hoje começa a vida
a entrar pura pela janela
e eu vou
e eu perco-me nela.
hoje começa a ante-manhã
a caminhar junto aos muros abertos
de cal suada pelas mãos dos
ventos. e eu durmo antes de mim.
hoje quem me chama recortado
pelo silêncio do deserto
não sabe que aqui
repousa só e fixa a ausência.
amanhã depois de anteontem
uma encruzilhada no meio
de mim floresta árida de planura
chega ao término. dá-lhe
um fim e uma intenção de vida
administrativa para sôfrego correr
sobre o asfalto dos papéis meus
dedos ensalivados de mioleira
fria a verter sobre a testa
o sentido mais perfeito
da vida. ela vem e tem a escada
atapetada quase direita.
ela vem hoje e
entra áspera e dura
vem densa e exacta
sem mistura de sonos e
ziguezagues de passadas
ao comprido da rua.
vem com o meu nome e gaveta
à medida. derradeiro paliativo
como narcisos em linha diante
dos olhos cansados e cheios
do horóscopo da terra
virado eterno para si mesmo.
hoje começa
e tem vindo a começar sempre mais
até um dia terminar o começo
e principiar a ser o que esqueço.
2013-09-08
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