terça-feira, 9 de dezembro de 2014

que tu me digas
o riso ferve-me nos lábios
e o corpo todo treme contra ti
fascínio oblongo da tarde desnuda
em que eu peço
que tu me digas
o incesto das árvores o ridículo
que somos nós uma aventura
aberta ao destino de ser semana
cheia de trabalho mas pelos
teus dentes digo a espera
digo que me aguento
digo que falta muito até sermos gente
nobre e sincera
para um dia debaixo de uma pedra acharmos
o que quero
que tu me digas

um resquício de saliva nos teus lábios
já não digo
nos teus dentes
e a minha loucura nessa saliva
por dentro já não digo
como dantes quando andava pela cidade
o passo vivo e carente mas tu longe
onde ainda não te sabia a dor do corpo
um mundo abjecto e o meu estilo
de dizer um não antes do pés e um sim
como quem pede para andar rastejando
numa lamúria indecente para quem já tem
a idade do mundo numa pressa brutal
de escrita idónea porém bárbara e alcoólica

perdoa-me as vestes e o signo
perdoa-me a casa e o que me minto
perdoa-me os dias e não ser janeiro
e não serem os teus olhos primeiro
depois a pele e talvez um rosto e as palavras
que vêm desse rosto directas e só para
o ponto exclusivo na parede que tanto aprecias

a cabeça a prémio não
a tintura de iodo a prémio
os meus órgãos apertados contra o espelho a prémio
um crescente do dente do ouvido a sério
e um prémio
querer morrer antes de todos os que já morreram
para não deixar rasto o acolhimento dos ossos
a aspereza do meu trato

tu
janela diáfana
e rimos porque tu nada disso
tu um nome antes de haverem nomes
mas quando olho nada
nem sombra nem cheiro
e tantas cadeiras por encher no recheio
por sentar por dentro por amar por dentro
como se hoje fosse sempre a primeira
vez que eu dissesse tu
e tu as costas abertas
ao som do meu
não antes de te amar
não antes de te sonhar um rosto e medo
por favor diz-me
uma manhã e que isso acabe
e que o texto acabe as palavras o sentido e
o poema no topo disso seja a rasura da memória
o esquecimento a casa nova o betão por cima
e saliente não saliente
apenas chão pisado
a mão óssea corpo velho e mudo
mais que tudo um ritmo
e fechado.

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