no fim de contas
já caminhámos de mais
esmagámos sem pudor
o sentido intenso das coisas
por isso é bom descansar
onde morra uma sombra de árvore
mais silenciosa.
terça-feira, 22 de julho de 2014
sábado, 19 de julho de 2014
se pudesse ajustar contas com os ponteiros
diria:
aquela hora. aquela
hora em que acordei demasiado cedo.
ainda sem fome. ainda sem medo.
ainda só o meu corpo
a rondar as janelas para um tempo mudo.
uma chuva a ameaçar
um caminho dentado enorme de dias
só de manhãs.
um meio corte nos dedos
frouxos das meias horas
feitas só de um resto
de um vício de um canto de prato
de um tapete de cigarros mal apagados
fendidos no ponto mais correcto.
a fulminar a humidade dos passeios
pés tortos perdem-se enquanto
são só sete e pouco e ainda ninguém vê
a cara triste medonha dos prédios
à pinha de sono cinzento.
este estranho nojo sem estômago
sem lábios nem olhos encaixados
esta forma de dizer bom dia às coisas
mais silenciosas
que preparam uma digestão rouca de caminhos
por findar.
este ritmo de monge cego
que lambe com o vagar certo
a secura doce e tremenda
da sombra dos espinhos.
diria:
aquela hora. aquela
hora em que acordei demasiado cedo.
ainda sem fome. ainda sem medo.
ainda só o meu corpo
a rondar as janelas para um tempo mudo.
uma chuva a ameaçar
um caminho dentado enorme de dias
só de manhãs.
um meio corte nos dedos
frouxos das meias horas
feitas só de um resto
de um vício de um canto de prato
de um tapete de cigarros mal apagados
fendidos no ponto mais correcto.
a fulminar a humidade dos passeios
pés tortos perdem-se enquanto
são só sete e pouco e ainda ninguém vê
a cara triste medonha dos prédios
à pinha de sono cinzento.
este estranho nojo sem estômago
sem lábios nem olhos encaixados
esta forma de dizer bom dia às coisas
mais silenciosas
que preparam uma digestão rouca de caminhos
por findar.
este ritmo de monge cego
que lambe com o vagar certo
a secura doce e tremenda
da sombra dos espinhos.
terça-feira, 15 de julho de 2014
quinta-feira, 10 de julho de 2014
terça-feira, 8 de julho de 2014
sábado, 5 de julho de 2014
três andamentos para um chevrolet
I.
lacro-te os orifícios com a seiva fleumática
do espaço inacabado do teorema.
o poema acaba mal
começa pior.
uma falange no recto
modo de dizer
tu contra um parapeito de rio sem centro
em saudação à Lisboa antiga das calças coçadas
de dentro dos seios ilustres de fora
das noctívagas reentrâncias
do martírio dos teus lábios
em repouso contra o envidraçado do tempo
em que eras só o encontro de uma mão solitária
contra o sono circunflexo do seu bolso.
cometas assoberbados pelo desejo
lambemos a angústia que finda a estrada.
essa fricção inerte de pedra na língua
ante o brocado do canto.
um dia só de sol e marmeleiros
nos quintais fechados do teu último vinco
tão de frio. tão de tudo inverso.
hei-de te chegar ao estigma
a mão contorcida em ventosa de pó
ascético. a vida ela mesma uma unha
cravada na solidão rítmica
de um beco em condensação. como a noite
perseguindo-nos. e nós tendo nisso
a certeza de ser chão
superfície cosida à pele rectilínea
da tua perna enlaçada em cruz. se o silêncio
me fosse boca para estagnar
a tua membrana de cigarros circunspectos
a tua crina de cinza no chicote da madrugada
a tua voz de fundo de anil gritante
nos dias de trepidação mais densa.
parimos o desejo de sermos filhos das guerras
de cumprirmos as três pestes entre as pernas
mas em vão
desenha-se um arco diante da janela empoeirada
do quinto andar sem sonhos dos teus olhos.
é uma tarde num fuso correcto.
e sobra em nós a tal estranheza de mão que raspa
o tecto de cal silencioso dentro
de um crânio em brecha.
II.
dizer tudo para te
magoar um dia passado em frente à costa.
descer-te dos punhais azulados
dos cafés só cheios de gente
calada em verso.
um lençol de espelhos
brilha nos cantos mais húmidos
dos teus lábios limpos à pressa.
demoram-se por aí
nesses sítios mais de som
os habituais clientes carnais
dos fonemas.
III.
a extensão límpida do teu corpo
em marejado sorriso aberto
quando a última porta se fecha
e caem sem significado os três últimos
acordes sobre o espectro ausente
das nossas caligrafias de animais sem céu
para onde gotejar
quando houver um fim.
a vírgula infinitesimal a cerzir um segredo
junto aos nós da garganta
concretamente abandonada aos uivos róseos
do teu cheiro pulsante de rua que amanhece e se despede.
na minha ideia cresceram
as mais longas hespérides
desde que o sol abrasou a tua queda
as mais nítidas extensões
abrasivas dos dedos à tua passagem
dentro dos comboios em horas de ninguém.
este espaço que falta
ao ar cuspido da manhã
suspenso.
este frio só teu
do lago gigante da tua boca
encaixada na lâmina do pavor
desfaz-me o feixe alado
dos dias em corrente crepitante.
no fim nunca saberei o que de facto digo
apenas por te crer
mais do lado da música
rotativa dos astros em queda.
o terramoto de uma flor em chamas.
a contorção cega
dos rostos. das montanhas.
lacro-te os orifícios com a seiva fleumática
do espaço inacabado do teorema.
o poema acaba mal
começa pior.
uma falange no recto
modo de dizer
tu contra um parapeito de rio sem centro
em saudação à Lisboa antiga das calças coçadas
de dentro dos seios ilustres de fora
das noctívagas reentrâncias
do martírio dos teus lábios
em repouso contra o envidraçado do tempo
em que eras só o encontro de uma mão solitária
contra o sono circunflexo do seu bolso.
cometas assoberbados pelo desejo
lambemos a angústia que finda a estrada.
essa fricção inerte de pedra na língua
ante o brocado do canto.
um dia só de sol e marmeleiros
nos quintais fechados do teu último vinco
tão de frio. tão de tudo inverso.
hei-de te chegar ao estigma
a mão contorcida em ventosa de pó
ascético. a vida ela mesma uma unha
cravada na solidão rítmica
de um beco em condensação. como a noite
perseguindo-nos. e nós tendo nisso
a certeza de ser chão
superfície cosida à pele rectilínea
da tua perna enlaçada em cruz. se o silêncio
me fosse boca para estagnar
a tua membrana de cigarros circunspectos
a tua crina de cinza no chicote da madrugada
a tua voz de fundo de anil gritante
nos dias de trepidação mais densa.
parimos o desejo de sermos filhos das guerras
de cumprirmos as três pestes entre as pernas
mas em vão
desenha-se um arco diante da janela empoeirada
do quinto andar sem sonhos dos teus olhos.
é uma tarde num fuso correcto.
e sobra em nós a tal estranheza de mão que raspa
o tecto de cal silencioso dentro
de um crânio em brecha.
II.
dizer tudo para te
magoar um dia passado em frente à costa.
descer-te dos punhais azulados
dos cafés só cheios de gente
calada em verso.
um lençol de espelhos
brilha nos cantos mais húmidos
dos teus lábios limpos à pressa.
demoram-se por aí
nesses sítios mais de som
os habituais clientes carnais
dos fonemas.
III.
a extensão límpida do teu corpo
em marejado sorriso aberto
quando a última porta se fecha
e caem sem significado os três últimos
acordes sobre o espectro ausente
das nossas caligrafias de animais sem céu
para onde gotejar
quando houver um fim.
a vírgula infinitesimal a cerzir um segredo
junto aos nós da garganta
concretamente abandonada aos uivos róseos
do teu cheiro pulsante de rua que amanhece e se despede.
na minha ideia cresceram
as mais longas hespérides
desde que o sol abrasou a tua queda
as mais nítidas extensões
abrasivas dos dedos à tua passagem
dentro dos comboios em horas de ninguém.
este espaço que falta
ao ar cuspido da manhã
suspenso.
este frio só teu
do lago gigante da tua boca
encaixada na lâmina do pavor
desfaz-me o feixe alado
dos dias em corrente crepitante.
no fim nunca saberei o que de facto digo
apenas por te crer
mais do lado da música
rotativa dos astros em queda.
o terramoto de uma flor em chamas.
a contorção cega
dos rostos. das montanhas.
terça-feira, 1 de julho de 2014
a eventualidade
da tua pele trespassada pelo comboio das seis e meia.
apenas um torpor macio contra o vidro da tarde
ainda a meio.
não sei porque te procuro entre a cinza
dos dias cansados de ser verão.
talvez a sombra de um teu não estar
- lençol nítido de pedra sobre o rio -
seja apenas nos meus olhos. num meu
acordar mais cedo do que devia. sempre um
chegar antes
do grito dilacerante das embarcações
antes da sentinela ausente das marés
contemplando a liquidez calada dos bancos
infectos de sono
infectos de sono
enquanto esperam o próximo feriado
para não vir gente.
se te odeio é porque
a tua carne em espelho só sabe
devolver-me a ternura e a estranheza
da minha boca cravando os dentes
os ásperos ossos caninos sem rutilância
por dentro dos cimentos.
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