Os dias somem-se
azuis.
Por detrás
das cortinas transparentes.
Há alguém que procura,
eternamente,
o amado que não volta,
ou o gato que se evadiu
das carícias constantes.
Um vulto, nada mais,
banhado pelos reflexos cadentes
da tarde moribunda.
Quem daqui lhe ouve
as inflexões
ciciadas
do pensamento?
Entre o húmido do casario
e os pulmões congestionados
da solidão urbana,
os passos ecoam com o desleixo
de um chapinhar
comum.
Não sou mais do
que eu mesmo.
Isso eu sei.
Não sou mais do que um vulto
prisioneiro de cinco andares de
íngreme
escadaria.
No alto de uma torre
ou nos serpenteantes
caminhos de um transeunte perdido,
guardamos todos o mesmo
olhar
sobre as horas,
vagas e dispersas.
O olhar de quem procura,
de quem perscruta dentro dos autocarros,
das montras, das janelas negligenciadas
do abandono,
o gato desaparecido.
De quem sente,
por momentos,
o ronronar sossegado
da alma.
De quem lhe estende
a mão aberta, a voz suave,
e lhe vê escapar, fugaz,
a vida.
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