terça-feira, 13 de novembro de 2012

O aperto


Foi ao vestir a camisola apertada,
num trejeito desleixado de quem sufoca
que sentenciei na impaciência:
"Isto é para outro ser que não eu!"

Não, de facto, a camisola não era para mim,
era para o comprador anónimo, de tamanho
médio, que paira  numa loja à procura
das vestes com que se aquecer.

Não era, de facto, para mim
essa camisola, e essa loja, e essa
máscara de comprador de tamanho médio.
Não era para mim esse tempo.

Penso em quantas camisolas apertadas
e largas vesti em desespero de causa.
O término da alfaiataria mental
deu-me cabo dos esquemas ideológicos.

Nada se ajusta, digo eu.
Nada te fica bem; isso não é a tua cara.
Nenhum apetrecho da vida se me encaixa
no orgásmico enluvar da junção perfeita.

Vou recorrendo aos pequenos incómodos,
pequenos apertos, pequenas comichões,
pequenas abrasões e pequenos desafinos.
(O molde de onde saí quebrou por inteiro.)

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