobem pelos ombros
e o místico prazer do afundar
a revelar-se tão certo.

abro os olhos
e o fundo do oceano tem as cores
deste tecto de chão.

é de braços a enterrar
envergaduras mais densas
que o término vem.

sopra o seu caiado branco
para invocar à boca os dentes
contra um último sol

o baptismo de nariz tapado
e nuca dormente.
visceral este apego inteiro

ao tacto aquoso
do esquecimento.
juro por minha vida

que o retrato de ofélia
dança nos olhos
daquele ainda triste rio

porém já tão seco.

domingo, 14 de julho de 2013

circulação

cai com o seu som permanente
de cascata

inflama-te o peito
desaparece

deixa a porta aberta
e o chão a ser tela

de um sol mais cor de
algures. um outro inverno

a eclipsar nova esquina
a ser fluxo mancha

de ar mais fino.

//

vê como é belo
o pender de mão só
num adeus
feito para saber
a nada.

sábado, 13 de julho de 2013

o defeito das ascensões lentas [aforismos]

[o defeito das ascensões lentas
é estarem perfeitas para nós]

crio um rebento que vem
nascer cego à minha boca.
será o cuco do relógio tanta espera
tanta fadiga a pesar-me nas costas
e ainda agora são três da tarde
e eu sou novo de mais para queixumes de cinco
horas com chá e torradas
a verter plácida manteiga sobre o traço amarelo
da canícula dos dias secos.
fico estupefacto como
tudo refulge tanto sem coros nem catedrais
para me ameaçar a crença.
vês como és pouco e isso te basta?
ou nem tanto
o mundo progride e eu sinto o assento do autocarro
colado como quem diz
saio na próxima
mas agora já estamos nos prazeres
e aqui acabam os eléctricos e as almas dos poetas
por isso saio a custo e vou estender-me
num vazio mais ledo sobre a laje
desenhada a fio de prumo com vectores de cometas
a minha degustação de sexta-feira
o meu não me crer
a pintar retrato de fachada
a ser vento assobio de gaivota abandonada
betão armado desta cidade feita em bloco
este meu bocejo alaga as colinas
vence os montes com a sua ironia sacralizada
e morre sem dedicatória dos netos queridos
e familiares para sempre na nossa memória
e nos corações de seus fiéis amigos e companheiros de armas
e de letras [como se não fossem uma e a mesma coisa]
este recitar de epítetos que não me chega
às unhas principiadas em terra húmida como escura
destas lágrimas de sal sem nação
nem mensagem nem comoção.

o dia é belo e desaparece
também o rosto dos poetas
também isso se esquece.

tremores dos pequenos lagos I

o que eu te der
desfá-lo em madrugada

as mãos vazias
a chamarem-se a si mesmas

veio cego fundo
poço negro corrido

até ao outro lado do mundo
a procissão com banda a ré

senhor dos passos
dos golpes lambidos pelo vinho

o sentido cai sozinho
o sentido ajoelha primário

atira-me à cara o meu fim
este véu de santo sudário

sujo da contemplação
com que me queimo.

o canto nu és tu
meu crer de relicário

o meu sentido é o azul
entre os pés recortados
contra o chão do outro lado.

//

e tudo isto finda
são as tuas mãos de novo

a esvoaçarem na manhã como
o reflexo perturbado sempiterno

a sorte negra das palpitações resilientes
esses tremores fugazes dos pequenos lagos.



sexta-feira, 12 de julho de 2013

uma mão desembaraça-se da outra

crio em mim o próprio cume
e rasgo-o ao incidir nele
o traço descontínuo da noite

um rio verte noutro

e num halo quente
creio-me ressuscitado
a terra abriu um parêntesis

uma língua entala a outra

e este fluir vermelho
dos nossos olhos de encontro
à boca. como lhe chamam?

um velho morre sobre um outro

como se passeasse em domingos perdidos
da outra estação. a praça vazia
com ponto de fuga cego

cai e mente
abate o mármore das lajes
no poema

e eu bebo-o
arranco-lhe os dedos de uma mão
corto-o com a métrica

a silábica gente que me promete
o vale em água permanente
não me conhece

eu também não.

o adeus aos gelados

cabe-me relembrar
que não
as ondas de manifestação
da incandescência das horas
não têm fim.
e que procurar
o término dos ponteiros
a lâmina aguçada de uma agulha
a findar a recta que fundou
o horizonte
já tudo isso não tem
explicação
e que a determinação a tê-la
é um nado-morto falho
uma bíblia genuflexa
ao senhor do sem sentido.

cabe-me a mim dizer
aos transeuntes
com pernas de veraneantes e sorrisos
que lhes prendem as sandálias até aos dentes
que sim
houve uma puta que pariu
meio mundo
e outro tanto
só para ouvir dizê-lo.
sai mais cara a fama que o proveito
e o dela foi deliberado
a fama já não tanto.
isso sei-o porque conheci
homens sem idade com cara de cartão humedecido
amarfanhados pelos beijos dos netos que morreram
no mesmo dia em que as memórias
e eles disseram-me que essa puta primacial
ainda nos deixara a costela quente
a voz rouca de vez em quando
e a mão apertada contra o peito
assim um pouco dormente
todos os costumes de andar coxeante
para nos lembrarmos dela
mulher soturna com cheiro de terra e lábios de lacre.

hoje cabe-me a mim
dizer que sim
que somos filhos do firmamento
e os gelados dos turistas que se derretem
são os únicos que ainda me ouvem
pois só eles sei que choram
contra o chão
a sua carne própria
moldada à pressa
para escorrer mais avessa
a víscera branda da compaixão.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

carne poética

desfiar com os dedos
as estrofes brancas
debruadas em versos
não consonantes com
o palpitar sincrónico
das línguas.

se destino houvesse
para o despir
e pintar sem zelo
como não seria
sideral este cuspir de corpo
contra o tecto em
murmúrio oco
silvo obscuro que corta a noite
para comungarmos com mais força
das dissemelhanças
da imanência.

a minha contra a tua
a minha a ser a tua
diferença.

terça-feira, 9 de julho de 2013

se o cão ladra
chama-lhe
uma memória
por detrás do contorno redondo
de um prédio de esquina

persiste
em caminhar
e não contes tão alto
com tão soprada voz
os passos

a vida é só um purgar
de línguas contra os dentes.
assemelham-se os rostos
nas janelas e nas montras
os reflexos tenho-os
um a um guardados
no bolso

e depois o que calo
também mente
e só a luz do fim de tarde
na casa de alguém
já sem nome
é a única palavra certa
que distingo
e que me respeita
a visão turva

a mente
porta entreaberta
a deixar fugir eterno
o ternário allegro da eroica
prima sinfonia
antes do antes
de todos os tempos.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

introduzione alle quattro stagioni

a sonata é instituição
e eu larguei-a no esgoto.

estendo os braços para diante
e escondo a cara
colando à mesa este grito
tão decerto horrível
mas eu nem o oiço
mas nem eu o sinto

e cuspo às janelas
aos pés dos outros
faço pontaria à menina dos olhos
e rebolo na merda aquecida
para mim ventre exausto
da expulsão
sou o corno e o cotovelo
o extremo oposto e a curva cáustica
sem medo sem medo
germe encolhido na multidão
a pregar os próprios cravos
no pulso
para ser mais de acordo com a moda e a estação.

eu amo o nojo
eu sou o nojo
e faço dele
a cópula perfeita
para desgustação.

e se apetece chorar
e beber sôfrego estas lágrimas de mijo
é só porque no fundo não me arrependo
desta carne matizada de gangrenas
apenas do céu onde parida
ela foi deixada ao sol
para ser cozinhada pelo sal dos passos
temperada pelos dejectos dos pássaros
e por fim
sumariamente
imediatamente
sem escrúpulo nem espectáculo
comida
pelos beijos e abraços
da matéria fecal da vida.

domingo, 7 de julho de 2013

passa tempo

um profundo zumbido nos ouvidos
na hora mais densa do silêncio
não serve.
não paga dívidas
não seca lágrimas
não regurgita à boca o coração.

de braços abertos
apenas cala o tecto manso em paisagens de luz
no fugaz lugar de estacionamento
onde as quatro rodas acertadas
da motriz vontade nossa
de vento
não mais revelam
as horas que são
e a cor dos olhos descerrados
frente a nós do outro lado
tão já abertos como os braços
para dar um nó menos lasso
ao corpo quente
embrulhado dentro de si mesmo
nas camadas finas
do súbito pulsar de cor de um momento.

se tudo o que digo
faz sinal subterfúgio
signo ilegal do que penso
porquê mentir?

sábado, 6 de julho de 2013

a

e disse agamemnón à esposa:
encarnaste perfeitamente a puta da vida,

[sic,
non sic]

vacuum

o tiro seco que depois se converte em carne
aspergida na vidraça incandescente
sob os rigores do meio-dia.

tem os meus olhos

dissecados
guardados

já fugazes
no bolso interior
do casaco de um estranho que cruza a esquina
e dá para outra rua
o golpe suspirado dos passos.

finos
selectos

os suores
de caminhante indefeso
sob o clarão do futuro.

agora o que me espera
é a mão frouxa
a apresentar brancos os dentes
da repleta vida burocrática
dos papéis cadentes
sobre as ruas antigas a servir
de chuva sobre a estrada.

creio
porém

que escondi o que me roubaram
fiz véu
embrulho de alma como transparência
esses recortes de jornais
endereçados aos visionários e sós
que comem da malga da loucura a eterna ração
para alimentar ossos e enxugar lágrimas
torná-las correctas
bem-educadas
privadas
serenas
compassadas
aniquiladas
pérolas sobre a mesa a acompanhar as rosas
na sua cor de murcho
no seu odor
a presença inalienável
do homem deitado sobre a própria face
no reflexo aguado de olhos
outros seus sem nome
dançantes na parede despida
os tremores próprios dos pequenos lagos
no fim de uma estação.

inicia a estação

se bem que as noites de verão
também passam.
e eu sei que o que quero
a residir fundo nos meus poros
é fugir.

ainda agora recusei
o convite igual das noites
e caminhei só em maré de rua vazia.

não sei se para saborear apenas o doce
amargo da incisão

ou se o verter de pedaços de alma
como ente só faz mais sentido
quando sobre a nossa
repousa outra mão.

outra vez manhã

apercebes-te que os sons da noite
são estes
inócuos pulsares de luz
e uma multidão de pernas para o ar
sobre o teu eixo de rotação.

e enfim segues
para casa que é caminho seguro
até te latejarem os pés
da alma com maior sangue
que veias
e no fim deitares à janela
as preocupações
feitas horas já tão velhas.

é o cantar de uma cidade
e tu não sabes bem
como se encaixa aqui a tua solidão.
deitaste por momentos a cabeça nos passeios
sondaste os pensamentos à calçada
tentaste determinar os fluxos esventrados de uma civilização
para encontrar mais frio o ouvido
seco o rugir monótono da centrifugação
dos passos em volta.

é o cantar de um corpo
e tu não sabes ainda
como findará este morto.
as teias
minúcias dos minutos mais marcantes
que se formam aos cantos dos olhos e da boca
ainda não conquistaram o perdão.
ainda são elas que sem nome se enleiam
e cruzam meladamente os nossos passos
prendem-nos contra o chão
sufocam-nos os ecos finos de um dia fresco
para nos entrarem nos ouvidos e repousar
mais sós dentro de nós.
sem elas e com elas
a solidão seria a mesma.

ouve.
o salto cai
num silêncio profundo de manhã em levante.
não foi gente
foram os teus olhos
que já voaram.
e o dia que se pressente
já não quer vingar
já nem se entende
não quer crescer e roubar
não quer beijar nem matar.
quer apenas ser dia
e se o sentido o habita
ele foge-lhe.
não quer alma
quer beber luz e quer ser findo
antes que o pressintam só
antes que lhe apertem o nó
e o tornem eterno.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Eusebius und Florestan

é um jogo de espelhos
entre o contraste já morto.
eu e tu de joelhos
face a face.
o último que cai
tem no peito a mão do outro
ou o indelével tacto da manhã.

dentro do mesmo ventre de terra
as raízes que nos deram o nome
fogem de nós
em silêncio
para sabermos que por fim
contemplar o fundo dos olhos dos outros
é tocar o selo do universo.
tão côncava a voz distante
daquele que nos deu
em véu a noite.

domingo, 30 de junho de 2013

spleen de agosto

o martelar dos dias contemporâneos
trouxe uma borracha sobre a chuva.
não houve quem resgatasse
lábios finos ternos a crescer madrugadas
mais frias mais frescas para lembrar
que o azul das tardes nas fachadas
é da cor do olhar de quem
no aperto de um horizonte
crê estar já morto como só.
o vento traz agora
esse aroma doce de podridão
e as mãos deslocam-se para dentro
descansam na base do coração.

hoje o clima altera
a dança das tílias e dos seus sonhos aéreos
de avós.
resta-me o olhar sem espelhos de casas
a trazer de volta
o eco que cai descolado da tinta fosca.
quem te cravou o anzol em tão doces olhos
e te trouxe à tona
o respirar?

e ouvir o cuspo a caminhar solto com o vento
na direcção do poente mais sujo de nós.
fora aqui neste momento
como noutro qualquer
que me apercebera o quanto caminhara apoiado
apenas e tão só na perna esquerda
já o meu andar tinha espinhos
a sola do sapato a rasura imperfeita
de uma união.

como se a noite tivesse cantos
mais tristes uns que os outros
para eu pernoitar neles da minha janela
apenas olhando de quem boceja
o tímido espanto.
ali quem nos olha?
um vulto sem corpo
um fulgor de sede em noites quentes.

queria alcançar o que toquei apenas com a mente.
se o digo desfaço-o minto-o realizo-o.
queria alcançar o que toquei apenas com a morte.
e digo-o indolente:
"tocas-me e a manhã passa sem grito".

quarta-feira, 26 de junho de 2013

ubíquo

não te escondas
e vem beijar a mão ao pai
que bateu na mãe
que gritou com a avó
que fugiu do avó
que cuspiu no genro
que fez três filhas a uma lavadeira
que as pariu e morreu à terceira
que trouxe flores no regaço
que se desfez e se rompeu no laço
que ficou triste pendurado nas silvas
que esperam no silêncio o roubo das amoras
que sujam os lábios e nos deixam a perder horas
que nos contemplam quando as contemplamos
de volta
chega-te aqui e não te escondas
vem beijar a mão e os anéis
cumprir a lenga-lenga de cabra-cega acostumada
a ter na gaveta por detrás dos lençóis
o brilho branco e fosco de espada.

terça-feira, 25 de junho de 2013

na origem de um penedo
esteve a madrugada
a germinar montanhas
para depois se cansar
e fazer de nós planície
corrida pelo vento
erodida pelo fel de agosto
que é o desabar sobre nós
assim plácido e espectante
do azul sombrio
perene traço de firmamento.
apenas vem o cheiro
e sabe-se que a casa nos reconhece.
cumprimenta-nos.
a tarefa árdua de nos deixarmos ir
pelas estradas esquartejadas
apenas para chegar e lembrar
que quando partimos
soubemos sempre que sós
chegávamos.


eu só digo aquilo
que não toco
aquilo que não sei
ainda é lápis resistente
a crescer ombro torre dentro
deste mar de enterro
e vejo-o ao longe
embrenhado no lúgubre
regurgitar de terra
esse som murmurado
de pedra e de charco
ou a ínfima porção do inanimado
o crescente da manhã
já morto abafado
o sorriso que cai e germina
veneno ou o simples
batimento de asas
a ser par de desejo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

o amor aos pincéis

e depois
se o sopro te apagar a norma
de um peso mudo
horizontal na sua razão
de te pesar mais forte
um querer de desafinação?

podia ser que amasses mais
dessa massa de terra e raízes
a jorrar o olho incerto do mundo
e depois te amasses mais a ti
mesmo sabendo que no fundo
reside o pavilhão já diluído
já evitado
a tua própria cathedral engloutie.

e se digo tu
é porque o espelho tem face
e ela somente responde
com outra carne
os mesmos olhos e jeito de boca
para disseminar o ódio sobre os lenços
postos à lapela
marca
que sai à rua e traz laranjas secas
para dizer que é hoje
que acaba a tal novela
mas a cruz de um pé mais alto que o outro
é ainda assim o que lhe queima a língua
de dentro
bifurcada.

aí não se chega
talvez não convenha
o sopro
quente vento de espanha
ou então oblívio portátil de mercearia

chego-lhe a mão que não prende
e é isso
o meu auto-retrato sem orelha
e é isto
senhores
o jeito seco de sentar nos passeios
e de motivar ao crescimento mais olheiras
por intermédio
do mascar de olhos compassados
a tricotarem formas
com nome de horas.

domingo, 23 de junho de 2013

dizei olá ao apertar de vento contra a mão

A queda tem disto.

Forças ominosas que trazem à boca
leves eflúvios de refluxo gástrico.

Mais do que isso
a sede de vómito
é a cicuta
ou a procura de um beijo permanente
colado aos lábios por força da associação de ideias
que só se unem sindicalmente por alturas
de acalmia sazonal dos ventos.

Mas não entremos nisso
porque em demasia estão escritos
os desígnios da vontade alheia como todo
socialmente díspar da titubeante
cona de uma freira em noite de s. joão
sobre a fogueira a quem há muito saltou
a tampa da paciência
não dirigindo mais palavras à agiotagem
com máscara de Pálas Atena
retirada do quadro de Poe a quem faltou
o corvo celeste. Esse já voou.

Nunca tive essa mão cheia de pundonor.
Nunca tive regatos de varandas com flores
nem disse Lisboa com os pés voltados para trás
retirado eu assim em joelhos para me benzer
ao clima meridional que tanto me atraiçoa
com carícias de suão e suores de sevícias.
Nunca tive essa razão em mim
por isso nunca a perdi.
As amizades que faço estão ao nível
das águas que só transbordam quando o esgoto afunda
plácido mais merda neste rio.
O rigor da emoção não lhe acho os traços
e se pudesse pintava a vida e mijava-lhe em cima
para lhe dar o aroma realista dos becos
covas de amor à terra que tanto me prendem
em enleios sós comigo
assim fortes
os pensamentos.

Se hoje chegar cedo a casa
(não chegarei certamente)
ainda terei tempo de escrever a minha elegia
mais sábia e completa do que as das figuras dos santinhos
com verso em reza profana
que alguém sem dentes negligenciou
no meu banco de autocarro.
Eu negligencio-me continuamente
mas nunca conseguirei virar a cara às lágrimas carentes
de nossa senhora das mãos atadas e da boca
amordaçada por tão brancos dentes.
E depois se escrever o meu altar de glória
ainda terei tempo para afogar o ganso
ou fazer chorar o palhaço
satisfatoriamente
não sumariamente
mas enfim eficazmente
para tornar mais óbvio o expulsar
contra a mão da baba-ranho deste tema
de merda que é falar na primeira pessoa
como se isso importasse tanto
como os paralelos dos passeios
que me sugam as lágrimas
e dos quais só contemplo o branco sujo
do silêncio dos mapas.
Os caminhos são rotas mais soltas
que os cabelos virginais de uma francesa oitocentista
mas isso não explica porque nos perdemos
quando o queremos fazer.

Se o senseless se tornar
marca de bronze no verão
e eu cantar odes elevadas
ao branco teto do sem sentido
talvez não me coíba assim tanto
de chorar em frente às gaivotas.
Todos devemos ter
de quando em vez
um pingo mais menstruado de contemplação
sobre as nossas testas.

terça-feira, 18 de junho de 2013

domingo, 16 de junho de 2013

ou como compreendi os pássaros Messiaen sem me tornar asa eu mesmo

escrevo à porta fechada
-minto-
a rua febril de silêncio já
-minto-
são quatro da manhã e nem sombra
-minto-
de dúvida sobre o quão sequioso
de vinho me tenho em dedos
de prosa não pensada no
declarado conforto de uma
pele doente o toque
que vem de noite dilata-se
indecente e sobe pelas entranhas
de um sol que já raia azul
no horizonte a cada esquina um amante
e um jogo de pernas em confronto
como se beijos fossem poucos
para conotar o quanto somos
sós a veia a pulsar latejante
uma dor profunda contra a almofada
suja de tinta com forma de dedos
não há quem os limpe desta comoção
de sangrarem a cada verso
a rima a ser solta voz de um lamento
que retine desafinado o intercalar
dos objectos visíveis vem este
cromatismo diluir as paredes da casa
que escorrem os retratos desossados
de vislumbres estéreis tão pouco
cheios dentro de si
da mesma sorte imediata de
recorte nulo contra a porta
eu sou a fachada e um sisudo
sentimento de espera
como saliva deslizante na boca
do copo que silva o cristal mais
denso ser puro é isto
com o que eu não me entendo
e acho que tombar de cabeça
rente ao chão tem directo passaporte
para o inferno de dentes mais
brancos não tão translúcidos
de carne avivada pela sarna
que busca os âmagos nocturnos
à existência cai morre no chão
como folha a palavra feita
gente adulta a sair à noite
e a dar-se ao fortuito acaso
de ser barrada pela mão de
um castrado e simulada
a querela entre ela e o sangue
vem quem ache mais manhãs
de sorte antes do mar
o rio nasce como se fosse
sempre velho e eu
esqueci-me de ter nome
e no entanto não sei
isso que sei
mas adormeço com as orelhas quentes
de surdez corre apenas o freio aberto
de um vago diluir de sangue
como nuvem.

Minto.


sábado, 15 de junho de 2013

vox

dei-lhe o nome
de voz
a essa mudez profunda
da pedra suja.

não mais cantarei
as passagens límpidas de Bach.

hoje nova arquitectura de sons
novo pulsar de fumo.

reverberação dos cristais
a incidir nos espaços foscos
desta floresta-carne
que tanto chora espinhos
a crepitar à constância das horas certas.

arranquei da razão a corda
sensível como flor dormente

escondido no ventre deste muro
o meu querer calcário brota o rochedo

corpos celestes em movimento
e a sua sinfonia acrítica 
a espaçar os compassos mais solenes
deste olhar de árvore 

sem nervo-sangue
tudo o que respiro

cai e é estanque.

A desnecessária compleição da fuga

Fugimos
com os dedos entrelaçados
e assim finda mais uma história
que só soube ter início
num quadrado de estática
a relampejar
decadências
dos amores que não se têm.

Efectivamente
não se têm
e não sei até quando persistirei na ideia
de que mais vale um iluminado
jogo de cabra-cega com
as mãos atadas
e o baixo-ventre aquecido
esfregado
explorado
esvaído
antes isso tudo criado
na mente de um demónio ateu
antes isso tudo
do que tudo isso invertido e feito
vida a três vozes
a estabelecer o tema
a resposta a dominar
e o contra-tema que justifica
o haver palavras
para as dizer
e só isso mais nada
serve o bastante
para qualquer dia agarrar em mim
em nós dois
em nós três encostados uns aos outros
apertados dentro do punho de deus
para subitamente
ficarmos sem ar que é coisa
terrena
e sem corpo que é coisa
etérea.
pode ser que assim acabe por se consubstanciar
o espírito na carne e a carne no espírito
e por fim soe a nota pedal
tão solta na sua latência
rígida mas tão independente
como um acto de beijo roubado
ao próprio
que se sabe presente.
Soa a coda final e é o adeus ao tempo
em que juntos cruzámos
mais mar que outro sentido
para achar na terra própria
do nosso umbigo
aquela aspiração a ser doente
aquele frio de espinha a ser cal de muro
contra o tempo de verão com sol
tão inocente.
pode ser que chegue a hora em que atire
os recortes de precipício entre as fotografias
para a garganta
e os engula com satisfação de leigo.
há tanta coisa que ainda não sei
e que só me arrependo.
como não matar com a febre mais funda
com o doce impossível sibilar das manhãs
esta tão vil perfumada serpente?

terça-feira, 11 de junho de 2013

quando pousares frouxo o dia
já seco na tua mão
aspergido o suco
por meio dos cabelos
tão sordidamente delineados
a meio do chão

e a massa toda de um vazio
te circundar os olhos
como fundo
se cava o rosto
entre os joelhos
tão já sem nós
de dedos velhos

e quando no total
de um relógio de bolso cego
se desenhar o fio
mais tardio do firmamento
saberás Job
que nulo cala o que em nós
trai o vento.

não terei tanta terra assim
a preencher o palmo
oblongo desta esfera
de fim.

sábado, 8 de junho de 2013

8-VI

ridículo
inverter a rotação dos pés
multiplicá-la pelo crescente das mãos
acabando por adormecer
enforcado ao fundo da cama.

tanta posse
de luz matinal
para descerrar abertos dentes
à maré tão vaga das terças-feiras.
um anonimato cantante
vem embelezar
os pitorescos cantos trincados
a tempo de espelho.

mas
adormecido
saio mais cedo do que o habitual
ou puxo dos óculos de ver bem no escuro
para atravessar as dores de pés
com mais hábito
de sopro jovem.
penso no quanto terei que andar
e desisto

que se foda o pensamento.
venha a conversa entretida à esquina
atirar os bons-dias
já sem esmalte.
resta o róseo dos mármores
a eclodir nas nuvens as gengivas
e uma mão aberta de chuva tardia
a pedir ainda esmola.
não se trabalha
e já é meio-dia.

falsa partida

nada disto te acompanha tão bem
como o cinzento plúmbeo
das sete da manhã.

evita os precipícios aguados
poças de entrada
para o sentido

e guarda uma foto
num bolso interior do casaco
em recorte de suicídio.

terça-feira, 4 de junho de 2013

5-VI

não te peço manhãs novas
pousadas sobre o meu rosto.
não sei ser outra vez
muro de cal em pedra
já tão gasta a sombra
de um silêncio mais
fresco.

talvez um dia te acolha
entre as mãos um desejo
de nova aurora.
não porém agora
que o dia se despe
e solene se contempla.
efeverscência alada
a borbulhar nas minhas mãos
acordo às sete
com um par de melros ao ombro

domingo, 2 de junho de 2013

perda de uma estação

olham-me as estradas
já sem pressentimento de pés
nus a desenhar
pedras na saliência
irregular da perda
de uma estação.

foste-te
com o sol
como as pessoas que recolhem
assim chega a hora
mais horizontal do porvir.
levaste os teus olhos num bolso
interior
para eu não lhes notar o peso
diário
frente às lojas tão espaçadas
até já vazias.

o meu sentido dormente
de raiz
já não fura até aos lagos mais fundos.
fica-te pelo ruçado dos tapetes de casa
tão macios que óbvios não se lhes pede
mais silêncio
que um leve jeito de estar
rendidos à tua espera.

eu prosseguirei
histórias deixadas a meio
e desta vez terei fósforos que bastem
suspensos na carteira.

sábado, 1 de junho de 2013

a morte é a alma do poeta

Nem sempre saiu assim tão escorreito
este meu tempo de perseguidor barbeado
de solstícios.
vem ajudar a isto um novo aroma anunciado
a iogurte na mercearia
ou a gaivotas no rio
tão eternamente fixo com essa pele nova
de cada dia.
parece portanto que o mundo se recria
para oferecer a nesga de uma coxa
a visão furtiva de um pintelho
e eu sorrio complacente
com tudo achando que é só para mim
este strip em solo
sem atiçar qualquer plebeu fogacho
maior que a calma de maio.

cavaram-me no cérebro
o meu tempo de auroras
que agora se derretem
instaladas nas narinas
para eu pensar que bolas!
como é boa a puta da vida
quando se está nas drogas!

pumba! murro nesse rosto
tão sem óculos e ainda
assim tão
maldisposto.
mereceste velhaco
por te insinuares
cão arfante ao cio
da lira.
ninguém crê em gente como tu
sentado nos cafés às horas mortas
para ter mais visão de vazio
nas cadeiras
e apreciar as pernas
já tão tortas da dona
que traz a bica e o copo cheio
do cloro dos teus olhos
tão aquosos de si por natureza
que nem precisam de folha e caneta
e de vento a repicar as horas certas
para manifestarem tão inteira pena de mundo
tão flamejante prurido das coisas.
as virilhas assadas
deveriam também servir-te de lição.
não se fabricam poetas sem antes
lhes cortar da língua as amarras
memórias testiculares tão carregadas
da vontade de emprenhar a fama nos becos mais sujos
e consagrar-se no prelo já
alma nacional por todos laudada.

um dia ruiu a casa
à rua dos poiais
ficou só a fachada.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

fim de tarde

este era eu à espera que passasse
o comboio autocarro chorrilho
de palavras que sublimes te saltavam
por entre os lábios em fuga
de perdigotos em geral a vida
são frescuras destas ao fim dos dias
um cansaço cego a dilatar a menina dos olhos
para te dizer fecha
encerra a loja
põe sobre a sobrancelha a tabuleta
arreda o risco do cabelo para o lado
e cava um túmulo
arruma-te na mortalha do teu airbag
sai de manso do éter do escape
para subires a passadeira
adeus
vida tão soalheira
tão prontos a acabarmos
as vírgulas em pontos finais
cortando-lhes as asas
apêndices fragmentários de jejum das bocas
só tudo isto para aparecermos nos jornais
das oito a abrir com voz colocada
que se ouve em freixo-de-espada-à-cinta
ou no frouxo tímpano que canta
cala
esse fim de tarde que tem o corpo suado
amalgamado colado à camisa
já nem se denota a diferença
dos quadrados ou da pele
feita quadrado prensa
na mesa.
olha para mim
folha não assinada
pastilha subversiva
no esconderijo dos teus dedos
surpresos.
não te sentasses
não te apertasses contra os objectos
para te teres mais
como coisa omnipresente.
acabaste o discurso
e o meu vómito
soou sobre a fachada
de uma casa que não merecia
afago em jacto tão quente.