segunda-feira, 4 de maio de 2015

e agora que temos
o poço dos negros
a casa avarandada
um sorriso e as vizinhas são
uma simpatia mas não
nos deixam sequer largar-lhe o cão
à porta e bem pensando
agora que temos dias
luminosos tabaco e jornal
dois pedais e miúdos
um sem cessar de amigos
e a casa se paga aos poucos
devagar mas alegremente há
um escritório às tardes mansas
o café o ouro das janelas a razão
do nosso lado até a vista nos espreita
e dormimos com ela de noite
abraçados ao quente que é
mais miúdos mais fins-de-semana
mais andar a pé e às cavalitas
mais ser senhor do destino e dono da cidade
minto do país que é haver só isto
igrejas velhinhas lixo e eléctricos
ah agora a sinfonia de voltar atrás
andando em frente quem me dera
nunca mais um quem me dera
vive-se vive-se e pronto
há rio e carros e passeios e jardins pobres
e pouco asseio também interessa
não ser tudo bonito e rarefeito
às vezes um cheiro e vem um sem-abrigo
e passa num castigo olá amigo
não há cá abraços esses são para os do vinho
ah não peço mais
as leituras e as guitarras em julho
as janelas ao comprido abertas
esperando que passe alguém e um aplauso mole
tu vais longe tu vais longe
mas a noite é esta e não nos levantamos
enquanto há um riso de vida cheia

e nisto escrevo poemas
neste ninho hodierno
saco versos da batuta
coço a nuca e sou grande
sou um país sou um país
gigante

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