segunda-feira, 11 de maio de 2015

há o dizer o que nao se busca
há o revelar o indizível

há a mancha de gordura na janela
há o pó nas escadas

há a casa a um silêncio certo
a estalar
por dentro o rosto

por dentro o outro
fora só
o símbolo ou a estrada cega

ir dar a sítio nenhum
a única missão nossa

domingo, 10 de maio de 2015

ou levarei coberto o rosto tisnado
como sorrindo o crime da inutilidade
foi preciso isto para chegar aqui
ponto nenhum equidistante só de si
algures no mar o meu braço dizendo
foi dar a alma a um outro demo
foi falar depressa descansar menos as dores
rir só de si mesmo o mundo não adianta
creio mesmo nunca
e de que serve o que nem se diz
perguntava como quem uma resposta já
e de que serve coberto o rosto tisnado
para isto para isto
para levar dentro do rosto um lugar menos cheio
algum furto alguma água algum espaço
só um quanto baste
para amarelecer a folha única
que não escrevo
viver costurando o serviço cúmplice dos rostos
estender a mão à cidade roubar-lhe o olho
perfurar as objectivas serenas a lenta decomposição
dos membros agarrando o espírito de viés
cismar
a coisa ser o mundo o mundo a
língua com que se olha e se mexe na coisa
ter tempo para parar o tempo
ser fútil nas reduções ao lume nas palavras
dizer aquele lugar-comum ali acima
não sofrer por isso nem sequer morrer um pouco
apenas saber que um pedaço disto sou eu mas
ficar na rua em que sempre se foi
originar o plano engoli-lo pendurá-lo
recortar sons e cheiros deixar queimar
fixar nomes placas jardins e numa mesa
assentar o chão premir a luz

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dizer-te a cor
deixar-te o fruto
sob a tarde amarelecida

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há-de se dizer disto tudo
cumpriu-se

mas não se há-de dizer
venha o morto
ler-se a cara

nem se há-de dizer
não seja parvo que isto não se acaba

nem mesmo se há-de dizer
faltam vinte para as três
quer ir beber café e morrer depois

nem nunca se dirá
como é ser pobre e ter a boca suja
a que sabe o cuspir sangue às três da madrugada
como é ter uma perna maior que a outra
como se fazem os ninhos em dias de chuva
como se tiram nódoas de vinho das toalhas de mesa
como é ter língua e não se servir dela

há-de se dizer disto tudo
oito euros para nada




segunda-feira, 4 de maio de 2015

isto de que quando crio exulto
isto de que quando crio sou outro

vejo tudo turvo
as coisas em si
e vejo tudo claro
isto é ser de facto eu

um merdas
amigo um merdas

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eu fui lavar assim o dia

deixa que te cante
estrofe a estrofe
este estar sempre

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fiz mais do que pude
de gatas a ré e de bicicleta
fiz-me à estrada e dei
o corpo porque o mundo
quis

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vejo negro tudo
olhar é já mentir
mãe corta-me o medo
a voz desfaz-me o nó
limpa-me os olhos

acordar de novo é dor tamanha
um grito sujo e não passa
para quê este sopro antigo
diz-me para quê o teu rosto

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da capo
anotação à guilhotina
a última palavra diz que fende
eu considero sim o teu corpo à luz
para faltar só isso
quando se escreve assim
um mau poema
e agora que temos
o poço dos negros
a casa avarandada
um sorriso e as vizinhas são
uma simpatia mas não
nos deixam sequer largar-lhe o cão
à porta e bem pensando
agora que temos dias
luminosos tabaco e jornal
dois pedais e miúdos
um sem cessar de amigos
e a casa se paga aos poucos
devagar mas alegremente há
um escritório às tardes mansas
o café o ouro das janelas a razão
do nosso lado até a vista nos espreita
e dormimos com ela de noite
abraçados ao quente que é
mais miúdos mais fins-de-semana
mais andar a pé e às cavalitas
mais ser senhor do destino e dono da cidade
minto do país que é haver só isto
igrejas velhinhas lixo e eléctricos
ah agora a sinfonia de voltar atrás
andando em frente quem me dera
nunca mais um quem me dera
vive-se vive-se e pronto
há rio e carros e passeios e jardins pobres
e pouco asseio também interessa
não ser tudo bonito e rarefeito
às vezes um cheiro e vem um sem-abrigo
e passa num castigo olá amigo
não há cá abraços esses são para os do vinho
ah não peço mais
as leituras e as guitarras em julho
as janelas ao comprido abertas
esperando que passe alguém e um aplauso mole
tu vais longe tu vais longe
mas a noite é esta e não nos levantamos
enquanto há um riso de vida cheia

e nisto escrevo poemas
neste ninho hodierno
saco versos da batuta
coço a nuca e sou grande
sou um país sou um país
gigante

domingo, 3 de maio de 2015

não há solução para isto
é ficar o corpo tributável no chão
daqui não nascerá nada
nem o rigor do trabalho
nem o burilar poético
nem sangue sequer que preencha os olhos
daqui de nós nem a erva mastigada
não servirá isto para o eterno reavivar dos dentes
este estrume estas maleitas este túmulo
é ficar o corpo arável no chão
não ter pressa dizer tudo
calar sinceramente ainda mais tudo
cumprir a pena sem ódio apenas um
e puro
vê-lo escorrer do céu correr fronteiro a nós
da boca aberta nem a chuva nada disso
valerá tão pouco aquilo de ser prece
de ser um outro dia depois
porque o dia é ser sempre isto
talvez o pouco que nos resta nos engane
é ser sempre e isso latejar-nos sem freio
o pressentir que a letra se fecha
que a mensagem dói mais irrevelada
que o que fica é o espaço do que se perderá
é sabermos que o que foi dito foi já demasiado
isto não finda isto apenas parte
isto não é mais que todas as mães abraçando todos os filhos mortos
não é mais que chegarmos ao fim das estradas para recomeçarmos de novo
é apenas o que já foi feito e alguém pressentiu isto já num tempo remoto
isto que eu trago é o lixo de ter a língua dentro
um órgão apetrechado de sons
um friso a mais para nos perseguir os passos
um tossicar doente a juntar aos outros todos
para quê para isto
para inventar a culpa
para que me lambam os dedos nos óleos sagrados e eu vá depressa
para que me forcem ao suicídio
para que o resultado final não transpareça
e o busquemos contínuo nas vértebras dos outros
para que ele saia das imagens voe nas pulsões
se revele em frémito
e que nada disso aconteça
não há solução para isto
chegamos a casa de alguém que morreu breve e dizemos
daqui não se aproveita nada
mas vamos-lhe às gavetas procurar o pouco decoro
cicatrizes da pobreza unhas de fome cortadas sobre a mesa
o que é isto
o que é operar a decadência
e voltamos a um resto nosso
aquele de ter palavras e de se esgotar nelas
o outro verdadeiro resto não se evade
é na noite o insecto sonante
é à luz mais crua a rua cheia e um crime gigante
ou é chegar a casa cedo e chorar até que sequemos os dedos finais
de tecer mentira
acaba-se um lume que não queima
e é isto acontecer

sábado, 2 de maio de 2015

aforisticamente imbecil

paramos à porta do medo
no entanto entrar seria
a maior cobardia
onde chego a dizer
o resto
a boca já só a casa preservada
a custo
o ornato dos cabelos a comoção
mais sincera
o fecho do dia uma costura supurando
o que falta


haverá um espaço para se dizer nada
alguém o ouvirá na certeza de um som
a descoberto
porém queimo as agulhas
faço das cartas o segredo
cuspo em modo lento sobre as frontes
uma bênção de catástrofe

queda-se calado o signo

de que servirá tanto magma extinto
tanta rasura lambida a medo
tanta faca bicando o ventre caligráfico
dos outros

ou o riso sincero preenchendo a noite
ou o estar diante e estar
portanto