sábado, 28 de fevereiro de 2015

nem sequer o ódio
nem sequer a palavra é um ódio
nem sequer eu sou um filho
nem todos temos o futuro nos dentes.

ouve
eu canto-te o signo das coisas ao ouvido
o futuro ingénuo dos passos arrítmicos
o quanto me debruço nas arestas
do teu corpo.

pendo da fome
de morrer hoje
muito mais depressa do que queria
do que um amanhã que nasça em sol morno
do que ouvir-te balbuciar as vontades
a maresia
e escondo um olhar para o rio
a visão nefasta de um dia pleno
a voz tanta
irrigada de sangue
prenunciada de um aroma mais silente
o amor à carne apodrecida
este abraço que te dou eterno
até que nos doa
o limite dos dedos.

o vento ressoa na ilusão de um poema
como queres que te diga
o corpo dobra-se de dor neste cuspo amargo
um lençol genital enrolado a uma prece
como queres que te diga
o lábil conselho dos minérios
a tua pele de magma descosendo-se
ao tacto das flores etéreas do silêncio.
deixa que te beije
obscuramente o rosto
num arremesso a brutalidade
com que te velo.

deixa que te sinta
o canto fremente das artérias
a palavra ódio irrigada na tua língua
o aspergir das sombras dentro do teu verbo.
queimo-me dentro deste jacto
sonífero onde direi o teu nome
arregaçando a pele que jaz dentro
do corpo móbil da palavra.
o quanto te quero
um fio de lava e de eterno
desenhando-nos os olhos
as mãos o torpor leve
da cama a medo.
espreita como o dia se desenha
agreste nas janelas.
na minha boca a tua pele
canta uma rua inteira de som.
sei que te perco
e cumpro.

aproximações de março ou o exercício do ego

28 Fevereiro 2015

os dias sórdidos habitam às janelas
e eu vejo no caudal da limpidez
madrugadas maiores.

ou minto. e sei nisso instância superior.
ou mato a inocência do gesto
com um passo fúnebre de canibal.
a autofagia está presente
o crime não.

mulher louca à porta dos cafés
mulher azul fenómeno sensível
em escala de mercali
mulher só esperando filhos
ainda um útero esta mulher
ainda só um nervo antes do nervo
ressuscitado antes da dor de ver partir
mulher sincera enfrenta a própria carne
mulher que diz o mundo quebrou o meu cântaro
o chão é o desejo sincero.

como se amasse.
como se honestamente quebrasse cada osso dos meus dedos
cada dedo nos meus lábios cada um dançando
o orvalho que é ter-te assim perto. como se
a água que escorre dos cabelos adormecidos dos homens
voltasse e fosse o cântaro inteiro.

fome de crença.
a idade.
houve quem lhe quisesse comer filhos
disse: a podridão afasta mas não trai.
ouço como quem quisesse ser
fruto de um amor convalescente.
ouço menos ouço pior
ouço a dança dos dedos ao balcão
a marcar a espera ou a presença
ouço a tarde dentro de uma esfera
e o rio convexo por dentro deste passeio.
estou na laboração dos venenos
um passo atrás.

sou sincero
não conheço forma de estar vivo
desnecessariamente digo as casas e as coisas
mas são o postiço doado pela luz
pela ferrugem das pálpebras cintilando por dentro.
queria dizer mais até
a intempérie dos cortes
a obliquidade dos olhos cristalizados em fé
mas é deste azul que desconfio
é um largo ébrio e frio apinhado
de gente antes de ser gente
o meu pulmão cheio de vidro
cintilando numa forma de escuro
à urgência do ar vazio.


1 de Março de 2015

suspeita-se que há um fim
e é dessa forma que prenuncio os dias.
quer-se uma mão separada contra o sol
um dilúvio de mãos na madrugada
que aclare os passos da manhã
com o dom luminoso da violência.

por mais que corra
com a vista os bairros cansados
e lhes descubra o sorriso cadente
nas entranhas
por mais que caia
terei sempre uma falta inteira
um sentido de corpo grave
junto ao solo o queixo raspando
a profecia dos idiotas.

aproxima-se o dia
retirado
por entre as falanges
e tapo o sol com as mãos separadas
do resto
a cara um detalhe
no caudal afogado de um rio de semanas.
se te cumpro
tempo
é para te ler aos poucos
vincos no rosto
detalhes possíveis da falência dos órgãos
a sílaba destinada aos que ficam
sem sucesso.


2 de Março de 2015

a língua nua
sulcando o contorno das bermas
sinto-me como se bebesse
em excesso
o matiz descarnado
da geografia possível.

ou

um devir
um florir dentro das mãos
uma árvore engordando o fruto
um inchaço na pele
do tamanho da carne pálida
completa.

aperto o crime
entre dois dedos
e um cuspo fino invade-lhe
o mosto.
mistura-se languidamente a palavra com a língua
e há uma curva de coalho sujo
onde a maré subindo-te a perna.
permite-se a luz novamente
na abertura
por onde regressam incessantes
os dedos volúveis do mistério.


4 de Março de 2015 

reparo na medida do sol
crescente na janela
e sei um ano
transladado noutro.

a marca do calor na pele
como um veneno escorrendo
verdade pelos poros
vai insuflando aos poucos
uma inércia. vai queimando
de pavor a veia prematura
do inverno.

                  digo-te
adeus ao longe
a estação do outro lado
do peito. depois
vou ser outro.

porque há um dia sem cheiro
onde só permanece a lágrima fulgente
da palavra.
               
                 do que nunca te disse:
flutua sublime no ar um corpo
e desconheço-lhe os traços o nome
as terminações concretas dos dedos e
o fruto desabrochante do rosto.
entre mim e o meu resto
o espaço vivo desse corpo
que dorme pulsando apenas
pela língua o Espírito Fechado.

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outro dia outra coisa
virá em meu nome
fechar os cadernos.

(luz difusa)



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

como desculpar-me
se estes pés são meus
e minhas a ruas por debaixo deles
e no fundo um amargo na boca
de tanto ar nefasto respirado
é também meu em goles
e nunca aprendi a dizer um não sequer
um vai-te foder à vida
quando o que me prometiam era andar
para conhecer os sítios comuns
onde o calor geral e a pele desperdiçada
se acumulam em montículos de dor
e de anos que já passaram por outros
tantos anos na rua e um ombro contra
um ombro não mais do que isso
alguém que conte o tempo e verá
os choques simétricos e os ombros
fingindo tocarem-se apenas
não se tocando abrindo-se
numa ginástica absurda de medo.
este eu testamentário que fala
até às tantas com os ombros dos anos
não sabe quem fica do comum dos passos
para contar uma história que seja verdadeiramente
a correcta e talvez aquela que mais passos
dê ao mundo. a cada milénio de passos
nasce uma nova cidade
e nasce a tua boca por detrás dos canteiros
sussurrando a minha dor de costas e o meu
enjoo permanente quasi-modo de morrer
horizontal pelas pedras. e nesses passeios
ornados a ti não há rostos nem há
o singelo passar do escarro da pessoa doente
do cheiro que exalam os olhos dos outros
diante dos meus olhos. há apenas
a cidade vazia com o seu som múltiplo dos passos dentro
e há aí acredita um núcleo de silêncio
um respirar debaixo de água em
não te ver nem
sofrer qualquer manhã recente.
nunca mais um ódio e a vida repetível
creio apenas
uma mão adormecida
ou um corpo inteiro dormente.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

mal do país
a tosse convulsa
ou eu
encostado à porta
de um dia
solar e grande.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

contar-te-ei dos dias em que escrevi coisas severamente belas e não soube nunca onde as deixei

aos legítimos detentores das palavras

passando esse peso é hora
de ter mãos que escrevam

e se digo a casa líquida dentro
de um espelho onde tu e onde não
te vejo
só sei a madrugada
a falta nenhuma de um lugar
e toda de uma palavra

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silenciando do suplício das pedras
as mãos porque minhas

chego a um novo ódio de ser espaço.
uma penugem de cinza
por dentro das veias
segregando a presença física
dos dias imprecisos.

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escreverei pior a cada tempo
como um século em espera nas cabines

e tenho o medo digno da espécie
um rasto mais matéria minha que rasto
uma vontade outra já não
nunca esta. para
que passe o vento e digam ter sido isso
a história.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

venho do horário defunto dos teus passos
marcando a amplidão difusa de uma manhã
inertemente suja.
jamais solidão alguma assim

(2 dias antes)

como grande pássaro penetrando em bicos pelas nucas
a véspera de sermos foi tão só esta rajada abrupta
e para sobrar a lenta carne parida a custo
tendes-me aqui senhor ao serviço dos estultos

(30 segundos depois)

não mais servirei senhor que possa morrer
disse-lhes em surdina e era tão só eco mudo pois nós
todos os filmes ecos imagens representações dos que vieram
antes

(anos mais tarde, não totalmente todos os anos mais tarde mas quase todos os anos mais tarde)

hei-de levar comigo a prosa
forro de colchão para velhos
andarilho de línguas para a cegueira
um conto no jardim da parada
entre salivadas de placa suja
e tu olho de soslaio abrindo a catarata
vens tarde com a rapidez dos iníquos
abrir uma porta latejante na dormência
onde crime algum suspira já só
a liberdade de ter tardes pagas e arrotadas.
a linguística uma curva lá atrás
e deixada pelo caminho a vontade ainda despida.

de que me servem os cantos de luz e os espaços
se tenho a honra de não ter sido mais que a soma dos meus cansaços.