não te vou chamar uma sexta-feira
um dia longo de mais para poder absorvê-lo
um nunca acabar de frases como a tarde a ser hora
sobre hora a tecer tempo de espera para
um último salto animal sobre a terra
escreverei sempre quando me faltar tempo de escrita
quando uma ideia prematura tiver morrido
quando caminhar em oblíquo na cidade
e os meus pés digam apenas já chega de tanto
querer ter sextas-feiras
longuíssimas um dia madrugada outro dia
porque o belo é o rastilho perfeito
é a rua dobrada em esquina e eu cá
quando me lembro de percorrer de tanto
em tanto pés a calcar a cara oblíqua desta cidade
como chegar a casa e um corte de luz
manhã em espelho um pequeno sopro de janela aberta
e a agonia do sincero
porque o belo é o silício perfeito
e tenho as mãos em sangue não já agora só coágulo
e seco o corpo numa cama que lateja cumpre
o que lhe prometeram um dia renda a renda
uma casa nova um sistema de vizinhos e regas
sem oscilações e de facto tudo é
um joelho a gritar e um basta
até termos a idade que os outros nos dão de cara
o que me disseram foi antes de mais nada
vais e guardas a tua vida como se fosse
a tua vida mas eu vim para andar pelos passeios
sem os ombros de ninguém contra os meus
a fingir que vida era isto e que tinha dentes e siso
e que andava porque o destino era certo e andar
era só um passo atrás de um
tempo atrás de um passo quanto mais
isto que demora uma tarde inteira
um dia longuíssimo um fim-de-semana
que já passou e que veio depois sem aviso
para poder absorvê-lo três vezes
das três nem lhe notei o rosto foi apenas isso
algo que teve início antes de mim e termina
talvez quando já não tiver palavras
durante o dia longuíssimo enquanto ao olhar para as janelas
eu ali sem nada que te diga de novo
sem um dia longuíssimo à minha espera porque
toda a espera este banco e esta janela e um tempo novo
lá fora diante e em frente e sem nós dentro.
sábado, 20 de dezembro de 2014
quinta-feira, 18 de dezembro de 2014
mescalina na menina
come a pasta dentífrica pequena
pérola ou o tamanho dos dedos
em noz e súbito a garganta cheia no goto
engasgado às avessas come-se a si
assim abre-se espreme-se engole-se
deixa-se verter sobre a nódoa na roupa escura
besunta-se na cara caso lua ou vermelhidão
e deixa o número junto às calças
como quem conversa a pequena
noite vai de alças e mostra ombros
em peito singela mas de recheio neutro
sabemos que nos rouba a pipa
digo o coração essa enchente de gás butano
desconsiderando a permanência de algum
vinco ou lassidão arroxeada e umas areias
pouco grossas junto aos rins poucas mãos
para lhe dar altiva a que come
a noite toda só olhos esgazeados
a espremer a pista de dança e leva
três de encomenda o júri decide-a boa
santa porque hoje ainda faz aquele tempo
de quarentena e quem sai come
e quem sai esfrega sal nos olhos
e quem sai tem pão de manobra na boca.
pérola ou o tamanho dos dedos
em noz e súbito a garganta cheia no goto
engasgado às avessas come-se a si
assim abre-se espreme-se engole-se
deixa-se verter sobre a nódoa na roupa escura
besunta-se na cara caso lua ou vermelhidão
e deixa o número junto às calças
como quem conversa a pequena
noite vai de alças e mostra ombros
em peito singela mas de recheio neutro
sabemos que nos rouba a pipa
digo o coração essa enchente de gás butano
desconsiderando a permanência de algum
vinco ou lassidão arroxeada e umas areias
pouco grossas junto aos rins poucas mãos
para lhe dar altiva a que come
a noite toda só olhos esgazeados
a espremer a pista de dança e leva
três de encomenda o júri decide-a boa
santa porque hoje ainda faz aquele tempo
de quarentena e quem sai come
e quem sai esfrega sal nos olhos
e quem sai tem pão de manobra na boca.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
que tu me digas
o riso ferve-me nos lábios
e o corpo todo treme contra ti
fascínio oblongo da tarde desnuda
em que eu peço
que tu me digas
o incesto das árvores o ridículo
que somos nós uma aventura
aberta ao destino de ser semana
cheia de trabalho mas pelos
teus dentes digo a espera
digo que me aguento
digo que falta muito até sermos gente
nobre e sincera
para um dia debaixo de uma pedra acharmos
o que quero
que tu me digas
um resquício de saliva nos teus lábios
já não digo
nos teus dentes
e a minha loucura nessa saliva
por dentro já não digo
como dantes quando andava pela cidade
o passo vivo e carente mas tu longe
onde ainda não te sabia a dor do corpo
um mundo abjecto e o meu estilo
de dizer um não antes do pés e um sim
como quem pede para andar rastejando
numa lamúria indecente para quem já tem
a idade do mundo numa pressa brutal
de escrita idónea porém bárbara e alcoólica
perdoa-me as vestes e o signo
perdoa-me a casa e o que me minto
perdoa-me os dias e não ser janeiro
e não serem os teus olhos primeiro
depois a pele e talvez um rosto e as palavras
que vêm desse rosto directas e só para
o ponto exclusivo na parede que tanto aprecias
a cabeça a prémio não
a tintura de iodo a prémio
os meus órgãos apertados contra o espelho a prémio
um crescente do dente do ouvido a sério
e um prémio
querer morrer antes de todos os que já morreram
para não deixar rasto o acolhimento dos ossos
a aspereza do meu trato
tu
janela diáfana
e rimos porque tu nada disso
tu um nome antes de haverem nomes
mas quando olho nada
nem sombra nem cheiro
e tantas cadeiras por encher no recheio
por sentar por dentro por amar por dentro
como se hoje fosse sempre a primeira
vez que eu dissesse tu
e tu as costas abertas
ao som do meu
não antes de te amar
não antes de te sonhar um rosto e medo
por favor diz-me
uma manhã e que isso acabe
e que o texto acabe as palavras o sentido e
o poema no topo disso seja a rasura da memória
o esquecimento a casa nova o betão por cima
e saliente não saliente
apenas chão pisado
a mão óssea corpo velho e mudo
mais que tudo um ritmo
e fechado.
o riso ferve-me nos lábios
e o corpo todo treme contra ti
fascínio oblongo da tarde desnuda
em que eu peço
que tu me digas
o incesto das árvores o ridículo
que somos nós uma aventura
aberta ao destino de ser semana
cheia de trabalho mas pelos
teus dentes digo a espera
digo que me aguento
digo que falta muito até sermos gente
nobre e sincera
para um dia debaixo de uma pedra acharmos
o que quero
que tu me digas
um resquício de saliva nos teus lábios
já não digo
nos teus dentes
e a minha loucura nessa saliva
por dentro já não digo
como dantes quando andava pela cidade
o passo vivo e carente mas tu longe
onde ainda não te sabia a dor do corpo
um mundo abjecto e o meu estilo
de dizer um não antes do pés e um sim
como quem pede para andar rastejando
numa lamúria indecente para quem já tem
a idade do mundo numa pressa brutal
de escrita idónea porém bárbara e alcoólica
perdoa-me as vestes e o signo
perdoa-me a casa e o que me minto
perdoa-me os dias e não ser janeiro
e não serem os teus olhos primeiro
depois a pele e talvez um rosto e as palavras
que vêm desse rosto directas e só para
o ponto exclusivo na parede que tanto aprecias
a cabeça a prémio não
a tintura de iodo a prémio
os meus órgãos apertados contra o espelho a prémio
um crescente do dente do ouvido a sério
e um prémio
querer morrer antes de todos os que já morreram
para não deixar rasto o acolhimento dos ossos
a aspereza do meu trato
tu
janela diáfana
e rimos porque tu nada disso
tu um nome antes de haverem nomes
mas quando olho nada
nem sombra nem cheiro
e tantas cadeiras por encher no recheio
por sentar por dentro por amar por dentro
como se hoje fosse sempre a primeira
vez que eu dissesse tu
e tu as costas abertas
ao som do meu
não antes de te amar
não antes de te sonhar um rosto e medo
por favor diz-me
uma manhã e que isso acabe
e que o texto acabe as palavras o sentido e
o poema no topo disso seja a rasura da memória
o esquecimento a casa nova o betão por cima
e saliente não saliente
apenas chão pisado
a mão óssea corpo velho e mudo
mais que tudo um ritmo
e fechado.
sábado, 6 de dezembro de 2014
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
como se esta mão
esfera armadilhada
os dedos em garra
prendesse o teu pescoço
tu um terraço e a roupa
a estalar por dentro
dobrando um sol branco
e um linho morno
a tua pele presa às grades
os teus dedos armadilhados
nos meus uma trança solta
somos vento e descemos
a gravidade a latejar-te o colo
e gritas a manhã nos teus brônquios
o peso da água na roupa
ainda não hoje não
um sol ténue tu do outro lado
onde sobra um lago enorme
e o teu cheiro na roupa violenta-
mente um nome estalo na cara
contra a parede no terraço
o prédio um braço e outro prédio
para te ver num sítio onde não há
a tosse o sangue e o ferro na boca
as costas da engomadeira as tuas mãos
finas lanças rasgando a roupa
armadilhada contra o peito e negra
suja de tanto tempo onde
um almoço e saio tarde
como se tivesse pressa
não tenho e tu um lençol ao meio dia
o terraço deserto.
esfera armadilhada
os dedos em garra
prendesse o teu pescoço
tu um terraço e a roupa
a estalar por dentro
dobrando um sol branco
e um linho morno
a tua pele presa às grades
os teus dedos armadilhados
nos meus uma trança solta
somos vento e descemos
a gravidade a latejar-te o colo
e gritas a manhã nos teus brônquios
o peso da água na roupa
ainda não hoje não
um sol ténue tu do outro lado
onde sobra um lago enorme
e o teu cheiro na roupa violenta-
mente um nome estalo na cara
contra a parede no terraço
o prédio um braço e outro prédio
para te ver num sítio onde não há
a tosse o sangue e o ferro na boca
as costas da engomadeira as tuas mãos
finas lanças rasgando a roupa
armadilhada contra o peito e negra
suja de tanto tempo onde
um almoço e saio tarde
como se tivesse pressa
não tenho e tu um lençol ao meio dia
o terraço deserto.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
como assim o silêncio
como assim essa enorme falha
esse corte de orelha a orelha
esse risco indefinível de loucura
que tesouro e que sentimento
como assim o silêncio
e a palavra perfeita
e o ouvido que a escute perfeita
e o som perfeito que essa palavra desenha
cruzando o sangue dos ribeiros
e abrindo a corrente às manhãs ainda
em sono como assim
um intervalo um interregno e um início
um poço e um dos meus olhos no fundo
como falar disto sem língua semelhante
e ainda a corda presa pelos dentes
sem dentes
nós de dedos esculpidos a fogo e uma lágrima
oca depressa de repente como
a palavra digo a vida
que nunca vem queimando rápida
um vapor breve de segundos e passou
e eu não estava em casa naquele momento
a corda acabando sei lá onde
por entre mil e um tectos
mil vezes perscrutados sem nunca
um único sopro ou semblante
lembrando
como assim o silêncio
à noite o silêncio às quatro onde nunca chega a ser dia
o silêncio no sofá uma cova no seu lugar e quieto
apenas
resposta porque nunca dúvida.
como assim essa enorme falha
esse corte de orelha a orelha
esse risco indefinível de loucura
que tesouro e que sentimento
como assim o silêncio
e a palavra perfeita
e o ouvido que a escute perfeita
e o som perfeito que essa palavra desenha
cruzando o sangue dos ribeiros
e abrindo a corrente às manhãs ainda
em sono como assim
um intervalo um interregno e um início
um poço e um dos meus olhos no fundo
como falar disto sem língua semelhante
e ainda a corda presa pelos dentes
sem dentes
nós de dedos esculpidos a fogo e uma lágrima
oca depressa de repente como
a palavra digo a vida
que nunca vem queimando rápida
um vapor breve de segundos e passou
e eu não estava em casa naquele momento
a corda acabando sei lá onde
por entre mil e um tectos
mil vezes perscrutados sem nunca
um único sopro ou semblante
lembrando
como assim o silêncio
à noite o silêncio às quatro onde nunca chega a ser dia
o silêncio no sofá uma cova no seu lugar e quieto
apenas
resposta porque nunca dúvida.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2014
invariavelmente toda a linha do comboio
vista de cima é um crime
e eu dentro de um comboio que passe
dentro desta minha falta de tempo
falta-me a palavra e talvez fosses tu
que passasses dentro do comboio
e cruzasses a linha do crime
e trouxesses dentro de ti todas as janelas
de olhar triste para o mundo quando ainda
é de manhã
e me engano. sei que fui eu
que percorri os dias úteis à hora certa
me sentei naquele banco e olhos apertados
contra os teus olhos
senti por dentro a morte lenta
de quem descobre as palavras na linha correcta
e porém as erradas. e porém
as agulhas indicando a mudança de linha
a ameaça dos carris no sentido
intenso da queda. invariavelmente surdo
como se o corpo agitado fosse cuspido
no ar e no fundo
despido vim a sorver a linha como
veio desenhado em voo p'lo vento.
eu ao ar frio deste tempo gigante
onde devagar caem comboios pelos penhascos
quase tocando com um beijo as mãos frias da terra
chego a ler nos teus olhos
um corpo iluminado. à janela voraz que passa
noutra linha em sentido inverso.
o crime paralelo de um espaço.
vista de cima é um crime
e eu dentro de um comboio que passe
dentro desta minha falta de tempo
falta-me a palavra e talvez fosses tu
que passasses dentro do comboio
e cruzasses a linha do crime
e trouxesses dentro de ti todas as janelas
de olhar triste para o mundo quando ainda
é de manhã
e me engano. sei que fui eu
que percorri os dias úteis à hora certa
me sentei naquele banco e olhos apertados
contra os teus olhos
senti por dentro a morte lenta
de quem descobre as palavras na linha correcta
e porém as erradas. e porém
as agulhas indicando a mudança de linha
a ameaça dos carris no sentido
intenso da queda. invariavelmente surdo
como se o corpo agitado fosse cuspido
no ar e no fundo
despido vim a sorver a linha como
veio desenhado em voo p'lo vento.
eu ao ar frio deste tempo gigante
onde devagar caem comboios pelos penhascos
quase tocando com um beijo as mãos frias da terra
chego a ler nos teus olhos
um corpo iluminado. à janela voraz que passa
noutra linha em sentido inverso.
o crime paralelo de um espaço.
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