escrevo à porta fechada
-minto-
a rua febril de silêncio já
-minto-
são quatro da manhã e nem sombra
-minto-
de dúvida sobre o quão sequioso
de vinho me tenho em dedos
de prosa não pensada no
declarado conforto de uma
pele doente o toque
que vem de noite dilata-se
indecente e sobe pelas entranhas
de um sol que já raia azul
no horizonte a cada esquina um amante
e um jogo de pernas em confronto
como se beijos fossem poucos
para conotar o quanto somos
sós a veia a pulsar latejante
uma dor profunda contra a almofada
suja de tinta com forma de dedos
não há quem os limpe desta comoção
de sangrarem a cada verso
a rima a ser solta voz de um lamento
que retine desafinado o intercalar
dos objectos visíveis vem este
cromatismo diluir as paredes da casa
que escorrem os retratos desossados
de vislumbres estéreis tão pouco
cheios dentro de si
da mesma sorte imediata de
recorte nulo contra a porta
eu sou a fachada e um sisudo
sentimento de espera
como saliva deslizante na boca
do copo que silva o cristal mais
denso ser puro é isto
com o que eu não me entendo
e acho que tombar de cabeça
rente ao chão tem directo passaporte
para o inferno de dentes mais
brancos não tão translúcidos
de carne avivada pela sarna
que busca os âmagos nocturnos
à existência cai morre no chão
como folha a palavra feita
gente adulta a sair à noite
e a dar-se ao fortuito acaso
de ser barrada pela mão de
um castrado e simulada
a querela entre ela e o sangue
vem quem ache mais manhãs
de sorte antes do mar
o rio nasce como se fosse
sempre velho e eu
esqueci-me de ter nome
e no entanto não sei
isso que sei
mas adormeço com as orelhas quentes
de surdez corre apenas o freio aberto
de um vago diluir de sangue
como nuvem.
Minto.
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