sábado, 21 de setembro de 2013

bureau

bicho interior de roer
o mole de ouvido
mais recôndito. enganchado
numa comichão passageira
numa alucinação de espelho
vai enumerando sob o queixume
dos sussurros nocturnos
a modelação arquétipa
que rege em ponteiros os dedos
maiores dos pés na passada
mais longa que fura o autocarro
e desemboca nas nove de emprego são
para só acreditar na fricção
de derrames essenciais entre
o olho cinzento o dedo quase negro
e o tão pouco profissional borrado
do papel de impressão.

o leporino que macha o cínico

por onde andam os pés que nos caminham?
onde essa força toda ela
motriz
a chacinar sobre nós
vagarosas noites de cristal
de olhos pisados por existir
com fel e terra e mosto
no lugar de lágrimas?

por onde o traçado dos caminhos
e sobre as veredas por onde
um sol que se ponha
infinito na distância mais
concreta
do ideal de horizonte?

por onde o inefável
e o sumo das palavras?
por onde o dizer pouco
dizer nada até
e saber tudo dito?

ainda me contemplo ao fundo dos cafés
meus inimigos naturais
minha nascença paralítica
através deles para eles com eles
sorte de quem não tem na testa desígnio dela.
ainda me vejo com cor de vidraça suja
e num tempo talvez prematuramente outonal
sei de mim a minha figura.
e com que nojo
(o mesmo com que se descobre a maculadora nódoa sobre o lençol mais puro)
com que nojo desfaço entre dedos esse tempo
de cigarros mornos a encher
baratos as narinas mais inquietas.
com que raiva fecho entre os dentes
um sabor férreo de tempo
óxido volátil dos meus detritos pensantes.

nasceu um condenado
desde o papo das olheiras
ao condescendente dos dedos.
nasceu um inquieto colado ao banco
para sempre sentado no seu dia mais plano
de luz morna e vento lacustre.
que belo o seu semblante de coisa nenhuma
o seu existir sem paralelo.
que sombra tão escorrida pela a parede
em aguados traços lúgubres de desconsolação.
que fulgurante traço de idiota naquele nariz
tão normal quanto obtuso
naquele trejeito simbólico de lábios
[o leporino que macha o cínico]
naquele olho entortado por tamanha
incomparabilidade com os objectos
e as coisas diárias de sair à rua
e ter menos tempo que ontem para pensar
que se tem menos tempo que ontem.

ouviu
(julgou)
no tremor da mão
no frémito indolor dos dedos
uma vontade de musa escondida
a indicar damasco e por ora o seu caminho.
vem alucinação vem
proclamou
e fumou de uma vez meio charro
(julgou)
e bebeu de um trago meia garrafa
(julgou)
e trouxe para casa os sem-abrigos que encontrara àquela hora
mas na verdade nunca tivera casa
nem portanto sem-abrigos para estimação.

estivera
incolor mas não desse tom
do incolor dos dedos depois de mergulhados
no bendizer das águas tépidas de templo
durante horas até que
afogados por tanta inércia santa
se calam sem cor.
mais um incolor de inverno
meio lama de chuva meridional
meio bafo de velho contra o vidro de autocarro.
e esse incolor por inteiro
tornara-se o seu mote
a sua inspiração. sua
eternamente uma
incolor admiração.

pernoita agora nos bancos
mais afastados do ruído e das lágrimas
dos jardins
sem acolher cafés na sua deambulação.
o que lhe basta
é uma nesga de lago estanque
um cortar de espelho
que lhe devolva um retrato de céu.

ainda o julga seu
por inteiro.

o bas-fond de s. bento [episódio xyz]

eu te invoco taberna rouca
a suar política com frituras
sob os meus pés de sesta morna.

eu te invoco baixio de s. bento
com a fachada desigual do silêncio
a tua habitual alma de bulício

e noites sussurradas em novelas
de janelas abertas e cortinas gotejantes
para o mundo outro mundo teu dentro

outro tanto. consome-se o dia
em lentas horas de almoço
e rasantes eléctricos ansiosos. o meu

dia dentro do teu
já não é dia. é hora extensa
enquanto espero ponteiros que me mintam

é agora.

Variações sobre um tema vulgar

hoje começa a vida
a entrar pura pela janela
e eu vou
e eu perco-me nela.

hoje começa a ante-manhã
a caminhar junto aos muros abertos
de cal suada pelas mãos dos
ventos. e eu durmo antes de mim.

hoje quem me chama recortado
pelo silêncio do deserto
não sabe que aqui
repousa só e fixa a ausência.

amanhã depois de anteontem
uma encruzilhada no meio
de mim floresta árida de planura
chega ao término. dá-lhe

um fim e uma intenção de vida
administrativa para sôfrego correr
sobre o asfalto dos papéis meus
dedos ensalivados de mioleira

fria a verter sobre a testa
o sentido mais perfeito
da vida. ela vem e tem a escada
atapetada quase direita.

ela vem hoje e
entra áspera e dura
vem densa e exacta
sem mistura de sonos e

ziguezagues de passadas
ao comprido da rua.
vem com o meu nome e gaveta
à medida. derradeiro paliativo

como narcisos em linha diante
dos olhos cansados e cheios
do horóscopo da terra
virado eterno para si mesmo.

hoje começa
e tem vindo a começar sempre mais
até um dia terminar o começo
e principiar a ser o que esqueço.

2013-09-08

sábado, 14 de setembro de 2013

meus
todos os dias
meus entrançados 
caudais de púrpura tardio.
reclamo-os arenosos à margem
dos meus dedos dos meus dias das
sempre minhas eternas janelas de tarde 
sombria a levar para a rua o calafrio da 
aragem o equinócio cá dentro a espera a 
seiva manchando de tempo líquido a imagem
que eu perdi da minha infância. espero-a
balançando na minha espera de estação
agitando-a com o vigor das horas
crescentes e súbito descentes
até ao pleno mais descrente
do meu retrato postiço
eu imaginado face
cara na cara
dos outros
antes de
mim.

//

roubaram-me a miséria
roubaram-me a ideia feita
a casa e os vizinhos e um quintal
tão possível quanto o meu nome.
ardeu e depois esparso foi sobre
uma vaga de onda 
tão igual.
roubaram-me antes de ter sentido
o paladar da luz que irradia
de dentro das coisas
que se recordam.
roubaram-me a língua e o verbo
nela adormecido.
roubaram-me. OIÇAM
e o que clamo meu
é só uma lâmina de impostura.
é apenas camada límpida e pura
para esconder
o não haver.

antes de mim
antes de mim

uma tarde
um durante.
talvez eu.

domingo, 8 de setembro de 2013

slows

sintomático
o movimento de pernas
o balançar da cabeça.
raça decadente
a rejeitar cervejas
ao canto dos bares
aquosos.
por sobre a mesa
uma cruz de braços
e uma dor de cabeça
abandonada a cinzas.
fumega sobre as lâmpadas
um dia a ser recusado
mas quem fica
aqui
sentado à espera
que os pés cresçam
para baixo
directos à raiz dos saxofones?

menos morte
e tanto cheiro dela.

"verifica-se que Xis atingiu a maturidade poética"

se um dia eu pender da haste
e fruto maduro rasgar o chão
matem-me!

pisem-me
escorracem-me
firam-me da latência
do ostracismo.

quero que me expludam as veias
e germine apenas néctar de vácuo sobre os campos.
que não reste nada.
que não deixe nada.
nem herança nem herdeiros
nem a cor dos olhos nem o horror das palavras
nem o odor inculcado de suor pelos caminhos.
tudo o que pisei se aniquile e me finja
nunca existido.

esqueça-se a fala
esqueça-se a letra.
se um dia aprouver que me tragam
como osso canino saliente entre baba e boca
que me torne merda e me cuspam em sentença

"este porco que amadureceu
ingrato
afinal estava podre."

felizmente
sempre estive podre.

sábado, 7 de setembro de 2013

a Ideia também faz bicos

meu rumor de manhãs rarefeitas
minha cor de leito de luz trespassado
minha curva idêntica de silêncio a cada
esquina. uma nova rua sedenta dos teus
passos. um frio de espinha a crescer
no teu seio o arfar insurrecto
de estilhaço.

minha distância de permanência
carne branca em sangue que se condensa
olho revirado a perder nos sulcos
a linha que corta a fronte e o crente.
não temas mais a força de um
sol postiço sobre a rajada de um verso.

a [minha] palavra comeu do mel da podridão entreaberta
para secar de vez a saliva inane.
ainda ouço os reflexos de prata cozidos
entre os meus dentes
mas calo-os com a chacina limpa

da língua.

corre em mim o rio parasita

corre em mim o rio parasita
e aflora seco à boca

lacrada a jaspe e madrepérola.
o presságio das abelhas dentro do alecrim

mais a promessa de chuva sobre as colinas.
corre em mim o vento eremita.

o olho do homem sobre os campos
uma cicatriz de terra com charrua

a ornar paralela o desabar do frio
corre em mim o tempo de sóis nenhuns

corre em mim um sentido mais opaco
de mudez. o que corre é o corpo inerte

e nos dedos corre estéril um carreiro
de palavras-formiga. para dentro onde corre

o nome.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

o remate de um poema

o que eu quero é ser medo
de mim e ser canto
de distância.
também com isso o tempo do fim
cai lento e já nos envenenou a pele
queimou devagar os olhos
ao ritmo das fagulhas
e deu ao mundo o aspecto sagrado do tardio.
sempre os ponteiros batem prematuros
o remate de um poema.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

e se uma onda diverge?
assim também o sentido
tumular da espera
assim também a hora precipício
de poente. a nossa
escassa saliva laudatória
aos cantos frugais da primavera.
//
já se não vê
mais que a faca desse cume
de montanha fechada.
duas mãos chegam para a abarcar
e um lábio adormecido
ainda se esquece sob a aparência da rocha.
é a cor do tempo essa que cai em maresia
e a gente de pó que o abençoa
de joelhos sob uma cruz
de cantos de pássaros e de amoras silvestres
eleva ao alto uma ressonância horizontal
cria este homem cego
da cor dos pinheiros e dos cedros
da cor dessa mesma reverberação de oratória.

e este homem foge
da carne dele mesmo.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

e segue o rasto dos bosques
e da distância.
todos necessitamos 
da mentira.
//
por quem são os montes
e os pinhais?
por quem dormem
os reflexos de um anterior nosso
a serem mancha de manhã
na sombra imaculada dos olivais?
há muito que ouço a espera
como eco
e já não conto os passos
nem os olhares roubados.
o que eu quero é deixar
sobre a toalha da mesa
a marca do café
e residir nela
a contemplar no canto do olho
o respirar tímido da janela
o tingir de verde adormecido.
já aí tão morto
o cerrado dos dentes
e o crime da pulsação.
já aí tão eu 
nomeado
eu fechado 
sobre mim
nova crença 
certa e derradeira

eu 
minha escarpa de fim.
o fio das palavras
que te enterraram na língua
permanece
para te imprimir (e)terno
o sabor da ausência.
//
o caminhar de floresta
enredou-nos os passos
na distância dos milénios.
feitos pelas estações
não mais cremos no luminoso do dia sobre as sebes.
somos os mesmos e sabemo-lo.
ainda guardamos os mesmos sinais
e o corpo ainda fala através das fricções.
mas não mais guardamos
o dom da água saliente
a cadência dos trinados
e o término das orações dançantes dos ramos.
somos a vacuidade do verbo
e esse espaço côncavo
embebeu-nos os dedos
penetrou nas veias periféricas de uma sempre
esquecida inocência
apodreceu-nos os membros
e deu aos olhos
novo contorno sórdido
a fazer lembrar aos eclipses
a carne telúrica em fim de gestação
a tempestade ainda em zunido sobre os campos
o quebrar estático de uma latência mais profunda.

então
na mudez dos líquenes
atingimos a língua mais primeva.
somos rocha e contemplamos o horizonte
enrugado na nossa mão.

vai
e o que te prende
sucumbe.
//
os laços forjaram esta cicatriz
imensa que vai desde mim
a ti num infinito gume
de horizonte.
como chegámos a ser
coisa nenhuma?
mais que o nevoeiro disperso
ao sopro dissipador da manhã
menos que a sombra estival
dos nossos segredos
uma lembrança para derreter
no fim de um verão de outra década
e enterrar antes da mortandade das folhas
e da podridão solta dos frutos.

esta secura de pensamento
este impedimento cruel por natureza
impele-me ainda
mais e mais
como se a força de uma cobardia
anulasse o gesto
a inteira e imensa culpa
a face soterrada diante dos próprios pés
uma contrição de fim
uma unção e não sei em que tempos
um vil deleite de perdão.

a margem de lá
é esse muro
idioma que os olhos não alcançam.
perdido do lado de cá
caminho com a urgência a criar teias pelas esquinas
e é na mesma velocidade da descida calada do pó
que me deito manto sobre as fachadas dos edifícios
e preencho os espaços daninhos da calçada.

espero um dia cobrir por inteiro este rio
morada desesperada de tântalo
e nele silenciar
fundo
a cor extinta
deste olhar.


domingo, 1 de setembro de 2013

refreia a deriva
com o dobrar contínuo dos olhos.
//
a mão que te estendi
e que por si só furou os céus mais fundos
até os picos dos pinheiros bravos
os cumes inteiros de um ocidente vulcânico
essa mão aguarda a fé
rebusca agora no perfume dos órgãos
nas manhãs mais sombrias onde jazem
perdidos pela estrada
os corpos esventrados dos peregrinos
essa mão que te cingiu
a volta contínua aos rins dilacerados
a sucção dos frutos feita romance
e nós dois
só nós no meio da podridão
feitos fendas inacabadas
com tremores amargurados
e esgares vítreos
(somos a iconoclastia dos lagos).
a mão que te criou
cristal cantante de aurora
foi decepada
(com três golpes inteiros cumpriu-se o rápido serviço)
e hoje quem a tem
sobre a cabeceira
vela-a em silêncios insones
criou-a e deu-lhe uma morada.