sábado, 17 de novembro de 2012

Ode ao quotidiano

Não te eternizes
no virar da página

às tantas ainda apanhas
com a saliva desleixada
de um dedo rastejante.

Não sejas o herói
concreto dos tempos
pós-modernos

às tantas ainda
disparam sobre ti
por sobrevoares sem capacete
o a torre da igreja.

Não queiras ser
o queixume do pivô

as notícias da televisão
envelhecem-te a pele
e dão-te a cintura
de um cachalote tresmalhado.

Não te faças
aquilo que não és

dentro de ti a réstia
de miséria descansa arredada
esperando os dias calmos
do armistício com o quotidiano.

Tenta por isso
levantar-te cedo
ter trabalho a horas fixas
ser pago a dias fixos
montar a mulher a noites fixas
comer bifes em restaurantes fixos
conduzir em carros fixos
por ruas estreitas sempre fixas
despejar o lixo nos momentos fixos
e verte-te ao espelho

nessa hora morta
em que o cansaço te cega
as órbitas moles e fluídas

elas e tu
dentro desse olhar
sempre fixo.


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