não te vou chamar uma sexta-feira
um dia longo de mais para poder absorvê-lo
um nunca acabar de frases como a tarde a ser hora
sobre hora a tecer tempo de espera para
um último salto animal sobre a terra
escreverei sempre quando me faltar tempo de escrita
quando uma ideia prematura tiver morrido
quando caminhar em oblíquo na cidade
e os meus pés digam apenas já chega de tanto
querer ter sextas-feiras
longuíssimas um dia madrugada outro dia
porque o belo é o rastilho perfeito
é a rua dobrada em esquina e eu cá
quando me lembro de percorrer de tanto
em tanto pés a calcar a cara oblíqua desta cidade
como chegar a casa e um corte de luz
manhã em espelho um pequeno sopro de janela aberta
e a agonia do sincero
porque o belo é o silício perfeito
e tenho as mãos em sangue não já agora só coágulo
e seco o corpo numa cama que lateja cumpre
o que lhe prometeram um dia renda a renda
uma casa nova um sistema de vizinhos e regas
sem oscilações e de facto tudo é
um joelho a gritar e um basta
até termos a idade que os outros nos dão de cara
o que me disseram foi antes de mais nada
vais e guardas a tua vida como se fosse
a tua vida mas eu vim para andar pelos passeios
sem os ombros de ninguém contra os meus
a fingir que vida era isto e que tinha dentes e siso
e que andava porque o destino era certo e andar
era só um passo atrás de um
tempo atrás de um passo quanto mais
isto que demora uma tarde inteira
um dia longuíssimo um fim-de-semana
que já passou e que veio depois sem aviso
para poder absorvê-lo três vezes
das três nem lhe notei o rosto foi apenas isso
algo que teve início antes de mim e termina
talvez quando já não tiver palavras
durante o dia longuíssimo enquanto ao olhar para as janelas
eu ali sem nada que te diga de novo
sem um dia longuíssimo à minha espera porque
toda a espera este banco e esta janela e um tempo novo
lá fora diante e em frente e sem nós dentro.
Sem comentários:
Enviar um comentário