sábado, 1 de junho de 2013

a morte é a alma do poeta

Nem sempre saiu assim tão escorreito
este meu tempo de perseguidor barbeado
de solstícios.
vem ajudar a isto um novo aroma anunciado
a iogurte na mercearia
ou a gaivotas no rio
tão eternamente fixo com essa pele nova
de cada dia.
parece portanto que o mundo se recria
para oferecer a nesga de uma coxa
a visão furtiva de um pintelho
e eu sorrio complacente
com tudo achando que é só para mim
este strip em solo
sem atiçar qualquer plebeu fogacho
maior que a calma de maio.

cavaram-me no cérebro
o meu tempo de auroras
que agora se derretem
instaladas nas narinas
para eu pensar que bolas!
como é boa a puta da vida
quando se está nas drogas!

pumba! murro nesse rosto
tão sem óculos e ainda
assim tão
maldisposto.
mereceste velhaco
por te insinuares
cão arfante ao cio
da lira.
ninguém crê em gente como tu
sentado nos cafés às horas mortas
para ter mais visão de vazio
nas cadeiras
e apreciar as pernas
já tão tortas da dona
que traz a bica e o copo cheio
do cloro dos teus olhos
tão aquosos de si por natureza
que nem precisam de folha e caneta
e de vento a repicar as horas certas
para manifestarem tão inteira pena de mundo
tão flamejante prurido das coisas.
as virilhas assadas
deveriam também servir-te de lição.
não se fabricam poetas sem antes
lhes cortar da língua as amarras
memórias testiculares tão carregadas
da vontade de emprenhar a fama nos becos mais sujos
e consagrar-se no prelo já
alma nacional por todos laudada.

um dia ruiu a casa
à rua dos poiais
ficou só a fachada.

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