sábado, 31 de janeiro de 2015

confiteor dos palermas

passo ao lado da pessoa amiga da manifestação no terreiro
do prazo prometido e do lugar no poleiro
rimei e sem saber como o fiz deito-me de bruços
qu'inda agora indaguei o quanto me cumpro
o quanto me cumpro.

traí-me com a do terceiro esquerdo
e sou jovem já não escrevo poesia
o tempo de uma visão rés-vés campo de ourique
o cosmopolitismo a encimar o chique
já não habita nem fode nem fuma
nem já só fede atrás da porta
a presença longínqua de uma noite
em mangas de camisa peito aberto
e chama na ponta da língua.

todo este baptistério para os amaldiçoados.
fui-me para férias levo-me à perna e em montra
para o lugar mais perto que conheço
para me confiscar bens e terças e torcionários
e ficar nu e sujo porque mais nu e cada vez mais sujo
do que dantes que dantes é que era bom
e dantes comia três à vez e ainda arrotava com gosto no fim
e porque diziam no fim estaremos cá para te aplaudir ó janota
a ti e aos da tua súcia à batota pelos teoremas com
caos e cordas e misturas de farinhas para o apetite.

ai meu deus e minha cabeça a rebentar de som
que foi que fiz que foi que comi ontem
que foi que mandei hoje pelo ar e sanita abaixo
amor acima que foi que deixei para trás
antes de te conhecer um rosto sem brisa e só véu
a noiva plagente mas fixa no meu queixo inexistente
e eu quedo de respiração arrazoada
em ziguezague tosco com os olhos em chamas
por te conhecer eu ainda sóbrio e tão novo de gaguezes
ai que foi que fiz para te merecer antes que dissessem
finis esta merda toda desçam o pano vão para casa
e morram. bem gostava que mo dissessem
secretamente e até com uma pitada sensual de arma branca
mas só resta ai e porquê uma perna à deriva
a outra na cama porque tudo é acordar tarde
para nunca voltar a lamber nas manhãs o vício do começos.

poema em modo frígio

rosas rosas rosas
a seiva mental por debaixo
da pleura diurna das
rosas rosas rosas

um motivo resiliente
um dedo exangue de sol sobre a testa
canto oblíquo de uma fonte
jacente dentro do milagre azul

da retina. em espinho me quis
o ventre agudo da terra
mas se penso nisso
no quanto ainda me cabe de fôlego

de empenho sujo orbitando pelas manhãs
de lágrima fendida percorrendo a casta sem mãos
mas se penso nisso
suspenso na pálida aresta dos jazigos

sempre sobra um rosto sem expressão
um alvar luminoso e aberto
para onde fugir quando não restar
mais lume fosco na lentidão.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

enquanto isso havemos de ser felizes
a vida não dada as mãos sim
ter inspiração nenhuma
acabar de cama e os pés no primeiro
sítio em que nascemos de facto
porque enquanto isso haverão
rastos da saliva dos dias indicando
as mãos sim apontando um
depois o outro algures
encontro falhado dos milagres
e no entanto a estação
sucedendo-se a outra estação
abertas as mãos sim
tão já secura e sem dedos
vivemos e até houve um quarto alugado
dias cheios jornais e empregos
por isso a vida sim não esta não dada
as mãos no entanto outra coisa
apenas frias e dentro longe
como se tudo isto a certeza de um rasto
atrás dele um fim e um destino empurrando
em dentes cerrados este janeiro num
vai e que te fodas que não perdoa
não sem antes as mãos
a vida não a vida veio
querem-me dizer esteve aqui já saiu
e eu que faço com isto
filho morto nas mãos ou carcaça
por enquanto nada disto e entretanto
tudo isto passa.