sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

chiaro-scuro a tua mãe!

e depois da tempestade
venha o encanto dos melismas
à meia luz das arcadas
estende-se o reflexo de um lençol
sonoro sob as pálpebras
de um fauno.

a foice corta os dias
neste contraste de chama acesa.
através do olho quase negro
rasga-se uma brusquidão de poço sagrado.
jacente sob os folhos da indolência
contempla-nos o chão rutilante dos oceanos.

a metade vazia
do teu peito chegado aos
sobre-humanos aromas da tinta apodrecida
tão fresca no martírio dos poetas
aflora a queda. dá-lhe um sentido
mais perene

até que findam as estações
e a humidade dos nossos corpos
sangra um novo silêncio.
suspende-se o grito das rosas
(a boca atulhada de pétalas e fonemas)
para sobrar apenas
num qualquer canto agoniado
a convulsão regurgitando
sumo espesso e estranho de outros olhos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

são genet

1.
vamos ao encontro dos mártires
prender-lhes as mãos os cabelos
a pele rasgá-la com um beijo
partir-lhes os pés os tornozelos

debruar-lhes as bocas
da prata corroída do vício
abraçar-lhes no reverso do vértice
a doçura enegrecida do silício.

//

2.
um entretanto
distância apenas lúbrica dos nossos
intervalos desfeitos

agarra a chama
morde-a até ao sangue
até onde o lábio verta

mais negro mais
incompleto o fundo do silêncio
o estalar comprido

do eterno penetrar do espelho.

//

3.
regressamos à noite
ao amor estéril dos gumes insaciados
ao odor das fricções dos anjos
à súmula da carne das estrelas
gemendo um brilho sujo e violento

que nos vaze os dois olhos
o grito fascinante do arame revigorado
silvando na noite a animalidade pestífera
do arquejo.




sábado, 22 de fevereiro de 2014

um limoeiro em prece.
de que nos vale esse sol entre
o véu dos aromas?
e as manhãs simétricas silenciosas
apenas novo eflúvio das nossas misérias.

bailam num compasso antigo
a cartilagem das folhas do meu credo
e só o vento mais sereno se contagia
da posse mercurial do verbo.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

aperta-se um ombro contra um ombro
uma sombra mais densa incendeia-lhes os sulcos
e circula entre o hálito côncavo a mesma
eterna solidão.

faz-se uma madrugada da sujidade dos passeios
da negligência dos mortos às esquinas.
a nossa única verdadeira mão corroída ao ar frio
de um deserto de avenidas

inunda-se de campos de lírios
à passagem da lágrima mais retraída
o fervor do sangue oratório
palpitante sobre a benção dos cortes

que o meu olho estala
sobre os lábios só
um diluído desejo deles
através do véu nítido das arcadas

vultos que me contornem os dedos
calados na demasia de uma hora negra
bebida com o parto do verbo.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

o travo de uma sombra imensa
descente pelo rasto dos cabelos
do último mês do último estio
da língua defunta onde brota a flor
na ânsia da razia
de um golpe de asa
mais longe mais frio
o que nos esqueça o baque da voz amena.

tão só sentimos a carne aquosa
do nosso querer tanto
dos demónios soltos em diálogos
de rua deserta.

onde eram capilares veias crepitantes da matéria
densa do nosso ofício expectante
hoje o néctar vitríolo das arestas.
só a sede nos esgota
a
livre putrefacção de que bebe este rio.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

crescem-me as mãos no sentido
vocal das musas da terra
apodrecida.

fala-se demasiado das desilusões de um parto.
tudo a ter o seu término antes do previsto
as esperanças a morrerem todas num só
túnel aberto à discórdia do lado
mais negro do disco
uma cascata perene parece iniciar
um vómito longínquo. o mais puro
sublime gesto de um adeus é quando
desponta de entre a terra humedecida
a língua pronta e aberta do êxtase das estações.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

litanias de domingo.
a margem espelhada do adeus
às terras submersas entre os joelhos
da fuga pátria.

coros ascendentes esvoaçando a mortalha
sobre o sol definitivo do
nosso deletério deambular entre
a esquelética dos junquilhos.

(um olho enterrado no profundo das silvas
aurora de um outono latente
crescerá na peçonha viperina das amoras.)
freme sob os corpos inertes

o contacto de um oco por si próprio.
a corrente dos dias preenchida apenas
pelo lugar dos mortos tragados
na hídrica carestia estática

da têmpora subterrânea.



sábado, 15 de fevereiro de 2014

cresce-te na garganta um espinho novo
- rosáceo emblema dos noctívagos catarros -
no parasitário desfolhar da voz emerge
a foice negra que há-de dar de beber
aos mortos.

vais à janela em aflição tentacular
sofrer para que outros te sofram
tua imensa ternura pelo verso livre e escorreito
que seja cuspo sobre o intrincado fulgor
da azulejaria patriarcal da doxa.

mas vê: verte mundo inteiro nessas vidraças
um líquido mestiço de orgãos ainda palpitantes
que já antes de ti se aspergiram do mal
estar mundano das insalubridades
pequenas do pequeno quotidiano.

vamos levanta a centelha
queima a fonte dos penedos
a garganta onde está ela
que te morra que se te esfole
nos verticais gumes do lótus vermelho

arranca a pele bem devagarinho
pelas unhas finais da imanência.
agora só um clarear sonoro à porta
a prolongar pelas avenidas e transversais
o sorriso hialino do teu féretro desfeito.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Canção de Roda dos Sabás Triunfais a Nosso Senhor das Chagas de Sebo Divino

[verso ricercato]

regresso intra-uterino
às vagas imensas de janeiro
um som de lábio púrpura a beijar
o esgoto do meu coração vertido
sobre o teu colo dilatado
na sonâmbula embriaguez da noite.

este o meu arquejo:
a punção libertina de chofre
o atrito fruitivo das orgias regulares
um suor sempre anterior
pulsando límpido e cálido
na corrente triste das madrugadas

simétrica sobre mim a mais venal sombra
e no rosáceo descarnar das apneias suspendo:
os becos escuros penetram-me os poros
a minha cara a de outros tantos
uma única universal seiva escorre
da entumecida narina do amor.

[refrão]
cantemos o cuspo ensaguentado
a cumprir os intertícios da calçada.
é lá o nosso olho reflexo. lá a turba gestante
do nosso arder.

[no plano superior: campos de asfódelos até onde
termine a cançoneta]

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

chega-nos a luz eléctrica

falemos então
das constantes vindas da noite diuturna:
umas vezes encontro-te - sentido lato
nado-morto à porta dos intervalos dos refegos
a pele num alívio de medo ou então será talvez
o adeus prematuro às hostes de demónios de sextas
enormes feiras de jargão desentendido -
e só aceno um chega para lá
mais acção menos corpo
até que se desenhe mais espaço angustiado
na obliquidade da parede conspurcada.
mas outras porém são artifício
e sei que me sacrifico se me entendes
é porque me sangro e fico pesante pelas respostas
- a tua língua de gumes a raspar-me
o arfar lacrimoso das aurículas -
não bastava estarmos verdadeiramente sós neste
entrosamento de pernas também fica
a margem de uma incerteza maior
a que nos mutila a crença franca no diáfano das janelas
aquela que deita goela abaixo as cinzas dos manifestos
palavras de ordem para o pombo que as cague
figadais parcelas do desígnio prometaico-urbano
de iluminação fulminante pelos etanóis.

oh que rico dia
para espreitar à rua o maniqueísmo
das mãos dadas desabridamente.
sei que isto não existe. o meu verbo

comem-no e escarram
um só sopro velho e rançoso de pretéritos dias.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

os dias de chuva são teus
todos
:
no beber letárgico das paredes húmidas
na beleza voraz dos troncos aprodecidos
na inquieta predestinação dos nevoeiros de bolor

esse cheiro
do mofo dos abraços negros
à manhã desolada

o raquitismo
dos nossos dedos de cotão
embrenhados nesse cavo sentir do corte

o sítio manifesto das penas
resíduo abstracto de um inverno mais outro
mais denso entre os dentes

a língua e o hálito
barométrico das pulsões
roendo-me a carne

o toque da unção.
escrevo-te a carta que me sofra
o último adeus

tanto que isso basta.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

fac me plagis vulnerari

levo-te a carne dos temporais
o jugo recôndito dos teus nós medulares
as feridas lambidas até ao pescoço
o ventre ulcerado do ódio

levo-te os cismas dentro do meu olho
veia rebentada ao toque dos cristais
e fujo para dentro de um dentro
de outro mim. não ser

a ausência a rasura de um assassínio
silencioso. suspender
frio o desígnio de um corte
acidental sempre foi o nosso mote

aquele que nos anule sem que se repare
nos fira só a moleza dos versos
nunca a veia: o demónio: o estro
há muito - quase um sempre - postergado.

Piano Phase

escrevo antes que adoeça
do som súbito pensante do dia

//

de que jorro faço eu
meu pranto se não só mesmo
daquele único secreto sopro que a madrugada ampla
segrega:
o ponto do corpo mais íngreme aberto às larvas
a dádiva de um ventre ofertado
à textura lânguida das línguas das moscas

o pavor mudo dos horizontes violados contra as janelas
os pés sobre a lepra fresca dos orifícios da terra.

abraçado às paredes pútridas das veias
o melífluo musgo parasitário
do meu dia desfasado.




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

o que me recordo dos teus horizontes:
o reflexo de uma chama ao fundo do precipício
uma faca recortada entre duas línguas
a precisão dos invernos sangrados em gritos
um nome. o meu.
algures um espelho dentro de um sol
vazio.

(lontano)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

porque nos enterraremos de novo no lodo
até as bocas se fenderem num gemido lúcido
e só sobrarem os crânios rapados imersos
imensos infectos indefesos
essa triste nossa última união

para tudo isso há um tempo e uma razão
mas os meus cortes não são feitos já dessa miséria
não jorra apenas deles o pus ulcerado das manhãs
a ferida cancerosa dos sóis pueris de janeiro

tudo no olhar tudo
menos a tristeza do mundo
o lacrimae rerum adivinhado
a carta ansiosa de tremores nocturnos
satisfações silenciadas num arfar de divãs
tudo menos isso
o sufoco doentio dos dedos entrelaçados

mão mergulhada em sal
mudez granítica
de fim de espécie.
entre nós morre o pária
infinitamente deslocado
do apodrecer da sua mortalha.

de que lhe vale no fim
o eco vazio da casa
o sussurro degolado dos espelhos?

lex universalis

meteoro de uns olhos roubados
à criança em chamas

//

em si mesmo o retrato
contra o azul da casa violada

onde já tudo descansa onde

haja um barco que leve
das bocas que morrem a distância

até um mais cálido
adeus precipício de vida.

//

reparei teria talvez
doze dias de morte por contemplar
a meus pés a jangada de uma cidade sobre
a bruma e uma extensão de ombro
a ser a tua
arrojada tentativa para o convite
da mordaça. como sarna
arranhei-me até despir as unhas
da pele da tua sombra.

onde ficámos?
precisamente no contorno dos diluviais tédios de sexta.
rebentam-nos as paredes do estômago
ardem-nos com a sua ressonância de piano submerso

são o ravel triste a carpir
sou um louco sou um louco
e isto é somente um punhado de nada
sou um louco sou um louco
e que me abram a cabeça e a esvaziem
contra um tejo emprenhado da merda das civilizações
contínuas. que me una
que me unte desses urros febris das gaivotas
graças divinais da escória
meu escarro de madrugada abrupta
sol de cipreste morno-frio que o canto suspende.

avé ligações marítimas entre as margens não tão espaçadas
a minha desgraça a minha contemporaneidade
esmagada em arremesso à decantação dos passeios.

júbilo

algo que se desfaça.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

deixo-te falar por mim

(o tempo preexiste)

e se temos conversas longas demoradas um interlúdio
a abrir em cortes
outros dias perenemente cinzentos
é só porque me calo

(e oiço o rumorejar da estepe)

nem sempre abrimos a semente das sentenças
uma fuga episódica para a frente e
já esquecemos quem fomos antes de nós

(agora um só pé no precipício)

fala calo-me não adianta a promessa
assim até se apressa a morte
pode ser que caia um raio e nos dilacere
ou então

(a tua onda reflui num máximo. flutuamos a sós na primavera)

a vida é dizermos já chega
um basta e um adeus
a casa espera-me. e o amanhã nunca será
teu.

(a minha miséria é amar as misérias)

como um odor a podre
o desejo dos açúcares
a selva de uns cabelos desconhecidos
a língua presa à escada dos afectos
o teu sorriso na distância a tua carne
compacta no brilho das cópulas nocturnas.

(por onde ficámos. entre os dois dedos. esse espaço de mão esquartejada)

o sublime é o vício
o sublime é o ódio
o sublime é o manto roto do teus genitais entreabertos.

cuspamos.


sábado, 1 de fevereiro de 2014

o que nos falta
dentro do olhar?

lembro-te
e a palavra perece súbito

para retornar a distância
o entretanto da tua espera

a condolência dos dias
amanheceres esguios, vitríolos

agarrados aos interstícios das conversas.
sobra-te uma alma limpa

um tempo a galgar os requebros.
de que me serves

se te mato e te salvo
com o ardor de um bocejo?

dias para te ansiar
para te dar o nome

para te ver partir.
o que nos falta ao olhar

a imensidão das sebes?
o vento que as suba que as dispa que as disponha

no teu horizontal travestido
a tua floresta de barroco ateu

a carne pristina
sublime lascívia dos amplos espaços

um teu outro
a ocupar a seiva das horas

que tanto me cospem. tanto me cingem.
tanto me aspergem

das tuas mãos o encontro
insatisfeito.