sexta-feira, 11 de setembro de 2015

IV

antes que te diga
três pancadas na nuca
um exame à consciência a alma nu
a cunha da porta a bater na testa
o repente e somos gémeos
irmãos da mesma cepa
guilhotinados sem troco
acordados para a vida eterna e isto é já de tarde
antes que te diga o que devo
vem a morte pela certa
o ser isto e de repente um pouco mais nada ainda
há-de faltar palavra
juro que há-de mais tempo haver que corra
debaixo da língua que procura
nesta forma dizer o que de outra apenas sabe
chego-me e antes que te diga
há não ter eu estado lá para me chegar e dizer
pensava nisso em casa como se fosse
coisa de pensar
apenas para perder algum comboio
ou a soma desgovernada dos meus passos
na direcção do que
não há antes
há não ter dito nada e se morresse
(acabavam-se os poemas)
et in terra pax hominibus

agora a sério

perdi-me na conversa
dois dedos cortados a meio como
fome de inspiração
mas outras coisas sempre outras coisas
a pairarem na nuvem dos olhos
não me chega o arrependimento
dos crimes que nem pensei
chega-me só ouvir gente a passar na rua
fingir que isto aqui um café ali
uma cidade que ainda treme
como fogo posto a uma hora certa
dentro do espectro de uma testa comprimida
há um sinal de cuspo no chão
nódoa de gordura sobre a mesa
barata ínclita a escalar as pernas da consciência
e eu a sentir o descolar dos ossos sob a carne dizendo
ontem foi hoje para não ser nunca isto aqui
falando a sério
há um sistema de narração do ódio
que ainda não foi descoberto
outros há que se agarram à faca
mas nada como o fingimento e o abatanado
a prole socializada e o parque do supermercado
enfim as coisas bonitas
enfim as coisas bonitas



 

sábado, 5 de setembro de 2015

III

emparelhando a verdade nua e crua com bolinhos
considere-se:
podia ter morrido há já muitos anos
os sítios que nunca vi podem até nunca ter existido
saber os nomes das coisas apenas ajuda a esquecê-las melhor
coisas sinceras destas até aquecem
até forram o estômago dos pobrezinhos
dão a esmola que devem dar e depois vão-se
para mais um ano de travessia pelo deserto das ideias
e é passando assim um bom bocado em conversa de circunstância
cruzando a perna ou colando os joelhos
um ao outro o sangue espesso fazendo o contacto certo
por debaixo da pele como se nunca antes sentida
a carícia do sossego
é desta forma que se enganam as tardes
e enganar tardes é a suprema exigência da etiqueta
pela salubridade mental das casas
pela higiene sã dos lavabos e das psiques
a lotaria do desespero só calha mesmo a quem não cuida
do seu quinhão de justo cemitério.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

II

a arte de levitar fogos
florestais carpidores de
cônjuges mortos
os eternos
de mãos dadas quando cai
dentro deles
a casa o túmulo
com três quartos e varanda
para dedos empestados numa trança
a eterna
fica-se a saber no obituário
há um monte em chamas
lá dentro
houve quem voasse longe
sobra só o peso dos beijos
para marcar o lugar
um aroma a defuntos
sob a buganvília um assunto
pendente o queixo aberto ao fotógrafo
o verão passado em cascata
mas já nem esse peso
se voou se voou
a casa levitada no fogo
a falta de molduras
fazendo horror muito grande
não haver quem aqui visse sequer
arder fogo algum