domingo, 30 de junho de 2013

spleen de agosto

o martelar dos dias contemporâneos
trouxe uma borracha sobre a chuva.
não houve quem resgatasse
lábios finos ternos a crescer madrugadas
mais frias mais frescas para lembrar
que o azul das tardes nas fachadas
é da cor do olhar de quem
no aperto de um horizonte
crê estar já morto como só.
o vento traz agora
esse aroma doce de podridão
e as mãos deslocam-se para dentro
descansam na base do coração.

hoje o clima altera
a dança das tílias e dos seus sonhos aéreos
de avós.
resta-me o olhar sem espelhos de casas
a trazer de volta
o eco que cai descolado da tinta fosca.
quem te cravou o anzol em tão doces olhos
e te trouxe à tona
o respirar?

e ouvir o cuspo a caminhar solto com o vento
na direcção do poente mais sujo de nós.
fora aqui neste momento
como noutro qualquer
que me apercebera o quanto caminhara apoiado
apenas e tão só na perna esquerda
já o meu andar tinha espinhos
a sola do sapato a rasura imperfeita
de uma união.

como se a noite tivesse cantos
mais tristes uns que os outros
para eu pernoitar neles da minha janela
apenas olhando de quem boceja
o tímido espanto.
ali quem nos olha?
um vulto sem corpo
um fulgor de sede em noites quentes.

queria alcançar o que toquei apenas com a mente.
se o digo desfaço-o minto-o realizo-o.
queria alcançar o que toquei apenas com a morte.
e digo-o indolente:
"tocas-me e a manhã passa sem grito".

quarta-feira, 26 de junho de 2013

ubíquo

não te escondas
e vem beijar a mão ao pai
que bateu na mãe
que gritou com a avó
que fugiu do avó
que cuspiu no genro
que fez três filhas a uma lavadeira
que as pariu e morreu à terceira
que trouxe flores no regaço
que se desfez e se rompeu no laço
que ficou triste pendurado nas silvas
que esperam no silêncio o roubo das amoras
que sujam os lábios e nos deixam a perder horas
que nos contemplam quando as contemplamos
de volta
chega-te aqui e não te escondas
vem beijar a mão e os anéis
cumprir a lenga-lenga de cabra-cega acostumada
a ter na gaveta por detrás dos lençóis
o brilho branco e fosco de espada.

terça-feira, 25 de junho de 2013

na origem de um penedo
esteve a madrugada
a germinar montanhas
para depois se cansar
e fazer de nós planície
corrida pelo vento
erodida pelo fel de agosto
que é o desabar sobre nós
assim plácido e espectante
do azul sombrio
perene traço de firmamento.
apenas vem o cheiro
e sabe-se que a casa nos reconhece.
cumprimenta-nos.
a tarefa árdua de nos deixarmos ir
pelas estradas esquartejadas
apenas para chegar e lembrar
que quando partimos
soubemos sempre que sós
chegávamos.


eu só digo aquilo
que não toco
aquilo que não sei
ainda é lápis resistente
a crescer ombro torre dentro
deste mar de enterro
e vejo-o ao longe
embrenhado no lúgubre
regurgitar de terra
esse som murmurado
de pedra e de charco
ou a ínfima porção do inanimado
o crescente da manhã
já morto abafado
o sorriso que cai e germina
veneno ou o simples
batimento de asas
a ser par de desejo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

o amor aos pincéis

e depois
se o sopro te apagar a norma
de um peso mudo
horizontal na sua razão
de te pesar mais forte
um querer de desafinação?

podia ser que amasses mais
dessa massa de terra e raízes
a jorrar o olho incerto do mundo
e depois te amasses mais a ti
mesmo sabendo que no fundo
reside o pavilhão já diluído
já evitado
a tua própria cathedral engloutie.

e se digo tu
é porque o espelho tem face
e ela somente responde
com outra carne
os mesmos olhos e jeito de boca
para disseminar o ódio sobre os lenços
postos à lapela
marca
que sai à rua e traz laranjas secas
para dizer que é hoje
que acaba a tal novela
mas a cruz de um pé mais alto que o outro
é ainda assim o que lhe queima a língua
de dentro
bifurcada.

aí não se chega
talvez não convenha
o sopro
quente vento de espanha
ou então oblívio portátil de mercearia

chego-lhe a mão que não prende
e é isso
o meu auto-retrato sem orelha
e é isto
senhores
o jeito seco de sentar nos passeios
e de motivar ao crescimento mais olheiras
por intermédio
do mascar de olhos compassados
a tricotarem formas
com nome de horas.

domingo, 23 de junho de 2013

dizei olá ao apertar de vento contra a mão

A queda tem disto.

Forças ominosas que trazem à boca
leves eflúvios de refluxo gástrico.

Mais do que isso
a sede de vómito
é a cicuta
ou a procura de um beijo permanente
colado aos lábios por força da associação de ideias
que só se unem sindicalmente por alturas
de acalmia sazonal dos ventos.

Mas não entremos nisso
porque em demasia estão escritos
os desígnios da vontade alheia como todo
socialmente díspar da titubeante
cona de uma freira em noite de s. joão
sobre a fogueira a quem há muito saltou
a tampa da paciência
não dirigindo mais palavras à agiotagem
com máscara de Pálas Atena
retirada do quadro de Poe a quem faltou
o corvo celeste. Esse já voou.

Nunca tive essa mão cheia de pundonor.
Nunca tive regatos de varandas com flores
nem disse Lisboa com os pés voltados para trás
retirado eu assim em joelhos para me benzer
ao clima meridional que tanto me atraiçoa
com carícias de suão e suores de sevícias.
Nunca tive essa razão em mim
por isso nunca a perdi.
As amizades que faço estão ao nível
das águas que só transbordam quando o esgoto afunda
plácido mais merda neste rio.
O rigor da emoção não lhe acho os traços
e se pudesse pintava a vida e mijava-lhe em cima
para lhe dar o aroma realista dos becos
covas de amor à terra que tanto me prendem
em enleios sós comigo
assim fortes
os pensamentos.

Se hoje chegar cedo a casa
(não chegarei certamente)
ainda terei tempo de escrever a minha elegia
mais sábia e completa do que as das figuras dos santinhos
com verso em reza profana
que alguém sem dentes negligenciou
no meu banco de autocarro.
Eu negligencio-me continuamente
mas nunca conseguirei virar a cara às lágrimas carentes
de nossa senhora das mãos atadas e da boca
amordaçada por tão brancos dentes.
E depois se escrever o meu altar de glória
ainda terei tempo para afogar o ganso
ou fazer chorar o palhaço
satisfatoriamente
não sumariamente
mas enfim eficazmente
para tornar mais óbvio o expulsar
contra a mão da baba-ranho deste tema
de merda que é falar na primeira pessoa
como se isso importasse tanto
como os paralelos dos passeios
que me sugam as lágrimas
e dos quais só contemplo o branco sujo
do silêncio dos mapas.
Os caminhos são rotas mais soltas
que os cabelos virginais de uma francesa oitocentista
mas isso não explica porque nos perdemos
quando o queremos fazer.

Se o senseless se tornar
marca de bronze no verão
e eu cantar odes elevadas
ao branco teto do sem sentido
talvez não me coíba assim tanto
de chorar em frente às gaivotas.
Todos devemos ter
de quando em vez
um pingo mais menstruado de contemplação
sobre as nossas testas.

terça-feira, 18 de junho de 2013

domingo, 16 de junho de 2013

ou como compreendi os pássaros Messiaen sem me tornar asa eu mesmo

escrevo à porta fechada
-minto-
a rua febril de silêncio já
-minto-
são quatro da manhã e nem sombra
-minto-
de dúvida sobre o quão sequioso
de vinho me tenho em dedos
de prosa não pensada no
declarado conforto de uma
pele doente o toque
que vem de noite dilata-se
indecente e sobe pelas entranhas
de um sol que já raia azul
no horizonte a cada esquina um amante
e um jogo de pernas em confronto
como se beijos fossem poucos
para conotar o quanto somos
sós a veia a pulsar latejante
uma dor profunda contra a almofada
suja de tinta com forma de dedos
não há quem os limpe desta comoção
de sangrarem a cada verso
a rima a ser solta voz de um lamento
que retine desafinado o intercalar
dos objectos visíveis vem este
cromatismo diluir as paredes da casa
que escorrem os retratos desossados
de vislumbres estéreis tão pouco
cheios dentro de si
da mesma sorte imediata de
recorte nulo contra a porta
eu sou a fachada e um sisudo
sentimento de espera
como saliva deslizante na boca
do copo que silva o cristal mais
denso ser puro é isto
com o que eu não me entendo
e acho que tombar de cabeça
rente ao chão tem directo passaporte
para o inferno de dentes mais
brancos não tão translúcidos
de carne avivada pela sarna
que busca os âmagos nocturnos
à existência cai morre no chão
como folha a palavra feita
gente adulta a sair à noite
e a dar-se ao fortuito acaso
de ser barrada pela mão de
um castrado e simulada
a querela entre ela e o sangue
vem quem ache mais manhãs
de sorte antes do mar
o rio nasce como se fosse
sempre velho e eu
esqueci-me de ter nome
e no entanto não sei
isso que sei
mas adormeço com as orelhas quentes
de surdez corre apenas o freio aberto
de um vago diluir de sangue
como nuvem.

Minto.


sábado, 15 de junho de 2013

vox

dei-lhe o nome
de voz
a essa mudez profunda
da pedra suja.

não mais cantarei
as passagens límpidas de Bach.

hoje nova arquitectura de sons
novo pulsar de fumo.

reverberação dos cristais
a incidir nos espaços foscos
desta floresta-carne
que tanto chora espinhos
a crepitar à constância das horas certas.

arranquei da razão a corda
sensível como flor dormente

escondido no ventre deste muro
o meu querer calcário brota o rochedo

corpos celestes em movimento
e a sua sinfonia acrítica 
a espaçar os compassos mais solenes
deste olhar de árvore 

sem nervo-sangue
tudo o que respiro

cai e é estanque.

A desnecessária compleição da fuga

Fugimos
com os dedos entrelaçados
e assim finda mais uma história
que só soube ter início
num quadrado de estática
a relampejar
decadências
dos amores que não se têm.

Efectivamente
não se têm
e não sei até quando persistirei na ideia
de que mais vale um iluminado
jogo de cabra-cega com
as mãos atadas
e o baixo-ventre aquecido
esfregado
explorado
esvaído
antes isso tudo criado
na mente de um demónio ateu
antes isso tudo
do que tudo isso invertido e feito
vida a três vozes
a estabelecer o tema
a resposta a dominar
e o contra-tema que justifica
o haver palavras
para as dizer
e só isso mais nada
serve o bastante
para qualquer dia agarrar em mim
em nós dois
em nós três encostados uns aos outros
apertados dentro do punho de deus
para subitamente
ficarmos sem ar que é coisa
terrena
e sem corpo que é coisa
etérea.
pode ser que assim acabe por se consubstanciar
o espírito na carne e a carne no espírito
e por fim soe a nota pedal
tão solta na sua latência
rígida mas tão independente
como um acto de beijo roubado
ao próprio
que se sabe presente.
Soa a coda final e é o adeus ao tempo
em que juntos cruzámos
mais mar que outro sentido
para achar na terra própria
do nosso umbigo
aquela aspiração a ser doente
aquele frio de espinha a ser cal de muro
contra o tempo de verão com sol
tão inocente.
pode ser que chegue a hora em que atire
os recortes de precipício entre as fotografias
para a garganta
e os engula com satisfação de leigo.
há tanta coisa que ainda não sei
e que só me arrependo.
como não matar com a febre mais funda
com o doce impossível sibilar das manhãs
esta tão vil perfumada serpente?

terça-feira, 11 de junho de 2013

quando pousares frouxo o dia
já seco na tua mão
aspergido o suco
por meio dos cabelos
tão sordidamente delineados
a meio do chão

e a massa toda de um vazio
te circundar os olhos
como fundo
se cava o rosto
entre os joelhos
tão já sem nós
de dedos velhos

e quando no total
de um relógio de bolso cego
se desenhar o fio
mais tardio do firmamento
saberás Job
que nulo cala o que em nós
trai o vento.

não terei tanta terra assim
a preencher o palmo
oblongo desta esfera
de fim.

sábado, 8 de junho de 2013

8-VI

ridículo
inverter a rotação dos pés
multiplicá-la pelo crescente das mãos
acabando por adormecer
enforcado ao fundo da cama.

tanta posse
de luz matinal
para descerrar abertos dentes
à maré tão vaga das terças-feiras.
um anonimato cantante
vem embelezar
os pitorescos cantos trincados
a tempo de espelho.

mas
adormecido
saio mais cedo do que o habitual
ou puxo dos óculos de ver bem no escuro
para atravessar as dores de pés
com mais hábito
de sopro jovem.
penso no quanto terei que andar
e desisto

que se foda o pensamento.
venha a conversa entretida à esquina
atirar os bons-dias
já sem esmalte.
resta o róseo dos mármores
a eclodir nas nuvens as gengivas
e uma mão aberta de chuva tardia
a pedir ainda esmola.
não se trabalha
e já é meio-dia.

falsa partida

nada disto te acompanha tão bem
como o cinzento plúmbeo
das sete da manhã.

evita os precipícios aguados
poças de entrada
para o sentido

e guarda uma foto
num bolso interior do casaco
em recorte de suicídio.

terça-feira, 4 de junho de 2013

5-VI

não te peço manhãs novas
pousadas sobre o meu rosto.
não sei ser outra vez
muro de cal em pedra
já tão gasta a sombra
de um silêncio mais
fresco.

talvez um dia te acolha
entre as mãos um desejo
de nova aurora.
não porém agora
que o dia se despe
e solene se contempla.
efeverscência alada
a borbulhar nas minhas mãos
acordo às sete
com um par de melros ao ombro

domingo, 2 de junho de 2013

perda de uma estação

olham-me as estradas
já sem pressentimento de pés
nus a desenhar
pedras na saliência
irregular da perda
de uma estação.

foste-te
com o sol
como as pessoas que recolhem
assim chega a hora
mais horizontal do porvir.
levaste os teus olhos num bolso
interior
para eu não lhes notar o peso
diário
frente às lojas tão espaçadas
até já vazias.

o meu sentido dormente
de raiz
já não fura até aos lagos mais fundos.
fica-te pelo ruçado dos tapetes de casa
tão macios que óbvios não se lhes pede
mais silêncio
que um leve jeito de estar
rendidos à tua espera.

eu prosseguirei
histórias deixadas a meio
e desta vez terei fósforos que bastem
suspensos na carteira.

sábado, 1 de junho de 2013

a morte é a alma do poeta

Nem sempre saiu assim tão escorreito
este meu tempo de perseguidor barbeado
de solstícios.
vem ajudar a isto um novo aroma anunciado
a iogurte na mercearia
ou a gaivotas no rio
tão eternamente fixo com essa pele nova
de cada dia.
parece portanto que o mundo se recria
para oferecer a nesga de uma coxa
a visão furtiva de um pintelho
e eu sorrio complacente
com tudo achando que é só para mim
este strip em solo
sem atiçar qualquer plebeu fogacho
maior que a calma de maio.

cavaram-me no cérebro
o meu tempo de auroras
que agora se derretem
instaladas nas narinas
para eu pensar que bolas!
como é boa a puta da vida
quando se está nas drogas!

pumba! murro nesse rosto
tão sem óculos e ainda
assim tão
maldisposto.
mereceste velhaco
por te insinuares
cão arfante ao cio
da lira.
ninguém crê em gente como tu
sentado nos cafés às horas mortas
para ter mais visão de vazio
nas cadeiras
e apreciar as pernas
já tão tortas da dona
que traz a bica e o copo cheio
do cloro dos teus olhos
tão aquosos de si por natureza
que nem precisam de folha e caneta
e de vento a repicar as horas certas
para manifestarem tão inteira pena de mundo
tão flamejante prurido das coisas.
as virilhas assadas
deveriam também servir-te de lição.
não se fabricam poetas sem antes
lhes cortar da língua as amarras
memórias testiculares tão carregadas
da vontade de emprenhar a fama nos becos mais sujos
e consagrar-se no prelo já
alma nacional por todos laudada.

um dia ruiu a casa
à rua dos poiais
ficou só a fachada.