por onde andam os pés que nos caminham?
onde essa força toda ela
motriz
a chacinar sobre nós
vagarosas noites de cristal
de olhos pisados por existir
com fel e terra e mosto
no lugar de lágrimas?
por onde o traçado dos caminhos
e sobre as veredas por onde
um sol que se ponha
infinito na distância mais
concreta
do ideal de horizonte?
por onde o inefável
e o sumo das palavras?
por onde o dizer pouco
dizer nada até
e saber tudo dito?
ainda me contemplo ao fundo dos cafés
meus inimigos naturais
minha nascença paralítica
através deles para eles com eles
sorte de quem não tem na testa desígnio dela.
ainda me vejo com cor de vidraça suja
e num tempo talvez prematuramente outonal
sei de mim a minha figura.
e com que nojo
(o mesmo com que se descobre a maculadora nódoa sobre o lençol mais puro)
com que nojo desfaço entre dedos esse tempo
de cigarros mornos a encher
baratos as narinas mais inquietas.
com que raiva fecho entre os dentes
um sabor férreo de tempo
óxido volátil dos meus detritos pensantes.
nasceu um condenado
desde o papo das olheiras
ao condescendente dos dedos.
nasceu um inquieto colado ao banco
para sempre sentado no seu dia mais plano
de luz morna e vento lacustre.
que belo o seu semblante de coisa nenhuma
o seu existir sem paralelo.
que sombra tão escorrida pela a parede
em aguados traços lúgubres de desconsolação.
que fulgurante traço de idiota naquele nariz
tão normal quanto obtuso
naquele trejeito simbólico de lábios
[o leporino que macha o cínico]
naquele olho entortado por tamanha
incomparabilidade com os objectos
e as coisas diárias de sair à rua
e ter menos tempo que ontem para pensar
que se tem menos tempo que ontem.
ouviu
(julgou)
no tremor da mão
no frémito indolor dos dedos
uma vontade de musa escondida
a indicar damasco e por ora o seu caminho.
vem alucinação vem
proclamou
e fumou de uma vez meio charro
(julgou)
e bebeu de um trago meia garrafa
(julgou)
e trouxe para casa os sem-abrigos que encontrara àquela hora
mas na verdade nunca tivera casa
nem portanto sem-abrigos para estimação.
estivera
incolor mas não desse tom
do incolor dos dedos depois de mergulhados
no bendizer das águas tépidas de templo
durante horas até que
afogados por tanta inércia santa
se calam sem cor.
mais um incolor de inverno
meio lama de chuva meridional
meio bafo de velho contra o vidro de autocarro.
e esse incolor por inteiro
tornara-se o seu mote
a sua inspiração. sua
eternamente uma
incolor admiração.
pernoita agora nos bancos
mais afastados do ruído e das lágrimas
dos jardins
sem acolher cafés na sua deambulação.
o que lhe basta
é uma nesga de lago estanque
um cortar de espelho
que lhe devolva um retrato de céu.
ainda o julga seu
por inteiro.
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