domingo, 11 de novembro de 2012

O conto da rua de baixo

Havia um pobre,
um aviltado,
sobre o qual todos ajuizavam.
O pobre,
que comia papas de milho
e que as guardava nas barbas longas
sujas pelo carcomer dos dias,
não ligava muito a conversas.
Calava o que sentia
porque, na verdade,
não sentia nada.
As papas de milho já não tinham sabor,
os bancos dos jardins eram sempre
da mesma madeira fria e húmida,
a dureza do pó de pedra, a entranhar os pulmões,
era sempre a mesma todos os dias.
Por isso ele não sentia,
não por ser mais fácil,
mas porque sentir lhe estava vedado.

E todos diziam,
coitado do pobre!,
uns reclamavam,
mais comida para o pobre! mais casa para o pobre!
outros murmuravam,
cheira mal este pobre!
outros gritavam,
que pouco que faz este pobre!
e outros pontapeavam
sem o querer, um cartão rasgado e podre,
que guardava o pobre.

E o pobre calava.
Não pensava se queria ou não queria.
Apenas esperava pelas papas de milho diligentes
que uns estranhos lhe traziam.

Alguém disse,
o pobre tem que se habituar a ser pobre!
porque riqueza há pouca, realmente,
e mais vale tê-la quem faz por merecê-la.
Alguém disse,
o pobre tem que ser pobre para não haver mais pobres como o pobre!
porque o pobre, naquela rua, era só um
na imagem aparente de um rua de passeantes
e ninguém quer uma rua pejada de pobres
em vez de passeantes.
Alguém disse,
é pena ser pobre, mas o pobre é pobre, caso contrário que seria?
porque todos temos um nome
que nos esperou no sideral concílio das ideias,
e o destino do pobre era receber o seu nome
e fazer-lhe jus, como nós todos.

Alguém ouviu um outro alguém
e armou-se uma rixa.
A confusão que era, ver-se na rua
antes clássica, sóbria e serena,
a confusão dos apetrechos da violência.
Palavras, pontapés, murros e cacetadas
espraiados ao longo da travessa irregular.
Porque uns gritavam,
vocês não sabem o que é ser pobre!
e não sabiam,
e outros buzinavam,
o pobre só é pobre porque o quis, saiu de casa e fez-se pobre!
e de facto saíra,
e outros proclamavam,
ninguém merece ser pobre, ninguém deve ser pobre!
e assim era que ninguém merecia nem devia.

Os carros pararam,
a bulha acentuou,
e portanto a polícia logo se
aprontou a declarar término
ao inaudito rebuliço.
O ralho que fazem estes cidadãos
quando lhes apertam as convicções!,
houve um agente que repetia.

A poeira assentou
e de novo houve sol naquele dia
e o murmúrio do vento nas árvores
negligentes.
Veio uma noite de estrelas
vagarosas e vazias
e chegou nas mãos de um inocente
um prato de papas de milho
quase frias.
E o pobre onde estava?
O que fazia?

Pisado e alheado,
num gemido mutilado,
o pobre morria.




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