quinta-feira, 29 de novembro de 2012
A perda de um rosto
Se esse tremer for de choro
detenho-me. Que é esse soluçar
forte que te asperge ranho
sobre os lábios finos?
Alguém caiu e bateu com a cara no chão.
A gravidade a chamar a si a beleza alheia
que passa insolente na rua.
Humilhando madames e coquetes,
homens galãs e crianças mimadas.
Apre, sacana do destino!
Quiseste consumir os prazeres levianos
da expectativa,
retirar de nós a produção divina
da rara estética.
E o mundo fica mais triste?
Face à feiura nova de um ente perdido
o mundo não se compadece.
Não se entristece; ri talvez!, mesmo.
Agora és um de nós, meio enjeitado
sentirás o fel da rejeição humana.
Toma um lenço, pobre alma.
Limpa esse sangue. Essa cana do nariz
desperdiçada, esse olho rompido.
Tudo isso agora serve-te de nada.
Não chores. Não te resignes à dor.
Levanta-te e persegue, desfigurada,
as portas abertas de um destino novo.
O cabrão que te abandonou,
que te cuspiu nas pedras redondas da calçada
e não te segurou nessa queda,
morreu.
Hoje porém há sol, e há carros que passam,
e gente feliz com sacos pela mão.
E gritinhos eufóricos, e pais alegres
com risonhos petizes a engordar para a ceia de natal.
Torna-te um deles, vai!
Mas cospe antes esse dente solto que pende nessa boca escura.
28-11-2012
domingo, 25 de novembro de 2012
Ante a sórdida esquina
Não pares aí fora.
Não pares nessa sórdida esquina,
deformada circunscrição da realidade sonora.
Não detenhas os teus passos
no cruzar macabro de um desconhecido incomum.
Não, não te fixes diante do húmido
cair latente das sombras traçadas.
Vejo-te estranho, da janela de um quarto
que não é meu. A rua não é minha.
Eu não sou eu.
E, no entanto, o ritmar inconstante do teu caminhar
denuncia-te o velado cisma que te percorre
os veios mentais. Olhas e vês
em tudo um medo presente.
Tenho a afeição desnecessária por quem padece
dos males fortuitos da existência;
um desses, o de ser somente
a fuga em suores frios
e febris arrepios espinais.
Como eu sei que sofres, estranho caminhante
nesses passos mudos
do outro lado do mundo.
Um vidro entre nós,
e um universo inteiro,
não abafam o inerente
decair da compaixão.
Percebo-te, mais do que tudo,
nesses olhos que fitam as ruas pela
derradeira vez de um relance.
Sei que o tempo
é-te pouco,
escasso na sede condensada
de viver.
Esse desígnio
que as forças ancestrais de um destino oco
te imprimiram na testa determinística
do advento,
esse desígnio consome-te.
Sabe-lo como te sabes a ti mesmo,
acabado.
Mas peço-te,
não pares na irresolução vazia
de te achares resolvido.
Não pares nesse dobrar de rua
que é um dobrar de vida,
nessa esquina oblíqua do medo,
contando as horas que vagam
até ao teu exclusivo juízo final.
Não estanques as dinâmicas incompletas
que te forçam a brotar dos pulmões
ar tardio,
e a absorver das coisas
cheiros novos frementes.
Não te assumas
uno, completo, finito, acabado, circunscrito
perfeito.
As arestas bicudas do edifícios,
linhas contínuas de corte e mutilação,
almejam-te o cerne.
Não lhes abraces os rigores
de sacrílegos sacrificantes intemporais.
A sua imolação irredenta
de emparedadas almas ancestrais,
não te vale a espera hedionda
nem o escorrer suado
da superficial aflição
do vazio.
.
Não pares nessa sórdida esquina,
deformada circunscrição da realidade sonora.
Não detenhas os teus passos
no cruzar macabro de um desconhecido incomum.
Não, não te fixes diante do húmido
cair latente das sombras traçadas.
Vejo-te estranho, da janela de um quarto
que não é meu. A rua não é minha.
Eu não sou eu.
E, no entanto, o ritmar inconstante do teu caminhar
denuncia-te o velado cisma que te percorre
os veios mentais. Olhas e vês
em tudo um medo presente.
Tenho a afeição desnecessária por quem padece
dos males fortuitos da existência;
um desses, o de ser somente
a fuga em suores frios
e febris arrepios espinais.
Como eu sei que sofres, estranho caminhante
nesses passos mudos
do outro lado do mundo.
Um vidro entre nós,
e um universo inteiro,
não abafam o inerente
decair da compaixão.
Percebo-te, mais do que tudo,
nesses olhos que fitam as ruas pela
derradeira vez de um relance.
Sei que o tempo
é-te pouco,
escasso na sede condensada
de viver.
Esse desígnio
que as forças ancestrais de um destino oco
te imprimiram na testa determinística
do advento,
esse desígnio consome-te.
Sabe-lo como te sabes a ti mesmo,
acabado.
Mas peço-te,
não pares na irresolução vazia
de te achares resolvido.
Não pares nesse dobrar de rua
que é um dobrar de vida,
nessa esquina oblíqua do medo,
contando as horas que vagam
até ao teu exclusivo juízo final.
Não estanques as dinâmicas incompletas
que te forçam a brotar dos pulmões
ar tardio,
e a absorver das coisas
cheiros novos frementes.
Não te assumas
uno, completo, finito, acabado, circunscrito
perfeito.
As arestas bicudas do edifícios,
linhas contínuas de corte e mutilação,
almejam-te o cerne.
Não lhes abraces os rigores
de sacrílegos sacrificantes intemporais.
A sua imolação irredenta
de emparedadas almas ancestrais,
não te vale a espera hedionda
nem o escorrer suado
da superficial aflição
do vazio.
.
domingo, 18 de novembro de 2012
Do limbo
depois de te atirares de uma ponte
depois de te enforcares em pêlo
depois de dares o tiro certeiro
depois de engolires a última lâmina
contenta-te
benze-te diante de teu buda sentado
cruza as pernas
cingidas na comoção
do sossego
agora és tu
e mais quem
dentro de ti?
depois de te enforcares em pêlo
depois de dares o tiro certeiro
depois de engolires a última lâmina
contenta-te
benze-te diante de teu buda sentado
cruza as pernas
cingidas na comoção
do sossego
agora és tu
e mais quem
dentro de ti?
sábado, 17 de novembro de 2012
Caminhar Permanente IV
Alguém corre lá em baixo,
na urgência desconhecida
da salvação.
Sim, o medo latente
da perda. Sim,
o enxofre visceral
dos terrores interiores.
Sim, fugir disso,
como se foge da própria pele.
Das paranóias redundantes
de um medo latente.
Fugir de nós,
de encontro ao outro,
inocente, desfasado, anónimo
transeunte incompleto.
Não hesitar, não bastar
o tempo que falta. Não
bastar o corpo a decair.
Ir de encontro ao abismo
ante o desígnio forçado
dos deuses.
Cumprir o desafio da existência
levado pelo próprio pé
na sua própria atribulação.
É isso que quem corre
busca.
Afinal não,
corre apenas para apanhar,
com um óbvio desespero,
um óbvio autocarro.
na urgência desconhecida
da salvação.
Sim, o medo latente
da perda. Sim,
o enxofre visceral
dos terrores interiores.
Sim, fugir disso,
como se foge da própria pele.
Das paranóias redundantes
de um medo latente.
Fugir de nós,
de encontro ao outro,
inocente, desfasado, anónimo
transeunte incompleto.
Não hesitar, não bastar
o tempo que falta. Não
bastar o corpo a decair.
Ir de encontro ao abismo
ante o desígnio forçado
dos deuses.
Cumprir o desafio da existência
levado pelo próprio pé
na sua própria atribulação.
É isso que quem corre
busca.
Afinal não,
corre apenas para apanhar,
com um óbvio desespero,
um óbvio autocarro.
Ode ao quotidiano
Não te eternizes
no virar da página
às tantas ainda apanhas
com a saliva desleixada
de um dedo rastejante.
Não sejas o herói
concreto dos tempos
pós-modernos
às tantas ainda
disparam sobre ti
por sobrevoares sem capacete
o a torre da igreja.
Não queiras ser
o queixume do pivô
as notícias da televisão
envelhecem-te a pele
e dão-te a cintura
de um cachalote tresmalhado.
Não te faças
aquilo que não és
dentro de ti a réstia
de miséria descansa arredada
esperando os dias calmos
do armistício com o quotidiano.
Tenta por isso
levantar-te cedo
ter trabalho a horas fixas
ser pago a dias fixos
montar a mulher a noites fixas
comer bifes em restaurantes fixos
conduzir em carros fixos
por ruas estreitas sempre fixas
despejar o lixo nos momentos fixos
e verte-te ao espelho
nessa hora morta
em que o cansaço te cega
as órbitas moles e fluídas
elas e tu
dentro desse olhar
sempre fixo.
no virar da página
às tantas ainda apanhas
com a saliva desleixada
de um dedo rastejante.
Não sejas o herói
concreto dos tempos
pós-modernos
às tantas ainda
disparam sobre ti
por sobrevoares sem capacete
o a torre da igreja.
Não queiras ser
o queixume do pivô
as notícias da televisão
envelhecem-te a pele
e dão-te a cintura
de um cachalote tresmalhado.
Não te faças
aquilo que não és
dentro de ti a réstia
de miséria descansa arredada
esperando os dias calmos
do armistício com o quotidiano.
Tenta por isso
levantar-te cedo
ter trabalho a horas fixas
ser pago a dias fixos
montar a mulher a noites fixas
comer bifes em restaurantes fixos
conduzir em carros fixos
por ruas estreitas sempre fixas
despejar o lixo nos momentos fixos
e verte-te ao espelho
nessa hora morta
em que o cansaço te cega
as órbitas moles e fluídas
elas e tu
dentro desse olhar
sempre fixo.
Esse amuleto
Esse amuleto
que trazes no peito.
Cavado nos interstícios
das tuas crenças.
Essa fonte de inconformismo
e resignação.
Solene paradoxo
do ser pensante.
Algum dia o ponderaste
desirmanar de ti?
Atirá-lo a um esgoto
sequioso de ideologia?
Algum dia te despiste
de ti mesmo?
Algum dia te esqueceste
de ser a face reconhecível
do teu eu?
Penso que não.
Incrustado na pele,
latejando pelas horas
vivas do tempo,
permanece o teu amuleto
regurgitante de emoções vastas,
de diárias contemplações
idílicas da verdade universal.
Ele dá-te as respostas
e tu dás-lhe a carne viva.
Simbiose perfeita
entre o profeta e o seu cajado.
que trazes no peito.
Cavado nos interstícios
das tuas crenças.
Essa fonte de inconformismo
e resignação.
Solene paradoxo
do ser pensante.
Algum dia o ponderaste
desirmanar de ti?
Atirá-lo a um esgoto
sequioso de ideologia?
Algum dia te despiste
de ti mesmo?
Algum dia te esqueceste
de ser a face reconhecível
do teu eu?
Penso que não.
Incrustado na pele,
latejando pelas horas
vivas do tempo,
permanece o teu amuleto
regurgitante de emoções vastas,
de diárias contemplações
idílicas da verdade universal.
Ele dá-te as respostas
e tu dás-lhe a carne viva.
Simbiose perfeita
entre o profeta e o seu cajado.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
O aperto
Foi ao vestir a camisola apertada,
num trejeito desleixado de quem sufoca
que sentenciei na impaciência:
"Isto é para outro ser que não eu!"
Não, de facto, a camisola não era para mim,
era para o comprador anónimo, de tamanho
médio, que paira numa loja à procura
das vestes com que se aquecer.
Não era, de facto, para mim
essa camisola, e essa loja, e essa
máscara de comprador de tamanho médio.
Não era para mim esse tempo.
Penso em quantas camisolas apertadas
e largas vesti em desespero de causa.
O término da alfaiataria mental
deu-me cabo dos esquemas ideológicos.
Nada se ajusta, digo eu.
Nada te fica bem; isso não é a tua cara.
Nenhum apetrecho da vida se me encaixa
no orgásmico enluvar da junção perfeita.
Vou recorrendo aos pequenos incómodos,
pequenos apertos, pequenas comichões,
pequenas abrasões e pequenos desafinos.
(O molde de onde saí quebrou por inteiro.)
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Novembro
De Novembro
sobram as paisagens
de folhas estioladas.
A deriva do quotidiano
parece vazia.
Encontrei dois gatos
a colher do sol a luz,
com os olhos inquisidores
postos em mim.
Esperei que parassem de me olhar.
Não aconteceu.
Perseguiram-me até eu virar caminho
para aí voltarem a cerrar as pálpebras
sobre o lençol morno da manhã.
A deriva do quotidiano,
o tapete morto e alheado
do outono,
a puta da nostalgia.
sobram as paisagens
de folhas estioladas.
A deriva do quotidiano
parece vazia.
Encontrei dois gatos
a colher do sol a luz,
com os olhos inquisidores
postos em mim.
Esperei que parassem de me olhar.
Não aconteceu.
Perseguiram-me até eu virar caminho
para aí voltarem a cerrar as pálpebras
sobre o lençol morno da manhã.
A deriva do quotidiano,
o tapete morto e alheado
do outono,
a puta da nostalgia.
domingo, 11 de novembro de 2012
O conto da rua de baixo
Havia um pobre,
um aviltado,
sobre o qual todos ajuizavam.
O pobre,
que comia papas de milho
e que as guardava nas barbas longas
sujas pelo carcomer dos dias,
não ligava muito a conversas.
Calava o que sentia
porque, na verdade,
não sentia nada.
As papas de milho já não tinham sabor,
os bancos dos jardins eram sempre
da mesma madeira fria e húmida,
a dureza do pó de pedra, a entranhar os pulmões,
era sempre a mesma todos os dias.
Por isso ele não sentia,
não por ser mais fácil,
mas porque sentir lhe estava vedado.
E todos diziam,
coitado do pobre!,
uns reclamavam,
mais comida para o pobre! mais casa para o pobre!
outros murmuravam,
cheira mal este pobre!
outros gritavam,
que pouco que faz este pobre!
e outros pontapeavam
sem o querer, um cartão rasgado e podre,
que guardava o pobre.
E o pobre calava.
Não pensava se queria ou não queria.
Apenas esperava pelas papas de milho diligentes
que uns estranhos lhe traziam.
Alguém disse,
o pobre tem que se habituar a ser pobre!
porque riqueza há pouca, realmente,
e mais vale tê-la quem faz por merecê-la.
Alguém disse,
o pobre tem que ser pobre para não haver mais pobres como o pobre!
porque o pobre, naquela rua, era só um
na imagem aparente de um rua de passeantes
e ninguém quer uma rua pejada de pobres
em vez de passeantes.
Alguém disse,
é pena ser pobre, mas o pobre é pobre, caso contrário que seria?
porque todos temos um nome
que nos esperou no sideral concílio das ideias,
e o destino do pobre era receber o seu nome
e fazer-lhe jus, como nós todos.
Alguém ouviu um outro alguém
e armou-se uma rixa.
A confusão que era, ver-se na rua
antes clássica, sóbria e serena,
a confusão dos apetrechos da violência.
Palavras, pontapés, murros e cacetadas
espraiados ao longo da travessa irregular.
Porque uns gritavam,
vocês não sabem o que é ser pobre!
e não sabiam,
e outros buzinavam,
o pobre só é pobre porque o quis, saiu de casa e fez-se pobre!
e de facto saíra,
e outros proclamavam,
ninguém merece ser pobre, ninguém deve ser pobre!
e assim era que ninguém merecia nem devia.
Os carros pararam,
a bulha acentuou,
e portanto a polícia logo se
aprontou a declarar término
ao inaudito rebuliço.
O ralho que fazem estes cidadãos
quando lhes apertam as convicções!,
houve um agente que repetia.
A poeira assentou
e de novo houve sol naquele dia
e o murmúrio do vento nas árvores
negligentes.
Veio uma noite de estrelas
vagarosas e vazias
e chegou nas mãos de um inocente
um prato de papas de milho
quase frias.
E o pobre onde estava?
O que fazia?
Pisado e alheado,
num gemido mutilado,
o pobre morria.
um aviltado,
sobre o qual todos ajuizavam.
O pobre,
que comia papas de milho
e que as guardava nas barbas longas
sujas pelo carcomer dos dias,
não ligava muito a conversas.
Calava o que sentia
porque, na verdade,
não sentia nada.
As papas de milho já não tinham sabor,
os bancos dos jardins eram sempre
da mesma madeira fria e húmida,
a dureza do pó de pedra, a entranhar os pulmões,
era sempre a mesma todos os dias.
Por isso ele não sentia,
não por ser mais fácil,
mas porque sentir lhe estava vedado.
E todos diziam,
coitado do pobre!,
uns reclamavam,
mais comida para o pobre! mais casa para o pobre!
outros murmuravam,
cheira mal este pobre!
outros gritavam,
que pouco que faz este pobre!
e outros pontapeavam
sem o querer, um cartão rasgado e podre,
que guardava o pobre.
E o pobre calava.
Não pensava se queria ou não queria.
Apenas esperava pelas papas de milho diligentes
que uns estranhos lhe traziam.
Alguém disse,
o pobre tem que se habituar a ser pobre!
porque riqueza há pouca, realmente,
e mais vale tê-la quem faz por merecê-la.
Alguém disse,
o pobre tem que ser pobre para não haver mais pobres como o pobre!
porque o pobre, naquela rua, era só um
na imagem aparente de um rua de passeantes
e ninguém quer uma rua pejada de pobres
em vez de passeantes.
Alguém disse,
é pena ser pobre, mas o pobre é pobre, caso contrário que seria?
porque todos temos um nome
que nos esperou no sideral concílio das ideias,
e o destino do pobre era receber o seu nome
e fazer-lhe jus, como nós todos.
Alguém ouviu um outro alguém
e armou-se uma rixa.
A confusão que era, ver-se na rua
antes clássica, sóbria e serena,
a confusão dos apetrechos da violência.
Palavras, pontapés, murros e cacetadas
espraiados ao longo da travessa irregular.
Porque uns gritavam,
vocês não sabem o que é ser pobre!
e não sabiam,
e outros buzinavam,
o pobre só é pobre porque o quis, saiu de casa e fez-se pobre!
e de facto saíra,
e outros proclamavam,
ninguém merece ser pobre, ninguém deve ser pobre!
e assim era que ninguém merecia nem devia.
Os carros pararam,
a bulha acentuou,
e portanto a polícia logo se
aprontou a declarar término
ao inaudito rebuliço.
O ralho que fazem estes cidadãos
quando lhes apertam as convicções!,
houve um agente que repetia.
A poeira assentou
e de novo houve sol naquele dia
e o murmúrio do vento nas árvores
negligentes.
Veio uma noite de estrelas
vagarosas e vazias
e chegou nas mãos de um inocente
um prato de papas de milho
quase frias.
E o pobre onde estava?
O que fazia?
Pisado e alheado,
num gemido mutilado,
o pobre morria.
domingo, 4 de novembro de 2012
Do vazio
E isto que sinto
que é senão a verdadeira
ausência?
E isto que te peço
que é senão o verdadeiro
encontro?
Tantas vezes o barco distante
navega perto,
e eu que não pego na tua mão
porque quero ter algo
com que tapar os olhos.
E eu que não te olho
porque tenho o passo curto
e voraz,
e passo sem pensar
nas certezas.
E eu que clamo, cego
a dádiva do toque,
sem estender primeiro
o mais ínfimo dedo.
Eu que tenho em mim
a soma dos vácuos
incompletos.
que é senão a verdadeira
ausência?
E isto que te peço
que é senão o verdadeiro
encontro?
Tantas vezes o barco distante
navega perto,
e eu que não pego na tua mão
porque quero ter algo
com que tapar os olhos.
E eu que não te olho
porque tenho o passo curto
e voraz,
e passo sem pensar
nas certezas.
E eu que clamo, cego
a dádiva do toque,
sem estender primeiro
o mais ínfimo dedo.
Eu que tenho em mim
a soma dos vácuos
incompletos.
Do sopro
A maresia agreste
foi o que nos fez mudar para cá.
Esse cheiro do infinito
a penetrar-nos os pulmões secos,
essa invasão natural do condensar
vazio dos tempos.
Foi essa maresia o que nos uniu
e matou, lascando aos poucos
as pontes rarefeitas
da nossa memória.
Um sopro perene
no sussurro da mente.
Um dia isto
e outro nada.
foi o que nos fez mudar para cá.
Esse cheiro do infinito
a penetrar-nos os pulmões secos,
essa invasão natural do condensar
vazio dos tempos.
Foi essa maresia o que nos uniu
e matou, lascando aos poucos
as pontes rarefeitas
da nossa memória.
Um sopro perene
no sussurro da mente.
Um dia isto
e outro nada.
sábado, 3 de novembro de 2012
Da transcendência II
Nem todos temos o dom
de sermos superiores.
Nem todos temos esse charme
ecléctico, vasto, indeterminado
de sermos donos de tudo.
Nem todos temos a certeza do que somos,
nem do que comemos, do que fazemos,
nem por onde andamos, quem pisamos,
quem amamos, quem roubamos,
quem esquecemos e o que dissemos.
Nem todos temos a ciência,
o saber viver na ponta dos dedos
e da língua.
Portanto nem todos falamos
do que é ser-se tudo ao mesmo tempo.
Do cosmos perfeito, fechado,
hermeticamentente selado
por um vácuo redentor
de êxtase pessoal.
Esse cosmos
que é o ser perfeito,
quando furtivamente
se cruza com o seu próprio olhar
na ondulação negligente de um lago calmo.
Portanto, por mais que a vida,
ou o demiurgo antropo,
escrevam direito por linhas tortas,
nada desafiará os cientes
de si mesmos.
Só a eles pertence o pináculo,
a dourada esfera vazia
do fluir do tempo.
Só a eles a verdadeira determinação dos eventos
em se cruzarem em linha segura,
passadeira extensa que se humilha
perante a tão determinada
confiança do passo seguro.
Só a eles a face da vida
reservada aos semideuses.
Pois só eles sabem apontar,
com o indicador em riste,
a sua directa proveniência
da copulação alada
dos anjos.
de sermos superiores.
Nem todos temos esse charme
ecléctico, vasto, indeterminado
de sermos donos de tudo.
Nem todos temos a certeza do que somos,
nem do que comemos, do que fazemos,
nem por onde andamos, quem pisamos,
quem amamos, quem roubamos,
quem esquecemos e o que dissemos.
Nem todos temos a ciência,
o saber viver na ponta dos dedos
e da língua.
Portanto nem todos falamos
do que é ser-se tudo ao mesmo tempo.
Do cosmos perfeito, fechado,
hermeticamentente selado
por um vácuo redentor
de êxtase pessoal.
Esse cosmos
que é o ser perfeito,
quando furtivamente
se cruza com o seu próprio olhar
na ondulação negligente de um lago calmo.
Portanto, por mais que a vida,
ou o demiurgo antropo,
escrevam direito por linhas tortas,
nada desafiará os cientes
de si mesmos.
Só a eles pertence o pináculo,
a dourada esfera vazia
do fluir do tempo.
Só a eles a verdadeira determinação dos eventos
em se cruzarem em linha segura,
passadeira extensa que se humilha
perante a tão determinada
confiança do passo seguro.
Só a eles a face da vida
reservada aos semideuses.
Pois só eles sabem apontar,
com o indicador em riste,
a sua directa proveniência
da copulação alada
dos anjos.
Do frio II
Os dias somem-se
azuis.
Por detrás
das cortinas transparentes.
Há alguém que procura,
eternamente,
o amado que não volta,
ou o gato que se evadiu
das carícias constantes.
Um vulto, nada mais,
banhado pelos reflexos cadentes
da tarde moribunda.
Quem daqui lhe ouve
as inflexões
ciciadas
do pensamento?
Entre o húmido do casario
e os pulmões congestionados
da solidão urbana,
os passos ecoam com o desleixo
de um chapinhar
comum.
Não sou mais do
que eu mesmo.
Isso eu sei.
Não sou mais do que um vulto
prisioneiro de cinco andares de
íngreme
escadaria.
No alto de uma torre
ou nos serpenteantes
caminhos de um transeunte perdido,
guardamos todos o mesmo
olhar
sobre as horas,
vagas e dispersas.
O olhar de quem procura,
de quem perscruta dentro dos autocarros,
das montras, das janelas negligenciadas
do abandono,
o gato desaparecido.
De quem sente,
por momentos,
o ronronar sossegado
da alma.
De quem lhe estende
a mão aberta, a voz suave,
e lhe vê escapar, fugaz,
a vida.
azuis.
Por detrás
das cortinas transparentes.
Há alguém que procura,
eternamente,
o amado que não volta,
ou o gato que se evadiu
das carícias constantes.
Um vulto, nada mais,
banhado pelos reflexos cadentes
da tarde moribunda.
Quem daqui lhe ouve
as inflexões
ciciadas
do pensamento?
Entre o húmido do casario
e os pulmões congestionados
da solidão urbana,
os passos ecoam com o desleixo
de um chapinhar
comum.
Não sou mais do
que eu mesmo.
Isso eu sei.
Não sou mais do que um vulto
prisioneiro de cinco andares de
íngreme
escadaria.
No alto de uma torre
ou nos serpenteantes
caminhos de um transeunte perdido,
guardamos todos o mesmo
olhar
sobre as horas,
vagas e dispersas.
O olhar de quem procura,
de quem perscruta dentro dos autocarros,
das montras, das janelas negligenciadas
do abandono,
o gato desaparecido.
De quem sente,
por momentos,
o ronronar sossegado
da alma.
De quem lhe estende
a mão aberta, a voz suave,
e lhe vê escapar, fugaz,
a vida.
Da transcendência
O espírito que se sopra.
O dia era outro, e a dança
cadente,
era a tua.
Em roda, uma rua turva.
Casas soltas do chão. Dançante
nevoeiro de lágrimas e riso.
Uma hora não são horas,
um tempo dentro de todo o tempo,
não é nada. É vento
bafejado na nossa cara, nos teus aromas
cabelos que voam.
Vamos, vá, o tempo é agora!
Rimos sem pudor
porque desconhecemos
a vergonha humana.
Todo o orgulho, toda a fome de ser
nutrida em nós.
Uma música, não sei de onde
proveniente.
Dos passos, talvez.
Ritmos marcados na
frontes animadas.
O suor despejado na harmonia húmida
do toque furtivo.
Ritmado temporal nas nossas mentes.
O céu desaba e dançamos
sem sentir medo. Nunca.
...
O espírito bafejado
toldou-nos os olhos. Vermelhos,
reviram-se em elipses viciadas.
Trincámos o fruto e a memória cedeu-nos
o espaço da libertação.
Uma e outra vez caímos em rituais
efémeros. O sempre que se parte
em novelos desgarrados de carne.
O meu centro a afastar-se
do teu eixo primário.
As voltas dando voltas em si.
A náusea, o pudor, o medo
numa derradeira espiral
inesperada.
...
Horror de nós mesmos,
descobertos finitos.
Do ócio
Doce milagre
de abandono perene.
Uma quebra momentânea,
um arrepio.
Da inutilidade da vida
somos todos
rebanho lancinante
presente.
A testemunha.
Lassos, mais lassos que um sol tardio.
A demora nos gestos e nas sílabas,
a moleza do ser, congénita.
Distantes rostos, sombras do destino traçado.
O medo comido todo
por uma gigante paralisia
das vontades.
Num cerco fechado
Esparsos comentários
dilatados no silêncio incauto
do tempo noctívago.
Falar do quotidiano,
embrenhado nele
é magistralmente absurdo.
Começar o dialógo
só; o martírio de uma
resposta limpa, escorreita
Que se espera, que não vem,
que nem se vislumbra nos sussurros
bocejados do vento.
Cortinas dançantes
da nossa ansiedade perene;
E tudo bem?
Tudo... normal?
O dia é derradeiro,
sabias? É...
Mais um dia. Sim.
Outro, a seguir a uma noite
de contemplações insómnicas
Aos passos do vizinho de cima,
o seu som. Guardamos todos
a essência de uma verdade partilhada.
O cordão que nos prende à terra
é um só. Cortámos da vida os laços
sombrios dos outros.
Ganhámos o nome, os bens e a atitude
de nós mesmos. E fomos quem?
Sempre nós dentro de nós.
Outros que não nós, também nós
sem o sabermos.
Ego sobrenatural estendido
a mil milhares de milhões
de cabeças, espiraladas
em raciocínios voláteis.
Como a existência é isto tudo.
A imagem vã,
a distorção da realidade pristina,
a sensação de se ser mundo inteiro e completo
num cerco fechado.
Ser-se isso e gente humana.
Ser-se o pensamento, a carne que o guarda,
ser-se a magia profana da alma,
ser-se isso e ser nada.
Mundividências
Mundividências analíticas
e a água escura de um esgoto.
A parecença brutal, feroz, carnal
das coisas relativas,
com acentos circunflexos
em flexões concâvas
do tédio.
A bola que gira na sua translucidez,
o ar que emana a luz da tarde,
o bafo do verão
e o redondo dos dias.
As coisas dissemelhantes porém
e iguais, tão perto de si mesmas.
Viver não é mais do que ser a ligação
entre as ligações não ditas.
Não é mais do que parir ratos
entre montanhas malditas.
(A marcha lenta dos eléctricos vai carregada do fascínio.
Rente ao chão, o mundo é outro.)
Caminhar Permanente III
Lava-te da podridão diária.
O rosto que tens
é o que te consome.
A máscara dos medos
colada à razão profana.
Emana da alma o indizível,
faz-te gente diante de um espelho.
Canta louvores de boca cerrada
às tensões telúricas da irracionalidade.
Morde os lábios
e o corpo inteiro de seguida.
Quem és tu?, finges...
as coisas todas que te pisaram,
que te acabaram,
que te excisaram
dos pedaços pristinos
do teu deus.
Quem és tu?, mentes...
diante da hora vaga
é sempre madrugada e não é,
a insónia tem raios de sol nos cabelos
e dançam os dedos no aperto
assassino do sufoco.
Quem és tu?, mataste-te cedo...
as badaladas ainda eram poucas,
o sinal dos tempos era a linha
horizontal
do desconhecido.
O mundo ainda era mundo
e as coisas estavam fixas
na tua mão.
Creste no divino prematuro
que te inflamava as veias.
Sucumbiste ao vácuo
da sensação.
Deste-te como cordeiro.
O altar ruiu.
A negligente e execrável órbita
dos corpos;
olhou e
prosseguiu.
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