não há solução para isto
é ficar o corpo tributável no chão
daqui não nascerá nada
nem o rigor do trabalho
nem o burilar poético
nem sangue sequer que preencha os olhos
daqui de nós nem a erva mastigada
não servirá isto para o eterno reavivar dos dentes
este estrume estas maleitas este túmulo
é ficar o corpo arável no chão
não ter pressa dizer tudo
calar sinceramente ainda mais tudo
cumprir a pena sem ódio apenas um
e puro
vê-lo escorrer do céu correr fronteiro a nós
da boca aberta nem a chuva nada disso
valerá tão pouco aquilo de ser prece
de ser um outro dia depois
porque o dia é ser sempre isto
talvez o pouco que nos resta nos engane
é ser sempre e isso latejar-nos sem freio
o pressentir que a letra se fecha
que a mensagem dói mais irrevelada
que o que fica é o espaço do que se perderá
é sabermos que o que foi dito foi já demasiado
isto não finda isto apenas parte
isto não é mais que todas as mães abraçando todos os filhos mortos
não é mais que chegarmos ao fim das estradas para recomeçarmos de novo
é apenas o que já foi feito e alguém pressentiu isto já num tempo remoto
isto que eu trago é o lixo de ter a língua dentro
um órgão apetrechado de sons
um friso a mais para nos perseguir os passos
um tossicar doente a juntar aos outros todos
para quê para isto
para inventar a culpa
para que me lambam os dedos nos óleos sagrados e eu vá depressa
para que me forcem ao suicídio
para que o resultado final não transpareça
e o busquemos contínuo nas vértebras dos outros
para que ele saia das imagens voe nas pulsões
se revele em frémito
e que nada disso aconteça
não há solução para isto
chegamos a casa de alguém que morreu breve e dizemos
daqui não se aproveita nada
mas vamos-lhe às gavetas procurar o pouco decoro
cicatrizes da pobreza unhas de fome cortadas sobre a mesa
o que é isto
o que é operar a decadência
e voltamos a um resto nosso
aquele de ter palavras e de se esgotar nelas
o outro verdadeiro resto não se evade
é na noite o insecto sonante
é à luz mais crua a rua cheia e um crime gigante
ou é chegar a casa cedo e chorar até que sequemos os dedos finais
de tecer mentira
acaba-se um lume que não queima
e é isto acontecer
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