domingo, 10 de maio de 2015

viver costurando o serviço cúmplice dos rostos
estender a mão à cidade roubar-lhe o olho
perfurar as objectivas serenas a lenta decomposição
dos membros agarrando o espírito de viés
cismar
a coisa ser o mundo o mundo a
língua com que se olha e se mexe na coisa
ter tempo para parar o tempo
ser fútil nas reduções ao lume nas palavras
dizer aquele lugar-comum ali acima
não sofrer por isso nem sequer morrer um pouco
apenas saber que um pedaço disto sou eu mas
ficar na rua em que sempre se foi
originar o plano engoli-lo pendurá-lo
recortar sons e cheiros deixar queimar
fixar nomes placas jardins e numa mesa
assentar o chão premir a luz

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dizer-te a cor
deixar-te o fruto
sob a tarde amarelecida

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há-de se dizer disto tudo
cumpriu-se

mas não se há-de dizer
venha o morto
ler-se a cara

nem se há-de dizer
não seja parvo que isto não se acaba

nem mesmo se há-de dizer
faltam vinte para as três
quer ir beber café e morrer depois

nem nunca se dirá
como é ser pobre e ter a boca suja
a que sabe o cuspir sangue às três da madrugada
como é ter uma perna maior que a outra
como se fazem os ninhos em dias de chuva
como se tiram nódoas de vinho das toalhas de mesa
como é ter língua e não se servir dela

há-de se dizer disto tudo
oito euros para nada




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